Capítulo 2

Regina se instalou na mansão como uma praga, um vírus se espalhando por todas as frestas da minha já frágil existência. Heitor, com sua voz monótona e sempre irritada, me informou que ela ficaria "por um tempo", precisando de um "lugar seguro" após um "incidente nebuloso" em sua casa. Eu sabia que era mentira. Regina não precisava de segurança; ela precisava de palco.

Ela agia como a verdadeira dona da casa, dando ordens aos empregados, rearranjando móveis e se esparramando nas áreas comuns que eu raramente ocupava. Nossas conversas, já raras, tornaram-se impossíveis. Se eu tentasse falar com Heitor, sua voz estridente surgia de algum canto, interrompendo, desviando a atenção, lançando farpas veladas.

Certa noite, ao passar pela biblioteca, a porta estava entreaberta. A cena era quase uma repetição do escritório, apenas mais íntima, mais descarada. Heitor e Regina, sentados próximos no sofá, olhando fotos antigas. Os dedos dela roçavam o braço dele, os sorrisos cúmplices.

"Luna, querida," Regina chamou, como se eu fosse um fantasma que ela pudesse invocar. "Junte-se a nós! Estamos vendo fotos da nossa infância. Heitor era tão travesso! Lembro-me daquela vez em que ele me empurrou no lago..."

Seu riso, alto e forçado, encheu o ambiente. Eu senti um arrepio. Não de ciúmes, mas de repulsa.

"Eu tenho trabalho a fazer," respondi, minha voz monótona, já treinada para a indiferença. Cada dia que passava sob aquele teto, eu me sentia mais distante. Heitor podia estar ali, com sua ex-namorada, rindo da minha cara, mas para mim, ele já era uma memória distante.

A risada de Regina soou novamente, mais ácida. "Ah, sim, a ciência. Sempre tão fascinante."

"Você se lembra, Heitor?" ela perguntou, cutucando-o. "Quando éramos crianças, Luna passava horas no jardim, conversando com as plantas. Sempre tão peculiar."

Heitor apenas murmurou algo inaudível, mas seu olhar se desviou para mim por um segundo. Um olhar rápido, quase um questionamento, como se estivesse testando minha reação. Eu mantive meu rosto uma máscara impenetrável. Sem emoção. Sem fraqueza.

Eu já havia contado os dias. Faltavam apenas mais alguns.

Naquela noite, Heitor entrou no quarto principal, o cheiro de charuto de cereja e do perfume de Regina impregnado em suas roupas. Ele se deitou na cama, ao meu lado, um abismo de silêncio entre nós.

"Como foi o trabalho?" ele perguntou, sua voz rouca, quase um sussurro.

Seus dedos tocaram meu ombro, um toque vazio, uma formalidade. Meu corpo se enrijeceu. Uma onda de náusea subiu pela minha garganta, mas eu a contive. Eu não sabia por que, mas o toque dele, o cheiro dela, tudo me embrulhava o estômago.

"Produtivo," respondi, a palavra seca. Eu senti uma pontada de autocompaixão. Que patética eu era, ainda esperando por algo que nunca viria.

"Você não parece bem," ele observou, seu tom agora quase preocupado.

"Cansaço," menti. "O projeto na Suíça está me consumindo. Preciso de concentração total."

Um barulho alto, um grito agudo de Regina, ecoou do andar de baixo. Heitor pulou da cama, sua expressão tensa. Era sempre assim. A chamada do dever, a emergência fabricada.

"Fique aqui," ele ordenou, sua voz já distante enquanto ele saía do quarto.

Ele voltou horas depois. Não disse uma palavra. Apenas foi para o chuveiro, lavando o cheiro dela, talvez, mas não a mancha. Eu fingi dormir, meus olhos fechados, mas minha mente trabalhando em mil planos.

Alguns dias depois, ele me pegou desprevenida em meu escritório, enquanto eu preenchia o último formulário para a bolsa de estudos.

"Para a Suíça, Luna?" ele perguntou, seus olhos azuis examinando o papel em minhas mãos. Sua voz, pela primeira vez em muito tempo, parecia curiosa.

"Sim. Um projeto de pesquisa avançado," respondi, meu coração acelerado. Eu não havia pensado que ele prestaria atenção a algo tão "trivial" em minha vida.

