Capítulo 2

A casa de Lucas estava silenciosa demais.

Eu parei na porta da sala, a mochila pesando em um ombro só, e senti um arrepio estranho. Nós tínhamos um acordo: toda terça e quinta, depois do treino, eu vinha para a casa dele estudar. Ele me ajudava com o futsal, eu o ajudava a não reprovar em matemática. Era um acordo que funcionava há anos, desde que éramos crianças.

Mas hoje, o silêncio era denso, quase palpável. Geralmente, eu já ouviria o som da TV ou a mãe dele, Dona Marta, cantando na cozinha.

Nada.

Dei um passo para dentro, fechando a porta com cuidado. Foi quando ouvi. Um som baixo, abafado, vindo do quarto dele no fim do corredor. Uma risada feminina que eu não conhecia, seguida por um sussurro de Lucas.

Meu coração não acelerou, nem senti ciúmes, apenas uma estranha sensação de que eu tinha entrado no lugar errado, na hora errada.

Eu pisquei, confusa. Que casal principal? Que vilã? Era só o Lucas com alguma garota. Não era da minha conta.

Meu plano era simples: ignorar.

Deixei minha mochila no sofá, tirei meus livros de física e meu caderno. Abri na página marcada e comecei a reler o último exercício. O som do meu lápis contra o papel era a única coisa que quebrava o silêncio na sala.

Eu continuei focada no meu livro. Força, massa, aceleração. Coisas que faziam sentido, que tinham regras claras. Diferente do que estava acontecendo no quarto do Lucas.

A porta do corredor se abriu de repente. Lucas saiu de lá, sem camisa, o cabelo bagunçado. Ele parou no meio do caminho quando me viu sentada no sofá, com os livros abertos na mesinha de centro.

Seus olhos se arregalaram. Ele parecia um cervo pego pelos faróis de um carro.

"Duda?" A voz dele era um sussurro chocado. "O que... o que você tá fazendo aqui?"

Eu levantei o olhar do meu livro, calma. Apontei para o relógio na parede da sala.

"São quatro e meia," eu disse, minha voz soando surpreendentemente normal. "Nosso horário de estudo. Você esqueceu?"

Ele engoliu em seco, o rosto pálido. Atrás dele, uma garota apareceu na porta do quarto. Era a vizinha nova, Camila. Ela estava enrolada no lençol dele, e seu rosto expressava uma mistura de surpresa e irritação ao me ver.

Lucas olhou de mim para ela, o pânico crescendo em seu rosto. Ele era promissor no futsal, rápido e ágil, mas para lidar com situações assim, ele era um desastre. Fraco e facilmente manipulável.

Eu apenas o observei, esperando. A situação era dele, não minha.

Eu suspirei e voltei minha atenção para o livro. Que perdessem seu tempo me julgando. Eu tinha uma bolsa de estudos para conseguir.

Capítulo 3

Camila se enrolou mais no lençol e caminhou até ficar ao lado de Lucas, me olhando de cima para baixo com um desprezo mal disfarçado. Eu já tinha ouvido falar dela na vizinhança. Bonita, popular, e com uma fama de conseguir tudo o que queria. Agora eu via o porquê. Havia uma confiança nela que beirava a arrogância.

"Lucas, quem é ela?" A voz de Camila era doce, mas seus olhos diziam o contrário.

Lucas gaguejou, passando a mão pelo cabelo. "Essa é a Duda. Minha... minha amiga. A gente estuda junto."

"Ah," Camila disse, um sorrisinho surgindo em seus lábios. "A famosa Duda."

A forma como ela disse "famosa" deixou claro que Lucas já havia falado de mim, e provavelmente não de uma forma positiva.

"A gente não sabia que você vinha hoje, Duda," Lucas tentou se explicar, a voz tensa. "A gente tava... uh... adiantando um trabalho de biologia."

Um trabalho de biologia. Sem camisa e enrolados em um lençol. A desculpa era tão esfarrapada que chegava a ser engraçada.

Eu apenas assenti. "Tudo bem. Quando vocês terminarem o trabalho de biologia, me avisem. Eu espero aqui."

Minha calma pareceu desarmá-los completamente. Eles esperavam gritos, acusações, lágrimas. Eu não dei a eles nada disso. Eu me recusei a participar do drama deles.

Lucas, vendo que eu não ia criar uma cena, pareceu relaxar um pouco. Ele me puxou para um canto da sala, falando baixo para que Camila não ouvisse.

"Olha, Duda, foi mal. Eu esqueci mesmo. Mas, por favor, não conta nada pra minha mãe, beleza? A gente... a gente pode estudar física o dobro do tempo amanhã. Eu te ajudo com aquele chute que você tá errando. O que você acha?"

Ele estava tentando me comprar. Me subornar com a única coisa que ele sabia que eu valorizava: o futebol e os estudos.

Eu olhei para o rosto ansioso de Lucas. Ele não estava preocupado comigo ou com meus sentimentos. Estava preocupado com as consequências para si mesmo.

Eu ponderei por um segundo. Fazer um escândalo? Contar para a mãe dele? Para quê? Isso só me traria mais drama, mais dor de cabeça. Eu não tinha tempo para isso.

"Tudo bem, Lucas," eu disse, minha voz neutra. "Combinado."

O alívio no rosto dele foi imediato e nojento. Ele deu um sorriso fraco e voltou para o quarto, onde Camila o esperava com um olhar triunfante.

Eu me sentei de novo no sofá, mas não conseguia mais me concentrar no livro.

De acordo com o roteiro que eles criaram na cabeça deles, eu era a amiga de infância apaixonada e traída, destinada a ser um obstáculo no romance "perfeito" de Lucas e Camila. Eu deveria lutar, sofrer, e no final, ser descartada.

Mas eu não era a personagem de uma novela. Eu era Maria Eduarda Silva. E eu tinha meus próprios planos.

Quando Camila passou por mim para ir embora, ela me lançou um olhar. Não era mais apenas desprezo. Era um olhar de desafio, de quem acaba de marcar território. Um olhar de inimizade declarada.

Eu a ignorei e voltei para a minha equação de física.

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