Ponto de Vista: Helena
A linha ficou muda, deixando um silêncio ensurdecedor. Por um longo momento, o único som era minha própria respiração, ofegante e irregular. Então, o telefone tocou de novo, vibrando violentamente na minha mão. Caio. Encarei o identificador de chamadas, uma resolução fria endurecendo meu rosto. Eu não ia atender. Não desta vez.
Ele ligou de novo. E de novo. Cada toque era um apelo desesperado, depois uma exigência, depois uma ameaça. Deixei tudo ir para a caixa postal, meu dedo pairando sobre o botão de bloquear. Ainda não. Eu precisava que ele ouvisse isso. Eu precisava dizer uma última vez, com cada fibra do meu ser.
Meu telefone vibrou com uma mensagem. Caio: Não se atreva a fazer isso, Helena. Não se atreva! Você vai se arrepender. Você vai voltar rastejando.
Meus lábios se curvaram em um sorriso sem humor. Rastejando? Nunca. Não depois de tudo.
O telefone tocou mais uma vez, e desta vez, eu atendi. "O que você quer, Caio?" Minha voz estava neutra, desprovida da emoção que ele provavelmente esperava.
"O que eu quero?" Sua voz era um rugido estrangulado, explodindo pelo alto-falante. "Que porra você pensa que está fazendo, Helena? Terminando? Assim? Depois de tudo que passamos? Você acha que eu sou um brinquedo descartável que você pode simplesmente jogar fora quando se cansa?"
"Descartável?" retruquei, uma risada aguda escapando de mim. "Você está falando de descartável? Quem era descartável quando eu estava deitada numa cama de hospital, mal conseguindo respirar? Quem era descartável quando eu mais precisei de você?"
Sua voz vacilou por um segundo, um lampejo de algo que soou quase como culpa. Mas foi rapidamente substituído por raiva. "Isso não é justo, Helena! A Bárbara precisava de mim! A avó dela estava perambulando por aí, confusa. Você estava só tendo um ataque de pânico, você já teve isso antes!"
As palavras me atingiram como um golpe físico, mesmo que eu as esperasse. Só um ataque de pânico. Ele disse isso com tanto desdém, como se meu corpo convulsionando e meus pulmões se recusando a funcionar fossem um pequeno inconveniente comparado ao drama fabricado de Bárbara.
Eu me lembrava daquela noite com uma clareza visceral. O ar parecia denso, pesado, pressionando meu peito. Cada respiração era uma luta, um suspiro desesperado por vida. Minha bombinha era inútil, minha visão embaçando nas bordas. Eu tinha ligado para o Caio, minha voz um coaxar desesperado. "Caio... não consigo respirar. Está ruim. Preciso de você."
Ele estava a caminho, acelerando pela cidade. Lembro-me do alívio, do fraco lampejo de esperança de que ele estaria lá, que me salvaria. Então o telefone dele tocou. A voz em pânico de Bárbara, frenética e exagerada, cortou a estática. "Caio! Meu Deus, a vovó sumiu! Ela simplesmente saiu andando! Eu não sei o que fazer! Estou com tanto medo!"
Ouvi Caio suspirar, um som frustrado, mas então sua voz suavizou. "Bárbara, calma. Estou chegando. Onde você está?"
Meu coração despencou. "Caio, não!" engasguei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Por favor, Caio! Eu estou morrendo! Preciso do hospital! Você disse que estava vindo pra cá!"
Ele hesitou. Uma pausa longa e agonizante onde minha vida estava em jogo. Então, sua voz, tingida com o que ele provavelmente achava que era razão. "Helena, a Bárbara está sozinha. A avó dela tem Alzheimer, isso é sério. Você só precisa tentar se acalmar. Respire fundo. Vou chamar uma ambulância para você. Estarei aí assim que puder, depois de ajudar a Bárbara."
Só se acalmar. Só um ataque de pânico. A memória era uma ferida aberta, infeccionada e podre. Eu tinha implorado, suplicado, até ameaçado nunca mais falar com ele se ele me deixasse. Ele simplesmente disse: "Não seja dramática, Helena. A Bárbara precisa mais de mim agora. Isso é uma emergência, a sua não é." E então, ele desligou.
Acabei chamando uma ambulância eu mesma, meus dedos trêmulos, minha visão turva. Eu estava sozinha quando os paramédicos chegaram. Sozinha quando me levaram às pressas para o pronto-socorro, me enchendo de oxigênio e medicamentos. Sozinha quando finalmente me estabilizei, fraca e aterrorizada, o fantasma de sua traição um peso frio no meu peito. Ele nunca apareceu. Nem naquela noite. Nem no dia seguinte. Ele finalmente me mandou uma mensagem dois dias depois, perguntando se eu já tinha "superado meu draminha".
