Ponto de Vista: Caio
O mundo girou em seu eixo. Erika. Aqui. Parada no corredor do lado de fora do meu escritório, com uma mala aos pés e um olhar que poderia congelar o inferno. Por uma fração de segundo, meu cérebro se recusou a processar a imagem. Parecia uma falha na matrix, uma cena de uma vida que eu ainda não deveria estar vivendo.
Meus pés se moveram antes que minha mente os alcançasse. Eu cruzei a distância entre nós em três longas passadas, mas não a abracei. Meus braços pareciam de chumbo. Meu primeiro instinto, um instinto primitivo e estúpido, foi olhar para Kiara, que nos observava com uma expressão indecifrável.
"Erika", consegui dizer de novo, minha voz rouca. "O que você está fazendo aqui?"
Ela não respondeu imediatamente. Seu olhar era frio e firme, e ela se dirigiu a mim com uma formalidade que pareceu um tapa na cara. "Sr. Ruiz."
"Não faz isso", eu disse, minha voz baixa. "Por que não me disse que estava vindo?" Peguei sua mala, um gesto desajeitado e desesperado para fazer algo, qualquer coisa, normal.
"Eu queria te fazer uma surpresa", disse ela, seu tom neutro. "Parece que consegui."
Eu a guiei para dentro do meu escritório, fechando a porta firmemente atrás de nós. Encostei-me nela, passando a mão pelo cabelo. "Kiara, pode segurar todas as minhas ligações por um tempo?", gritei através da madeira.
Silêncio. Voltei-me para Erika. Ela estava parada no meio da sala, sua postura rígida, seus olhos examinando cada detalhe. Ela parecia diferente do que parecia em nossas chamadas de vídeo — mais poderosa, mais intimidadora. A mulher exausta e suave que adormecia com o laptop no peito havia desaparecido. Em seu lugar, havia uma estranha em um terno elegantemente cortado.
"Você vai me dizer por que está brava, ou eu tenho que adivinhar?", tentei um tom leve, mas ele soou vazio no ar tenso.
Ela não respondeu. Seus olhos pousaram na minha mesa. No pequeno porta-retrato prateado que costumava ter uma foto nossa em uma praia em Malibu. Agora, ele continha uma foto da minha nova equipe, uma foto espontânea da nossa última festa de lançamento de projeto. Kiara estava ao meu lado, radiante, a mão dela descansando casualmente no meu braço.
"Eu, uh, coloquei essa aí para o moral da equipe, sabe?", gaguejei. "É a equipe do projeto. A Kiara está nela." A explicação soou fraca até para os meus próprios ouvidos.
Erika finalmente olhou para mim, e a decepção avassaladora em seus olhos foi um golpe físico. "Eu imaginei esse momento por dois anos, Caio." Sua voz era baixa, mas cortou minhas desculpas patéticas. "Pensei que você me veria e... não sei. Pensei que você ficaria feliz."
Em vez de responder, ela pegou o celular. Não precisou dizer uma palavra. Apenas apertou o play.
A voz brilhante e despreocupada de Kiara encheu o escritório estéril. "Corrida até o topo, Ruiz! Quem perder paga o pastel!"
Meu rosto esquentou. "Erika, não é o que você pensa."
"Não é?"
"Ela é só minha assistente! E uma amiga. Só isso. É... é uma coisa de escalada. Ela é minha parceira. Sabe, como uma parceira de academia."
"O tipo de 'parceira de academia' que também é sua assistente? O tipo que você nunca pensou em mencionar em dois anos?", ela perguntou, sua voz carregada de uma exaustão que me assustou mais do que a raiva. "Estou cansada, Caio. Estou tão, tão cansada."
"Olha, eu sei que deveria ter te contado que a contratei. Foi uma coisa de última hora, a assistente antiga pediu demissão e a Kiara precisava de um emprego. Foi só... conveniente." Dei um passo em sua direção, minhas mãos levantadas em um gesto de paz. "Nós somos apenas parceiros. Apenas... colegas. É assim que nos chamamos."
Finalmente, fechei a distância e a envolvi em meus braços. Ela parecia rígida, inflexível. "Cinco anos, Erika", sussurrei em seu cabelo, minha voz embargada de desespero. "Passamos por tanta coisa. Não deixe isso... não deixe um vídeo estúpido estragar tudo."
Senti um tremor percorrer seu corpo e, por um segundo, pensei que ela poderia desabar. Seu nariz estava pressionado contra meu peito, e eu podia sentir a umidade de suas lágrimas encharcando minha camisa. Meu coração doeu. Eu era um idiota. Um completo e egoísta idiota.
