Capítulo 2

A festa de despedida de Miguel tomava conta da pequena rua da nossa comunidade, com música alta e o cheiro de churrasco no ar. Sofia, uma costureira de mãos calejadas e coração imenso, olhava para o filho com um orgulho que mal cabia no peito. Miguel, seu menino, seu primogênito, havia conseguido o que parecia impossível: uma bolsa de estudos em um clube de futebol na Europa. Ele era o sol em torno do qual a vida dela girava.

"Mãe, para de me olhar assim, vou ficar com vergonha", disse Miguel, rindo, enquanto abraçava os amigos que vinham parabenizá-lo.

Sofia sorriu. A vida inteira dela foi dedicada a ele, a garantir que ele tivesse todas as oportunidades que ela nunca teve. Vê-lo ali, radiante, carismático, com um futuro brilhante pela frente, fazia cada sacrifício valer a pena.

A celebração estava no auge quando a música parou de repente.

As risadas morreram. Todos se viraram para a entrada da rua, onde Carmen, a vizinha e amiga de longa data de Sofia, estava parada. Ao seu lado, o marido, Zé, um homem com o rosto marcado pelo álcool e pela preguiça. E um pouco atrás deles, encolhido na sombra, estava Pedro, o filho do casal. Pedro, com sua perna que se arrastava e os olhos que nunca encontravam os dos outros, era uma figura conhecida e frequentemente alvo das piadas cruéis das outras crianças.

"Carmen? Zé? O que vocês estão fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa?", perguntou Sofia, limpando as mãos no avental, uma sensação estranha começando a se formar em seu estômago.

Carmen deu um passo à frente, um sorriso perverso se formando em seus lábios. Seus olhos, cheios de uma inveja que Sofia conhecia bem, passaram por cima de todos e se fixaram em Miguel.

"Aconteceu, sim, Sofia. Aconteceu que eu cansei de mentiras" , a voz dela era alta, cortante, feita para que todos ouvissem. "Eu vim buscar o que é meu".

Um silêncio pesado caiu sobre a festa. Ninguém entendia o que ela queria dizer.

Carmen apontou um dedo trêmulo para Miguel, que agora olhava para ela, confuso.

"Ele não é seu filho, Sofia. Miguel é meu filho!"

A acusação explodiu no ar como uma bomba. As pessoas ofegaram. Sofia sentiu o chão sumir sob seus pés, mas se manteve firme. Miguel ficou pálido, seu sorriso desapareceu completamente.

"O que você está dizendo, Carmen? Você enlouqueceu?" , gritou um dos vizinhos.

"Louca? Eu não estou louca!" , Carmen rebateu, sua voz subindo para um tom histérico. "Eu dei a ele a melhor vida que ele poderia ter! Com você, Sofia! Uma vida que eu não podia dar. Eu fiz isso por amor! Para que ele não acabasse como..." , ela parou e olhou com desprezo para Pedro, que se encolheu ainda mais.

Carmen então virou-se para Sofia, com um ar de desafio.

"E aquele ali", ela apontou para Pedro, com um nojo evidente, "aquele é o seu filho de verdade".

Todos os olhares se voltaram para Pedro. O menino parecia um fantasma, magro, com roupas gastas e uma cicatriz feia que descia pela bochecha. Ele tremia, assustado com a atenção repentina, e agarrou a calça do pai, que nem se moveu. A diferença entre ele e Miguel era brutal. Miguel era a personificação da saúde e da confiança, Pedro era a imagem do abandono.

Miguel olhou de Pedro para Sofia, o pânico crescendo em seus olhos.

"Mãe? Mãe, o que ela está falando? É mentira, não é?"

Sofia olhou para o rosto aterrorizado do filho que criou. Ela viu o medo, a confusão. Mas dentro dela, uma calma fria se instalou. Uma calma que vinha de um segredo guardado por quase duas décadas. Ela não estava chocada. Ela estava esperando por este dia. O olhar dela encontrou o de Carmen, e por um instante, a falsa amizade de anos se desfez, revelando apenas o ódio e a rivalidade.

Carmen, ignorando o caos que criou, caminhou em direção a Miguel, tentando forçar um sorriso maternal.

"Miguel, meu filho. Eu sou sua mãe de verdade. Eu sei que é um choque, mas eu estou aqui agora. Eu nunca deixei de te amar".

As palavras dela eram doces, mas seus olhos brilhavam com ganância. Ela queria o filho famoso, o filho de sucesso.

"Que mulher sem vergonha!", uma vizinha comentou em voz baixa.

