O taxista estava na metade do caminho para a mansão quando Anajê se inclinou para frente, o vinil do banco grudando em suas roupas úmidas.
- Dê meia-volta - disse ela. Sua voz era oca.
O motorista olhou pelo retrovisor. - Moça, o taxímetro está rodando.
- Volte para o hospital. Entrada lateral.
Ela não conseguia explicar o porquê. Era uma forma de autoflagelação, talvez. Ou talvez ela só precisasse ter certeza absoluta. Precisava que a verdade a esmagasse completamente antes que pudesse se reerguer.
Quando chegaram de volta à clínica, Anajê não foi à recepção. Ela conhecia o layout daquele prédio. Costumava fazer favores aqui para a mãe de Adão, pegando receitas, entregando arquivos. Ela entrou por uma entrada de serviço que sabia que muitas vezes ficava aberta para a lavanderia, a cabeça girando com uma tontura que ela reprimiu impiedosamente. Puxou o capuz do corta-vento e manteve a cabeça baixa.
O segurança da ala VIP era novo. Ele olhou para ela, mas ela caminhou com o propósito brusco e irritado de um funcionário em pausa para fumar, e ele a deixou passar.
O corredor no terceiro andar estava silencioso, acarpetado num bege luxuoso que absorvia o som dos passos. Ela viu o Bentley estacionado lá fora através de uma janela, então sabia que eles ainda estavam ali.
Ela rastejou em direção à suíte de Obstetrícia e Ginecologia. A porta da sala de exames três estava entreaberta.
Pressionou as costas contra a parede, escondida por um grande fícus em vaso. Seu coração batia tão forte que ela achou que poderia ser audível no corredor silencioso.
- ...tudo parece perfeito, Sr. Hortêncio. - Uma voz profunda e profissional flutuou para fora.
Então uma voz mais leve e sussurrada. - Adão, olha. Dá para ver as mãozinhas.
Cássia.
Anajê fechou os olhos.
Uma enfermeira saiu do quarto, segurando uma prancheta. Ela parou para falar com uma colega na estação a apenas alguns metros de Anajê.
- O Sr. Hortêncio é tão intenso - sussurrou a enfermeira, balançando a cabeça. - Você pensaria que era o primeiro bebê do mundo. Ele está nos fazendo refazer todos os testes duas vezes.
- Bem, é cedo - respondeu a outra enfermeira. - Apenas doze semanas. Tem que ter cuidado.
Doze semanas.
As palavras atingiram Anajê como um tapa físico. Ela fez as contas instantaneamente. Doze semanas atrás era meados de agosto.
14 de agosto. O terceiro aniversário de casamento deles.
Adão estava em Londres. Ele ligara para ela, a voz cortante e distante, dizendo que as negociações da fusão estavam demorando e ele não conseguiria voltar para casa. Anajê sentara-se à mesa de jantar sozinha, soprando as velas de um bolo que ela mesma assara.
Ele não estava numa sala de reuniões. Estava na cama com Cássia Inácio.
Dentro do quarto, Cássia riu. - Está se mexendo!
- Ele é ativo - a voz de Adão era um estrondo baixo. Era a voz que ele usava quando estava satisfeito com um negócio. Quente. Orgulhosa.
Anajê tapou a boca com a mão para sufocar o som de ânsia que tentava escapar de sua garganta. A bile tinha gosto ácido e amargo.
Ela se virou e tropeçou de volta pelo corredor, a visão embaçando. Colidiu com um zelador passando pano no chão.
- Olha por onde anda! - ele retrucou.
Anajê não o ouviu. Tudo o que conseguia ouvir era "doze semanas, doze semanas, doze semanas".
Ela voltou para o táxi e desabou no banco.
- Mansão Hortêncio - disse ela novamente. - E desta vez, não pare.
Ela pegou o telefone e digitou na barra de pesquisa: "Adão Hortêncio Viagem Londres Cássia Inácio".
Nada. Apenas comunicados de imprensa sobre a expansão global das Indústrias Hortêncio. Fotos de Adão apertando mãos de velhos engravatados. A equipe de relações públicas tinha limpado tudo. Era uma narrativa perfeita e higienizada.
O táxi subiu o longo caminho da propriedade. Os portões de ferro se abriram, as dobradiças silenciosas. O mordomo, um homem mais velho chamado Estevão, abriu a porta da frente quando o táxi parou. Suas sobrancelhas se ergueram ao vê-la saindo de um táxi amarelo em roupas hospitalares.
- Senhora? - perguntou Estevão. - O Sr. Hortêncio ligou. Disse que a senhora teve um ferimento leve.
- Leve - repetiu Anajê. Ela passou por ele para o grande saguão.
A casa era enorme e fria. Cheirava a polidor de limão e dinheiro velho. Na parede pendia um retrato dela e de Adão no dia do casamento. Adão parecia entediado. Anajê parecia esperançosa. Ela queria arrancá-lo da parede e quebrá-lo no joelho.
Dona Pereira, a governanta, entrou apressada da cozinha. - Oh, Sra. Hortêncio! A senhora voltou. Posso preparar um chá? A senhora parece... pálida.
- Estou bem - disse Anajê, caminhando em direção às escadas.
Ela passou pelo quarto que deveria ser o berçário. Era um quarto que Adão lhe dissera para não decorar ainda. "Não estamos prontos", ele dissera. "Vamos focar na minha carreira primeiro."
A porta estava entreaberta.
Anajê empurrou.
O quarto não estava vazio. Estava cheio de caixas. Caixas cor-de-rosa. Sacolas de butiques de bebê de luxo. Um berço que custava mais que um carro popular já estava montado no canto.