"Não se preocupe, Caio", eu disse agora, minha voz pingando veneno, "eu não preciso tentar fazer você parecer que não se importa. Você faz um trabalho perfeito disso sozinho."
"Helena, você está sendo histérica!" ele gritou, me trazendo de volta ao presente. "A culpa é sua! É você que está jogando fora tudo que construímos! Você vai se arrepender! Você vai voltar implorando, eu juro por Deus que vai, e quando voltar, eu não vou te aceitar de volta! Não depois disso! Quer terminar? Ótimo! Mas não espere que eu fique esperando!"
Eu quase podia ver seu rosto, contorcido de raiva, sua mandíbula cerrada, seus olhos em chamas. Essa era sua tática de sempre. Gritar, culpar, ameaçar, e então me ver desmoronar e pedir desculpas. Mas eu não estava desmoronando. Não mais.
"Eu não vou implorar, Caio", eu disse, minha voz firme e fria. "E sabe qual é a parte engraçada? Eu não sinto absolutamente nada. Nenhum arrependimento. Nenhuma tristeza. Apenas... alívio."
Sua respiração engasgou. Ele claramente esperava uma briga, lágrimas, um apelo desesperado para que ele reconsiderasse. Não essa indiferença total.
Então, a voz açucarada de Bárbara, um sussurro que era para ser ouvido, flutuou do lado dele da chamada. "Caio, amor, não deixe ela te chatear. Ela só está descontando porque sabe que te perdeu. Ela sempre teve tanto ciúme da nossa amizade."
Revirei os olhos. A mesma ladainha de sempre. "Poupe-me, Bárbara", interrompi, minha voz afiada. "Sua atuação está ficando velha. E Caio? Antes de começar outro de seus discursos patéticos, saiba de uma coisa: estou indo aí para pegar minhas coisas. E então, acabou. Para sempre. Você e eu, somos estranhos."
Não esperei por sua resposta. Apenas desliguei. A finalidade do clique ecoou na sala silenciosa. Foi bom. Muito bom. Isso não era uma briga. Era uma execução. E eu era quem estava puxando o gatilho. A onda de raiva, a amargura, a dor – tudo estava se transformando em outra coisa. Algo limpo e resoluto. Foi o momento em que eu me escolhi. E eu sabia, com certeza absoluta, que nunca mais olharia para trás.
Ponto de Vista: Helena
Respirei fundo, um suspiro trêmulo, o telefone frio contra minha orelha. O silêncio do outro lado da linha era uma tela para todas as memórias, toda a dor, mas desta vez, parecia uma porta se fechando, não me prendendo, mas me libertando. Uma onda de exaustão me invadiu, mas por baixo dela, uma estranha leveza floresceu. Estava feito. Realmente feito.
Mais tarde naquela noite, no jantar de comemoração do prêmio, o tilintar de taças e a conversa alegre me envolviam. Meus colegas brindaram ao meu sucesso, seus sorrisos genuínos, seus elogios um cobertor quente. Mas mesmo em meio às felicitações, uma parte de mim se sentia distante, à deriva.
Pedi licença para ir ao banheiro, precisando de um momento de silêncio. Enquanto lavava as mãos, meu telefone vibrou com uma notificação do Instagram. Era o Caio. Ele tinha postado uma foto.
Meus dedos, quase contra minha vontade, tocaram para abrir. Era uma selfie. Caio, com o braço casualmente sobre os ombros de Bárbara. Ela estava encostada nele, a cabeça apoiada em seu ombro, um sorriso suave e adorador no rosto. Seus rostos estavam pressionados um contra o outro, uma imagem de intimidade perfeita e aconchegante.
A legenda dizia: "Finalmente encontrei a paz com quem realmente me entende. Algumas pessoas simplesmente nasceram para ficar juntas. #AlmaGêmea #ParaSempre."
Minha respiração falhou. Alma gêmea? Para sempre? As palavras foram um soco no estômago, mas não da maneira que poderiam ter sido semanas atrás. Agora, era uma dor surda, uma confirmação do que eu já sabia. Eles pareciam tão naturais juntos. Tão... certos. Um pensamento perverso passou pela minha mente: Eles realmente formam um casal bonito.
Bárbara já tinha comentado: "Não poderia concordar mais, meu amor. Sempre e para sempre."
Eu quase ri. Era tudo tão performático, tão desesperado, tão a cara deles. Quando Caio e eu começamos a namorar, ele costumava pregar sobre compartilhar. "Helena", ele dizia, seus olhos sérios, "compartilhar nossas vidas, nossos sonhos, nossas menores alegrias e maiores medos, essa é a base do amor verdadeiro. Contamos tudo um ao outro, certo? Sem segredos, sem se conter."
