Capítulo 2

Ponto de Vista de Elisa Ferraz:

O frio do quarto de hospital era um contraste gritante com o calor opressivo da festa. O cheiro estéril de antisséptico queimava minhas narinas. Meus olhos se abriram, as luzes fluorescentes fortes acima queimando minhas retinas. Minha cabeça latejava. Eu estava sozinha, de novo. A dor familiar do abandono se instalou profundamente em meu peito.

Uma enfermeira entrou apressada, sua expressão gentil, mas ocupada. "Sra. Ferraz, você acordou. Como está se sentindo?"

Tentei falar, mas minha garganta estava dolorosamente seca. Ela me ofereceu um copo de água, o gelo tilintando suavemente contra a cerâmica. O líquido frio aliviou minha garganta irritada.

"Onde está o Bruno?", finalmente consegui sussurrar.

A enfermeira fez uma pausa, seu olhar se suavizando com pena. "O Sr. Almeida teve uma reunião urgente. Ele me pediu para dizer que voltaria assim que pudesse." Suas palavras eram ensaiadas, um roteiro vazio e familiar.

Fechei os olhos, uma risada amarga morrendo na minha garganta. Uma reunião urgente. Claro. Sua carreira, sua imagem, sempre em primeiro lugar. Lembrei-me de estar lá, balançando, o mundo girando, e seu suspiro desdenhoso. Ele nem se deu ao trabalho de verificar se eu estava bem, simplesmente passou o problema para seu assistente. Ele me deixou desmaiar, para juntar os cacos sozinha, enquanto continuava sua grande performance com Stéfany.

A lembrança da festa, de seus corpos entrelaçados, do sorriso triunfante de Bruno, brilhou por trás das minhas pálpebras. Era uma dor aguda, penetrante, não física, mas emocional, cortando mais fundo do que qualquer hematoma. Eu o amei com cada fibra do meu ser. Eu acreditei em um futuro onde sua ambição e meu talento silencioso pudessem se entrelaçar, onde sua persona pública e meus sonhos privados pudessem de alguma forma coexistir. Eu fui uma tola.

Minha mão instintivamente foi para o meu dedo anelar. O diamante, antes um símbolo de amor eterno, agora parecia uma pesada algema. Eu olhei para ele, olhei de verdade, pela primeira vez em anos. Era apenas uma pedra, fria e sem vida, refletindo as luzes duras do hospital. Não significava nada. Ele não significava nada.

Uma calma profunda, fria e resoluta, tomou conta de mim. Não haveria mais espera. Não haveria mais esperança. Não haveria mais apego ao fantasma de um amor que nunca existiu de verdade. A exaustão que senti mais cedo não era apenas física; era profunda na alma, um esgotamento completo e absoluto de toda a esperança.

Eu me levantei, lentamente, a camisola dura do hospital farfalhando ao meu redor. "Preciso sair daqui", disse à enfermeira, minha voz firme, desprovida do tremor que eu esperava.

Ela pareceu surpresa. "Mas o médico ainda não lhe deu alta, Sra. Ferraz. Você teve uma queda de pressão severa, provavelmente devido ao estresse."

"Estou bem", insisti, balançando as pernas para fora da cama. "Só preciso ir para casa." Ou para algum lugar que não fosse aqui, algum lugar onde Bruno não estivesse.

Assinei os papéis de alta contra o conselho médico, peguei meus poucos pertences e chamei um carro. Não esperei a "reunião urgente" de Bruno terminar. Não esperei por sua ligação. Eu simplesmente fui embora.

No carro, voltando para a casa que se tornara minha gaiola dourada, senti uma estranha sensação de libertação. Foi um pequeno ato de desafio, mas pareceu monumental. Eu não estava mais esperando por sua permissão, sua presença, suas migalhas de atenção. Eu estava agindo por mim mesma. Me perguntei se ele sequer notaria que eu tinha ido embora. Provavelmente não até que seu assistente lhe contasse.

Meu telefone tocou, um som estridente e chocante que me fez estremecer. Era Bruno. Meu dedo pairou sobre o botão 'atender', um lampejo do velho hábito. Mas então me lembrei de seu sorriso, do olhar triunfante de Stéfany, da humilhação pública. A voz dele, alta e raivosa, explodiu pelo alto-falante. "Elisa, onde diabos você está? Meu assistente acabou de me dizer que você saiu do hospital! Por que você é sempre tão dramática? Você tem ideia de como isso pega mal pra mim?"

