Capítulo 2

Sofia POV:

O médico foi inflexível. Eu precisava ficar em observação. Meu corpo estava traído e eu não tinha forças para argumentar. Enquanto as enfermeiras se moviam ao meu redor, Artur permaneceu firme em uma cadeira ao lado da minha cama, uma presença silenciosa e reconfortante. Ele havia cuidado de tudo, desde a papelada da internação até garantir que eu tivesse um quarto tranquilo.

Em um momento de silêncio, ele perguntou, sua voz suave, quase hesitante. "Sofia, devo ligar para o André? Ele precisa saber."

Minha garganta se apertou. Eu hesitei por um longo minuto, o peso de todas as traições, todas as decepções, pesando sobre mim. A imagem dele sorrindo ao lado de Cármen no lançamento, enquanto meu mundo desmoronava, era um punhal cravado em meu coração.

"Não", eu disse, minha voz rouca, mas firme. "Não precisa. E... não se preocupe em ligar para ele. Na verdade, estou em processo de divórcio."

Artur piscou, surpreso. Seus olhos castanhos, geralmente tão calmos, revelaram um lampejo de consternação. Uma ruga se formou entre suas sobrancelhas. Eu vi o choque em seu rosto e senti um pingo de culpa por despejar tudo aquilo sobre ele.

"Me desculpe. Eu não queria... é só que..." Minhas palavras se perderam.

Ele balançou a cabeça, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios. "Não, Sofia. Não precisa se desculpar por nada. Está tudo bem. Eu entendo." Ele pegou minha mão por um instante, um gesto de puro apoio, antes de soltá-la.

O calor de sua mão em contraste com o gelo que se instalara em meu coração fez uma lágrima silenciosa escorrer pelo meu rosto. Era um contraste tão gritante com a indiferença de André. Por anos, eu havia tolerado a sua impaciência, as suas críticas. "Você é dramática demais", ele resmungava quando eu chorava. "Por que você não consegue ser mais como a Cármen? Ela é tão... equilibrada."

A menção de Cármen era sempre um gatilho.

Meu telefone vibrou. Era uma mensagem de André.

Uma foto. Uma tiara de flores secas. Feia. Sem graça.

"Comprei isso para você", dizia a mensagem. "É uma edição limitada daquela artesã que você gosta. Não diga que não penso em você."

Meu sangue ferveu. Eu conhecia aquela artesã. As tiaras mais bonitas e caras dela eram frescas, vibrantes. Aquela era a versão mais barata, ressecada, quase murcha.

Rapidamente, abri o Instagram. Lá estava. Cármen, com um buquê de flores frescas e uma tiara idêntica, mas impecável, na cabeça. "Meu amor, André, você me surpreende a cada dia! As flores mais lindas e a peça mais exclusiva para a mamãe e o bebê! #abençoada #futuramamãe"

O ar me faltou. Meu coração batia tão forte que parecia que ia explodir. Grávida. Cármen estava grávida. E André chamava a ela de "meu amor". Ele comprou para ela a tiara perfeita, e para mim, a versão murcha.

A tiara murcha. A versão rejeitada. Ele havia me dado as sobras.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios. André, tão previsível em sua crueldade.

Eu digitei, minhas mãos tremendo de raiva. "Não, obrigada. Não quero as sobras da Cármen. Dê a ela. Ela parece precisar mais de flores murchas do que eu."

O telefone tocou imediatamente. Era ele. André.

"O que diabos é isso, Sofia? Qual é o seu problema? Ciúmes? Você está agindo como uma criança mimada!" A voz dele explodiu no meu ouvido, carregada de raiva. "Eu te dou uma vida de luxo, e você me acusa de quê? De ser gentil com uma amiga? Cármen é apenas uma colega, uma artista! Você é patética!"

Patética. A palavra ecoou na minha mente.

Uma vida de luxo? Eu quis rir. Do que ele estava falando?

Nosso relacionamento começou oito anos atrás, muito antes da Cármen existir na nossa vida. Naquela época, André não tinha nada. A família dele não era rica. Ele veio de origens humildes, assim como eu.

Lembro-me de quando ele estava começando a nossa startup. Ele não tinha dinheiro. Ele dormia em sofás de amigos, comia macarrão instantâneo. Eu estava lá. Eu investi minhas economias, minhas horas, minha alma. Eu acreditei nele. Eu o apoiei em cada passo, em cada fracasso, em cada pequena vitória.

Por anos, vivi modestamente, economizando cada centavo. Eu não gastava com luxos, não comprava roupas de grife. Minha paixão era nosso projeto, nossa empresa. Eu acreditava que estávamos construindo um futuro juntos. Para nós. Para a nossa família.

E em troca, recebi "patética" e "mimada".

