Capítulo 2

A vida que eu não escolhi.

ADRIÁN SALVATORE PETRONIK

Eu não aviso quando vou. Nunca aviso. A minha ausência é sempre interpretada como estratégia, nunca como necessidade, e isso me convém. Em Barcelona, todos acreditam que cada movimento meu faz parte de um plano maior. O motorista supõe que estou indo negociar algo delicado demais para constar na agenda oficial. Minha assistente imagina que preciso de dois dias de silêncio antes de fechar contratos que movimentam cifras obscenas. O conselho prefere pensar que estou antecipando riscos invisíveis aos outros. Eles não perguntam porque aprenderam que respostas minhas raramente incluem explicações. Eu também nunca ofereço.

Dirijo sozinho.

A cidade se dissolve lentamente no retrovisor. Os prédios de vidro, as avenidas iluminadas, o cheiro constante de asfalto e combustível cedem espaço para a estrada que serpenteia em direção às montanhas. À medida que subo, o ar muda de textura. Ele se torna mais fino, mais cortante, carregado de umidade natural e resina fresca. O cheiro urbano desaparece, substituído pelo aroma de terra fria e folhas que começam a apodrecer sob o inverno. A pressão no peito, aquela tensão invisível que me acompanha entre reuniões e números, diminui gradualmente como se cada curva da estrada arrancasse um fragmento daquilo que preciso ser na cidade.

A lua ainda não alcançou o auge da lua cheia, mas já se impõe no céu com brilho suficiente para atravessar as copas das árvores. Ela não é apenas um objeto distante. É um pulso. Uma força silenciosa que pressiona por dentro. Não é metáfora. Não é romantização de instinto. É química, é sangue, é algo inscrito em mim antes mesmo de eu aprender a falar.

O chalé surge entre as árvores como se tivesse brotado da própria montanha. Madeira escura, telhado inclinado, janelas discretas que refletem a luz prateada. Nenhuma ostentação, nenhuma tentativa de impressionar. Apenas estrutura firme e isolamento absoluto. Aqui não existe a necessidade de provar nada.

Desligo o carro e o silêncio me envolve de forma quase palpável. Não há buzinas. Não há vozes humanas. Apenas o vento percorrendo as copas altas e o som distante de galhos roçando uns nos outros, como se a floresta respirasse em um ritmo próprio. O frio toca minha pele com honestidade. Ele não pede licença.

Entro no chalé e fecho a porta atrás de mim. O interior conserva o cheiro da madeira antiga aquecida por lareiras passadas. Há um leve traço de fumaça impregnado nas vigas, misturado ao aroma seco do couro do sofá e da cera aplicada na mesa maciça. Tudo está exatamente onde deixei, como se o tempo aqui fosse obediente à minha ausência.

Subo até o quarto com passos firmes. Tiro o relógio e o coloco sobre a cômoda. O peso do aço deixa meu pulso, marcando o fim temporário da identidade que carrego na cidade. Retiro o paletó, depois a gravata. Desabotoo a camisa devagar, sentindo o tecido deslizar pelos ombros. Cada peça que cai no chão é uma camada que abandono. Sapatos, meias, calça. Fico parado por um instante, respirando profundamente, deixando que o ar frio das montanhas entre nos pulmões e desça como algo necessário.

Caminho até os fundos do chalé e abro a porta que dá para a floresta. A noite me recebe sem cerimônia. A lua ilumina o terreno irregular, desenhando sombras longas que se movem com o vento. O cheiro da floresta é intenso. Terra úmida, musgo, resina fresca, pequenos animais escondidos sob folhas secas. Há vida por toda parte, mesmo no silêncio.

Fecho os olhos.

Deixo acontecer.

Não é dor. Nunca foi dor. É expansão. Os ossos se ajustam com naturalidade ancestral. A pele vibra sob uma energia que não precisa de explicação. A audição se amplia, captando o menor ruído a centenas de metros. O cheiro da noite se desdobra em camadas complexas, cada uma identificável. Quando abro os olhos novamente, o mundo não é menor. Ele é mais vasto. Ou talvez eu finalmente esteja completo dentro dele.

Desço o declive atrás do chalé e entro na floresta. Corro com precisão absoluta, desviando de troncos e raízes como se cada obstáculo fosse parte de um percurso conhecido desde sempre. O vento atravessa o corpo com força cortante. O coração pulsa firme, sincronizado com a noite. Aqui não existem acionistas. Não existem relatórios. Não existem expectativas. Apenas o chão sob minhas patas e a liberdade crua de ser inteiro.

O cheiro muda antes que eu veja qualquer coisa.

Não é natural.

Metal. Pólvora recente. Suor humano misturado a adrenalina. A floresta deixa de ser apenas território e se torna campo de ameaça. Reduzo o ritmo, mas não paro completamente. Meus sentidos se expandem ainda mais, rastreando a origem daquele odor intruso. Entre as árvores, a poucos metros, percebo o contorno rígido de um homem segurando uma espingarda com força excessiva. O cheiro dele é instável, carregado de medo mascarado por raiva. Mais atrás, quase oculto pela sombra de um pinheiro, outro observa com atenção calculada.