Encostei a cabeça na janela fria, observando as luzes da cidade se tornarem um borrão. Ele não estava preocupado comigo. Ele estava preocupado com sua imagem. Sua reputação. Sua fachada cuidadosamente construída. A raiva, aguda e quente, explodiu dentro de mim, mas foi rapidamente substituída por algo mais frio, mais perigoso: pena.

"Você realmente achou que eu ficaria esperando por você, Bruno?", perguntei, minha voz calma, quase sem emoção. "Depois do que eu vi hoje à noite? Depois do que todo mundo viu hoje à noite?"

Houve uma pausa, uma batida de silêncio atordoado do lado dele. "Não foi nada, Elisa! Apenas um ato para as câmeras. Você sabe como é a indústria." Sua voz era rude, uma defesa familiar. "Stéfany é apenas uma cliente."

"Uma cliente que você beija em público?", contrapus, uma risada seca e sem humor escapando dos meus lábios. "Uma cliente cuja mão você segura depois que ela 'acidentalmente' esbarra em você em um corredor?" Lembrei-me de tê-los visto uma vez, um toque casual de mãos, um olhar que dizia muito. Nunca foi apenas uma cliente. Nunca foi nada.

Ouvi vozes abafadas ao fundo, depois uma risadinha de mulher. Parecia Stéfany. Uma nova onda de náusea me invadiu, não do meu colapso recente, mas da pura audácia de suas mentiras, da proximidade da presença dela mesmo agora.

"Não seja ridícula", Bruno estalou, sua voz perdendo a calma forçada. "Você está exagerando. Você sempre exagera. Agora, me escute, Elisa. Seu avô já está fazendo perguntas. Você precisa voltar para casa, ficar quieta e deixar isso passar. Caso contrário, haverá consequências. Para você e para o cancioneiro do seu pai."

A velha ameaça. A alavanca familiar. Costumava funcionar. Costumava me congelar, me tornar complacente, desesperada para proteger a única coisa que me restava do meu pai. Mas algo havia mudado. A dor no meu coração ainda estava lá, mas não era mais uma ferida que sangrava. Era uma cicatriz, endurecida e dormente.

Um sorriso frio e sem alegria tocou meus lábios. "Consequências? Bruno, querido, você não tem ideia do que consequências realmente significam." Minha voz era firme, inabalável. "Você acha que ainda pode me controlar com promessas e ameaças veladas? Você acha que eu ainda sou aquela garota ingênua que acreditava nas suas mentiras?"

Não esperei por sua resposta. Apenas encerrei a chamada, o clique do telefone ecoando no carro silencioso. Foi bom. Foi chocante e assustadoramente bom.

Quando o carro entrou na garagem, notei meu telefone vibrar novamente. Uma notificação. Não era Bruno. Era da conta pública do Instagram de Stéfany Aguiar. Uma nova postagem. Meu dedo, quase por conta própria, tocou a tela.

Era uma foto. Uma selfie borrada e íntima de Stéfany e Bruno, mais cedo naquela noite, provavelmente tirada momentos após o beijo deles. A cabeça dela estava aninhada contra o ombro dele, seus olhos semicerrados em um olhar de contentamento possessivo. O braço dele ainda estava em volta da cintura dela. E na mão esquerda dele, brilhando no flash da câmera, estava sua aliança de casamento. Minha aliança de casamento.

A legenda dizia: "Uma noite incrível com o melhor produtor do mundo! Tão abençoada por ter você na minha vida. #industriadamusica #abençoada #bonsmomentos"

E então, logo abaixo, um único emoji de coração vermelho. De Bruno Almeida.

Minha respiração falhou novamente, mas desta vez, não foi de choque ou dor. Foi de uma raiva silenciosa e ardente. Ele havia curtido a postagem dela. Ele havia endossado a declaração pública do caso deles, enquanto ainda usava minha aliança, zombando do nosso casamento, de mim. Não era sobre a indústria, sobre vender escândalo. Era sobre humilhação. Minha humilhação.

Meu olhar caiu para minha própria mão esquerda, para a aliança idêntica que ainda estava no meu dedo. Parecia quente, marcando minha pele. Parecia uma mentira. Com um puxão decisivo, eu a tirei, o metal frio deslizando facilmente sobre minha junta. Eu a segurei na palma da mão, um pequeno e brilhante pedaço de metal. Não representava nada. Estava vazio.

Meu polegar se moveu, pairando sobre o aplicativo do Instagram. Meu próprio perfil. Minha última postagem era uma foto do nosso jantar de aniversário, seis meses atrás. Um sorriso forçado, uma legenda esperançosa sobre "para sempre". Parecia uma vida inteira atrás.

