Camila apertou o cinto do meu robe de seda, a seda grudando em suas curvas desconhecidas. Meu robe.
Ela olhou para cima. Seus olhos se arregalaram, um lampejo de surpresa, depois algo mais frio. "Helena? O que você está fazendo aqui?"
Sua voz estava carregada de uma doçura artificial. Arranhava meus ouvidos.
"Você parece... diferente", disse ela, seu olhar percorrendo meu terninho. "Tentando me copiar agora?"
Eu não respondi. Apenas passei por ela. Cada passo era deliberado. Caminhei em direção a Caio.
Ele estava sentado na ilha da cozinha, rolando o feed do celular. Ele ergueu os olhos, seu olhar encontrando o meu. Seu queixo caiu.
"Helena?" Ele olhou para mim, depois para Camila. Sua confusão era quase cômica.
Então seu rosto endureceu. "O que é isso, uma fantasia? Tentando fazer uma piada?" Seu tom era desdenhoso.
"Não é piada, Caio." Minha voz estava firme. "Esta sou eu."
Virei-me para Camila. "Por que você está no meu robe? Na minha casa? No meu quarto?"
Caio bateu o celular na bancada. "Helena, não seja dramática. Ela dormiu aqui. Estávamos trabalhando até tarde."
Ele olhou para Camila com um sorriso suave. "Camila, você está pronta para suas férias em Fernando de Noronha no próximo mês? Aquelas que eu organizei para você?"
Camila sorriu radiante, me ignorando. "Ah, sim! Mal posso esperar! E a operação 'Serpente do Deserto'? Ainda está de pé?"
Caio assentiu, sua atenção totalmente nela. "Claro. É crucial. Não se preocupe, querida. A Helena vai entender." Ele olhou para mim, um sorriso condescendente no rosto. "Ela sempre entende, não é, Lena? A forte e silenciosa."
Eu já sabia o que ele ia dizer. Quase podia ouvir o eco de suas palavras antes que ele as pronunciasse.
Tirei uma pasta elegante e timbrada da minha bolsa. Coloquei-a suavemente na bancada entre nós.
Papéis do divórcio.
Virei-me e caminhei até a porta da frente. O metal frio da maçaneta era bom na minha mão.
"Helena! Onde você vai?" A voz de Caio era aguda. Cheia de incredulidade.
Parei, minha mão ainda na maçaneta. "Tornar isso oficial."
Ele riu, um som áspero e sem humor. "Você não pode ir embora, Helena. Você não tem nada sem mim. Você estará de volta para o jantar."
Camila deu um passo à frente, um sorriso triunfante no rosto. "Algumas mulheres precisam de um homem para se sentirem completas. Nem todas nós somos assim." Ela olhou para mim, seus olhos desafiadores. "Algumas de nós são fortes, independentes."
Soltei uma risada fria e sem humor. Olhei para eles. Caio já estava servindo uma tigela de sopa para Camila. Ele soprou suavemente e depois entregou a ela.
Ele então serviu sopa em outra tigela. Empurrou-a em minha direção sem olhar. "Aqui, Helena. Coma alguma coisa."
Empurrei a sopa para longe. O líquido transbordou. "Fiquem com ela. Vocês dois." Minha voz era um sussurro, mas cortou o ar.
Eu estava prestes a proferir as palavras que nos separariam para sempre.
A casa tremeu. Um tremor violento. A tigela de sopa se espatifou no chão.
O chão tremeu sob meus pés. A tigela de sopa se estilhaçou. O lustre acima de nós balançou descontroladamente, ameaçando se soltar do teto.
Caio não hesitou. Ele agarrou Camila, puxando-a para perto, protegendo-a com seu corpo. Ele pressionou a cabeça dela contra seu peito.
Eu fiquei sozinha. Instável. Invisível. Assim como quando estive no túmulo dos meus pais. Ele também não estava lá naquela época.