Ele queria saber cada detalhe do meu dia, cada pensamento na minha cabeça. E eu, ingênua e perdidamente apaixonada, tinha dado tudo. Eu me deliciava com isso, acreditando que esse compartilhamento aberto e ilimitado era um sinal de um amor que duraria para sempre. Eu compartilhava uma piada que ouvi, um momento frustrante no trabalho, uma nova ideia para um projeto. Ele ouvia, ou fingia ouvir, e eu me sentia vista, ouvida, amada.
Mas em algum lugar ao longo do caminho, Bárbara se infiltrou nesse espaço sagrado. De repente, minhas histórias eram recebidas com um aceno distraído, um rápido "uh-huh". Minhas frustrações eram "exageradas". Meus triunfos eram "sorte" ou "nada demais". E a vida dele? A vida dele se tornou um livro aberto apenas para Bárbara. Seus dias ruins eram para ela acalmar. Suas pequenas vitórias eram para ela celebrar. Meu desejo de compartilhar com ele murchou e morreu, substituído por um cansaço profundo.
"Helena? Tudo bem aí?" Minha colega, Sara, chamou do lado de fora da porta. "Eles estão prestes a cortar o bolo!"
"Já vou!" Bloqueei rapidamente meu telefone, afastando a imagem intrusiva de Caio e Bárbara. Eu não ia deixar que eles estragassem esta noite. Esta era a minha noite.
De volta à mesa, um fotógrafo estava reunindo todos para uma foto em grupo. Eu sorri, deixando meus colegas me puxarem para o grupo animado. Risadas explodiram quando o flash disparou. Vi a foto aparecer nas redes sociais minutos depois, marcada por uma dúzia de amigos. Meu sorriso estava brilhante, mas decidi conscientemente não repostá-la no meu próprio feed. Não precisava alimentar a fera.
Como se fosse um sinal, outra notificação brilhou na minha tela. Bárbara de novo. Desta vez, era um story. Um vídeo curto. Começava com as costas de Caio, sem camisa, enquanto ele vestia uma camiseta. Então, deu um zoom na mão dela, repousando possessivamente na parte inferior de suas costas nuas antes de se afastar rapidamente. A legenda: "Apenas uma manhã de terça-feira normal com minha pessoa favorita. Alguns laços simplesmente nasceram para ser inquebráveis. É bom finalmente estar em casa."
Casa. Ela estava morando com ele. No meu antigo apartamento. Meu estômago revirou. Ela estava esfregando na minha cara, girando a faca. Ela vinha fazendo isso há meses, sutilmente no início, depois mais abertamente. Fotos dela cozinhando na minha cozinha, deixando para trás seus elásticos de cabelo, "acidentalmente" esquecendo seu perfume na minha cômoda. Ela achava que eu não tinha notado. Ela achava que eu era cega.
E o Caio? Ele era ou alheio ou cúmplice. Provavelmente ambos. Ele sempre via Bárbara como a vítima indefesa, aquela que precisava ser salva. Ele nunca a viu como a mestre de marionetes calculista que ela era. Ele nunca viu como ela sistematicamente desmontou nosso relacionamento, tijolo por tijolo doloroso.
Meu telefone vibrou novamente, uma nova mensagem. Caio. "Helena, sobre suas coisas. Quando você vem buscar? A Bárbara quer se instalar."
Encarei a mensagem, uma fúria fria crescendo no meu peito. A Bárbara quer se instalar. Não nós, não eu. Era sempre a Bárbara. Não respondi. Apenas bloqueei a tela.
Então, uma segunda mensagem dele chegou. Desta vez, era uma foto. Uma foto da minha caneca favorita, aquela que comprei na nossa primeira viagem juntos, na bancada da minha cozinha. A mão de Bárbara, adornada com um anel delicado que eu já a tinha visto usar, estava em volta dela, seu polegar perfeitamente manicureado descansando exatamente onde o meu costumava ficar.
Meu sangue gelou. Aquela caneca. Era uma coisa pequena, mas era minha. Guardava memórias, manhãs tranquilas, sorrisos compartilhados. E agora, a mão dela, o anel dela, profanando-a. Uma onda de raiva possessiva, quente e afiada, me invadiu. Não era apenas sobre uma caneca. Era sobre ela invadir cada último canto da minha vida, meu espaço, minhas memórias.
Antes que eu pudesse reagir, outra mensagem. Um texto. "Helena, você realmente deveria vir buscar suas coisas. A Bárbara está começando a se sentir desconfortável com suas coisas por aqui."
Desconfortável? Minha mandíbula se apertou. Isso era uma provocação deliberada. Ela estava me atiçando. E Caio, covarde como sempre, era seu mensageiro.
Então, a mensagem final. Um vídeo. Meu coração deu um salto, uma premonição doentia torcendo minhas entranhas. Eu não queria abrir. Eu sabia, com uma certeza terrível, que o que quer que estivesse naquele vídeo seria pior do que qualquer coisa que ela havia postado antes. Mas um medo primitivo, frio e pesado, me compeliu. Meu polegar, tremendo levemente, pressionou o play.