Digitei uma nova legenda, meus dedos voando sobre a tela com uma velocidade nascida da fúria fria: "Chega de esperar por alguém que nunca ia voltar para casa. Às vezes, a coisa mais corajosa que você pode fazer é ir embora. E destrancar uma porta que você nunca soube que existia."

Não marquei ninguém. Não precisei. A mensagem era clara. Em seguida, apaguei todas as fotos de Bruno e de mim, cada memória, cada mentira, apagando-as da minha pegada digital, assim como eu estava tentando apagá-las do meu coração. Então, com um suspiro que pareceu me livrar de um fardo pesado, cliquei em "postar".

Fiquei ali por um momento, olhando para o dedo nu onde minha aliança costumava estar. Parecia leve, livre. A porta metafórica havia sido destrancada. E pela primeira vez em anos, o peso esmagador em meu peito se ergueu, substituído por uma sensação oca, aterrorizante, mas emocionante de liberdade.

Naquela noite, pela primeira vez em tanto tempo quanto eu conseguia me lembrar, não deixei uma luz acesa para Bruno. Não coloquei um lugar extra na mesa para o café da manhã. Não esperei. Simplesmente me deitei na cama, puxei as cobertas até o queixo e caí em um sono profundo e sem sonhos. O silêncio da casa não era solitário, mas pacífico. Sereno.

Eu costumava preparar o café da manhã de Bruno todas as manhãs, escolhendo cuidadosamente sua mistura de café favorita, sua marca específica de torrada. Eu acordava antes do amanhecer, apenas para garantir que tudo estivesse perfeito. Ele mal olhava, às vezes empurrando o prato com um aceno desdenhoso. "Não estou com fome", ele murmurava, ou "Isso não está bem certo." Uma vez, ele até zombou: "Você ao menos sabe o que é comida boa, Elisa? Isso é sem graça, assim como todo o resto em você." Ele tinha um jeito de transformar cada esforço que eu fazia em uma arma contra mim.

Percebi então, enquanto a escuridão pacífica me envolvia, que ele nunca gostou da minha comida. Ele nunca gostou de nada em mim. E a luz que eu deixava acesa para ele, um farol de esperança no escuro, sempre foi para um homem que não estava apenas atrasado, mas que nunca chegaria.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Elisa Ferraz:

O toque estridente do meu celular me arrancou do sono mais profundo que eu tive em anos. Tateei em busca dele, o coração martelando contra minhas costelas, convencida de que era Bruno, furioso com minha postagem nas redes sociais. Mas não era. Era um número desconhecido. Franzi a testa. Olhei para o relógio. 3 da manhã.

Atendi com cautela. "Alô?"

"Elisa? É o Gui. Seu irmão." A voz dele era áspera, carregada de uma urgência que instantaneamente me deixou em alerta. "Você está bem? Acabei de ver a postagem da Stéfany Aguiar e... a sua. Que diabos aconteceu?"

Meu alívio inicial por não ser Bruno foi rapidamente substituído por uma nova onda de pavor. Gui sabia. Meu irmão, meu protetor, a única pessoa que sempre viu através da fachada polida de Bruno, agora sabia a extensão total da minha humilhação pública.

"Estou bem, Gui", eu disse, tentando infundir em minha voz uma confiança que eu não sentia. "Bruno e Stéfany estavam fazendo um show na festa. Eu só... eu vi."

"Um show?", Gui zombou, sua voz afiada com incredulidade. "Elisa, aquilo não foi show nenhum. Ele estava com as mãos por todo o corpo dela, e ela estava praticamente sentada no colo dele. E sua postagem... Você apagou tudo. É isso? Você finalmente terminou?"

Suas palavras, diretas e honestas, rasgaram a paz frágil que eu havia encontrado. "Sim, Gui. Eu terminei." As palavras pareceram pesadas, mas também libertadoras.

"Bom", ele disse, e eu quase pude ouvir o alívio feroz em sua voz. "Porque estou indo para aí. E vamos tirar você de lá. Você merece muito mais do que aquele desgraçado."

Antes que eu pudesse responder, um barulho alto ecoou do andar de baixo. Meu sangue gelou. Não era Gui. Era outra pessoa. Alguém na casa.

"Gui, preciso desligar", sussurrei, minha voz mal audível. "Tem alguém aqui."

Desliguei, meus dedos tremendo. Meu coração batia tão forte que pensei que poderia explodir através do meu peito. A casa estava silenciosa novamente, exceto pela batida frenética do meu próprio pulso em meus ouvidos. Lentamente, cautelosamente, saí da cama. Meus pés descalços mal faziam barulho no tapete macio.

