Capítulo 2

O mundo era um borrão de paredes claras cercado pelo cheiro forte de álcool. A dor, cortante e persistente, espalhava-se pelo meu peito e pela minha cabeça. Eu estava em um hospital — de novo.

Por trás da minha confusão mental, captei vozes do lado de fora do quarto.

"O médico falou que foram só algumas costelas fraturadas e uma pancada na cabeça. Ela irá se recuperar." A voz de Fitzgerald soava impaciente. "Para falar a verdade, ela só está causando confusão."

"Ela precisa aprender com isso, Fitz." A voz de Caleb era mais dura. "É isso que acontece quando ela não escuta."

Meus olhos se abriram no instante em que um médico entrou. Era um homem mais velho, com um olhar bondoso, agora tomado por uma tristeza pesada.

"Senhorita Reid", disse ele em tom sereno. "Sou o doutor Evans."

Ele lançou um olhar na direção da porta, onde Caleb e Fitzgerald observavam. "Posso conversar com a família dela? A sós?"

O maxilar de Caleb se contraiu. "Nós somos a família dela. O que tiver a dizer, pode dizer para nós."

O doutor Evans respirou fundo antes de continuar: "Tudo bem. Os ferimentos da queda não são graves. Mas... nos exames encontrei algo pior. Muito pior."

Ele levantou algumas radiografias contra a luz. "Senhorita Reid, você tem câncer de pulmão avançado. Já se espalhou. Está em estágio terminal."

As palavras ficaram pairando no ar, pesadas.

Estágio terminal.

Uma estranha calma tomou conta de mim, afinal, eu já sabia.

E eles já sabiam, mas não acreditavam.

Caleb soltou uma risada seca. "Câncer? Que besteira. Ela só está tentando se fazer de vítima. Mais uma de suas invenções."

Fitzgerald confirmou com a cabeça. "Ela sempre exagerou."

Uma parte ingênua do meu coração ainda tinha esperança, esperança de que uma nova confirmação desse diagnóstico fosse o suficiente para quebrar a barreira do ódio deles, de ver ao menos um traço do irmão e do namorado que um dia eu conheci.

Estudei os rostos deles em busca de arrependimento, de afeto, mas não havia nada, apenas desprezo.

De repente, o celular de Caleb tocou.

Ele atendeu, sua voz mudando de ríspida para doce em segundos. "Hailie? O que houve? Está tudo bem?"

Ouviu por um momento e respondeu: "Já estou indo. Não se preocupe, chego aí rápido."

Então, desligou a chamada e virou-se para Fitzgerald. "Hailie está assustada. Ela precisa de mim."

Em seguida, caminhou até a porta sem sequer olhar para trás.

"Espere", disse o doutor Evans, adiantando-se. "Senhor Skinner, isso é sério. Precisamos falar de opções de tratamento, de cuidados paliativos para diminuir a dor..."

"Dê a ela alguns analgésicos", Caleb respondeu sem parar. "Fitz, fique aqui. Garanta que ela não arrume mais problemas."

E ele saiu.

Fitzgerald se postou junto à porta, de braços cruzados e expressão aborrecida.

O doutor Evans voltou-se para mim, seu rosto tomado por uma tristeza impotente. "Senhorita Reid, podemos começar a quimioterapia para amenizar a dor, talvez lhe dar mais algum tempo..."

"Tempo para quê?", perguntei, quase sem voz.

"Para contar a eles", ele insistiu com cuidado. "Você mesma precisa dizer para que eles compreendam."

Um riso amargo escapou da minha boca. "Compreender o quê? Eles não dariam a mínima se eu caísse morta bem diante deles."

Minha última fagulha de esperança foi apagada pela pressa de Caleb em correr para consolar a garota que ocupou o meu lugar.

"Eles nunca vão acreditar em mim", declarei, sem emoção. "Não faz diferença."

O doutor Evans parecia pronto para argumentar, mas encontrou a decisão firme no meu olhar, portanto, deixou-me apenas uma receita de remédios fortes e um olhar carregado de compaixão antes de sair.

Os dias seguintes no hospital foram tomados pela dor. Ela se espalhava pelos meus ossos e cada respiração se transformava em luta. Os comprimidos mal arranhavam a superfície da agonia.

Uma semana depois, Fitzgerald me ligou, mas nem sequer perguntou como eu estava.

"Caleb disse que você já passou do prazo. Saia do hospital e volte para a propriedade. Temos trabalho."

A mensagem era clara: o castigo ainda não havia terminado.

Tudo bem.

Uma nova determinação, sombria e gelada, nasceu dentro de mim. Se queriam meu retorno, eu voltaria, e faria questão de fazê-los encarar o resultado do tal "castigo."

Assinei minha própria alta, ignorando os protestos do médico. Peguei a receita de opioides fortes para um mês inteiro e chamei um táxi de volta à prisão luxuosa que Caleb chamava de casa.

O mordomo, um homem extremamente fiel a Caleb, barrou-me na entrada.

"Você precisa passar por uma desinfecção antes de entrar. Ordens do senhor Skinner. Afinal, você esteve no hospital, e não podemos correr o risco de contrair seus germes."

Duas empregadas, com rostos impassíveis, conduziram-me até um banheiro amplo perto da garagem e encheram uma banheira com um líquido químico e agressivo.

"Entre", disse uma delas.

Eu estava fraca demais para resistir, então entrei na água que queimava minha pele. O líquido atingiu os cortes abertos nos meus braços e pernas, reacendendo a dor. Logo, a água ao meu redor se tingiu de vermelho.

