Ponto de Vista: Alice Medeiros
O quarto do hospital parecia sufocante. Cada respiração era uma nova pontada de dor, um lembrete do que eu havia perdido. Mas a dor física não era nada comparada ao vazio no meu peito, aos chutes fantasmas de uma vida que nunca seria. Depois que o médico saiu, Helena sentou-se ao lado da minha cama, sua presença uma âncora firme na minha tempestade.
"Você precisa descansar, minha querida", disse ela, sua voz suave, mas firme. "Temos recursos ilimitados. O melhor atendimento médico. Tudo o que você precisar."
"Descansar?", zombei, o som cru e sem humor. "Como posso descansar quando meu bebê se foi? Quando sei quem fez isso?" Meus dedos traçaram a cicatriz fraca no meu baixo-ventre, um monumento cruel.
"E eles vão pagar, Alice. Eu te prometo." O maxilar de Helena estava cerrado, seus olhos esmeralda brilhando com uma fúria fria que eu reconheci como minha. "Mas correr para a batalha antes de estar totalmente recuperada não ajuda ninguém. Especialmente você."
Ela estava certa. A imagem do sorriso triunfante de Karla, as palavras desdenhosas de Davi, ainda queimavam em minha mente. O ódio era uma coisa viva, uma serpente enrolada em meu estômago. Mas eu precisava ser forte. Mais forte do que eu já tinha sido.
"Eu preciso vê-lo", eu disse, minha voz seca. "O Davi."
Helena hesitou. "Tem certeza? Pode ser... doloroso."
"Doloroso?", soltei uma risada seca e amarga. "Ele me tirou tudo. Meu amor, meu futuro, meu filho. Que mais dor ele pode infligir?"
Ela assentiu lentamente. "Muito bem. Eu vou providenciar. Mas lembre-se de quem você é agora, Alice. Você não é a garota que ele conhecia. Você é uma Medeiros. Aja de acordo."
Na manhã seguinte, Davi entrou no meu quarto de hospital, um buquê de lírios brancos genéricos na mão. Ele parecia desgrenhado, seu terno caro amassado, seu cabelo despenteado. Uma performance. Eu sabia. O conhecia.
"Alice! Graças a Deus você está bem!" Ele correu para a minha cama, tentando pegar minha mão. Eu recuei, puxando meu braço como se seu toque queimasse.
"Eu não estou bem, Davi." Minha voz estava calma, quase distante. "Nem perto disso."
Sua testa se franziu, um olhar praticado de preocupação em seu rosto. "Amor, sinto muito pelo acidente. Fiquei tão preocupado. A Karla me disse que você estava apenas... confusa. Que você disse algumas coisas malucas."
"Confusa?", repeti uniformemente. "Ou histérica? Foi isso que você disse para ela dizer?"
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. "Olha, eu sei que as coisas parecem ruins agora. Mas podemos consertar isso. Você é minha Alice. Minha rocha. E eu sei que você tem estado sob muito estresse com o trabalho. A startup..."
"A startup que construímos juntos, Davi? Aquela em que eu derramei minha vida, minhas habilidades, meu coração e alma, enquanto você secretamente planejava seu noivado com a Karla?" Cada palavra era um caco de gelo.
Ele se contorceu, evitando meu olhar. "Não foi assim. A Karla... ela precisava de mim. Ela passou por muita coisa. E para a empresa, as conexões dela, a influência dela... é inestimável. Uma aliança estratégica, você entende?"
"Uma aliança estratégica", ecoei, um gosto amargo na boca. "E eu era... o quê? Sua mão de obra não remunerada? Seu saco de pancadas emocional conveniente?"
"Não! Claro que não!" Ele soou genuinamente indignado, mas soou falso. "Você sempre foi importante para mim, Alice. Minha melhor amiga. Minha parceira."
"Sua parceira? Meu parceiro não fica noivo de outra pessoa enquanto estou carregando o filho dele." As palavras pairaram no ar, pesadas e condenatórias.
Ele congelou. Seu rosto ficou pálido. "O que... do que você está falando? Que filho?"
