Ponto de Vista de Clara Bastos:
O ar da manhã estava fresco e nítido quando saí do prédio, uma pequena bolsa com os artigos de higiene da minha mãe e uma muda de roupa limpa pendurada no ombro. Ana ainda estava dormindo, descansando pacificamente antes da transferência. Eu tinha algumas horas livres, e a ideia de ficar naquele apartamento silencioso e tenso era insuportável.
Eu estava indo para o meu carro quando um sedã preto e elegante parou no meio-fio. Meu coração parou. Era o de Ricardo.
A janela do passageiro desceu, e ele se inclinou, o rosto uma máscara cuidadosamente construída de preocupação gentil. "Clara. Eu estava vindo ver a Ana. Entre, eu te levo para o hospital."
Parei na calçada, agarrando a alça da minha bolsa. "Eu só ia tomar um café", eu disse, minha voz tensa.
"Eu posso te pagar um café", ele insistiu, seu tom razoável, paciente. Era a voz que ele usava para explicar um procedimento complexo a uma família preocupada, projetada para acalmar e tranquilizar. "Vamos. Não seja assim."
Ele estava adiantado. Ele nunca estava adiantado. No último ano, à medida que sua "amizade" com as Tavares se intensificou, suas visitas à minha mãe diminuíram para quase nada. Ele estava sempre "preso em cirurgia" ou "atolado em consultas". A última vez que ele veio comigo para um dos check-ups dela, ele passou o tempo todo mandando mensagens, o rosto iluminado pelo brilho do celular.
Agora, de repente, ele tinha todo o tempo do mundo.
"Ricardo, eu posso dirigir", eu disse, mantendo distância.
"Eu sei que pode", ele suspirou, uma exibição praticada de paciência cansada. "Estou apenas tentando ajudar. Precisamos conversar."
Lembrei-me da última vez que "conversamos" sobre isso. Foi há alguns meses. Eu encontrei uma manta de caxemira ridiculamente cara no carro dele, ainda em uma caixa de grife. Era um presente para Fabiana, para um de seus "dias ruins". Eu perdi a cabeça, gritando com ele sobre como ele gastava mais tempo e dinheiro com aquela mulher do que com sua própria família. Ele me chamou de ciumenta e mesquinha.
Minha mãe, abençoada seja, tentou bancar a pacificadora. Na vez seguinte que Ricardo ofereceu uma carona a ela, ela recusou educadamente, dizendo que pegaria um táxi. Ela nunca explicou o porquê, mas eu sabia. Ela não seria um peão em nossas brigas. Depois disso, parei de pedir que ele viesse.
Mas hoje, parada aqui agora, uma parte de mim, a parte cansada e abatida, só queria evitar outra cena pública. Suspirei e contornei o carro até o lado do passageiro, abrindo a porta.
"Obrigado", ele disse, um lampejo de triunfo em seus olhos.
Mandei uma mensagem rápida para minha mãe: O Ricardo está me dando uma carona. Não se preocupe, tudo dentro do cronograma. Te vejo em breve.
Deslizei para o assento de couro macio e fui imediatamente atingida pelo cheiro fraco e enjoativo de gardênias. O perfume característico de Fabiana. Meus olhos percorreram o interior. Enfiado no bolso lateral da porta do passageiro havia um pequeno porta-comprimidos cravejado de joias. No painel, apoiado contra a tela de navegação, havia uma pequena foto emoldurada.
Não era uma foto nossa.
Era uma foto de Ricardo, Karina e Fabiana, todos sorrindo brilhantemente em algum baile de gala beneficente. Ricardo estava entre elas, os braços ao redor de ambas as mulheres, parecendo para o mundo inteiro um marido e filho orgulhoso. Uma família feliz.
Uma poça fria e pesada de pavor se formou no meu estômago.
"Foto encantadora", eu disse, minha voz desprovida de emoção.
Ricardo olhou para ela, depois de volta para a estrada. "Ah, isso. A Karina me deu. Ela disse que era uma boa lembrança." Ele disse isso tão casualmente, como se fosse a coisa mais normal do mundo para um homem casado ter uma foto de outra família no painel do carro.
"Uma boa lembrança de você bancando o filho postiço", murmurei.
Ele me lançou um olhar afiado. "Não comece, Clara. A Fabiana é uma mulher doente e solitária. A Karina se preocupa constantemente com ela. É tão errado eu oferecer a elas algum conforto?"
"Abandonando a cirurgia da minha mãe para segurar a mão dela?", retruquei, a raiva que eu estava suprimindo finalmente borbulhando para a superfície.
"Foi uma preocupação médica legítima!", ele insistiu, os nós dos dedos brancos no volante. "A pressão arterial dela subiu. Ela estava com dores no peito."
"Um 'sustinho de saúde', segundo o Instagram da Karina", eu disse, minha voz pingando sarcasmo.
"Você não pode acreditar em tudo que vê nas redes sociais", ele zombou. "Você está sendo infantil."
Eu não discuti. No passado, eu teria brigado, chorado, implorado para que ele visse como seu comportamento era inadequado. Agora? Eu estava apenas cansada. A luta havia saído de mim, substituída por uma clareza arrepiante. Ele não via porque não queria ver. Ele era o herói da história delas, e amava seu papel.
