Perspectiva de Ana Ferraz:
O pavor era um companheiro frio e constante agora, uma sombra que se agarrava a mim mesmo sob as luzes fluorescentes brilhantes da cafeteria. Eu conhecia Juliano. Ele não apenas falava sobre esperar. Ele agia. Ele sempre conseguia o que queria.
Começou sutilmente. Uma nova cliente, uma mulher em um terno caro, pedia um latte todos os dias, sempre me observando. Depois, um SUV preto com vidros fumê estacionou do outro lado da rua, parado por horas. Minha paz cuidadosamente construída começou a se desfazer.
Numa terça-feira chuvosa, o SUV havia sumido. Em seu lugar, um Porsche Panamera prateado e elegante parou no meio-fio, suas janelas escuras brilhando. O carro de Juliano. Reconheci-o com um solavanco que fez o café quente derramar sobre minha mão.
Ele se moveu rápido. Ele sempre se movia. Ele era um bilionário da tecnologia. Os recursos eram infinitos para ele. Se ele quisesse encontrar um fantasma, ele encontraria. E eu era apenas uma barista com um nome novo.
Antes mesmo de Juliano sair, a rua ganhou vida. Repórteres, fotógrafos, fãs — um enxame deles, surgindo do nada. Eles cercaram o Porsche, uma multidão faminta. Eles haviam sido avisados. Juliano sempre teve talento para orquestrar uma plateia.
Fiquei paralisada atrás do balcão, o vapor da máquina de expresso embaçando minha visão. Minha vida nesta cidade tranquila, meu refúgio, estava desmoronando. O contraste entre meu passado e meu presente me atingiu como um golpe físico. Uma vez, eu era quem eles clamavam para ver. Agora, eu era quem eles caçavam.
Dona Elza, minha senhoria e dona da cafeteria, espiou pela janela, suas mãos frágeis tremendo. Ela era idosa, com um coração bondoso e uma tosse severa que sempre me preocupava.
"Ana", ela sussurrou, sua voz falhando. "O que está acontecendo lá fora?"
Sua confusão foi uma pontada aguda de culpa. Eu havia trazido isso para a porta dela. Esse caos. Esse espetáculo público.
Juliano saiu do Porsche. Ele era ainda mais imponente pessoalmente, seu terno sob medida um contraste gritante com o ar úmido de Gramado. Seus olhos, no entanto, foram o que me prenderam. Eles varreram a multidão, depois a cafeteria, com uma precisão enervante. Ele sabia que eu estava aqui. Ele sempre sabia.
"Estou procurando por Ana Ferraz", a voz de Juliano, amplificada pelos microfones enfiados em seu rosto, cortou o clamor. Soava exatamente como antes – suave, autoritária, totalmente cativante.
Dona Elza se virou para mim, seus olhos arregalados de medo.
"Ana Ferraz? Ana, de quem ele está falando?"
Eu balancei a cabeça, minha garganta apertada.
"Eu não sei, Dona Elza. É um engano."
Mas a multidão lá fora não estava comprando. Uma mulher na frente, segurando uma placa que dizia "Justiça por Karina", gritou: "Ela está se escondendo! Ela mudou de nome para escapar da justiça!"
Outra voz se juntou, mais alta, mais raivosa.
"Ela acha que pode simplesmente desaparecer depois de arruinar vidas? Depois de praticamente matar o próprio avô?"
As palavras me atingiram como pedras. Meu avô. Eles o arrastaram para isso também. Minha respiração engatou.
Juliano, enquanto isso, permaneceu perfeitamente imóvel, seu olhar fixo diretamente na porta da frente da cafeteria. Ele não estava gritando. Ele não precisava. Ele simplesmente usava sua presença. Seu poder.
Seus olhos se estreitaram, fixando-se em algo dentro da loja. Em mim. Seus lábios mal se moveram, mas as palavras foram claras, mesmo através do vidro, através do rugido da multidão.
"Ana. Eu sei que você está aí."
A acusação pairou no ar. Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro preso desesperado para escapar. Ele não estava pedindo. Ele estava exigindo. E eu sabia, com uma certeza que me gelou até os ossos, que ele não iria embora até que eu mostrasse meu rosto.
Perspectiva de Ana Ferraz:
Meu primeiro instinto foi fugir, encontrar uma saída dos fundos, qualquer rota de fuga do olhar predatório de Juliano. Mas então olhei para Dona Elza. Seu rosto estava pálido, suas mãos ainda tremiam, seus olhos dardejavam entre mim e a multidão furiosa lá fora. Ela não merecia isso. Sua pequena cafeteria, sua vida tranquila, estavam sendo estilhaçadas por minha causa.