"Não se faça de bobo, Davi. Você me ouviu no telefone. Você me dispensou. Você me chamou de histérica enquanto eu sangrava, enquanto eu perdia nosso bebê." Minha voz subiu, um tremor percorrendo-a apesar dos meus esforços para controlá-la.
"Alice, eu juro, eu não sabia que você estava grávida! A Karla... ela disse que você estava apenas chateada. Que você estava tentando me manipular." O pânico cru em seus olhos era real, mas não era por mim. Era por ele mesmo, por suas mentiras cuidadosamente construídas se desfazendo.
"Manipulação? É assim que você chama? Querer compartilhar minha vida com o homem que eu amava? Acreditar no futuro que planejamos juntos?" Minha voz era um rosnado baixo agora. "Você quer saber o que é manipulação, Davi? É enganar alguém por oito anos, usando seu talento e lealdade para construir seu império, tudo enquanto você tinha um 'amor verdadeiro' esperando nos bastidores. Isso é manipulação."
Ele tentou protestar. "Mas eu ia te contar! Depois do lançamento da empresa! Depois do investimento inicial da Karla. Poderíamos ter resolvido. Ainda podemos, Alice. Podemos encontrar um jeito." Ele alcançou minha mão novamente, seu toque repulsivo.
Eu me afastei bruscamente. "Não existe 'nós', Davi. Não mais. Nunca mais."
Ele parecia genuinamente chocado, como se realmente acreditasse que eu o aceitaria de volta. "Mas... estamos juntos há tanto tempo. Você é sempre tão compreensiva. Tão... sensata."
"Sensata", repeti, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "É assim que você chama? Ser um capacho? Ser uma tola que acreditou em suas promessas vazias?" Minha determinação se solidificou em um bloco de gelo. Eu não seria mais sensata. Eu não seria compreensiva. Eu não seria um capacho.
"Acabou, Davi." Minha voz estava fria, seca. "Acabou com você. Acabou com suas mentiras. Acabou com sua empresa."
Ele me encarou, a boca ligeiramente aberta. "Mas... e o seu emprego? Seus projetos?"
"Eu me demito." Tomei a decisão naquele momento, as palavras parecendo uma libertação. "Com efeito imediato. Envie minha carta de demissão por fax para o RH."
Ele parecia verdadeiramente perplexo. "Alice, não seja precipitada. Você está chateada. Podemos conversar sobre isso quando você estiver mais calma. Eu volto hoje à noite, pedimos sua comida favorita e resolvemos tudo isso, ok? Como nos velhos tempos." Ele realmente sorriu, uma tentativa patética de charme.
"Não haverá um hoje à noite, Davi", eu disse, meu olhar inabalável. "E não há mais 'velhos tempos'. Você os destruiu."
Nesse momento, o celular dele vibrou. Ele olhou e eu vi o nome de Karla piscar na tela. Um olhar de aborrecimento, depois preocupação, cruzou seu rosto. Ele hesitou, olhando do celular para mim.
"É a Karla", ele murmurou, como se estivesse explicando. "Ela está... ela está tendo um surto por alguma coisa. Preciso atender." Ele realmente se levantou, virando-se de costas para mim.
Eu o observei ir, um profundo sentimento de distanciamento me invadindo. Era isso. O corte final e definitivo. Ele a escolheu. Ele sempre a escolheu. Mesmo na minha hora mais sombria, ele a escolheu.
Peguei a pequena caixa ornamentada na minha mesa de cabeceira. Dentro, estava o medalhão que Helena me dera. Era um símbolo. Um símbolo de quem eu era e de quem eu estava prestes a me tornar.
Eu o segurei com força, sentindo o peso da minha nova identidade. O passado era um sonho despedaçado. O futuro não estava escrito, mas eu o escreveria com fogo e gelo.
Ponto de Vista: Alice Medeiros
Os papéis da alta do hospital eram um borrão de jargão jurídico. Assinei sem ler de verdade, meu olhar fixo em um ponto além das paredes estéreis. Helena havia providenciado minha liberação imediata, dispensando as enfermeiras preocupadas com um aceno real de mão. Sua eficiência era ao mesmo tempo intimidante e reconfortante.