Enquanto eu descia as escadas furtivamente, uma figura emergiu das sombras da sala de estar. Era Bruno. Ele estava ali, desgrenhado, seu terno caro amassado, um olhar selvagem em seus olhos. Ele fedia a álcool e a um tipo desesperado de raiva.

"Elisa", ele arrastou as palavras, sua voz baixa e ameaçadora. Ele se lançou para frente, agarrando meu braço, seus dedos cravando em minha carne. Seu aperto era forte, doloroso. Seu rosto era uma máscara de fúria, sua mandíbula cerrada, olhos estreitados em fendas.

"O que você pensa que está fazendo?", ele rosnou, me puxando para mais perto. Seu hálito quente em meu rosto fedia a uísque. "Apagando nossas fotos? Postando mensagens enigmáticas? Você sabe o quanto de problema você causou esta noite?"

Ele estava me sacudindo, seu aperto se intensificando. Eu me senti como uma boneca de pano, totalmente impotente contra sua força. A lembrança de suas fúrias passadas, sua frieza, sua crueldade casual, inundou minha mente. Eu não era nada mais do que um objeto para ele, uma posse. O nojo cresceu dentro de mim, uma bile amarga que subiu pela minha garganta. Eu recuei, instintivamente me afastando de seu toque, um arrepio de repulsa percorrendo minha espinha.

Os olhos de Bruno, vidrados de álcool, brilharam com um ódio cru e feio. "Não olhe para mim assim, Elisa", ele rosnou, sua voz grossa de acusação. "Não finja que está com nojo. Você só está com raiva porque pensou que me tinha. Você pensou que finalmente me pegou." Ele zombou, um escárnio torcendo seus lábios. "Todos esses anos, bancando a esposa inocente e sofredora. Mas eu te conheço, Elisa. Você é tão calculista quanto o resto delas. Bancando a vítima para conseguir o que quer. Você achou que eu não descobriria sobre sua pequena ligação para o Vovô? Tentando usar a 'preocupação' dele para me pressionar?" Ele imitou o tom severo do Vovô Almeida, uma zombaria cruel. "Parabéns, querida. Você certamente agitou as coisas."

Meus olhos arderam, mas me recusei a chorar. Eu não lhe daria a satisfação. Eu não o deixaria ver a dor que ele infligia. Engoli o soluço que ameaçava explodir, cerrando a mandíbula. Meu estômago se revirou, uma dor surda começando a se espalhar.

Eu o odiava. Eu o odiava verdadeira e profundamente. E a percepção foi ao mesmo tempo aterrorizante e emocionante.

Lembrei-me de um tempo em que seu toque era suave, quando sua risada era genuína, quando seus olhos continham calor em vez de desprezo. Nós nos conhecíamos desde a infância, nossas famílias entrelaçadas por negócios e círculos sociais. Ele tinha sido o garoto charmoso e travesso, eu a garota quieta e observadora. Eu o vi crescer, o vi tropeçar, e sempre, sempre o amei. Quando ele me pediu em casamento, me convenci de que era real, que ele também me amava, apesar da crescente distância em seus olhos.

Foi depois de sua primeira namorada séria, uma artista vibrante chamada Ana, que ele mudou. Vovô Almeida desaprovou veementemente Ana, chamando-a de "inadequada" para o império Almeida, citando sua natureza imprevisível e falta de "visão de negócios". Ele ameaçou cortar Bruno, deserdá-lo, se ele não terminasse as coisas. Bruno, sempre ambicioso, sempre buscando a aprovação de seu avô, acabou partindo o coração de Ana. Ele nunca se recuperou completamente.

Depois disso, o calor em seus olhos se transformou em gelo. Ele se tornou mais frio, mais distante, seu charme substituído por cinismo. Ele me ressentia, ressentia nosso noivado forçado, me vendo como a opção "segura", aquela que seu avô aprovava. Eu era o atalho que ele foi forçado a pegar, um lembrete constante do amor que ele teve que abandonar. Ele me atormentava porque eu era um alvo fácil, uma substituta para seus próprios desejos frustrados. Eu me tornei o bode expiatório para uma vida que ele sentia ser ditada por outros.

Ele frequentemente encontrava maneiras mesquinhas de me punir. Como da vez em que me forçou a beber uma garrafa inteira de champanhe em uma festa, sabendo que eu tinha uma alergia severa, apenas para ver meu rosto corar e minha respiração ficar difícil. Ele assistiu, indiferente, enquanto seus amigos corriam para me ajudar. Ou as vezes em que ele me ligava tarde da noite, bêbado, exigindo que eu o buscasse em algum bar, mal reconhecendo minha presença no carro, apenas para perguntar friamente: "Tem certeza de que não se importa, Elisa? Eu não gostaria de incomodar minha esposa." E como uma tola, eu sorria, dizia "Claro que não, Bruno", acreditando que, ao ser indispensável, eu poderia de alguma forma fazê-lo me amar.