O tremor parou tão abruptamente quanto começou.
"Camila, você se machucou? Você está bem?" Sua voz estava carregada de preocupação. Suas mãos percorriam o corpo dela, procurando por ferimentos.
Ela se agarrou a ele, choramingando. "Acho que estou bem."
Então, quase como um pensamento tardio, Caio se virou para mim. "Helena? Você está... bem?" Seus olhos mal me registraram.
"Foi apenas instinto, Helena. A Camila está na minha equipe. Minha responsabilidade." Ele não ofereceu desculpas. Apenas justificativa.
"Você não está na minha equipe, Helena. Você apenas... mora aqui." Ele deu de ombros. Era uma explicação, não uma desculpa.
Eu não disse nada. Meus olhos pareciam vazios. Meu rosto, eu sabia, era uma máscara.
Movi-me em direção ao vidro quebrado. Peguei um caco, examinando sua borda irregular. Vi meu reflexo ali. Distorcido.
Então veio o lamento. A sirene de ataque aéreo da cidade. Um grito gutural que ecoou pelas ruas.
O comunicador de Caio berrou. "Bastos, se apresente! Desastre na usina química! Todas as unidades, em posição!"
Ele já estava se movendo. Pegou seu equipamento, o rosto sombrio. "Camila, fique segura. Mantenha a cabeça baixa."
"Eu vou com você." Minha voz era firme. Inabalável.
Ele parou, olhando para mim enquanto eu me levantava do chão. Meus movimentos eram fluidos. Sem esforço. Apesar do tremor, apesar do vidro quebrado, eu me movia com uma graça que ele nunca tinha visto.
Ele zombou. "Não seja ridícula, Helena. Você só vai atrapalhar. Este não é o seu mundo."
"É agora." Meus olhos encontraram os dele. Não havia suavidade ali. Nenhuma docilidade.
Camila, sempre a estrategista, colocou a mão no braço de Caio. "Talvez ela possa ajudar, Caio. Precisamos de toda a ajuda possível." Ela me deu um sorriso forçado e apertado.
Ele hesitou, depois assentiu com relutância. "Tudo bem. Mas fique atrás de mim. Não toque em nada."
A zona do desastre era o caos. Metal retorcido. Fumaça. O cheiro acre de produtos químicos queimava minhas narinas. Corpos espalhados.
Camila ofegou, a mão voando para a boca. Ela balançou. A brutalidade crua de tudo aquilo era demais para ela.
Ela tropeçou para a frente, enterrando o rosto no peito de Caio. Ele a abraçou, confortando-a. "Está tudo bem, Cami. Apenas respire."
Ele olhou por cima do ombro dela, seus olhos encontrando os meus. "Viu, Helena? Este não é o seu lugar. Você é frágil demais para isso."
Eu não respondi. Não vacilei. Apenas me movi.
Movi-me pelos destroços. Minhas mãos, antes acostumadas a sovar massa, agora levantavam escombros. Meus olhos, antes lendo receitas, agora localizavam sobreviventes. Trabalhei com uma eficiência silenciosa. Eu fui treinada para isso. Não em uma cozinha macia, mas em campos de batalha reais. Meu pai havia garantido isso, muito antes de Caio.
"Ela leva jeito", ouvi um paramédico dizer a um bombeiro. "Raciocínio rápido."
Camila me observava. Seus olhos se estreitaram. Um brilho agudo de ressentimento.
Ela se aproximou, estendendo uma garrafa de água. "Aqui, Helena. Você parece com sede." Sua voz era enjoativamente doce.
Eu a ignorei. Meu foco estava em uma criança presa. Os choros da criança eram fracos.
"Helena!" A voz dela agora era aguda. Impaciente.
Eu não me virei. Minhas mãos já estavam cavando. Rápido.
Seu suspiro furioso foi alto. Senti a água fria atingir minhas costas. Encharcou minha camisa.