Capítulo 2

LIA POV:

Três dias se passaram. Lucas nunca mais voltou. Ele nunca enviou uma única mensagem através do Elo Mental. Era como se os cinco anos que compartilhamos não fossem nada mais do que um sonho do qual ele havia acordado.

Eu estava diante da pequena cabana de madeira que chamávamos de lar, cada centímetro dela um monumento a um amor que agora era uma mentira. Meus guerreiros leais estavam atrás de mim, seus rostos impassíveis.

"Queimem", eu disse, minha voz vazia.

O capitão hesitou. "Futura Luna, tem certeza?"

"Eu quero que cada memória aí dentro se transforme em cinzas", ordenei, minha voz não deixando espaço para discussão. "Quando eu terminar, será como se este lugar, e o homem que viveu nele, nunca tivessem existido."

Eles inclinaram a cabeça e começaram a trabalhar. Eu não fiquei para ver as chamas.

Voltei para a propriedade principal do Alfa, uma grande mansão de pedra que mais parecia uma fortaleza. Meu pai, Alfa Roberto, ainda estava fora, finalizando os termos de um tratado com uma alcateia vizinha. Seu rosto apareceu na grande tela de seu escritório, uma videochamada nos conectando a centenas de quilômetros de distância.

"Você parece diferente, Lia", disse ele, seus olhos dourados de Alfa me estudando com preocupação. "Mais fria."

"Eu cresci, Pai", respondi. "Sobre minha condição para a aliança de casamento..."

"Sim?"

"Eu quero a Pedra da Lua."

As sobrancelhas do meu pai se ergueram. A Pedra da Lua não era apenas uma joia; era um anel passado de geração em geração pelas Lunas de nossa alcateia, o símbolo máximo de poder e herança. Para a filha de um Alfa pedi-lo antes de sua Cerimônia de União era uma declaração de ambição ousada, quase audaciosa.

Um sorriso lento se espalhou por seu rosto. "Bom", ele rosnou, um som de puro orgulho. "Essa é minha filha. É seu. A Alcateia da Crista Prateada será liderada por você e pelo Alfa que você escolher."

"Obrigada, Pai."

"Ele estará lá esta noite", meu pai continuou. "Haverá um baile anual no Templo da Lua, um território neutro para todas as alcateias. Seu pretendente, Alfa Silas Vitorino da Alcateia da Lua Negra, estará presente. Cause uma boa impressão."

A chamada terminou. Passei horas me preparando, escolhendo um vestido de um vermelho profundo que se agarrava às minhas curvas, um contraste gritante com os vestidos brancos e inocentes que eu costumava preferir.

Quando cheguei ao Templo da Lua, o grande salão já fervilhava com os cheiros misturados de lobisomens de uma dúzia de alcateias diferentes. Mas algo estava errado. O centro das atenções não era um Alfa visitante ou um ancião da alcateia. Era minha meia-irmã, Elisa.

Ela usava um vestido azul-claro, parecendo em todos os aspectos a donzela inocente. Então, a música cresceu para a dança de abertura, e Lucas apareceu. Ele caminhou até Elisa, seus olhos apenas para ela, e pegou sua mão.

Enquanto eles se moviam para o centro do salão, um suspiro coletivo percorreu a sala. Eles dançaram, seus corpos se movendo em perfeita sincronia, seus cheiros — o pinho dele e a baunilha enjoativa dela — se entrelaçando em uma declaração inconfundível. Era o cheiro de dois lobos que estiveram intimamente próximos. Era uma declaração pública.

Sussurros explodiram ao meu redor.

"Aquela é a outra filha do Alfa?"

"Ouvi dizer que ele a favorece. Ela deve ser a próxima Luna da Crista Prateada."

"Olhe para eles. O cheiro é de quem já se uniu."

Uma humilhação quente e amarga me invadiu. Lembrei-me de todas as vezes que implorei a Lucas para comparecer a esses eventos comigo. Ele sempre recusava, alegando que se sentia desconfortável em multidões, que não queria provocar os anciãos que desaprovavam seu baixo nascimento. Ele dizia que não era digno de ficar ao meu lado em público.

Mas lá estava ele, dançando a valsa de abertura com ela, reivindicando os holofotes que ele sempre disse odiar. Ele não era indigno. Ele simplesmente não queria estar lá comigo.

Capítulo 3

LIA POV:

A dança terminou e Lucas, com Elisa agarrada ao seu braço, caminhou diretamente em minha direção. Seu rosto era uma máscara de arrogância fria.

"Lia", disse ele, seu tom desdenhoso. "Você deveria vir cumprimentar Elisa. Afinal, ela é a futura princesa desta alcateia."

Uma risada fria e aguda escapou dos meus lábios. O som cortou a conversa próxima, e várias cabeças se viraram em nossa direção.

"Princesa?", repeti, minha voz pingando sarcasmo. "Até onde eu sei, ela é apenas uma filha bastarda que meu pai ainda não reconheceu formalmente. Os anciãos da alcateia certamente não o fizeram."

O ar ao nosso redor ficou parado. O rosto de Elisa empalideceu e a mandíbula de Lucas se contraiu.

"Cuidado com a boca, Lia", ele sibilou, seus olhos brilhando de raiva. "Você está apenas com ciúmes."

"Ciúmes?" Dei um passo mais perto, minha voz se elevando. "Você me disse que odiava essas celebrações. Você me disse que não era bom o suficiente para ser visto comigo, que não queria que os anciãos falassem. Você se recusou a ficar ao meu lado por cinco anos."

Eu gesticulei para a pista de dança. "Mas agora? Agora você está dançando a valsa de abertura com 'ela'? Você quebrou sua promessa para mim, Lucas."

"Não faça uma cena", ele avisou, sua voz baixa e ameaçadora. "Eu preciso da... ajuda de Elisa. Para solidificar minha posição."

A desculpa era tão patética, tão insultuosa, que algo dentro de mim se partiu.

"A ajuda dela?", cuspi, as palavras com gosto de veneno. "O que ela poderia oferecer? Ela é filha de Vexia, uma Renegada imunda cuja linhagem é tão suja quanto a lama de onde ela se arrastou!"

A fúria explodiu no rosto de Lucas. Antes que eu pudesse reagir, sua mão voou pelo ar.

TAPA.

O som ecoou no silêncio súbito do salão. A força do golpe me fez cambalear para trás, minha bochecha ardendo com uma dor de fogo. Mas a dor física não era nada comparada à agonia que rasgou minha alma. Um companheiro agredindo o outro é a traição suprema, uma violação do vínculo sagrado dado pela Deusa. A conexão entre nós se fraturou, enviando uma onda de náusea e coração partido por todo o meu ser.

Eu o encarei, minha visão turva com lágrimas não derramadas. Meu companheiro. O homem que eu amava. Ele tinha me batido. Por ela.

Meu coração não apenas se partiu. Virou pó.

Olhei em seus olhos furiosos e, com uma voz que tremia, mas não quebrou, pronunciei as palavras mais poderosas e condenatórias que um lobisomem pode dizer. As palavras que mudariam tudo.

"Eu, Lia Costa, rejeito você, Lucas Smith, como meu companheiro."

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