Nathalia
Meses depois…
— Bom dia, meu amor!
Cantarolo ao entrar no quarto do meu filho e, como sempre, abro as cortinas para a luz do dia invadir o cômodo. Lucas se espreguiça na cama e abre o primeiro sorriso matinal, que mexe com o meu coração de mãe.
Retribuo o seu sorriso.
— Bora acordar, garotão?
— Mamãe!
E lá está a empolgação que tanto amo. Não seguro mais o sorriso quando ele abre os braços para mim, e não meço distância para me aproximar dele. Contudo, não o abraço, porque ele não suporta toques. Lucas tem TEA — Transtorno do Espectro Autista, nível três. Ele é uma criança que precisa de rotina severa, de previsibilidade e de poucos vínculos. O mundo dele é pequeno. Seguro. E eu faço parte dele.
— Bom dia, querido!
Abraços, nem pensar. Mas ele ama encostar sua testa na minha, e isso é o bastante para mim.
— Hora do banho, garotão. — Faço um som divertido, porém contido.
— Banho. Banho.
— Isso, banho.
Excesso de carinho o desorganiza, então um beijo calmo em sua bochecha o tranquiliza. Confesso que não teria sido fácil sem o apoio da minha família. Bernardo, meu irmão mais velho, é meu braço direito, e o Lucas é completamente apaixonado por ele. Ah, e falando em rotina… banho, café da manhã, escola, psicólogo, fonoaudiólogo, terapia, fisioterapia, e jogos de blocos. Este último ajuda o Lucas a se conectar com o mundo.
— Pronto, você ficou lindo!
— Não quero ir para a escola — reclama, como sempre.
Contudo, levo meu indicador embaixo do seu queixo e o faço olhar para mim. Lucas luta contra o meu olhar.
— Olhe para mim, Lucas — peço. — Olhe aqui nos meus olhos — insisto. E ele o faz, mesmo contra a sua vontade. — Você precisa ir à escola.
— Não quero.
— Mas a Maia vai estar lá. E ela gosta muito de você.
— Maia.
— Isso.
— Eu gosto da Maia.
Sorrio.
— Sim, você gosta da Maia. E precisa ir para a escola. Precisa cuidar dela, certo? — insisto.
— Certo.
— Ótimo. Que tal um café da manhã?
— Cereais.
— Hum, eu gosto de cereais.
— Eu também gosto.
Estendo a minha mão para ele e logo saímos do quarto.
— Bom dia, querida! — diz Renata ao entrarmos na cozinha.
Renata Lisboa é psicopedagoga e é a pessoa em quem mais confio nesse mundo para cuidar do Lucas na minha ausência. É ela quem transforma as tardes do Lucas em pequenas missões de descoberta — jogos de memória, histórias coloridas e exercícios que ajudam meu filho a entender um mundo que, muitas vezes, parece alto demais para ele. Ela me ajuda a organizar as rotinas dele, trabalha as habilidades sociais, dá apoio no processo escolar e, nas horas vagas, é minha melhor amiga e confidente.
— Bom dia, Re!
— E bom dia para você, garotão!
— Bom dia! — Lucas responde, acomodando-se no seu lugar à mesa. — Cereais — diz, após se sentar na cadeira.
— Coloridos. — ela completa, levemente animada. Afinal, entusiasmo demais o deixa aturdido.
— Coloridos — Lucas repete, como se experimentasse a palavra.
— Seu café da manhã, Nati. — Bia, uma das poucas empregadas que mantenho em casa, diz, colocando na mesa uma xícara de café com bastante leite e caramelo.
— Obrigada, Bia! — falo, bebericando um pouco do café e, após me acomodar à mesa, pego apenas uma fatia de queijo branco.
— Dia cheio hoje? — Renata pergunta, sentando-se ao lado de Lucas.
— Um pouco.
— Não esqueça que você tem uma reunião com a professora do Lucas hoje.
— Coloquei um lembrete para não me esquecer.
— Sua sessão com a doutora Júlia está marcada para o final desta tarde.
— Tudo bem. Estarei lá.
Observo enquanto ela cuidadosamente ajuda meu filho a limpar o canto da boca e, após um diálogo rápido, o convence a ir com ela para a escola. E, quando ponho os pés para fora de casa, me transformo na pessoa que assume o controle quando o assunto são os eventos da Rocha & Partners — o mais conceituado e respeitado escritório de advocacia do estado do Rio de Janeiro, e também o escritório da minha família, onde meu irmão é o CEO, meu pai o vice-presidente e eu cuido das relações públicas. É aqui que me desligo do meu universo e projeto todos os meus fracassos do amor.