"Para onde vamos?", perguntei, minha voz ainda fraca, mas ganhando força constantemente.
"Para casa", respondeu Helena, seu braço me guiando gentilmente. "Sua verdadeira casa."
O carro era uma limusine preta e elegante, seu interior luxuoso e silencioso. Enquanto dirigíamos, observei as luzes da cidade passarem, um caleidoscópio vertiginoso. Centro. A rota era estranhamente familiar. Nosso antigo apartamento, aquele que Davi e eu compartilhávamos, ficava escondido em um canto modesto deste distrito movimentado.
"Preciso ir ao escritório primeiro", interrompi o silêncio. "Para me demitir. Adequadamente."
Helena ergueu uma sobrancelha, um toque de aço em sua voz. "Não há necessidade. Minha equipe jurídica já cuidou da sua demissão oficial. Com efeito imediato. Eles também garantiram que todas as suas contribuições de propriedade intelectual para a 'startup' dele fossem devidamente registradas."
Uma pequena e sombria satisfação se instalou em meu peito. Então, ela já estava lutando por mim. Mas eu queria fazer isso sozinha. Eu precisava olhá-lo nos olhos uma última vez.
"Não", insisti, minha voz mais firme do que eu esperava. "Eu preciso fazer isso sozinha. Preciso enfrentá-lo."
Helena estudou meu rosto por um momento, depois assentiu. "Muito bem. Mas você não estará sozinha."
Chegamos à reluzente torre de vidro que abrigava a "InovaTech", a preciosa startup de Davi. O prédio, um monumento à sua ambição, agora parecia uma prisão. O saguão estava agitado, funcionários correndo, o ar denso com o cheiro de ambição e café velho. Passei pela recepção, de cabeça erguida, Helena uma sombra formidável atrás de mim.
Ao me aproximar do meu antigo departamento, os rostos familiares se viraram, seus sussurros morrendo. Alguns ofereceram olhares rápidos e simpáticos. Outros, aqueles que Karla havia encantado, desviaram os olhos. Ignorei todos eles. Meu destino era o escritório de Davi, a suíte de canto com paredes de vidro.
A porta estava entreaberta. Eu podia ouvir vozes de dentro. Risadas. As risadinhas agudas de Karla. Meu coração, que eu pensava estar dormente, pulsou com uma nova onda de gelo.
Abri a porta, entrando no escritório luxuoso. Davi estava encostado em sua mesa, um braço possessivo em volta da cintura de Karla. Ela estava sentada na beirada, um anel novo e deslumbrante em seu dedo. A mesa dele. Minha mesa, por tanto tempo.
As risadas deles morreram quando me viram. O rosto de Davi, um momento atrás cheio de satisfação presunçosa, se contorceu em uma máscara de surpresa, depois algo parecido com irritação. O sorriso de Karla vacilou, substituído por um desdém.
"Alice? O que você está fazendo aqui?", perguntou Davi, sua voz tensa. "Pensei que você estivesse... se recuperando."
"Estou." Minha voz estava firme, cada palavra cuidadosamente escolhida. "Estou recuperando minha dignidade. E estou aqui para me separar oficialmente de você e desta sua 'empresa'."
Eu segurava um envelope branco e nítido. Minha carta de demissão. Eu a havia impresso no hospital, as palavras cuidadosamente escolhidas para ferir, sem trair minha verdadeira intenção.
Karla deslizou da mesa, caminhando em minha direção com uma graça predatória. "Ah, Alice. Ainda se agarrando? Não recebeu o recado? Você é notícia velha. Davi seguiu em frente. Nós seguimos em frente." Ela gesticulou para o anel em seu dedo, depois entrelaçou sua mão com a de Davi. "Estamos construindo um futuro aqui. Um futuro de verdade."
Davi, vendo a confiança de Karla, pareceu recuperar um pouco da sua. "Olha, Alice, eu sei que é difícil. Mas você está sendo emotiva. Este não é o momento nem o lugar."