Ela caminhou até uma pilha de presentes no trocador. Havia um cartão preso a um chocalho de prata.
"Para minha querida Cássia e a pequena princesa. Mal posso esperar para conhecê-la. Com amor, Eliana."
Eliana. A mãe de Adão.
Os joelhos de Anajê cederam. Ela agarrou a borda do berço para se firmar.
Todos sabiam. Eliana sabia. Os funcionários provavelmente sabiam. O mundo inteiro estava participando da piada, e a piada era Anajê.
Ela ouviu o baque pesado da porta da frente fechando lá embaixo. Então o som de sapatos de couro caros no chão de mármore.
Adão estava em casa.
Anajê ficou no topo da grande escadaria, segurando o corrimão até os nós dos dedos ficarem brancos. Ela o observou.
Adão entrou no saguão, afrouxando a gravata com uma mão. Parecia cansado, aquele tipo de satisfação exausta que vem depois de um longo dia gerenciando crises. Entregou o paletó a Estevão sem olhar para ele.
- Onde ela está? - perguntou Adão.
- A Sra. Hortêncio está lá em cima, senhor - respondeu Estevão calmamente.
Adão olhou para cima. Quando seus olhos encontraram os dela, ele não vacilou. Não parecia culpado. Apenas parecia irritado.
- Por que você está parada aí no escuro? - perguntou ele. - E o que você está vestindo?
Anajê desceu as escadas devagar, um degrau de cada vez. A dor no braço era um latejar surdo agora, ofuscado pela adrenalina correndo em suas veias.
- Onde você estava? - perguntou ela. Sua voz estava firme, aterrorizantemente calma.
Adão suspirou, passando por ela em direção ao bar da sala de estar. - Trabalho. Ouvi dizer que você se deu alta. Isso foi irresponsável, Anajê. Os médicos queriam mantê-la em observação.
- Trabalho - repetiu ela. - A ala de maternidade VIP é considerada um escritório satélite agora?
Adão congelou. Estava servindo um copo de uísque. O líquido espirrou levemente sobre a borda. Ele pousou a garrafa lentamente e se virou para encará-la.
- Você me seguiu? - Sua voz caiu uma oitava. Não era uma pergunta; era uma acusação.
- Eu não precisei - disse ela. - Você não estava exatamente se escondendo. Você a carregou para dentro, Adão. Como se ela fosse de vidro.
Adão tomou um gole de sua bebida. Encostou-se no bar de mogno, cruzando os tornozelos. Sua arrogância casual era de tirar o fôlego.
- Cássia está passando por um momento difícil. É uma gravidez de alto risco. Ela precisava de apoio.
- Apoio - Anajê riu. Foi um som quebradiço, afiado. - Doze semanas de apoio? Desde o nosso aniversário?
O maxilar de Adão se contraiu. - Aquilo foi um acidente. Não foi planejado.
- Um acidente é derrubar café, Adão. Dormir com sua ex-namorada em Londres enquanto sua esposa está em casa é uma escolha.
Ele pousou o copo com força. O som ecoou na sala cavernosa.
- Pare com isso - disse ele. Sua voz era aço frio. - Você está sendo histérica. Cássia é frágil. Ela não é como você. Você... você consegue lidar com as coisas. Você é resiliente. Foi por isso que me casei com você.
Resiliente. Era uma palavra-código. Significava acostumada a sofrer. Significava baixa manutenção.
- Casei com você porque pensei que fosse diferente - continuou ele, caminhando em direção a ela. Ele usou sua altura para pairar sobre ela, uma tática que geralmente a fazia encolher. Mas esta noite, ela manteve sua posição. - Essa situação com Cássia... é complicada. Mas a criança é um Hortêncio. Temos um dever para com a família.
- Temos? - perguntou Anajê. - Não existe mais "nós".
Adão revirou os olhos. - Não seja dramática. Você é minha esposa. Você é uma Hortêncio agora. Você assinou o acordo pré-nupcial. Sabe exatamente como seria sua vida sem mim.
Ele estendeu a mão para tirar um fio de cabelo da testa dela.
Anajê recuou como se a mão dele fosse um ferro em brasa. - Não me toque. Você cheira a ela.
A mão de Adão pairou no ar, depois caiu ao lado do corpo. Sua expressão endureceu.
- Você está esquecendo de onde veio, Anajê. Aquele orfanato? O nada? Eu te dei uma vida. Te dei propósito. Não faça birra só porque as coisas ficaram complicadas.
O ar na sala pareceu desaparecer. Ele tinha dito a parte silenciosa em voz alta. Para ele, ela era um cachorro de rua resgatado. Um caso de caridade que ele tirara da obscuridade para gerenciar sua agenda e aquecer sua cama.
- Eu quero o divórcio - disse ela.
Adão soltou um bufo curto e zombeteiro. Pegou sua bebida novamente.
- Não, você não quer. Você gosta da cobertura. Gosta das roupas. Gosta de fingir ser alguém que importa.
Ele tomou um gole, observando-a por cima da borda do copo.
- Vá para a cama, Anajê. Tome um remédio. Conversaremos sobre isso quando você estiver racional.
Ele virou as costas para ela e entrou em seu escritório, fechando as pesadas portas de carvalho com um clique definitivo.
Anajê ficou sozinha no corredor. Dona Pereira estava tirando o pó de um vaso no canto, mantendo a cabeça resolutamente baixa, fingindo não ter acabado de testemunhar a execução de um casamento.
Anajê olhou para a porta fechada. Uma sensação estranha tomou conta dela. Não era mais tristeza. Era clareza.
Ela se virou e caminhou em direção à ala de hóspedes. Não dormiria na cama deles esta noite. Não dormiria em lençóis que cheiravam às mentiras dele.