Amor. Nem sei por que ainda uso essa palavra no meu vocabulário.
— Ok, organizem as possíveis perguntas para a entrevista com o Dr. Bernardo — falo, levemente autoritária para a minha equipe. — Nada deverá sair do roteiro. O Bernardo precisa fazer esse escritório brilhar.
— Certo, Nati.
— Amanda, como estão os preparativos no auditório?
— As credenciais já foram distribuídas. Apenas repórteres autorizados poderão entrar. Organizamos as cadeiras em fileiras, assim fica mais fácil a visibilidade.
— Perfeito. Certifique-se do tempo. Bernardo tem uma audiência em duas horas.
— Pode deixar.
Apenas meneio a cabeça.
Preciso de outra xícara de café. Esse puro, forte e sem açúcar. Penso, e olho ao meu redor. Ver todo mundo empenhado me traz um ar de satisfação, e decido ir até a copa antes que a onda de flashes chegue a esta empresa.
— Bom dia, Marta! — digo, um tanto animada, para a copeira que está de costas para mim, organizando a pia.
— Bom dia, querida. E como está o pequeno Lucas?
É impossível não sorrir para essa pergunta.
— Uma gracinha. Precisa ver como ele está esperto.
— Eu trouxe algo para ele. É o meu presente de aniversário atrasado.
— Oh! — exclamo quando ela seca as mãos e vai até a sua bolsa.
— É um dinossauro. É um presente simples, mas dado com muito amor.
— Não tenho dúvidas disso, Marta. E eu sei que ele vai adorar.
Olho as horas.
— Ah, droga, eu preciso ir.
— Uma correria, não é?
— Você não faz ideia — retruco. Seguro a minha xícara de café e caminho apressada para a saída.
Contudo, paro bruscamente bem no meio do corredor quando percebo uma conhecida algazarra no final dele. Meu coração dispara ao vê-lo. Está tão bonito e atraente quanto eu me lembrava. Arthur Kamau ainda tem aquele sorriso adolescente que mexe comigo. O jeito como fala com meu irmão. Como gesticula com as mãos. Ele ainda faz o meu coração bater errado.
E isso é tão injusto!
Nathalia
- Tudo bem com você? - Fernando, um dos advogados da empresa, pergunta. Percebo a preocupação em suas retinas. Desvio os olhos de cima do homem extremamente alto e de pele negra, e respiro fundo, me recompondo no mesmo instante.
- Está tudo bem - falo com uma naturalidade inconfundível. - Por que não estaria?
Sorrio de modo profissional.
- É que... você parece meio... perdida. Sei lá. Algo te incomoda?
- Meu nome é Nathalia Rocha. Não há nada nesse mundo que me incomode - garanto.
- Imaginei que não. - Ele rebate sem graça.
- Se me der licença, eu preciso ir trabalhar.
- Senhorita Rocha! - Fernando me abre passagem e, respirando fundo de modo sutil, caminhando direto para o meu setor. Algumas horas de entrevista comercial no auditório da R.P devem me ajudar a organizar as ideias, e pôr tudo no seu devido lugar.
É só o Arthur, Nati. Digo para mim mesma. O melhor amigo do seu irmão. O cara que nunca te deu bola na vida, e que você fez questão de esquecer, lembra?
É isso. Está esquecido. E bem longe dos meus pensamentos.
***
Algumas horas depois da entrevista...
- Mandou me chamar? - pergunto, adentrando o escritório da presidência, e encontro meu irmão atrás de sua mesa. Sem esperar, puxo uma cadeira e me sento de frente para ele.
- Sim. Quero saber como estão os preparativos para o jantar beneficente? - inquire com seu tom sério. Profissional. Sem demora, abro minha planilha e verifico algumas anotações.
- Deixe-me ver. Quantidade de pessoas, bebidas, pratos, taças, copos, talheres... está tudo aqui. - Abaixo o tablet para encará-lo. - Só falta escolher o local para o evento. Estive pensando no Palácio dos Leões. É um lugar magnífico e tem um jardim de tirar o fôlego. O que você acha?
- Na verdade, andei conversando com o Arthur mais cedo.
A simples menção desse nome me faz ajeitar a postura na cadeira.
