Capítulo 2

Na manhã seguinte, Davi a acordou com um beijo gentil. "Sei que perdi nosso aniversário ontem por causa do trabalho", disse ele, a voz grossa de sono e arrependimento fingido. "Vamos a algum lugar hoje. Só nós dois. Que tal aquele novo restaurante estrelado, o 'Aurora'? Sei o quanto você ama o menu degustação deles."

Júlia sentiu uma onda de náusea. Aurora. O novo lugar favorito deles. Mas ela sabia que isso era parte da performance que teria que suportar pelas próximas três semanas. Ela deu de ombros, sem se comprometer.

Davi não esperou por uma resposta real. Ele já estava fora da cama, pegando roupas do armário, vibrando com uma energia que parecia totalmente falsa. "Eu reservei o lugar todo para a noite", acrescentou ele com um sorriso orgulhoso. "Só para nós."

No restaurante, ele era a imagem de um marido dedicado. Puxou a cadeira para ela, pediu seu champanhe favorito e discutiu cada prato com o chef que veio pessoalmente à mesa deles. Toda a equipe girava em torno deles, tratando-os como realeza. Ele segurou a mão dela sobre a toalha de linho branca, o polegar acariciando seus nós dos dedos, como se tivesse medo de que ela pudesse escapar a qualquer momento. A ironia era sufocante.

"A nós", disse ele, erguendo a taça. "Para sempre."

Eu já estou perdida, Davi, ela pensou, as palavras um grito silencioso em sua mente. Perdi meu rumo no dia em que te conheci.

A presença deles não passou despercebida, apesar do restaurante vazio. Um paparazzi, provavelmente avisado pela equipe de relações públicas de Davi, tirou algumas fotos deles pela janela. A manchete já estava se escrevendo: "Bilionário Davi Moura fecha restaurante estrelado para jantar de aniversário romântico com a esposa Júlia Soares." Uma adição perfeita ao seu conto de fadas perfeito.

Júlia forçou um sorriso e assentiu. Davi, sempre o showman, passou o braço pela cintura dela e a puxou para perto, sorrindo para a câmera que ele sabia que estava lá.

Após o prato principal, Júlia pediu licença. "Volto já", murmurou, precisando de um momento para respirar longe de sua performance sufocante.

No mármore frio do banheiro feminino, ela se apoiou na bancada, seu reflexo parecendo pálido e frágil. Discretamente, pegou o celular, seus dedos voando pela tela por uma curiosidade mórbida que não conseguia suprimir.

Ela encontrou o que procurava no perfil do Instagram de Yasmin Ferraz. A modelo havia postado há apenas uma hora. Era uma série de fotos profissionais dela, posando sedutoramente dentro daquele mesmo restaurante, o Aurora.

A legenda dizia: "Meu namorado é o melhor! Eu disse a ele que amava este lugar, então ele comprou o restaurante inteiro para mim! Sou ou não sou a garota mais sortuda do mundo? #MelhorNamorado #Mimada"

A mão de Júlia ficou dormente. Este restaurante. Aquele que Davi lhe dissera ser um novo "investimento imobiliário" para a empresa. Era um presente para sua amante.

A seção de comentários do post explodiu com elogios bajuladores.

"Mentira! Você tá inventando!", dizia um comentário, mas foi rapidamente soterrado.

"Mostra a prova!"

Yasmin claramente havia antecipado isso, fixando sua própria resposta no topo. Era uma foto de uma escritura de imóvel impecável, segurada em suas mãos perfeitamente cuidadas. O nome do proprietário estava claramente visível, embora borrado para seus seguidores. "Viram? Agora acreditam?", ela havia escrito.

O chat entrou em erupção.

"MEU DEUS! Seu namorado é mais rico que o Davi Moura!"

"O Davi Moura só dá joias para a esposa. O seu te dá um restaurante inteiro! Isso sim é amor de verdade!"

De repente, uma notificação apareceu na tela. Um novo comentário surgiu, instantaneamente fixado no topo. Era de um nome de usuário que ela reconheceu com um baque nauseante: 'Amo_Yasmin'.

O comentário em negrito dizia para todos verem: "É claro que eu amo mais a Yasmin."

O post mergulhou no caos. Os seguidores foram à loucura, gritando sobre o namorado misterioso e insanamente rico.

Yasmin respondeu ao comentário com uma série de emojis de coração, uma volta da vitória presunçosa e satisfeita.

A mão de Júlia tremeu. Ela olhou da tela do celular, de volta para a sala de jantar onde Davi estava sentado. Ele ainda estava olhando para o próprio celular, um sorriso fraco e indulgente nos lábios, seus olhos cheios de uma familiaridade doentia.

Era ele. Ele era o 'Amo_Yasmin'.

Ele estava sentado lá fora, interpretando o papel do marido perfeito, enquanto declarava publicamente seu amor por outra mulher.

Júlia sentiu algo dentro dela se estilhaçar completamente. Uma dor aguda e física rasgou seu peito e, por um longo momento, ela não conseguiu respirar.

Capítulo 3

Uma onda de tontura a atingiu. Júlia pressionou a mão no peito, tentando forçar o ar para dentro dos pulmões. A dor era tão intensa que parecia que seu coração estava sendo fisicamente arrancado.

Davi finalmente ergueu os olhos quando ela tropeçou de volta à mesa, sua expressão mudando de indulgência para alarme. "Júlia? O que foi?" Ele estava ao seu lado em um instante, suas mãos pairando sobre seus ombros, o rosto uma máscara de preocupação.