Mesmo assim, a mãe dele, minha sogra, sempre me culpava por não ter engravidado. "Você não está contribuindo com a família", ela dizia, a voz fria. "André precisa de um herdeiro."

E agora, Cármen estava grávida. Do herdeiro dele.

"Vida de luxo?", eu sussurrei para mim mesma, a voz embargada.

Artur, que estava em um canto do quarto, se aproximou lentamente. Em suas mãos, havia uma bandeja com uma sopa fumegante e uma torrada simples. O cheiro era suave, reconfortante. Ele colocou a bandeja na mesinha ao lado da cama.

"Sofia, você precisa comer", ele disse, sua voz gentil.

A voz de Artur foi ouvida pelo telefone. Um silêncio gélido se instalou do outro lado da linha. Então, a voz de André explodiu novamente, mais alta e furiosa do que antes.

"Quem é esse aí, Sofia? É por isso que você está agindo assim? Tem outro homem no seu quarto de hospital? Você me traiu, não é? Sua vadia!"

Minhas mãos tremeram tanto que quase deixei o telefone cair. "Estou no hospital, André! Eu perdi o nosso bebê!"

Um silêncio pesado. Então, uma risada fria e zombeteira.

"Você é ridícula, Sofia! Sempre com seus draminhas. 'Nosso bebê'? Você sabia que eu não queria ter filhos agora, não é? Você está inventando isso para me prender! Você é doente!"

As palavras dele foram um golpe. Mais do que a traição, mais do que a perda do bebê. Ele negou a existência do meu filho. Ele me chamou de doente.

Meu corpo inteiro tremia, mas uma calma estranha, gelada, se apoderou de mim.

Este homem. Este monstro. Ele não valia mais uma lágrima.

Meu bebê. Eu havia lutado tanto por ele. E eu não permitiria que a memória dele fosse manchada pela crueldade de André.

"Você está certo, André", eu disse, minha voz surpreendentemente calma. "Não há nada para você aqui. Não vou mais te prender. Minha vida será muito mais tranquila sem você nela."

Pela primeira vez em anos, eu mesma desliguei o telefone na cara dele.

Imediatamente, uma enxurrada de mensagens de texto começou a chegar. "Você vai se arrepender!", "Não me peça perdão depois!", "Você não é nada sem mim!"

Eu simplesmente coloquei o telefone de lado. Peguei a colher e comecei a comer a sopa que Artur havia trazido. Era insosso, mas eu precisava de força.

Capítulo 3

Sofia POV:

"Sofia, você precisa vir. Cármen está dando uma festa para anunciar a gravidez. Ela quer você lá." A voz de André no telefone era um amálgama estranho de ordem e súplica. "Não me faça passar vergonha, por favor. É importante para a minha imagem."

Eu ri, um som seco e sem humor. "Sua imagem? E a minha, André? O que resta dela?"

"Não seja ridícula. Você é minha esposa. As pessoas esperam que você esteja lá."

Eu sabia que ele estava me usando para dar uma fachada de normalidade à situação, para legitimar a Cármen. Mas meu coração, quebrado e remendado, já não sentia dor. Eu havia assinado os papéis do divórcio. Eles estavam com meu advogado, esperando apenas a assinatura dele. Eu estava livre.

"Tudo bem, André. Eu vou." A voz de Artur me veio à mente. "Você não é mais refém de ninguém, Sofia." E ele estava certo. Eu não era. Eu não seria.

A festa de Cármen era em um salão opulento no centro da cidade. Luzes cintilantes, música alta. Ela devia ter gasto uma fortuna.

Eu entrei, sentindo-me um espectro. Meu corpo ainda estava frágil. Eu estava pálida, com olheiras profundas. O vestido preto que eu usava parecia pendurado em mim.

Então ela chegou. Cármen. Radiante. Uma deusa de cabelos esvoaçantes e um sorriso vitorioso. Ela usava um vestido vermelho, que realçava sua barriga já proeminente. Parecia um fogo, queimando tudo ao redor.

"Olha só a Cármen! Que mulher inspiradora! Artista independente, mãe solteira por opção. Um exemplo de força feminina!", ouvi uma mulher sussurrar, a voz cheia de admiração.

"Nada a ver com certas donas de casa que só sabem se encostar no marido", outra acrescentou, e senti os olhares se virarem para mim, carregados de escárnio.

Cármen sorriu, um sorriso doce e falso, e ergueu uma taça de champanhe. "Por favor, pessoal, a conta é minha!"

Um homem propôs um jogo. "Que tal 'Verdade ou Desafio' para animar a noite?"

A garrafa girou e parou em Cármen. "Verdade", ela escolheu, com um brilho nos olhos.

