A mansão da família em Greenwich era um mausoléu para os vivos.
Poente entrou pela porta lateral, a que os funcionários usavam. A casa cheirava a lustra-móveis de limão e dinheiro velho - um cheiro frio, estéril e julgador.
Subiu correndo as escadas dos fundos, os pés descalços sem fazer barulho no tapete macio. Precisava esfregar a noite para fora de sua pele. Precisava lavar o cheiro do estranho - fumaça de lenha, chuva e algo mais escuro, como uísque caro.
No banheiro principal, ligou o chuveiro na temperatura máxima. Ficou sob o jato até a pele ficar rosa, esfregando até sentir ardor.
Saiu e limpou o vapor do espelho.
Havia marcas em seu pescoço. Hematomas fracos e arroxeados. Chupões.
"Estúpida," sibilou para seu reflexo. "Estúpida, estúpida, estúpida."
Pegou seu corretivo pesado e começou a aplicar, criando camadas grossas. Estava terminando quando a porta do quarto se abriu.
Júlio Ouro entrou.
Ele parecia terrível. Seus olhos estavam vermelhos, a pele pálida e úmida. Usava o mesmo terno que usara no baile, agora amassado e manchado.
Poente estremeceu. Era um reflexo que odiava, uma resposta condicionada a três anos de erosão emocional.
"Onde você estava?" Júlio explodiu. Ele não olhou para ela; estava ocupado afrouxando a gravata, seus movimentos bruscos e agitados. "Eu procurei por você. Você me envergonhou, Poente. De novo."
"Eu não estava me sentindo bem," disse Poente, a voz firme apesar do martelar em seu coração. "Peguei um táxi para casa mais cedo. Dormi no quarto de hóspedes para não te incomodar."
Era uma mentira que ela ensaiara no táxi.
Júlio zombou. "Sempre a vítima. Sempre frágil."
Ele passou por ela em direção ao banheiro. Quando ele passou, Poente viu.
Um arranhão.
Estava na lateral do pescoço dele, logo abaixo da orelha. Uma linha vermelha fina e irritada. Não era um corte de barbear. Era curvo. Era de uma unha.
Poente encarou a marca. "O que aconteceu no seu pescoço?"
Júlio congelou. Ele não pulou; ficou anormalmente imóvel. Sua mão subiu lentamente para cobrir a marca. "Nada. Acidente ao fazer a barba."
"Você não faz a barba desde ontem de manhã," apontou Poente, a voz calma.
Júlio girou. Seus olhos não estavam apenas com raiva; estavam calculistas. "Pare de me interrogar! Você está paranoica, Poente. Você sufoca."
Ele bateu a porta do banheiro.
Poente ficou ali, o silêncio zumbindo em seus ouvidos. Ela não era paranoica. Era observadora.
O telefone de Júlio vibrou na cômoda.
Poente olhou para ele. A tela acendeu.
Mensagem de S.
A respiração de Poente falhou. Ela deu um passo à frente.
O enjoo matinal está acabando comigo, amor. Preciso que você traga aqueles comprimidos.
O mundo inclinou-se sobre seu eixo.
S. Serena Lâmina. A estrela pop que Júlio agenciava. A mulher que os tabloides chamavam de gênio, a mulher que cantava músicas que Poente havia escrito na calada da noite.
Enjoo matinal.
Poente sentiu o sangue drenar de seu rosto. Júlio não estava apenas traindo. Ele estava começando uma família. Uma família que ele sempre dissera a Poente que não estava pronto para ter.
A porta do banheiro se abriu. Júlio saiu, uma toalha na cintura. Viu-a perto do telefone.
Ele não avançou. Não foi tão desleixado. Caminhou rapidamente, os movimentos tensos, e arrancou o aparelho da cômoda com uma casualidade forçada que era mais aterrorizante do que a violência.
"Não toque nas minhas coisas," disse ele, a voz baixa.
"Eu não toquei," disse Poente, levantando as mãos. "Ele acendeu."
"Saia," disse Júlio. "Tenho que ir para o escritório."
"Num domingo?"
"Negócios não dormem, Poente. Ao contrário de você."
Ele a empurrou ao passar.
Poente esperou até ouvir a porta da frente bater e o rugido do Porsche dele desaparecendo na entrada da garagem.
Ela não chorou. Já tinha chorado o suficiente no primeiro ano.