"Sempre gostou de ambientes estéreis, não é?" ele zombou, um flashback da nossa conversa sobre a fazenda da família, que ele insistia que eu administrasse. Eu queria me afastar da toxicidade daquele lugar, mas ele via como aversão ao "campo".

Eu o fitei, sem dizer uma palavra. Minha expressão era um muro de gelo.

"Você poderia trabalhar para mim," ele ofereceu, sua voz soando como se estivesse me concedendo um favor. "Minha empresa tem um departamento de biotecnologia. Você teria recursos ilimitados, Luna. E não se preocupe, eu garantiria que seu nome estivesse em todos os projetos de sucesso. Você seria reconhecida."

Reconhecida? Minha mente gritou. Eu nunca quis meu nome atrelado ao dele, à sua sombra opressora. Minhas conquistas eram minhas, não um reflexo da sua generosidade.

Antes que eu pudesse responder, Regina apareceu no escritório, novamente. Ela sempre aparecia.

"Heitor, meu bem! A reunião com os acionistas foi um sucesso!" ela disse, abraçando-o por trás, pousando a cabeça no ombro dele. "E seu pai ligou. Ele quer que eu o acompanhe na visita à nova fazenda."

Heitor assentiu, e eles saíram, discutindo planos e negócios, me deixando para trás, uma vez mais, com meus papéis e meus sonhos.

Olhei para o formulário. Havia uma seção para "Estado Civil". Sem hesitação, peguei a caneta e risquei a palavra "Casada". Escrevi "Solteira" acima, com uma caligrafia firme. Era oficial. Em meus pensamentos, pelo menos, eu já era livre.

Capítulo 3

Eu havia conseguido. Quatro anos de bolsa de estudos integral, residência e um laboratório de ponta na Suíça. Quatro anos longe daquele homem, daquele nome, daquela vida. A notícia chegou como um sopro de ar fresco em uma câmara de gás. Eu sentia como se pudesse, finalmente, respirar.

Naquela noite, a imagem de Heitor e Regina, os risos e o cheiro de cereja, ainda estava fresca em minha mente. O contraste entre o mundo deles e a solidão da minha vida era brutal. Amor não era uma equação lógica. Não havia ciência por trás de um coração partido. Mas havia uma fuga.

Decidi que me mudaria no dia seguinte. Minhas coisas já estavam todas encaixotadas e prontas para serem enviadas. Eu já havia esvaziado o quarto, deixando para trás apenas a casca da vida que eu havia vivido ali. O divórcio, eu sabia, levaria mais algumas semanas para ser finalizado. Mas para mim, a separação já era um fato. Minha mente já havia se divorciado há muito tempo.

Enquanto revisava uma última gaveta vazia, meus dedos tocaram algo macio. Um álbum de fotos. Aquele álbum que Heitor insistira em preencher, uma foto a cada mês do nosso casamento. Uma fachada para o mundo, um registro para uma história de amor que nunca existiu. Eu folheei as páginas, vendo os sorrisos forçados, os abraços distantes. Ele me beijando na testa em uma praia, enquanto seus olhos estavam fixos no horizonte. Ele me segurando pela cintura em um evento de gala, enquanto seus pensamentos estavam na Bolsa de Valores.

Com um suspiro que carregava cinco anos de dor, eu o joguei na lata de lixo. O som abafado do plástico foi um hino à minha liberdade. O passado estava enterrado.

As duas semanas seguintes foram um borrão de trabalho e estudo. Eu me enfiei no laboratório, nos livros, na promessa de um futuro.

O toque do meu celular me arrancou de uma reunião com a reitoria. Era Heitor.

"Estou na frente do seu laboratório," sua voz cortou o ar, como sempre fazia. "Suba."

Meu coração deu um pulo. Por quê? Ele nunca vinha.

Desci as escadas, meu estômago embrulhado. Ele estava ali, encostado em seu carro de luxo, impecável como sempre. Abri a porta do carro, e o cheiro familiar de seu perfume amadeirado me atingiu. Quase me fez engasgar.

"Por que não está em casa?" ele perguntou, olhando para mim como se eu fosse um enigma.

"Estou ocupada com o trabalho. Pronta para a Suíça," menti, ou melhor, me esquivei. A verdade era que eu estava ocupada com a minha fuga.

"Regina acha que você está evitando-a," ele disse, seu tom neutro.

Eu bocejei, um bocejo sincero que eu nem tentei esconder. "A opinião da Regina não me diz respeito."