"Eu ia te fazer uma surpresa", eu disse, afastando-me o suficiente para olhá-la. Procurei meu celular e mostrei a confirmação do voo. Uma passagem de ida e volta para São Paulo para o próximo fim de semana. "Eu comprei semana passada. Eu estava indo te buscar. O fato de você estar aqui primeiro... é uma coisa boa, certo? É perfeito."
Sua expressão era uma mistura de dor e confusão. As perguntas que eu sabia que ela queria fazer — sobre a moto, sobre a noite, sobre a foto — pairavam não ditas entre nós. Ela parecia tão perdida, tão magoada, que eu não suportei.
Limpei gentilmente uma lágrima de sua bochecha com meu polegar. "Vamos... vamos começar de novo. Ok?"
Pegando sua mão, eu a puxei em direção à porta. Eu precisava fazer isso. Precisava deixar claro.
Abri a porta. Kiara estava perto de sua mesa, fingindo estar ocupada, mas obviamente ouvindo. Ela ergueu os olhos quando saímos, seus olhos encontrando imediatamente nossas mãos unidas. Seu sorriso se contraiu.
"Kiara", eu disse, minha voz alta e firme, para o benefício de qualquer um que pudesse ouvir. "Esta é Erika Lopes. Minha namorada."
A compostura de Kiara era impecável. Ela deu um sorriso pequeno e educado. "É um prazer finalmente te conhecer. O Caio fala de você o tempo todo." Seus olhos desceram para nossas mãos novamente. "Oi, Erika. Ou já posso te chamar de Sra. Ruiz?", ela disse, seu tom um pouco doce demais.
"Pode chamá-la de Erika", eu disse, tentando manter meu tom leve, mas firme. "Ela vai trabalhar com a equipe de software no terceiro andar. Você poderia levá-la até o departamento de operações?"
Erika assentiu, entorpecida, sua mão escorregando da minha. Enquanto ela se afastava, seus ombros caídos, senti uma pontada de culpa tão aguda que me roubou o fôlego.
Virei-me para minha mesa, e Kiara já estava na porta do meu escritório.
"'Minha namorada'?", ela sussurrou, sua voz carregada de falsa indignação. "Sério, Ruiz? Você me faz parecer tão... oficial."
Não pude deixar de sorrir, a tensão em meus ombros diminuindo um pouco. "Bem, ela é. O que você queria que eu dissesse?"
"Não sei", Kiara retrucou, encostando-se no batente da porta com um beicinho brincalhão. "Talvez não segurar a mão dela como se fosse um cachorrinho perdido? Ainda vamos escalar neste fim de semana?"
A brincadeira fácil foi um alívio, um ritmo confortável depois da tempestade que foi Erika. "Não sei, Kiara. A Erika está aqui agora, é..."
"Ah, qual é", ela gemeu. "Não seja chato. Ela pode vir assistir. Vai ser divertido." Ela piscou. "Além do mais, você me prometeu pastel."
Minha determinação desmoronou. "Tudo bem. Mas você paga."
Observei as costas de Erika desaparecerem no vão do elevador. Um pavor frio se instalou em meu estômago. Eu estava tentando me agarrar a dois mundos diferentes, e podia sentir ambos começando a escorregar por entre meus dedos.
Ponto de Vista: Erika
Afastei-me como um robô, minhas pernas se movendo, mas minha mente a um milhão de quilômetros de distância. Suas palavras, seu toque, a sinceridade fingida em seus olhos — era uma performance, e eu era a plateia relutante. No momento em que ouvi o tom zombeteiro de Kiara, sua risada fácil em resposta, a ilusão se estilhaçou completamente.
Encontrei um cubículo vazio no departamento de operações e me sentei, minha mala uma ilha solitária ao meu lado. Fiquei olhando para a tela em branco do computador pelo que pareceram horas. A surpresa que eu havia planejado, o reencontro alegre, havia se transformado nesta bagunça feia e patética.
Meu celular vibrou. Era meu mentor, Édison Medeiros, o Diretor de Tecnologia.
"Como foi a festa de boas-vindas?", ele perguntou, sua voz calorosa.
Eu não conseguia falar. Um soluço ficou preso na minha garganta.
"Erika? O que há de errado?" Seu tom mudou instantaneamente para um de preocupação.
"Estou bem", menti, minha voz falhando.
"Você não está bem. O que ele fez?"
A represa se rompeu. A história toda veio à tona — o vídeo, Kiara, as mentiras, o olhar no rosto dele. Contei tudo a ele.
Houve um longo silêncio do outro lado da linha.
"Édison?"
"Estou aqui", disse ele, sua voz perigosamente baixa. "Entendo. Parece que o Sr. Ruiz esqueceu quem detém o verdadeiro poder nesta empresa."
"O que isso importa?", sussurrei, enxugando os olhos com as costas da mão. "Ele não me ama mais."