"O porta-comprimidos é novo", eu disse, gesticulando em direção à porta. "Muito bom gosto."
Ele olhou para ele, um lampejo de aborrecimento em seu rosto. "Foi um presente. Para eu guardar os remédios de emergência da Fabiana. Ela esquece as coisas."
"Que atenciosa da parte dela", eu disse, virando-me para olhar pela janela. "Você se tornou o médico pessoal, concierge e motorista delas. É realmente comovente."
"Clara, eu juro por Deus-"
Eu não o deixei terminar. Apenas olhei para ele, minha expressão em branco. Vi a confusão em seus olhos. Ele estava acostumado com meu fogo, minhas lágrimas. Essa indiferença fria era um território novo para ele. Ele não sabia como lutar contra um inimigo que se recusava a se engajar.
"É melhor irmos", eu disse em voz baixa. "Não queremos nos atrasar para a transferência da minha mãe."
Ele abriu a boca para dizer algo, depois a fechou. Ele era um cirurgião brilhante, um homem que podia literalmente segurar uma vida em suas mãos, mas naquele momento, ele estava completamente perdido. Ele não tinha protocolo para isso.
Justo quando ele estava prestes a engatar a marcha, seu telefone, conectado ao Bluetooth do carro, tocou. O nome na tela fez meu estômago se contrair.
Karina Tavares.
Ele olhou para mim, um lampejo de culpa em seus olhos, mas atendeu mesmo assim. "Karina? O que foi?"
A voz dela, estridente e em pânico, encheu o pequeno espaço. "Ricardo! É a mamãe! Ela está... ela está com dificuldade para respirar! Ela diz que o peito está apertado de novo! Você pode vir? Por favor? A ambulância vai demorar muito!"
Ricardo não hesitou. "Estou a caminho. Mantenha-a calma. Chego aí em dez minutos."
Ele desligou e imediatamente se virou para mim, sua expressão uma mistura de desculpa e autoimportância. "Eu tenho que ir. É uma emergência."
Sem outra palavra, ele se esticou, pegando sem cerimônia a bolsa com as coisas da minha mãe do meu colo. "Vou deixar isso no posto de enfermagem para você", ele disse, já focado em seu próximo ato heroico.
Ele praticamente enfiou a bolsa nos meus braços e saiu, sua mente já a quilômetros de distância, planejando seu resgate dramático. Enquanto eu tropeçava para fora do carro, a bolsa escorregou do meu alcance. Ela bateu no asfalto com um baque surdo. Um pequeno pássaro de cerâmica feito à mão, um presentinho de "melhoras" que eu comprei para minha mãe, caiu e se espatifou no asfalto.
Ricardo nem percebeu. Ele já estava de volta ao volante, seus pneus cantando enquanto ele se afastava do meio-fio, me deixando ali parada com as coisas da minha mãe e os pedaços quebrados de uma vida que não era mais minha.
Eu encarei o pássaro estilhaçado, um mosaico de azul e branco no chão cinza. E pela primeira vez, não senti dor. Não senti nada.
Cheguei de volta ao quarto do hospital e encontrei minha mãe acordada, seus olhos claros. Ela olhou para mim, depois para o espaço vazio ao meu lado.
"Ele não vem, não é?", ela perguntou, sua voz suave, mas firme.
Eu balancei a cabeça, minha garganta apertada. "Ele teve uma emergência."
Ela me deu um sorriso triste e compreensivo. "Tudo bem, Clara. Eu sei."
"Você sabe?"
"Durante a cirurgia", ela disse, sua voz mal um sussurro. "Quando estavam me sedando. Eu estava grogue, mas ouvi as enfermeiras conversando. Elas disseram que o Dr. Ferraz teve que sair para uma 'paciente VIP'. Eu sabia que era ela."
Uma lágrima traçou um caminho por sua bochecha. "Eu só queria... eu só queria que ele não tivesse que mentir para você."
Apertei sua mão, meu coração doendo por sua dignidade silenciosa. "Não importa mais, mãe."
Ela olhou para mim, seus olhos procurando os meus. "Ele costumava ser um menino tão bom, Clara. Ele realmente era."
Eu sabia que ela estava certa. Mas aquele menino se foi, substituído por um homem que eu não reconhecia mais. Um homem que escolheria os aplausos de estranhos em vez do amor de sua família, todas as vezes.
Ponto de Vista de Clara Bastos:
O telefone tocou às dez da noite, cortando o silêncio do novo quarto de hospital. O Albert Einstein era um mundo à parte dos corredores familiares e caóticos do hospital de Ricardo. Era calmo, privado e tranquilizadoramente caro.
Olhei para o identificador de chamadas. Ricardo.
Deixei tocar três vezes antes de atender.
"Onde ela está?" Sua voz não era uma pergunta. Era uma acusação, afiada e fria.
"Ela está bem", eu disse, saindo para o corredor silencioso. "Está dormindo."