Ele apertou o volante, e um brilho de algo, talvez surpresa ou irritação, passou por seus olhos. Ele tentou dizer algo, mas desistiu. Eu fechei os olhos e fingi dormir, ansiosa para escapar daquela conversa, do cheiro dele, do passado. Minha mente já estava na Suíça, longe de tudo isso.

Os dias se arrastaram, cada um me aproximando da minha nova vida. Um dia, no supermercado, um desejo estranho me atingiu. Picles e sorvete de morango. Eu ri, pensando em Bia, minha melhor amiga, que diria que eu estava ficando louca.

Mas à medida que os dias se tornavam semanas, a piada perdeu a graça. Minha menstruação estava atrasada.

O teste de gravidez. Duas linhas. Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei cair o pequeno bastão de plástico. Eu estava grávida.

O médico confirmou. Seis semanas. O tempo bateu com a única noite em que Heitor e eu havíamos sido mais do que estranhos sob o mesmo teto, em um momento de fraqueza, de solidão. Uma noite, antes do retorno de Regina, antes que ele se tornasse a sombra de si mesmo.

O medo me invadiu. Eu estava sozinha. Como eu faria isso?

Meu primeiro impulso foi ligar para Heitor. Eu precisava contar a ele. Ele tinha que saber.

Mas quando cheguei na clínica, o vi. Heitor. Em pé, ao lado de Regina, que estava sentada em uma cadeira de rodas, pálida, mas sorrindo para ele. Ele segurava a mão dela, e seus olhos estavam cheios de uma ternura que eu nunca havia visto em relação a mim.

Meu coração se quebrou em mil pedaços. Ele estava ali com ela. De novo.

Eu me escondi atrás de uma parede, minhas lágrimas escorrendo silenciosamente. O médico saiu da sala de Regina, segurando uma pequena imagem. Um ultrassom.

"Parabéns, Senhora Moreira," ele disse, sorrindo. "Seu bebê está saudável. E lembre-se, nada de estresse. Sem atividades extenuantes, sem sexo nas próximas semanas."

Regina. Grávida.

Eu balancei a cabeça em negação. Não podia ser. Aquela mulher manipuladora.

Heitor se inclinou e beijou a testa de Regina, um gesto tão íntimo, tão terno.

Eu não podia mais olhar. Eu não podia mais aguentar.

Virei-me para fugir, mas esbarrei em uma enfermeira, e a pasta com meus exames caiu no chão, espalhando os papéis.

Heitor me viu. Seus olhos se arregalaram, e o sorriso de Regina desapareceu.

"Luna?" ele perguntou, sua voz cheia de uma surpresa que me esdoçou. "O que você está fazendo aqui?"

Eu me agachei, tentando desesperadamente recolher meus papéis, a foto do meu próprio ultrassom escondida debaixo da minha jaqueta.

Regina, com um sorriso forçado, disse: "Ora, Heitor, a Luna deve estar apenas aqui para um check-up. Não é, Luna? Ou talvez você esteja com alguma doença contagiosa?"

Eu a ignorei. Meus olhos se fixaram na imagem de ultrassom que ela ainda segurava. Aquela pequena mancha, promessa de vida. E então, na imagem do meu próprio bebê, escondida sob minha jaqueta.

Heitor, pálido, tentou se aproximar. "Luna, eu posso explicar..."

"Não há nada para explicar, Heitor," Regina interrompeu, sua voz agora glacial. Ela apertou o braço de Heitor, e seus olhos me lançaram uma ameaça silenciosa. "Nosso futuro está seguro agora. Não precisamos de explicações para o passado."

Heitor hesitou, olhando de Regina para mim. A indecisão em seus olhos foi a minha resposta final. Ele não me escolheria. Nunca.

Eu me levantei, meus olhos fixos no vazio. Viver era mais doloroso do que morrer. Minha fuga não podia esperar.

Virei as costas para eles, meu coração em pedaços. Eu ouvi Heitor chamar meu nome, mas eu não parei. Eu não podia. As lágrimas escorriam, mas eu mantive a cabeça erguida. O som do elevador se fechando foi o último som que ouvi antes de ser engolida pela rua fria de inverno.

Eu estava sozinha. Completamente e irremediavelmente sozinha. Sem casa, sem marido, e agora, com um bebê que eu não sabia se conseguiria proteger.

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