"Amor é uma coisa, Erika. Respeito é outra", disse Édison, sua voz dura como aço. "E ele está prestes a aprender a diferença. Você é a criadora de 'Aura'. Esta empresa, a carreira dele, tudo é construído sobre sua genialidade. Ele pensa que é o rei deste pequeno castelo, mas não percebe que é apenas um convidado em seu império."
Suas palavras deveriam ser fortalecedoras, mas só me fizeram sentir pior. Não era sobre o poder, ou o dinheiro, ou a carreira. Era sobre os cinco anos que eu dediquei a um homem que agora estava escolhendo uma nova "parceira de escalada" em vez de mim.
"Eu quero ir para casa", sussurrei, a luta completamente esvaída de mim. "Não quero mais este emprego. Não quero... nada disso."
"Não tome nenhuma decisão precipitada", disse Édison gentilmente. "Tire alguns dias. Veja como as coisas se desenrolam. Mas saiba disto, Erika. Você não está sozinha nisso. E eu não vou ficar parado assistindo aquele garoto te destruir."
Mas ele estava errado. Eu já estava destruída. A vida que eu estava construindo, o futuro que eu havia imaginado, havia sido reduzido a escombros no espaço de um único dia.
Ele queria uma parceira de escalada? Tudo bem. Que ficasse com ela.
Desliguei com Édison e fiz outra ligação, uma que nunca pensei que teria que fazer.
"Breno?", eu disse, minha voz tremendo.
"Erika. Que surpresa", Breno Arruda, o CEO do nosso maior concorrente, atendeu. Sua voz era calma e profissional, um contraste gritante com o caos na minha cabeça.
"Sabe aquela oferta que você me fez no ano passado?", perguntei, fechando os olhos. "Aquela para ser sua cofundadora e arquiteta-chefe?"
Houve uma pausa. "Sei", disse ele lentamente. "Ainda está de pé?"
"Sim. Mas a oferta veio com uma condição."
Respirei fundo, as palavras com gosto de cinzas na minha boca. "Uma parceria. Em todos os sentidos da palavra. Essa condição ainda está de pé também?"
Breno ficou em silêncio por um longo momento. Eu podia ouvir o som fraco de sua respiração do outro lado da linha.
"Você tem certeza disso, Erika?", ele perguntou, sua voz suavizando. "Você não precisa..."
"Tenho certeza", eu o cortei, minha voz dura e quebradiça. "Cansei de ser coadjuvante na minha própria vida. Estou pronta para construir algo para mim."
Mesmo que isso significasse destruir todo o resto.
Ponto de Vista: Erika
As luzes da cidade de Florianópolis se misturavam do lado de fora da janela do escritório vazio, uma tapeçaria brilhante e indiferente. Eram quase dez da noite. Eu estava sentada no escuro há horas, um fantasma em um cubículo emprestado. Não recebi uma única mensagem ou ligação de Caio. Nenhuma. Era como se minha chegada dramática e de coração partido tivesse sido nada mais do que um pequeno inconveniente em sua agenda, facilmente esquecido.
Finalmente, não aguentei mais o silêncio. Meu polegar pairou sobre o nome dele antes de eu ligar, meu orgulho se dissolvendo em uma necessidade desesperada de contato.
"Oi", eu disse, quando ele finalmente atendeu. "Ainda está ocupado?" A pergunta era um teste, um pequeno apelo patético para que ele provasse que eu estava errada.
Ele hesitou por uma fração de segundo, mas eu ouvi. A pequena pausa que me disse que ele havia se esquecido completamente de mim.
"Ah, meu Deus, Erika. Me desculpa, me desculpa mesmo", ele se desmanchou, o som de um restaurante movimentado alto ao fundo. "O pessoal do projeto Phoenix insistiu em me levar para jantar para comemorar o lançamento. Esqueci completamente. Chego aí assim que puder."
Meu coração, que eu pensei que não poderia afundar mais, despencou. Ele não apenas me esqueceu; ele os escolheu em vez de mim. Na minha primeira noite aqui. A noite que deveria ser o nosso começo.
"Não se preocupe com isso", eu disse, minha voz desprovida de qualquer emoção. "Leve o tempo que precisar."
Desliguei e olhei para a cidade indiferente. O que eu estava fazendo aqui? Eu havia arrancado minha vida inteira pela raiz por um homem que não conseguia nem se lembrar que eu existia por mais de algumas horas.
Trinta minutos depois, a porta do escritório se abriu e Caio entrou correndo, sem fôlego e cheirando a colônia cara.
"Me desculpa", disse ele, me puxando para um abraço que eu não retribuí. Ele parecia um estranho, seu corpo familiar, mas sua presença alienígena. "Eu sou um idiota. Um completo idiota. Você pode me perdoar?"