As empregadas prenderam a respiração, horrorizadas, apesar das máscaras neutras.

Foi nesse momento que Caleb e Fitzgerald apareceram.

Os olhos de Caleb caíram sobre a água vermelha, e por um instante vi algo em seu rosto. Choque? Preocupação?

Mas Fitzgerald tocou em seu braço e murmurou em voz baixa: "Não se esqueça do plano, Caleb. Não se deixe enganar."

O rosto de Caleb se fechou de novo, e ele me deu as costas.

"Certifiquem-se de que ela esteja limpa", ele ordenou às empregadas, sem emoção. "Depois levem-na para o quarto."

Eu observei o homem com quem eu deveria me casar deixando-me sangrar dentro de uma banheira de desinfetante.

Um riso quebrado escapou da minha garganta.

Ele se preocupava com germes. Que ironia!

Capítulo 3

Fui deixada no banho químico por horas que pareciam não ter fim. Quando as empregadas finalmente me tiraram de lá, minha pele estava avermelhada e ardendo.

Elas arrastaram-me, encharcada e trêmula, até o pequeno quarto no sótão que havia sido minha cela durante três longos anos.

Caí sobre o colchão fino, cada músculo protestando como se estivesse em chamas. A dor era uma criatura viva, consumindo-me sem piedade. Mas, por trás dela, uma lucidez fria começava a se instalar dentro de mim.

Eu iria morrer em breve, mas seria do meu jeito.

No dia seguinte, juntei as poucas coisas que ainda me pertenciam em uma caixa — fotos antigas de antes do coma, uma flor seca que Caleb me deu no nosso primeiro encontro, cartas dos meus pais de um tempo em que ainda se importavam comigo.

Eu queria partir sem deixar nada que me prendesse a essa vida.

Levei a pequena caixa até a lareira da biblioteca principal, um espaço do qual eu raramente podia me aproximar. Então risquei um fósforo e a soltei lá dentro.

As chamas subiram, devorando as bordas das fotos e reduzindo meu sorriso a cinzas. O fogo engolia meu passado, meu amor, tudo o que fui. Era como se eu mesma estivesse preparando o meu velório.

"O que você pensa que está fazendo?" A voz cortante interrompeu o estalar das chamas.

Hailie estava parada na porta, de braços cruzados, com um sorriso cheio de veneno nos lábios.

Não respondi, apenas continuei encarando as minhas últimas lembranças se transformando em pó.

Ela avançou, com os olhos cheios de escárnio. "Tentando chamar atenção outra vez? Você é patética. Queimar algumas recordações não vai fazer Caleb olhar para você de novo."

Com um chute, ela esparramou as lenhas em brasa, que se espalharam pelo tapete caro. Em segundos, uma chama começou a se expandir rápido demais.

"Não!", eu gritei, pulando e tentando apagar as labaredas com um cobertor.

Hailie segurou meu braço com força, as unhas se cravando na minha pele. "Deixe queimar! Deixe tudo que era seu virar pó!"

A fumaça invadiu o cômodo, espessa e sufocante. Meus pulmões, já frágeis, falharam. Um acesso de tosse me rasgou por dentro, rouco e doloroso.

"Socorro!", tentei gritar, minha visão já escurecendo.

Hailie riu, um som agudo e insano. "Pode gritar à vontade. Ninguém vai te salvar. Vão só acreditar que você tentou incendiar a casa. Mais um crime para a sua conta."

Nesse momento, Caleb e Fitzgerald entraram, apressados.

"Hailie!" Caleb correu até ela, sem se importar com as chamas ou com o meu sufocamento. "Você está bem?"

"Caleb!", ela chorou, jogando-se nos braços dele. "Ericka... quis me matar! Foi ela quem botou fogo!"

Tentei falar, mas só consegui tossir. De repente, afundei de joelhos, vendo o mundo girar.

O olhar de Caleb, quando enfim recaiu sobre mim, era gelado.

"Você nunca aprende", ele rosnou. "Você é um câncer para essa família."

A ironia dessas palavras me atravessou como uma faca.

Ele se virou para os empregados que já se juntavam na porta. "Levem-na para a sauna e aumentem a temperatura ao máximo. Está na hora de ela sentir de verdade o que é calor."

Dois homens me puxaram pelos braços, arrastando meu corpo frágil para fora do cômodo tomado pela fumaça.

Eu, fraca demais para resistir, fui jogada dentro da sauna de madeira no porão. A porta bateu atrás de mim, e logo o vapor começou a encher o espaço.

O calor era brutal, esmagador. O ar parecia ser arrancado dos meus pulmões. O suor escorria, queimando a minha pele já ferida.

Bati na porta com força, a voz rouca. "Por favor! Deixem-me sair! Caleb! Fitz!"

Ninguém respondeu.

O calor só aumentava, e minha pele parecia derreter. Recordei momentos felizes vividos nessa casa — churrascos de verão, manhãs de Natal diante da lareira...

O afeto que senti por eles, o amor que lhes dei... Como tudo pôde se transformar em algo tão cruel? Como chegou a esse ponto?

A dor era insuportável. Não consegui mais gritar e escorreguei pela parede, meu corpo tremendo sem controle.

Quando a consciência quase me abandonava, a porta se abriu.

Hailie surgiu, recortada pela luz fraca.

"Já está satisfeita?", ela perguntou, com um riso perverso, então, levantou um balde de água gelada e despejou o líquido sobre mim. "Hora de esfriar a cabeça."

O choque térmico foi uma nova tortura. Meu corpo entrou em colapso, e o mundo se apagou.

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