"Você está bem? Seu peito dói?", ele perguntou, a voz carregada de pânico.

Como você pode me perguntar isso?, ela pensou, uma risada histérica borbulhando em sua garganta. Como você pode sentar aí, professando seu amor por outra mulher, e depois fingir se importar tanto comigo?

Ela se forçou a respirar lenta e tremulamente. "Não é nada", mentiu, a voz tensa. "Só uma cãibra."

Ele não pareceu convencido, mas a ajudou a se levantar. "Vamos para casa. Você precisa descansar."

O caminho de volta foi um borrão de gentilezas forçadas. Davi tentou fazer piadas, preencher o silêncio sufocante no carro, mas Júlia apenas olhava pela janela, as ruas vibrantes da cidade parecendo cinzentas e sem vida.

"Eu fiz algo de errado?", ele finalmente perguntou, a voz suave e cautelosa.

"Não", disse ela, o tom neutro. "Eu só estava pensando em uma série que assisti hoje."

Ele relaxou visivelmente. "Ah, é? Sobre o que era?"

"Era sobre um homem que tinha dois amores", disse ela, os olhos fixos nos prédios que passavam. "Ele dizia à esposa que a amava, mas secretamente amava outra pessoa. Ele achava que poderia esconder isso para sempre." Ela se virou para olhá-lo, o olhar penetrante. "Davi, você faria isso comigo?"

"Claro que não!", ele interrompeu, a voz aguda e defensiva. Ele estendeu a mão e pegou a dela, o aperto quase doloroso. "Júlia, você sabe que eu te amo. Só você. Eu nunca, jamais, te trairia."

Suas palavras, antes uma fonte de conforto, agora pareciam punhais. Cada sílaba era uma mentira, uma performance cuidadosamente elaborada.

Nesse momento, o outro celular dele, o que ele mantinha para o "trabalho", vibrou no console central. Ela acenou na direção dele. "É melhor atender."

Ele hesitou, depois o pegou. Sua expressão se contraiu enquanto ouvia a voz do outro lado. "Preciso ir", disse ele, encerrando a chamada abruptamente. "Uma emergência no escritório." Ele encostou o carro. "Vou pedir para um motorista te levar para casa."

Júlia assentiu silenciosamente e saiu do carro.

No momento em que o carro dele acelerou, ela chamou um táxi. "Siga aquele carro", disse ao motorista, a voz fria e firme.

O carro de Davi os levou a uma mansão particular nos arredores da cidade. Júlia observou de longe enquanto ele saía. A porta da frente da mansão se abriu e Yasmin Ferraz apareceu, vestida com uma fantasia de empregada ridiculamente curta.

Ela correu para Davi, jogando os braços ao redor de seu pescoço, e eles se beijaram, um beijo longo e apaixonado que fez o estômago de Júlia revirar.

"Sentiu minha falta?", Yasmin perguntou, a voz um ronronar brincalhão. "Tenho uma surpresa para você."

Os olhos de Davi escureceram com um olhar de pura luxúria que Júlia não via há anos. "Vim o mais rápido que pude", ele murmurou.

"Vamos ver a surpresa no carro", sussurrou Yasmin, puxando-o em direção ao veículo dele.

Eles entraram no banco de trás e, logo, o carro começou a balançar suavemente.

Júlia sentou-se no táxi, observando. Uma parte dela sabia, esperava por isso, mas ver com seus próprios olhos era um tipo diferente de dor. Era uma agonia crua e visceral que raspava sua alma de qualquer esperança remanescente.

Ela apertou o peito novamente, ofegando por ar enquanto lágrimas quentes escorriam por seu rosto. Ela se lembrou da primeira vez deles juntos. Ele tinha sido tão gentil, tão reverente. Ele insistiu em esperar até a noite de núpcias, dizendo que ela era preciosa demais, pura demais. Ele chorou naquela noite, abraçando-a, sussurrando que a amaria por toda a eternidade.

Ele a fez se sentir querida, única, como se ninguém mais no mundo pudesse amá-la como ele amava.

E foi ele quem estilhaçou tudo.

A motorista de táxi olhou para ela pelo retrovisor. "Homens são todos iguais", disse ela, a voz cheia de uma simpatia cansada. Ela passou uma caixa de lenços para Júlia. "Meu marido também tem uma por fora. A gente só tem que fingir que não vê. Perdoar. É mais fácil assim."

Júlia pegou um lenço, os nós dos dedos brancos enquanto cerrava o punho. "Não", sussurrou ela, a voz um som cru e quebrado. "Eu nunca vou perdoá-lo."

Ela repetiu as palavras, desta vez para si mesma, um voto solene e inquebrável. Nunca.

Quando chegou em casa, ela se moveu pela vasta e vazia cobertura como um robô. Juntou todos os presentes que Davi já lhe dera — as roupas, as bolsas, as joias, incluindo o recém-adquirido colar 'Júlia'.

Ela ligou para o administrador do prédio. "Quero vender todos esses itens", disse ela, a voz desprovida de emoção. "Doe o dinheiro para uma fundação para mulheres."

Em uma hora, tudo estava embalado e levado. Os armários estavam vazios, as caixas de joias, também.

Ela começou a fazer uma pequena mala com suas próprias coisas, os poucos itens que eram verdadeiramente seus.

De repente, a porta da frente se abriu com um estrondo. Davi estava lá, encharcado da chuva que começara a cair, o rosto pálido e furioso.

"Júlia! Por que você vendeu o colar?", ele exigiu, sua voz ecoando na sala nua e vazia.

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