Capítulo 2

Algo explode perto do trinco da porta e sei que é um tiro. A arma deve ter silenciador. O desespero grita dentro do meu peito e sinto o ar ir sumindo aos poucos. Mais um tiro e um pequeno buraco surge na porta, perto do trinco. O homem tenta enfiar a mão para destravar a porta e em um ato idiota de coragem, avanço em sua mão e mordo. Cravo meus dentes com tanta força que sinto sabor de sangue.

- Vadia!

Puxa a mão de volta e caio no chão. O homem agora atira contra a porta várias vezes e me escondo na parede, me encolhendo toda.

- Quando eu te pagar vou te arrebentar toda e te meter bala.

Grita furioso e começa a chutar a porta que está quase caindo.

- Os seguranças estão subindo.

Alguém grita pro homem que solta uma sequencia raivosa de palavrões.

- Temos que matar essa vaca.

- Ela não viu nossa cara, então estamos bem. Vamos logo!

- Reza pra eu não cruzar com você, vadia!

Fala pra mim e escuto o som da correria no quarto. Agarro minhas pernas, não consigo mais chorar baixo e meu corpo todo treme. Tudo fica silencioso lá fora e tenho medo de sair. Medo de estarem me esperando e de levar um tiro na testa como o Jonny. Escuto batidas na porta e me encolho mais.

- Senhorita, consegue abrir a porta?

- Não!

Sussurro de volta, mas não sei se a pessoa me escutou.

- Senhorita, meu nome é Jerry e sou segurança do hotel. Consegue abrir a porta? Está seguro, já chamamos a polícia.

- Não consigo... me mexer...

Respondo mais alto e gaguejando. Me assusto quando a porta é derrubada e um homem bem moreno entra no banheiro. Seus olhos percorrem o local me procurando e quando me encontra, respira aliviado. É um dos seguranças que olhei na recepção.

- Está ferida?

Nego com a cabeça, mas permaneço travada no lugar.

- Consegue se levantar?

Em lágrimas nego novamente com a cabeça. Jerry sai do banheiro e volta com um cobertor. De forma protetora coloca em cima de mim, sem me tocar se ajoelha a minha frente.

- Sabe o que aconteceu no quarto?

Confirmo com a cabeça que sim.

- Esteve no banheiro enquanto o Sr. Silver era assassinado?

- Sim...

- Eles tentaram entrar pra te pegar?

- Sim...

- Você que ligou pra recepção pedindo ajuda?

Confirmo com a cabeça e o choro aumenta.

- Ele quase me matou.

Sussurro e sua mão repousa sobre a minha cabeça.

- Vai ficar tudo bem. A polícia já deve estar chegando e vai ficar segura.

**********

Dez minutos depois o quarto está tomado de policiais, estou sentada na cama encarando o corpo do Jonny no chão. Queria conseguir não olhar, mas é impossível. Alguns policiais parecem procurar alguma coisa no quarto, enquanto outros conversam com o segurança Jerry e me olham como se eu fosse a assassina.

- Srta. Victória Jones, certo?

Um dos homens que conversava com o segurança pergunta.

- Sim!

- A senhorita é...

Posso completar sua frase, mas estou querendo ver como ele me classifica. Vai mostrar muito o tipo de policial que é.

- Acompanhante do Sr. Silver.

Jerry completa por mim.

- Estava com ele nesse quarto no momento do crime.

- Gostaria que apenas a Srta. Jones respondesse minha pergunta.

O policial é grosseiro com Jerry, mas ele não se intimida. Senta ao meu lado como se fosse meu cão de guarda.

- Sou acompanhante de luxo e hoje Jonny Silver era meu cliente.

Digo firme e tomada por uma coragem assustadora. Talvez seja coragem de enfrentar pessoas como esse policial de olhar julgador.

- Poderia me contar o que fizeram até o momento em que o Sr. Silver foi assassinado?

- Qual o nome do senhor?

- Phil!

- Jonny me contratou para acompanhá-lo em um evento aqui perto. Passamos cerca de meia hora no local e depois decidiu vir para o hotel.

- Apenas meia hora no evento? Acho que tinha pressa em ficar a sós com você.

- Jonny estava incomodado com um assunto chato da festa e decidiu vir embora. Em nada meu corpo teve culpa em sua rapidez no evento.

- Incomodado?

- Sim!

- Qual era o assunto?

- Sua prisão e sua soltura rápida.

- Só isso?

Questiona e algo em mim diz pra me calar sobre o resto. Não sei em quem confiar. Pode ser que a pessoa que matou o Jonny tenha informantes.

- Acho que sim! Não somos pagas pra ouvir essas conversas, eles nos afastam desses assuntos.

O policial me analisa toda.

- Você tem algum namorado ciumento, algum cafetão, algum cobrador de dividas?

- Não!

- Ninguém que pudesse invadir um quarto onde esteja com um cliente e usá-lo pra pagar suas dividas?

- Por que eu devo ser a responsável pela morte do Jonny e não ele mesmo? É mais fácil ele ter inimigo do que eu!