Eu estava cansada demais para lutar. Cansada demais para sentir raiva. Havia apenas um vazio vasto e oco onde meu amor por ele costumava estar.
Assim que ele se afastou, vi um movimento no corredor. Uma figura permaneceu nas sombras por um momento antes de desaparecer. Kiara.
O rosto de Caio corou com um leve traço de constrangimento. "Ela, uh... ela me trouxe. Meu carro ainda está na academia."
Claro que ela trouxe. Perdi a força para falar, para sequer ficar de pé. Simplesmente peguei minha mala, o gesto um sinal claro de que essa conversa havia acabado.
A viagem de carro até o apartamento dele foi uma sessão de tortura silenciosa para três pessoas. Kiara dirigia, e Caio sentava no banco do passageiro, ocasionalmente murmurando direções. Eu sentei atrás, uma espectadora invisível de sua intimidade confortável. Ele apontava um ponto de referência, e ela ria de uma memória compartilhada da qual eu não fazia parte. Eles se moviam e falavam com a sincronicidade fácil e impensada de duas pessoas que passavam todo o tempo juntas.
Este não era o Caio que eu conhecia. O homem que eu amei por cinco anos era estável, atencioso e um pouco tímido. Esta versão dele era mais barulhenta, mais imprudente, constantemente buscando os holofotes que Kiara parecia lançar sobre ele. O homem que eu amava se foi.
Quando paramos em frente ao prédio dele, Kiara saltou para ajudar com minha mala. Ela caminhou até a porta da frente do apartamento dele e, sem um momento de hesitação, pressionou o polegar no leitor biométrico. A fechadura se abriu com um clique.
Ela tinha acesso por impressão digital à casa dele.
Ela me pegou olhando e me deu um sorrisinho presunçoso antes de se virar para Caio. "Ei, o pessoal está indo para o Summit. Ainda quer ir? Precisamos comemorar direito."
Caio olhou para mim, seus olhos suplicantes. "Amor, é a festa de lançamento. Pegaria mal se eu não aparecesse, mesmo que por pouco tempo."
Eu apenas o encarei. Ele me trouxe, sua namorada de cinco anos, ao apartamento dele pela primeira vez, e queria me deixar aqui para ir a uma festa com sua... parceira de escalada.
Uma risada escapou dos meus lábios, um som seco e sem humor. "O que eu sou para você, Caio? Uma escala? Uma breve parada a caminho de uma festa melhor?"
"Não! Claro que não!", ele disse, sua voz se elevando em pânico. "Você é minha namorada! Eu te amo! Mas esta é a minha vida aqui, Erika. Estes são meus amigos. Foram dois anos solitários. Kiara... ela e os caras, eles têm sido meu sistema de apoio."
"Sua 'parceira'", eu disse, a palavra com gosto de veneno.
"Sim! É tudo o que ela é", ele insistiu, pegando minhas mãos. "Por favor, só por uma hora. Volto antes que você perceba. Por favor, Erika."
Senti o último resquício de minha força se esvair. Eu estava exausta do voo, do confronto, do peso do meu próprio coração partido.
"Tudo bem", eu disse, minha voz uma linha reta. "Vá."
O alívio em seu rosto foi imediato e nauseante. Ele me deu um beijo rápido e grato na bochecha. "Obrigado. Eu te amo. Volto logo."
Ele e Kiara praticamente correram pela porta, suas risadas ecoando pelo corredor.
Fiquei sozinha em seu apartamento, uma estranha no que deveria ser meu novo lar. Fui até a janela e observei enquanto ele corria para o carro dela, com um pulo feliz e despreocupado em seus passos.
E pela primeira vez naquele dia, eu chorei. As lágrimas vieram sem aviso, quentes e silenciosas, traçando caminhos por minhas bochechas frias.
Não sei a que horas ele chegou em casa. Eu havia chorado até dormir no sofá estranho. Senti o afundar da almofada quando ele se sentou ao meu lado, e então uma mão gentil colocando um cobertor sobre meus ombros. Ele se inclinou, e um beijo, suave e com gosto de uísque, roçou minha têmpora.
Eu não me mexi. Mantive minha respiração regular, fingindo estar dormindo. Eu não conseguia encará-lo. Não agora.
"Caio?", sussurrei na escuridão, a pergunta que eu tive medo de fazer o dia todo finalmente borbulhando para a superfície. "Você já pensou em... voltar? Para a matriz? Comigo?"
Por um longo momento, o único som foi sua respiração. Ela falhou, apenas por um segundo, uma pequena pausa no ritmo.
Ele não se virou.
Ele não disse uma palavra.
E no silêncio esmagador de sua recusa, eu finalmente tive minha resposta.