Caçadores.

O primeiro ergue a arma com mãos que traem sua própria coragem.

- Morre, monstro.

O disparo rompe o ar, espalhando o cheiro de pólvora quente. A bala atravessa o espaço onde eu estava um instante antes. Um segundo tiro vem logo depois, mais apressado, mais desesperado.

Eu poderia fugir. Conheço cada inclinação do terreno melhor do que eles jamais conhecerão. Mas não recuo.

Avanço.

A distância desaparece em um salto preciso. O homem tenta recuar, mas o medo paralisa seus reflexos. Minhas presas encontram a jugular dele com eficiência direta. O sangue é quente e intenso, espalhando um cheiro ferroso que se mistura ao frio da noite. O corpo dele cede rapidamente, a espingarda caindo sobre as folhas secas com um som oco.

Não há espetáculo. Não há celebração. Apenas instinto. Defesa.

O segundo homem observa, imóvel, enquanto o medo altera completamente o cheiro dele. Nossos olhares se cruzam sob a luz prateada da lua. Ele entende o que está diante dele. Entende que não é mito, não é delírio, não é ficção.

Eu não avanço sobre ele.

Ele recua lentamente, depois desaparece entre as árvores, levando consigo a intenção de retornar com mais do que armas.

Permaneço parado por alguns segundos, escutando além do vento. A floresta retoma seu ritmo cauteloso. O corpo aos meus pés já não representa ameaça.

Eles estão aqui.

E não vieram por acaso.

Retorno ao chalé com passos firmes. A transformação acontece novamente sob a lua que continua indiferente ao sangue derramado. Quando volto à forma humana, o frio atinge a pele com mais intensidade. Entro, fecho a porta e me apoio por um momento na madeira sólida.

O ar dentro do chalé carrega agora o cheiro distante de sangue e pólvora trazido comigo.

Pego uma toalha e limpo as mãos com movimentos controlados, como se pudesse remover o peso do que aconteceu. Não há culpa. Não há orgulho. Apenas a constatação de que o mundo que tentei manter distante começa a se aproximar.

Seguro o relógio, mas não o coloco.

Fico parado.

A lua ainda brilha lá fora, iluminando a floresta que agora guarda um segredo a menos.

Eu não estou sozinho nessas montanhas.

E não falo apenas do homem que morreu.

Alguém estava observando de longe.

E dessa vez não fugiu apenas por medo.

Fugiu para avisar.

Capítulo 3

Quando a elegância tem outro nome, e não é lar.

RÚBIA VALLEN MOREAU

28 anos

O inverno de Paris sempre chega assim, pesado, como se a cidade colocasse um casaco por cima de tudo e decidisse respirar mais devagar. Eu nunca gostei do frio. Não do jeito romântico que as pessoas gostam, como se o gelo nas mãos fosse poesia e o vento cortante no rosto fosse charme. O frio me deixa alerta, me deixa impaciente, me deixa com vontade de estar em outro lugar, com outra luz, outro cheiro, outra temperatura. Ainda assim, eu aprendi a conviver com ele, porque Paris ensina isso a qualquer um que se atreva a chamá-la de lar.

Minha mãe adotiva dizia que o frio deixa a mulher elegante. Ela falava com a certeza de quem acreditava que elegância era uma escolha e não um acaso. Casacos pesados, luvas de couro, botas que soam firmes no chão, tecido bem cortado, perfume discreto que sobrevive à brisa gelada.

Pode ser. Eu só sei que a elegância do frio é uma elegância de armadura, como se as camadas fossem necessárias para o corpo e para a alma.

Se existe uma vantagem, é que o inverno tem seus pequenos consolos. A lareira acesa no fim do dia. O chocolate quente espesso o suficiente para parecer abraço. Um cappuccino bem tirado, com espuma cremosa e aroma de café que invade a cabeça e te lembra que você ainda está viva. Eu gosto disso. Gosto das coisas quentes quando o mundo se torna frio demais, talvez porque exista algo em mim que sempre buscou calor, mesmo sem admitir.

Eu cresci assim, buscando. Não respostas, porque respostas eu nunca tive, mas uma sensação. Um encaixe. Algo que dissesse, sem palavras, aqui é o seu lugar. Quando eu era pequena, antes mesmo de entender o que significa ser adotada, eu já sentia uma espécie de deslocamento silencioso, como se eu estivesse sempre um passo atrás do próprio corpo. Não era tristeza explícita, nem drama. Era uma ausência discreta, uma falta que eu não sabia nomear.

Foi por isso que comecei a desenhar.

Eu desenhava porque o papel me obedecia. Porque uma linha torta podia ser corrigida. Porque uma casa sempre podia ser melhorada. Eu não tinha poder sobre as perguntas sem respostas da minha vida, mas eu tinha poder sobre traços.