"Emotiva?", soltei uma risada seca e sem alegria. "Você chama perder meu filho de 'emotiva'? Você chama ser traída pelo homem que amei por oito anos de 'emotiva'? Não, Davi. Isso é fúria justa. Isso é a calmaria antes da tempestade."
Os olhos de Karla se estreitaram. "Perder seu filho? Ah, por favor. Não tente culpá-lo com suas histórias inventadas. Você nunca esteve grávida. Você é apenas uma mulher triste e desesperada."
"Ela sabe, Karla", a voz de Helena cortou a tensão, fria e afiada como o bisturi de um cirurgião. Ela deu um passo à frente, sua presença de repente preenchendo a sala, diminuindo Davi e Karla. "Ela sabe de tudo."
Davi olhou de Helena para mim, depois de volta, a confusão lutando com um medo crescente. "Quem... quem é essa mulher, Alice?"
Helena o ignorou, seu olhar fixo em Karla. "Karla Magalhães. Ou devo dizer, Karla Yates? A filha da minha ex-governanta, Hilda. A garota que foi trocada no berço com minha filha, Alice Medeiros."
O ar saiu da sala. O rosto de Karla ficou de um branco fantasmagórico. Davi olhava, boquiaberto. Os poucos funcionários que estavam demorando no corredor agora estavam congelados, de olhos arregalados.
"Do que você está falando?", gaguejou Karla, sua voz fina e fraca. "Isso é loucura! Eu sou Karla Magalhães! Filha de uma família proeminente! Todo mundo sabe disso!"
"Todo mundo sabe da mentira que você tem vivido, querida", contrapôs Helena, sua voz com um divertimento arrepiante. "Mas as mentiras têm um jeito de se desfazer. Especialmente quando a verdade está bem na frente delas." Ela colocou a mão no meu ombro, um gesto de posse. "Minha filha. Alice Medeiros. A verdadeira herdeira."
Davi finalmente encontrou sua voz, um sussurro estrangulado. "Herdeira? Alice? O que... o que é isso?"
Eu olhei para ele, olhei de verdade, pela primeira vez em dias. O homem que eu amava se fora, substituído por um estranho patético e aterrorizado. "Você sempre quis uma mulher com contatos, Davi. Alguém que pudesse te dar acesso, status. Bem, você a encontrou. Só não a que você pensava."
Joguei a carta de demissão em sua mesa, observando-a flutuar entre seus papéis meticulosamente arrumados. Ela pousou exatamente sobre uma foto dele e de Karla. "Considere este meu aviso formal. E o meu último. Aproveite seu 'amor verdadeiro', Davi. Você vai precisar dela. Porque em breve, você não terá mais nada."
Karla, recuperando a compostura, tentou uma risada trêmula. "Isso é ridículo! Um golpe desesperado! Davi, não dê ouvidos a essa mulher louca! Ela está tentando nos arruinar!"
Davi, ainda cambaleando, só conseguia me encarar, seus olhos arregalados com uma mistura de descrença e um pavor crescente e doentio. Ele via agora. Não a Alice mansa e leal. Mas outra coisa. Algo muito mais perigoso.
"Você está cometendo um erro enorme, Alice!", gritou Karla, sua fachada de sofisticação se quebrando. "Você vai se arrepender disso! Você vai se arrepender de tudo!"
Virei-me para sair, Helena ainda uma presença sólida ao meu lado. Minhas últimas palavras foram sussurradas, destinadas apenas a Davi. "Ah, eu não vou, Davi. Não mais. Não me arrependo de nada. Mas você? Você vai se arrepender do dia em que me conheceu."
Enquanto saíamos, os sussurros no corredor explodiram em uma cacofonia. Ouvi fragmentos: "...família Medeiros?" "...herdeira?" "...troca de bebês?" O estrago estava feito. A primeira pedra havia sido lançada. E a tempestade estava apenas começando. As acusações desesperadas de Karla nos seguiram, mas foram abafadas pela maré crescente de especulação. Davi ficou congelado, preso nos destroços de sua própria criação, seus olhos fixos nas minhas costas se afastando. Ele não entendia. Ainda não. Mas ele entenderia.