"Eu fui ao quarto dela. Estava vazio. As enfermeiras disseram que você a transferiu. Que diabos você está fazendo, Clara?", ele exigiu, sua voz tensa de fúria. "Você está louca? Você a transferiu sem minha autorização? Eu sou o médico principal dela!"
"Você era", corrigi-o calmamente. "A partir desta manhã, você não está mais envolvido nos cuidados dela."
"Você não pode fazer isso! Eu sou o melhor. O Einstein é bom, mas sou eu quem conhece o caso dela por dentro e por fora", ele rosnou. "Isso é por causa desta manhã? Você está realmente disposta a arriscar a saúde da sua mãe para me punir?"
A audácia daquilo, o narcisismo puro e absoluto, me deixou momentaneamente sem palavras. Ele estava tentando me manipular, enquadrar meu ato de autopreservação como um chilique infantil.
"A saúde da minha mãe é a única razão pela qual estou fazendo isso", eu disse, minha voz como gelo. "Ela precisa de um médico que esteja totalmente presente. Não um que esteja de plantão para outra família."
"Isso não é justo! A Fabiana é uma mulher doente!"
"Minha mãe também", retruquei. "Mas a doença dela não é uma peça de teatro."
Um silêncio pesado pairou na linha. Então, sua voz baixou, tornando-se ameaçadora. "Eu não vou para casa hoje à noite, Clara. Vou ficar com elas. A Fabiana está muito abalada."
Era uma ameaça. Um teste. Ele esperava que eu implorasse, suplicasse, pedisse desculpas por perturbar suas novas e frágeis dependentes.
"Tudo bem", eu disse.
O silêncio do outro lado foi diferente desta vez. Era o som de um homem cujo roteiro havia sido jogado pela janela. "Tudo bem?", ele repetiu, perplexo.
"Sim, Ricardo. Tudo bem. Fique lá. Na verdade, fique lá o tempo que quiser", eu disse. Então desliguei.
Minha mão estava tremendo, mas não de medo. Era da sensação emocionante e aterrorizante de libertação.
Um minuto depois, meu celular vibrou com uma mensagem de um número desconhecido. Mas eu sabia quem era. Karina.
Clara, sinto muito se causei algum problema entre você e o Ricardo. Ele é um homem tão compassivo, e minha mãe depende tanto dele. É difícil para ele dizer não quando alguém precisa. Ele é um tipo raro de homem, o tipo que toda mulher quer. Vou cuidar bem dele esta noite. Ele está exausto.
Era uma aula de mestre em manipulação. A falsa desculpa, o elogio à "compaixão" de Ricardo, a alfinetada sutil de que ele era um prêmio que ela havia ganhado. Era uma declaração de posse.
Eu não respondi. Apenas encarei a mensagem, um gosto amargo na boca. Esse era o padrão deles. Fabiana teria uma "crise", Karina faria a ligação frenética, e Ricardo correria para o resgate. Depois, haveria as mensagens, as "desculpas", os lembretes constantes de quanto elas "precisavam" dele. Ele era o cavaleiro delas de armadura brilhante, e minhas próprias necessidades, as necessidades da minha mãe, eram apenas distrações inconvenientes.
Apaguei a mensagem e bloqueei o número.
O telefone tocou novamente. Ricardo.
Suspirei e atendi.
"Você acabou de bloquear o número da Karina?", ele exigiu, sua voz incrédula.
O som de soluços fracos e teatrais vinha do fundo. Fabiana.
"Ricardo, estou cansada", eu disse, minha paciência esgotada. "Estou com minha mãe, que acabou de passar por uma cirurgia de peito aberto. Não tenho energia para esse drama."
"Drama?", ele zombou. "A Fabiana está apavorada! Ela acha que você a odeia! E a Karina está preocupada até a morte. Depois de tudo que eu fiz hoje, depois que eu salvei a vida da mãe dela, é assim que você me retribui? Sendo fria e cruel? Onde está sua compaixão, Clara? Estou tão decepcionado com você."
Decepcionado. Comigo.
As palavras pairaram no ar, tão absurdas, tão colossalmente injustas, que tudo que eu pude fazer foi rir. Foi um som oco e quebrado.
"Você está decepcionado comigo?", finalmente consegui dizer. "Essa é ótima, Ricardo. Essa é realmente ótima."
Não esperei por uma resposta. Desliguei o telefone e o desliguei.
As pontas dos meus dedos estavam frias, um arrepio subindo pelos meus braços. Por anos, eu fui a compassiva. A esposa compreensiva. Aquela que arrumava a mala dele para "emergências" noturnas na casa das Tavares. Aquela que sorria educadamente quando Fabiana o chamava de "meu Ricardo" na minha frente. Aquela que aceitava suas desculpas e sua atenção dividida, tudo em nome de seu "bom coração".
Mas o coração dele não era bom. Era apenas carente. Anseava por adoração, e as Tavares alimentavam essa necessidade com um suprimento infinito de bajulação e crises fabricadas.
Deslizei de volta para o quarto e sentei na cadeira ao lado da cama da minha mãe. Sua respiração estava regular, seu rosto relaxado no sono. Ela estava segura. Ela estava sendo cuidada. E pela primeira vez em muito, muito tempo, eu também estava. A decepção era toda dele.