"Fazer isso com a Sofia, depois de todos esses anos... e com o próprio filho...", disse outro, olhando com pena para Pedro.

A comunidade, que antes celebrava Miguel, agora olhava para Carmen com repulsa. A festa de despedida havia se transformado em um tribunal a céu aberto, e o veredito contra Carmen já estava sendo formado no coração de todos os presentes.

Capítulo 3

Zé, o marido de Carmen, finalmente se moveu. Ele deu um passo à frente, com um sorriso debochado no rosto.

"O que foi? Estão surpresos?", ele disse, sua voz arrastada pela bebida. "A Carmen só fez o que qualquer mãe faria. Queria o melhor para o filho dela".

Ele olhou para Pedro com um desprezo que fez o estômago de Sofia revirar. A atitude dele era de total indiferença, como se o menino fosse um objeto sem valor.

Carmen, encorajada pelo marido, continuou seu discurso.

"Ele teve um pequeno acidente quando era criança, só isso. Coisa de menino", disse ela, minimizando a deficiência de Pedro com uma crueldade casual. "Mas com o Miguel, eu sabia que a Sofia cuidaria bem. E olhem só, eu estava certa! Um jogador de futebol famoso!"

Zé soltou uma gargalhada.

"Acidente? Eu disciplinei ele, isso sim. Esse moleque era teimoso, precisava aprender a obedecer", ele disse, como se estivesse se gabando de um grande feito. "Uma boa surra de vez em quando não faz mal a ninguém. Endireita a criança".

A multidão murmurou em choque. A crueldade com que eles falavam do menino era inacreditável.

Nesse momento, uma garota de uns dezesseis anos, com a mesma expressão arrogante da mãe, saiu de trás de Zé. Era Clara, a filha mais nova do casal. Ela olhou para Pedro com um sorriso maldoso.

"Ele é um aleijado chorão, isso sim. Vive se escondendo pelos cantos. Dá até vergonha de ser irmã dele", disse Clara, em voz alta o suficiente para que todos ouvissem.

A humilhação pública era completa. Pedro parecia querer ser engolido pela terra.

Foi então que um vizinho mais corajoso, Seu Antônio, que viu Pedro crescer, não se aguentou.

"Acidente? Disciplina? Aquela cicatriz no rosto dele não foi um acidente, Zé! Nós todos sabemos que foi você quem jogou uma garrafa nele naquele dia em que você chegou bêbado em casa!"

A acusação pairou no ar, pesada e horrível.

Carmen e Zé não pareceram nem um pouco abalados. Na verdade, Zé sorriu.

"E se fui eu? Ele mereceu. Tentou me impedir de dar uma lição na mãe dele. Tinha que aprender o seu lugar", disse ele, com uma naturalidade que gelou o sangue de todos.

Miguel, que até então estava paralisado, explodiu.

"Cala a boca!", ele gritou para Zé, avançando na direção dele. "Seu monstro! Como você tem coragem de falar uma coisa dessas?"

Sofia segurou o braço de Miguel, impedindo-o de fazer uma besteira.

"Que tipo de gente são vocês?", Miguel continuou, sua voz tremendo de raiva e nojo. Ele olhou de Carmen para Zé, e depois para Clara. "Vocês são doentes! Como podem tratar alguém assim? Ainda mais o... o filho de vocês?"

Os vizinhos começaram a gritar também, a indignação finalmente vencendo o choque.

"Assassinos!"

"Covardes!"

"Chamem a polícia!"

Carmen, vendo que estava perdendo o controle da situação, tentou se defender. Seu rosto se contorceu em uma máscara de ódio e inveja, direcionada a Sofia.

"Vocês não entendem! Era para ser eu! Eu que deveria ter a vida boa! Mas a Sofia... ela sempre teve tudo! Sempre com esse ar de santa, de boazinha! Eu só peguei o que era meu por direito! O direito de ter um filho de sucesso!"

Ela olhou para Miguel, seus olhos brilhando com uma loucura triunfante.

"E funcionou! Olhem para ele! Meu plano funcionou! Ele é perfeito! E tudo graças à idiota da Sofia, que o criou para mim!", ela soltou uma gargalhada alta, estridente, que ecoou pela rua silenciosa.

A risada dela era o som da mais pura maldade, a celebração de um plano egoísta que destruiu uma criança e enganou uma comunidade inteira. Naquele momento, todos entenderam que não havia um pingo de remorso no coração de Carmen, apenas a satisfação de ter conseguido o que queria, custe o que custar.

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