O policial se cala e anda pelo quarto.

- Não gostei dele.

Jerry diz perto do meu ouvido.

- Também não!

- Tenho um amigo que trabalha na policia, vou pedir ajuda dele.

Sai de perto de mim e sai do quarto com o telefone no ouvido.

***********

DUAS HORAS DEPOIS

Finalmente vou sair desse quarto e parar de olhar o corpo do Jonny no chão. Jerry conseguiu ajuda de seu amigo e vão me levar a delegacia de homicídios. Saio do quarto enrolada em uma coberta e entramos no elevador. Jerry está ao meu lado, seu amigo policial a minha frente e descemos para o térreo. As portas do elevador se abrem e vejo uma multidão na porta de vidro do hotel.

- A imprensa já soube da morte do Jonny.

Jerry resmunga e aperta o botão do subsolo.

- Vamos sair pelo estacionamento, evitamos que tirem foto da Victória. Temos que preservá-la o quanto der.

Saímos para o estacionamento e Jerry me para no meio de um dos corredores.

- Cobre o rosto.

Pede e me ajuda a puxar o cobertor.

- Jerry, pode levá-la em seu carro? Vou sair com a viatura e chamar atenção desses abutres. Vem em seguida com seu carro e me encontra na delegacia.

- Perfeito!

Ele segue para a viatura e caminho com o Jerry até o carro dele.

- Obrigada por me ajudar e me proteger.

Digo e ele sorri pra mim.

- Minha irmã é acompanhante. Só estou te protegendo como eu gostaria que a protegessem.

Abre a porta do seu carro e me pede pra entrar no banco de trás e me abaixar. Faço o que me pede e não vejo mais nada, apenas sinto o carro entrar em movimento. Escuto o barulho da rua e das pessoas, mas não me mexo. Sinto o carro se mover mais rápido e meu celular na bolsa começa a tocar. Pego ele escondida e vejo um número restrito.

- Alô!

- Oi, vadia!

A voz do homem que matou o Jonny faz meu corpo gelar. Me descubro e olho para o Jerry.

- O que foi?

Pergunta e cubro o telefone com a mão.

- É o homem que matou o Jonny.

- Te mandei não cruzar de novo meu caminho.

Diz e em segundos a viatura do amigo do Jerry a nossa frente passa um cruzamento e é atingida por outro carro.

- Meu Deus!

Jerry grita e escuto a risada do homem no telefone.

- Adeus, vadia!

Capítulo 3

Deixo o celular cair da minha mão, enquanto assisto a viatura da policia rodar, capotando três vezes.

- Luke!

Jerry grita e desesperado solta o cinto. O carro que o acertou desaparece e os carros vão brecando com tudo pra não se chocarem.

- Não saia do carro, se esconde.

- Não! Vou com você.

- Eles podem estar de olho pra te pegar.

- Não me importo, seu amigo pode precisar de ajuda. Fiz curso de primeiros socorros.

Saímos do carro e corremos com cuidado até a viatura. Jerry está ao telefone pedindo resgate, enquanto uma multidão se aglomera em volta do carro. Uma sensação estranha percorre meu corpo, como se estivesse sendo observada. Ele está aqui! O cara que matou Jonny está aqui. Olho em volta, mas não faço idéia de como ele é. As únicas coisas que conheço dele é a tatuagem e a voz. Jerry quebra a porta da viatura com a ajuda de um homem.

- Luke!

Ajoelha pra ver o amigo policial e tentando não surtar, vou até eles. Abaixo e vejo seu amigo com o rosto cheio de sangue. Por sorte a viatura parou com o capô pra cima e não pra baixo, mas o carro está todo arrebentado.

- Ele não responde!

- Me dá espaço.

Peço e me enfio na frente do Jerry. Verifico sua pulsação e respiro aliviada ao senti-lo vivo.

- Está apenas desacordado. Verifica se tem alguma farmácia ou alguém com kit de primeiros socorros. O corte na testa está bem profundo.

Jerry se afasta e vou aos poucos tentando ver se tem mais algum ferimento. Seu cinto o salvou de lesões mais graves. Seus braços e pernas estão aparentemente intactas, mas minha preocupação é o que não posso ver.

- Vamos tirá-lo de dentro do carro.

Alguém diz abrindo a porta do outro lado.

- Não!

Grito e o homem me olha assustado.

- Ele pode ter alguma hemorragia interna, precisamos aguardar o resgate.

- Consegui isso!

Jerry surge com uma pequena maleta de primeiros socorros.

- Deve ajudar!

Ele abre a maleta e pego algodão, álcool, uma faixa e gazes. Com cuidado limpo o ferimento na testa, que não para de sangrar.

- Segure a cabeça dele, vou enfaixar e não quero mexer no pescoço.

Jerry segura firme a cabeça do amigo. Cubro com gazes e passo a faixa em torno da sua cabeça. Me assusto quando os olhos dele se abrem e encaram os meus.

- Luke, você consegue me ouvir?

Pergunto e ele volta a fechar os olhos e geme.

- Sim, mas a dor é muito forte.