Aos sete anos, eu já rabiscava chalés e cabanas como se estivesse tentando inventar um refúgio que eu pudesse habitar por dentro.

Aos dez, comecei a desenhar prédios com varandas e janelas demais, sempre com a mesma obsessão: estrutura.

Minha mãe ria quando via meus cadernos. Dizia que eu não desenhava casas, eu desenhava proteção.

Ela não sabia o quanto estava certa.

Minha adolescência foi um roteiro de disciplina silenciosa. Eu era a garota que não dava trabalho, não fazia escândalo, não pedia demais, porque eu aprendi cedo que pedir demais poderia significar perder. Não de forma literal, mas emocional. Eu tinha uma família adotiva que me amava do jeito deles, e eu aprendi a amar de volta sem exigir além do que me ofereciam. Havia carinho, havia cuidado, havia rotina. E havia uma curiosidade que eu guardava como segredo, uma curiosidade sobre de onde eu vim, quem eu era antes de me tornar quem eu me tornei.

Na faculdade de arquitetura, tudo aquilo que eu fazia por instinto virou método. Eu entendi que minha cabeça não desenhava apenas por beleza. Eu pensava em peso, em vento, em segurança, em como o mundo tenta derrubar o que a gente constrói.

Eu me sobressaí rápido. Bolsa, concursos, projetos, prazos. A sensação de não pertencer continuava ali, só que agora eu tinha uma identidade que as pessoas respeitavam. Rúbia, a arquiteta. A jovem que projeta como se estivesse conversando com o terreno. A francesa de criação com nome espanhol, sotaque que as pessoas não sabem definir, sorriso fácil e olhos que ficam sérios rápido demais quando falam de estrutura.

Naquele dia, eu estava em um canteiro de obra em Paris, cercada por concreto, aço e vozes. O ar estava gelado, mas havia um sol tímido tentando tocar as fachadas. Eu usava capacete, casaco grosso e luvas, mas o frio ainda assim entrava pelas frestas, como sempre entra quando quer entrar. O som das máquinas era um tipo de música que eu conhecia bem, e eu gostava, porque trabalho bem feito tem som. Tem cheiro. Tem ritmo.

Eu atravessava o canteiro com uma prancheta na mão, rindo de alguma piada idiota que um dos engenheiros tinha acabado de fazer. Eu sempre fui assim. No meio do peso, eu encontro espaço para leveza. Talvez seja meu jeito de respirar. A equipe gostava de trabalhar comigo por isso. Eu cobrava muito, mas eu não esmagava ninguém. Eu perguntava, eu ouvia, eu ensinava quando pediam. Eu não precisava ser dura para ser respeitada.

Um dos pedreiros acenou para mim de longe e eu respondi com um gesto, avisando que depois iria olhar a parede que ele queria me mostrar. Um carpinteiro veio reclamar do vento que estava atrapalhando uma parte da instalação, e eu disse que vento não é desculpa, vento é variável. Ele riu, resmungando que eu falava como se fosse a própria natureza.

Eu ia responder quando o meu telefone vibrou no bolso do casaco.

O número era desconhecido, com código internacional.

Atendi por impulso, imaginando que pudesse ser alguma confirmação de fornecedor ou algo do tipo.

- Rúbia Vallen Moreau?

A voz era masculina, profissional, polida demais para ser improviso. Havia aquela cadência de gente que fala como se estivesse sempre em um escritório, mesmo quando não está.

- Sim. Sou eu.

- Aqui é da consultoria que representa um cliente interessado em um projeto residencial. Ele recebeu recomendações sobre seu trabalho e gostaria de marcar uma reunião.

Eu me afastei alguns passos do barulho das máquinas, procurando uma zona menos ruidosa entre os contêineres.

- Residencial onde? Paris?

- Não. Espanha.

A palavra Espanha me atravessou de um jeito que não fez sentido.

Eu senti como se o ar tivesse mudado, mesmo estando no mesmo lugar. Uma pressão discreta no centro do peito. Nada dramático, nada que alguém notasse. Apenas uma reação íntima, involuntária, como um reflexo que não pede permissão.

- Qual região? Perguntei, tentando manter o tom neutro, como se aquilo fosse apenas mais um trabalho.

- Montanhas. Próximo à fronteira. O cliente possui um terreno e deseja construir uma casa isolada.

Eu deveria ter sentido apenas interesse profissional. E eu senti, porque casa em montanha sempre me atraiu. Mas junto do interesse veio algo mais, uma sensação estranha de familiaridade, como se alguém tivesse pronunciado um nome que eu esqueci, mas o corpo lembrou.

- Montanhas onde exatamente? Insisti, já me irritando comigo mesma por me importar.

A voz do outro lado demorou meio segundo a mais do que o normal, como se consultasse algo.

- Região de acesso reservado. O cliente prefere discutir detalhes pessoalmente. Ele é extremamente reservado.

Aquela frase era para ser um aviso simples.

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