As palavras de Juliano eram uma armadilha, sua exibição pública um movimento calculado. Ele sabia que eu não deixaria uma pessoa inocente sofrer por causa de sua farsa. Ele sabia que eu não poderia ficar parada enquanto Dona Elza era pega no fogo cruzado.
"Eu cuido disso, Dona Elza", consegui sussurrar, minha voz rouca. Eu odiava o som dela agora, tão fraca, tão quebrada. Não era nada como a voz que Juliano havia roubado de mim.
Ela agarrou meu braço.
"Ana, não. Eles estão loucos lá fora. Deixe-me dizer a eles que você não está aqui."
Sua bondade, seu medo por mim, revirou meu estômago. Era exatamente por isso que eu tinha que sair. Eu não podia deixar que a machucassem. Ela tinha oitenta anos, sua saúde era frágil.
Abri a porta e saí, para os flashes ofuscantes das câmeras, para a tempestade uivante de acusações. O ar engrossou com hostilidade. Parecia que eu estava caminhando para um bloco de execução.
"Lá está ela!", alguém gritou. "A plagiadora!"
"Olha a cara dela!", outra voz zombou, cruel e próxima. "Essa cicatriz a deixa ainda mais feia!"
Minha mão voou para minha bochecha, uma tentativa fútil de esconder a prova visível do meu passado. A cicatriz, uma companheira constante, queimava sob o olhar coletivo deles.
"Você merece tudo o que aconteceu com você!", uma mulher gritou, cuspindo suas palavras como veneno. "Você tentou destruir a carreira da Karina!"
O coro de acusações aumentou. Minha cabeça girou. Era o mesmo roteiro, as mesmas falas cansadas, apenas cinco anos depois.
Então, a voz de um homem, afiada e cortante, atravessou o barulho.
"E o seu pobre avô? Morreu de coração partido por sua causa! Você o matou!"
Isso me quebrou. Uma onda de náusea me invadiu. Vovô. Sempre o vovô. Era a única ferida que nunca cicatrizava, a única culpa que eu carregava como um manto de chumbo. Minha visão embaçou. Os rostos na multidão se transformaram em máscaras grotescas. Suas vozes se tornaram um zumbido distante, um zunido sem sentido em meus ouvidos. Eu senti como se estivesse me afogando.
Juliano estava a poucos metros de distância, observando. Uma figura escultural de calma em meio ao caos. Sua expressão era indecifrável, uma máscara de preocupação ensaiada que não alcançava seus olhos. Ele orquestrou isso. Cada grito, cada flash.
Dona Elza, abençoada seja, tentou abrir caminho pela multidão para me alcançar.
"Deixem-na em paz! Ela é uma boa menina!"
Mas eles eram muitos, muito raivosos. Alguém a empurrou. Ela tropeçou, quase caindo para trás no pavimento molhado. Meu coração saltou para a garganta.
"Ei!", a voz de Juliano, de repente afiada e comandante, cortou o barulho. Ele se moveu, avançando, sua mão segurando Dona Elza antes que ela atingisse o chão. Sua presença foi suficiente. A multidão, momentaneamente atordoada por sua intervenção, se aquietou. Ele segurou Dona Elza gentilmente, depois se virou para a turba, seu rosto um retrato de indignação justa.
"Não é assim que tratamos as pessoas. Esta não é a resposta."
Suas palavras, destinadas a soar nobres, me enojaram. Ele estava bancando o herói, acalmando a mesma besta que ele soltou. A ironia era um gosto amargo na minha boca. Ele olhou para mim, seus olhos carregando uma mensagem silenciosa: *Viu? Eu ainda estou aqui para te salvar.*
Ajoelhei-me ao lado de Dona Elza, verificando se ela estava ferida.
"A senhora está bem?", sussurrei, minha voz quase inaudível. Seu corpo frágil tremia contra o meu.
Juliano dispensou sua equipe de segurança, que rapidamente começou a empurrar a multidão para trás, criando uma pequena bolha de espaço ao nosso redor. Então ele voltou toda a sua atenção para mim.
"Ana", ele disse, sua voz mais suave agora, quase terna. "Precisamos conversar."
Meu estômago se contraiu. Meu coração batia um ritmo frenético contra minhas costelas.
"Juliano", eu disse, o nome parecendo estranho, como uma pedra na minha boca. Fazia anos que eu não o pronunciava.
Ele vacilou. Apenas um pequeno tremor ao redor de seus olhos.
"Ana", ele repetiu, uma pitada de acusação em seu tom. "Por que você ainda está fugindo? Por que está se escondendo de mim?"