Acordei na manhã seguinte, meu corpo doendo, minha cabeça latejando. O quarto estava uma bagunça, roupas espalhadas por toda parte, um leve cheiro de álcool velho no ar. Bruno tinha ido embora, claro. Sempre ia. A vergonha me invadiu, uma onda sufocante que ameaçava me afogar. Eu lhe dei tudo, e ele não me deu nada além de dor e desprezo.

Eu me agarrei à ilusão de que nosso casamento, forçado como foi, poderia de alguma forma reacender o afeto inocente que uma vez compartilhamos. Mas cada dia que passava apenas destacava o abismo entre nós, um abismo preenchido com seu ressentimento e meu amor não correspondido. Ele não apenas não gostava de mim; ele me odiava. A verdade, nua e brutal, se instalou em meu coração.

"Por que não podemos ser normais, Bruno?", sussurrei, a pergunta escapando dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-la. O silêncio no quarto foi minha única resposta.

Às vezes, depois de uma de suas explosões, ele deixava uma única rosa vermelha no meu travesseiro, ou uma pequena caixa de chocolates. Gestos vazios, eu sabia mesmo então, mas um pequeno lampejo de esperança, do garoto que eu conheci, sempre se acendia. Eu acordava, encontrava o gesto, e ele já teria ido embora, me deixando a questionar se era um sinal de remorso ou apenas mais uma manipulação.

Nesta manhã, porém, não havia nada. Nenhuma rosa, nenhum chocolate, apenas a cama fria e vazia ao meu lado. A casa estava quieta, quieta demais.

Enquanto eu descia a grande escadaria, a governanta, Dona Célia, uma mulher gentil com uma expressão perpetuamente preocupada, deu um passo à frente. "Dona Elisa, o Sr. Bruno perguntou sobre o almoço. Ele disse para preparar o de sempre."

Franzi a testa. O de sempre? Bruno era notoriamente exigente. Ele tinha uma dieta específica, uma preferência por ingredientes orgânicos, de origem local, preparados por mim. Eu costumava passar horas debruçada sobre livros de receitas, experimentando, tentando criar algo que finalmente ganhasse seu elogio, um sorriso genuíno. Ele frequentemente reclamava da falta de sabor da comida de restaurante, de como apenas minha culinária realmente entendia seu paladar.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios. "Não", eu disse, minha voz firme, surpreendendo até a mim mesma. "Diga ao Sr. Bruno que ele terá que fazer seus próprios arranjos para o almoço hoje."

Os olhos de Dona Célia se arregalaram. Ela nunca me ouviu falar com Bruno daquele jeito, nunca me viu recusar-lhe algo. Um lampejo de triunfo, rapidamente suprimido, cruzou meu rosto. A desculpa da "reunião urgente" que a enfermeira me deu, a exibição pública com Stéfany e sua fúria bêbada na noite passada finalmente selaram a questão. Ele não era apenas indiferente; ele era ativamente cruel. E eu estava cansada de ser sua vítima voluntária.

Pensei na notificação legal que havia chegado ontem, enterrada sob uma pilha de correspondência inútil. Meu irmão, Gui, a havia enviado. Era um rascunho para o processo de divórcio. Eu a descartei então, outra "reação exagerada" do meu irmão ferozmente protetor. Mas agora, parecia uma tábua de salvação.

O peso da minha própria tolice passada me pressionou. Eu disse a mim mesma que ele se casou comigo porque me amava secretamente, porque nossas famílias haviam arranjado, porque era o 'destino'. Mas ele se casou comigo porque seu avô, Caetano Almeida, o formidável CEO da Almeida Music, havia orquestrado tudo. Caetano não se importava com amor; ele se importava com ativos. O cancioneiro inédito do meu pai era uma mina de ouro, e eu era a chave. Bruno era simplesmente um peão, forçado a garantir a maior conquista da família. E eu, em meu amor ingênuo, caí feito uma patinha na armadilha.

Os papéis do divórcio, antes um símbolo aterrorizante de fracasso, agora pareciam uma promessa. Uma promessa de liberdade.

"Sim, Dona Elisa", disse Dona Célia, um leve sorriso tocando seus lábios. "Vou avisá-lo."

Eu sabia, com uma certeza que se instalou profundamente em meus ossos, que este casamento havia acabado. Havia acabado há muito tempo. E agora, eu estava finalmente pronta para admitir isso.

Minha mão alcançou o telefone. Eu tinha uma advogada para ligar.

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