Capítulo 2

Naquela noite, a polícia encontrou-me na praia.

Eles disseram que o meu marido, Pedro, me tinha denunciado por tentar afogar a nossa filha, Sofia.

Olhei para a minha filha de cinco anos, que se agarrava à perna do polícia.

Ela olhou para mim com os seus grandes olhos, cheios de medo e estranheza.

"Mamã, porque é que me empurraste para a água?"

A sua voz infantil soou, e o meu coração sentiu-se oco.

"Eu não te empurrei, Sofia."

A minha voz estava rouca, arranhada pela água salgada e pelo desespero.

Pedro apressou-se, envolvendo Sofia num grande abraço protetor.

Ele olhou para mim com uma fúria fria.

"Inês, eu vi. Eu vi com os meus próprios olhos. Tu empurraste-a."

"Eu não o fiz," repeti, sentindo-me exausta. "Eu estava a tentar salvá-la."

"Salvá-la? De quê? De ti?"

A sua voz estava cheia de desprezo.

A irmã dele, Clara, estava ao lado dele, com os braços cruzados.

"Pedro, eu avisei-te. Ela nunca foi estável. Desde que perdeu o bebé, ela não tem sido a mesma."

Sim, o nosso filho. O nosso filho que morreu antes de nascer.

Isso aconteceu há um ano.

A dor ainda estava lá, um buraco silencioso no meu peito.

Pedro usava isso contra mim sempre que podia.

"Levem-na," disse ele aos polícias, sem sequer olhar para mim. "Ela é um perigo para a minha filha."

A minha filha. Não a nossa filha.

Os polícias hesitaram.

"Senhor, a sua esposa parece estar em choque. Talvez devêssemos levá-la ao hospital."

"Não," disse Pedro, com a voz firme. "Eu quero apresentar queixa. Quero que ela fique longe de nós."

Fui levada para a esquadra.

As luzes fluorescentes zumbiam por cima. O cheiro a café velho e a papel enchia o ar.

Eles fizeram-me perguntas. Eu respondi.

Contei-lhes sobre a onda traiçoeira que apanhou Sofia.

Contei-lhes como saltei atrás dela, como lutei contra a corrente para a manter a flutuar.

Como gritei por ajuda até a minha garganta ficar em carne viva.

Eles ouviram, anotaram, mas os seus olhos estavam cheios de dúvida.

Afinal, era a palavra de uma mãe "instável" contra a de um pai "herói".

Pedro tinha chegado mesmo a tempo de me tirar da água com Sofia.

Para todos os outros na praia, ele era o salvador.

Eu era a vilã.

Mais tarde naquela noite, o meu advogado, Tiago, chegou.

Ele era um velho amigo de família.

"Inês, o que aconteceu?"

Contei-lhe tudo de novo.

Ele ouviu pacientemente, o seu rosto sério.

"O Pedro está a pressionar muito," disse ele. "Ele tem uma testemunha."

"A irmã dele," disse eu, sem surpresa.

"Sim. E a Sofia... a Sofia está a dizer aos assistentes sociais que tu a empurraste."

Senti o chão a desaparecer debaixo dos meus pés.

"Não... ela não pode..."

"Ela é uma criança, Inês. Ela está assustada e confusa. O Pedro e a Clara estiveram a falar com ela durante horas."

Fechei os olhos.

A imagem de Pedro a sussurrar ao ouvido de Sofia, a sua mão a afagar-lhe o cabelo.

Ele estava a envenenar a nossa filha contra mim.

"O que vai acontecer agora?" perguntei.

"Eles querem uma avaliação psiquiátrica. E o Pedro pediu uma ordem de restrição de emergência."

O ar saiu dos meus pulmões.

"Ele não pode fazer isso."

"Ele pode, e fê-lo," disse Tiago suavemente. "Inês, vamos ter de lutar contra isto. Mas não vai ser fácil."

Eu sabia que não seria.

Esta não era a primeira vez que Pedro tentava pintar-me como louca.

Era apenas a primeira vez que ele tinha tido sucesso.

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Capítulo 3

Dois dias depois, fui libertada sob fiança, com uma condição estrita.

Não me podia aproximar de Pedro ou de Sofia a menos de 500 metros.

Fui para o apartamento vazio que antes chamava de casa.

As roupas de Pedro tinham desaparecido. Os brinquedos de Sofia tinham desaparecido.

Era como se nunca tivessem existido.

Apenas as minhas coisas permaneciam, um testemunho silencioso de uma vida desfeita.

Sentei-me no chão da sala de estar, o silêncio a pressionar-me.

O meu telemóvel tocou. Era a minha mãe.

"Inês? Querida, o que se passa? O Pedro ligou-me, disse coisas terríveis..."

Comecei a chorar.

Não eram lágrimas altas e dramáticas, mas soluços silenciosos e dolorosos que me sacudiam o corpo.

Contei-lhe tudo, a minha voz a falhar.

Ela ouviu em silêncio.

"Eu vou já para aí," disse ela. "Não fiques sozinha."

Uma hora depois, ela estava à minha porta, com uma mala na mão e uma expressão determinada no rosto.

Ela não me abraçou. Em vez disso, olhou em volta para o apartamento vazio.

"Ele levou tudo," disse ela, a sua voz dura.

"Quase tudo."

"Aquele bastardo. Sempre soube que ele não prestava."

A minha mãe nunca gostou de Pedro.

Ela dizia que ele tinha olhos frios.

Eu achava que era romântico. Misterioso.

Agora, eu via o que ela via. Um vazio.

"O que vais fazer?" perguntou ela, sentando-se no sofá em frente a mim.

"Eu não sei. O Tiago diz que temos de lutar."

"Claro que temos de lutar. Ele não pode tirar-te a tua filha."

"Mãe, a Sofia disse-lhes que eu a empurrei."

A minha mãe franziu o sobrolho.

"Ele manipulou-a. Ele e aquela irmã víbora dele."

Ela levantou-se e começou a andar de um lado para o outro.

"Precisamos de provas, Inês. Provas de que ele está a mentir. Provas do tipo de pessoa que ele realmente é."

Era mais fácil dizer do que fazer.

Pedro era um mestre da manipulação.

Para o mundo exterior, ele era o marido perfeito, o pai dedicado.

Sócio de uma empresa de tecnologia de sucesso, voluntário na comunidade, encantador e carismático.

Ninguém acreditaria em mim.

"Como?" perguntei, a minha voz um sussurro.

A minha mãe parou e olhou para mim, os seus olhos a arder com uma intensidade que eu não via há anos.

"Deixa isso comigo," disse ela. "Tu concentra-te em manter-te forte. Eu vou tratar do Pedro."

Naquela noite, não consegui dormir.

Continuei a ver o rosto de Sofia, assustado e acusador.

Continuei a ouvir a sua pequena voz.

"Mamã, porque é que me empurraste para a água?"

Cada palavra era uma facada no meu coração já ferido.

Pedro não me estava apenas a tirar a minha filha.

Ele estava a destruir o amor dela por mim.

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