Uma amiga dela, uma mulher com um sorriso malicioso, fez a pergunta. "Cármen, você deixaria seu futuro filho chamar o André de pai?"

Cármen acariciou a barriga com um sorriso vitorioso e olhou diretamente para mim. Um flash de triunfo em seus olhos.

"Sofia, querida, eu sei que isso deve ser difícil para você. Mas pense bem", ela disse, a voz cheia de falsa compaixão. "Quando meu filho nascer, ele será o herdeiro legítimo de André. Ele virá de uma linhagem de sucesso, de grandes artistas. Ele cuidará de você e do André na velhice. Não se preocupe."

A multidão aplaudiu. Risadas abafadas. Meu estômago se apertou.

Mas eu não senti nada. Meu rosto permaneceu impassível. Minha alma estava vazia.

Nos últimos dois anos, desde que o André começou a fazer sucesso, a Cármen passou a frequentar a nossa vida como uma sombra. No início, eu estava chocada, com raiva, com ciúmes. Eu gritei com André, implorei para ele parar. Ele sempre a escolhia. Me chamava de imatura, de paranoica.

Com o tempo, a dor deu lugar à exaustão. A raiva se transformou em cansaço. E agora, apenas indiferença. Meu coração estava em paz.

"Não se preocupe, Cármen", eu disse, minha voz baixa, mas clara, cortando o barulho da multidão. "Você pode ter a sua 'família de sucesso'. Mas eu não preciso de um herdeiro para cuidar de mim. E não preciso do André para nada. Na verdade, sugiro que você incentive ele a assinar os papéis do divórcio o mais rápido possível. Assim, ele pode se concentrar totalmente no seu 'legítimo herdeiro'."

O sorriso de Cármen vacilou. O rosto de André ficou branco.

"Sofia! O que você está dizendo?", ele sibilou, a raiva em seus olhos.

Eu dei um sorriso frio. "Estou dizendo, André, que você não é tão importante quanto pensa. E que eu não me importo mais com você."

A cara dele era uma mistura de pânico e incredulidade. Ele tentou dizer algo, mas Cármen o puxou para perto.

"Tudo bem, pessoal! Chega de drama! Vamos continuar o jogo!" A amiga de Cármen tentou acalmar a situação.

A garrafa girou novamente. E desta vez, parou em mim.

"Verdade ou Desafio, Sofia?", ela perguntou, um sorriso cruel.

Eu ia escolher "Verdade", mas Cármen se adiantou. "Desafio! Ela não tem coragem para a verdade. Eu desafio a Sofia a beijar o primeiro homem que sair daquela porta!" Ela apontou para a saída, rindo.

Eu observei a cena com uma calma gélida. Era um circo. E eles eram os palhaços.

"Não! Sofia não pode fazer isso!", André gritou, empurrando três taças de champanhe em minha direção. "Ela não vai conseguir! Beba isso, Sofia! Será a sua punição!"

A amiga de Cármen interveio. "É verdade, André está aqui. É desrespeitoso. Beba, Sofia!" A multidão concordou.

Eu me levantei, meus olhos fixos no rosto de Cármen. "Por que eu iria querer desistir, Cármen? Eu nunca desisto de um desafio."

André se levantou bruscamente, o rosto vermelho. "Sofia, você está me provocando, não está?"

Eu não respondi. Ele me chamava de provocadora, mas beijava a Cármen na minha frente?

Cármen se aproximou, um sorriso no rosto. Seus olhos, no entanto, estavam fixos em minha barriga. "André, querido, é só um champanhe. A porcentagem de álcool é mínima. Não vai fazer mal nenhum."

André, como um cão adestrado, virou-se para mim, a taça na mão. "Beba, Sofia! Não me envergonhe mais!"

Ele me empurrou contra a parede, e a taça de champanhe se chocou contra meus lábios. O líquido borbulhante escorreu pelo meu queixo, parte dele entrando na minha boca, parte salpicando meus olhos. Eu tossi, engasgando.

"Você é ridícula!", ele gritou. "Sempre criando uma cena!"

A dor. A dor no meu baixo ventre. Não! Não de novo!

Eu tentei me defender, empurrá-lo, mas minhas pernas fraquejaram. Caí no chão.

Meu bebê!

A dor era dilacerante. Eu instintivamente cobri minha barriga, um grito primal rasgando minha garganta.

"Não! Me ajude! Meu bebê!"

André, por um instante, pareceu chocado. Ele estendeu a mão, mas o olhar em seu rosto era de desdém. "Sofia, é só uma queda. Você não vai morrer por isso. Pare de fazer drama!"

Foi então que uma mulher ao lado gritou, seus olhos arregalados.

"Sangue! Meu Deus, tem muito sangue!"

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