Saiu do quarto, desceu o corredor, passou pelas suítes de hóspedes, até o final da ala leste. Havia um depósito empoeirado lá, cheio de móveis velhos cobertos por lençóis. Júlio nunca vinha aqui. Era sujo demais, esquecido demais.
Ela se espremeu atrás de uma pilha de quadros velhos e pressionou uma tábua solta no painel.
Um clique, e abriu.
Dentro havia um espaço pequeno e apertado, mal cabia um armário. Mas era dela. Um teclado, um laptop e uma parede coberta de papéis emoldurados.
Não eram discos de platina. Esses estavam pendurados na mansão de Serena. Eram as folhas de composição originais, escritas à mão. Os primeiros rascunhos crus e bagunçados dos sucessos que atualmente lideravam as paradas. Não estavam assinados, mas a caligrafia era dela. As datas estavam lá. Era a única prova que ela tinha de que existia.
Sentou-se e abriu o laptop. Não abriu seu software de música. Abriu um aplicativo de mensagens seguro.
Digitou uma mensagem para Lira, seu contato no submundo digital.
Preciso dos registros de chamadas do Júlio. Extratos de cartão de crédito. Tudo dos últimos seis meses.
A resposta de Lira foi instantânea.
Problemas no paraíso?
Poente olhou para o reflexo de seus próprios olhos na tela preta. Pareciam frios. Duros.
Preciso de vantagem, digitou ela. Inicie o rastreamento.
Três dias depois, a guerra ainda era fria, mas a atmosfera na casa era sufocante.
Júlio mal parava em casa. Quando estava, tratava Poente como um móvel que havia sido colocado num lugar inconveniente.
"Ação de Graças," anunciou Júlio sobre um café da manhã que Poente não havia tocado. Ele não levantou os olhos do tablet. "Mamãe espera a gente na propriedade dos Hamptons."
Poente apertou sua caneca de café. "Achei que iríamos pular este ano."
"Mudança de planos," disse Júlio, a voz tensa. "Mauro voltou."
O nome pousou na mesa como um pássaro morto.
Mauro Nobre. O irmão mais velho. O chefe do fundo fiduciário da família. O homem de quem Júlio tinha pavor.
"Achei que ele estava na Europa," disse Poente.
"Estava. Agora não está. E quando Mauro convoca, nós vamos. É obrigatório para o desembolso do fundo." Júlio olhou para ela então, os olhos críticos. "Use o anel. Aquele de safira. E tente parecer... feliz. Mauro fareja fraqueza."
"Ele soa como um monstro," murmurou Poente.
"Ele é," disse Júlio, e pela primeira vez, pareceu honesto. "Ele é um psicopata com um talão de cheques. Não fale com ele a menos que ele faça uma pergunta direta. E não o toque. Ele tem... problemas."
Poente subiu para se vestir. Escolheu um vestido de gola alta e mangas compridas num azul-marinho severo. Parecia uma armadura.
Sentou-se na penteadeira, abrindo sua caixa de joias. Seus dedos roçaram os compartimentos de veludo.
Ela parou.
Seus brincos de diamante. Os solitários que usava todos os dias.
Um estava lá. O outro tinha sumido.
O coração de Poente martelou contra as costelas. Ela esvaziou freneticamente a pequena caixa sobre a bancada de mármore. Colares, pulseiras, anéis tilintaram.
Nenhum brinco.
Verificou o tapete. Verificou a bolsa. Verificou o chão do banheiro.
Tinha sumido.
Um pavor frio instalou-se em seu estômago. Devia tê-lo perdido no hotel.
Se alguém o encontrasse... não, era apenas um diamante comum. Não era personalizado. Não poderia ser rastreado até ela. Poderia?
Mas se Júlio notasse que estava faltando, faria perguntas. Ele conhecia cada peça de joia que comprara para ela - não por sentimento, mas por controle de inventário.
"Poente!" Júlio gritou do saguão. "Estamos saindo!"
Ela pegou rapidamente um par de pérolas, enfiando o diamante solitário restante no fundo de uma gaveta. Deslizou o pesado anel de safira no dedo. Parecia frio e pesado, como uma algema.
Desceu as escadas para encontrar o marido, a mente acelerada de ansiedade, sem saber que estava caminhando direto para a cova dos leões.