- Sabe me dizer onde dói?

- Cabeça...

- Mais nada?

- Corpo, mas como se eu tivesse treinado luta. Parece dor muscular.

- Ótimo! Quero que não se mova, o resgate já deve estar chegando.

- O que aconteceu? Só me lembro de estar guiando vocês até a delegacia e...

Abre os olhos e respira fundo.

- Não lembro de mais nada.

O som da ambulância se aproximando me faz olhar para o Jerry.

- Você acompanha seu amigo, vou pra minha casa.

- Você não pode ir pra sua casa.

- Já contei tudo a policia naquele quarto de hotel. Eles possuem todas as informações sobre mim, se precisarem me procuram.

- Victória, aquele carro não queria atingir o Luke, mas sim você.

- Devem achar que conseguiram, vão me deixar em paz.

- Você não está segura.

- Vou pegar minhas coisas em casa e viajar. Dar um tempo pra me esquecerem.

A ambulância para em frente ao carro e dou espaço para os paramédicos fazerem o atendimento no Luke. Jerry fica perto do amigo e acho que está na hora de ir.

- Gatinha!

Meu corpo todo congela ao sentir uma mão segurar meu braço e a voz dele ecoar em meu ouvido.

- A vadia se salvou!

Sinto algo encostar em minhas costas.

- Quantas vidas ainda tem essa gatinha?

Sua língua percorre meu ouvido e sinto vontade de vomitar. Tem tanta gente em volta e todos focados no resgate e não em mim, em nós.

- Vamos procurar um lugar mais vazio pra descobrir isso.

Me puxa pra trás e após alguns passos esbarramos em alguém. Sua mão escapa do meu braço e aproveito pra correr. Empurro as pessoas a minha frente e corro apavorada, sem olhar pra trás. Saio da multidão e me vejo no meio do cruzamento, sem saber pra onde ir ou onde me esconder. Meus pés parecem travar e meus olhos desesperados tentam encontrar um socorro.

- Victória!

Jerry grita, sinto um toque em meu braço e tudo vira escuridão.

***********

- Me conta a merda que se enfiou, Jerry.

- A merda não é minha, é dela. Luke quase morreu!

Meus olhos mesmo pesados vão se abrindo. Tudo parece desfocado e volto a fechá-los.

- Quem é ela?

- Uma pessoa que precisa de ajuda.

- Isso não responde minha pergunta.

- Erick, essa mulher pode ser a chave pra verdade.

- Jerry...

O chamo e quando abro meus olhos ele está a minha frente.

- O que aconteceu?

Pergunto e aos poucos tudo a sua volta começa a ficar nítido pra mim.

- Não sei! Você saiu de perto de mim, fui atrás de você e estava no meio da rua em choque.

Vou me sentando aos poucos e minha cabeça dói.

- Quando te toquei, desabou no chão e apagou.

Fecho meus olhos e as lembranças surgem.

- Ele estava lá!

Digo quase em um sussurro e meu corpo arrepia ao lembrar de seu toque, da sua voz. Meu estomago embrulha e sinto uma vontade absurda de vomitar. A ânsia me toma e não vou consegui segurar. Abro meus olhos assustada quando alguém empurra o Jerry, me pega no colo e anda rápido comigo pra algum lugar. Volto a fechar meus olhos pra não vomitar no homem.

- Pronto!

Me coloca no chão e ao abrir os olhos vejo a privada. Ajoelho e sem aguentar segurar mais, me curvo e solto um liquido estranho e amargo pela boca. Não tem o que vomitar quando não se alimenta o dia todo. Deve ter saído só o champagne. O homem segura meu cabelo enquanto a ânsia não passa.

- Não se alimentou, por isso não sai nada.

Limpo minha boca com a mão tremula, sento no chão e encosto na parede.

- Ele me tocou! Aquele homem me tocou e nunca senti tanto nojo em toda a minha vida.

Uma toalha surge em frente ao meu rosto e a pego. Limpo meu rosto e respiro fundo.

- Obrigada!

Olho pra cima e finalmente vejo quem me trouxe para o banheiro. Meu Deus! Me seguro para a boca não despencar, mas ele percebe meu choque com sua beleza e tamanho. Ele não é só grande de altura, mas também de largura também. Muitos, muitos músculos enfiados em uma camiseta branca e uma calça jeans surrada. Mas esse homem não é enorme, mas sim lindo em uma categoria de perfeição. Cabelos negros, com uma jogada lateral na frente. Olhos lindos azuis e um sorriso perfeito. Merda! Ele está sorrindo pra mim ou de mim? O filho da mãe ainda tem aquelas presas de vampiro lindas. Para de sorrir e de forma discreta passa a língua nos lábios.

- Acho que já se sente bem melhor.

Diz com uma voz rouca e sexy, fazendo um arrepio percorrer meu corpo todinho.

- Ela quem estava com o Jonny na hora do assassinato.

Jerry diz e aparece na porta do banheiro. O homem me mede dos pés a cabeça.

- Essa é garota de programa que estava com ele?

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