- Conversou, é? Sobre o que conversaram?
- Sabia que ele vai inaugurar outra filial aqui no Rio? Bem na orla carioca?
Meu irmão sorri maravilhado, alheio às perturbações que estão acontecendo dentro de mim. Contudo, mantenho um tom firme e profissional ao respondê-lo.
- Eu não sabia. - Tão seca e tão fria como jamais fui.
A verdade é que deixei de me importar com os passos do senhor Kamau faz muito tempo. O que ele faz, o que fala ou pensa não é da minha conta. Pelo menos não deveria ser.
- Que legal!
Forço outro sorriso profissional.
- Legal? - Bernardo parece indignado com o meu descaso. - Nati, isso é perfeito!
Perfeito para quê?
Oh, Deus, espero que ele não!
- O Arthur cedeu o espaço do novo restaurante para o evento da Rocha & Partners. - Meus ombros simplesmente se enrijecem e eu seguro um xingamento. - Nati, teremos um salão amplo, sofisticado, climatizado, e ele tem uma equipe grande que poderá nos servir. Não teremos nada com que nos preocupar. E você não vai precisar trabalhar tanto.
Devo admitir, Arthur Kamau sempre foi um visionário.
Quer dizer, ele comprou um restaurante falido do tipo que ninguém daria nada por ele e o transformou em uma rede de restaurantes greco-italianos de sucesso em poucos anos, espalhada por todo o Brasil. Entretanto, decidiu administrar todo o seu império gastronômico bem aqui, no Rio de Janeiro, bem do meu lado.
Tão próximo de mim. Bem debaixo do meu nariz. Exceto pelas viagens esporádicas que precisa fazer anualmente.
Droga, isso só pode ser brincadeira do destino! Arthur e eu trabalhando juntos será o meu inferno aqui na terra.
- Marque uma reunião com ele, Nathalia. - Desperto quando Bernardo fala. - Ele vai te ajudar a decidir o melhor cardápio para uma noite tão especial para os nossos convidados.
Ergo os olhos para o meu irmão, mas confesso que a sua voz parece distante agora.
- É claro. - Continuo impondo firmeza na minha voz. - Eu vou ligar para ele agora mesmo.
Esse é o meu lado profissional falando. Mas o meu lado mulher está se desmanchando por dentro. Algo que não deveria acontecer. Quer dizer, construí as minhas muralhas ao longo desses anos. Vesti uma armadura incapaz de ser arranhada, e de repente me sinto nua. Completamente despida, deixando meus sentimentos à mercê de qualquer um.
Respiro fundo.
Fique calma, Nathalia. Não será nada demais. Será apenas mais uma reunião de negócios que você vai tirar de letra, como sempre faz.
Ah, a quem eu quero enganar?!
- Faça isso, Nati. - Bernardo confere as horas no seu relógio de pulso. - Eu tenho que ir. - Ele beija rapidamente a minha testa e sai apressado do escritório.
Olho para o meu celular. Meus dedos chegam a tropeçar uns nos outros. Contudo, aperto o botão de ligar quando encontro o contato na minha agenda.
- Restaurante Vino & Thalassa, em que posso ajudar? - Uma voz feminina diz do outro lado da linha.
- Ah, bom dia. Meu nome é Nathalia Rocha. Eu gostaria de marcar uma reunião com o senhor Kamau.
- Só um momento. Vou verificar a agenda dele.
Pressiono os lábios.
- O senhor Kamau está livre esta noite. Posso agendar?
À noite? Quem em sã consciência trabalha à noite?
- Ah, à noite eu não posso.
- E que tal na próxima sexta, na marina, às sete da manhã?
Ela está de brincadeira comigo?
- Me desculpe, mas será uma reunião rápida. Não há um horário comercial disponível?
- O senhor Kamau é um homem muito ocupado. Mas posso verificar diretamente com ele.
- Sim, por favor!
O silêncio toma conta da linha.
- Senhorita Rocha? - A atendente me chama segundos depois.
- Sim?
- O senhor Kamau irá recebê-la agora.
Encolho os olhos.
- Você disse... agora?
- Sim. Na verdade, ele está dando instruções na cozinha, mas disse que a atenderia agora.
Prendo o ar por alguns milésimos de segundo e o solto pela boca.
- Ok, chego em dez minutos.
Encerro a ligação.
Não é como se ele fosse te ver de verdade, não é? Arthur Kamau nunca me percebeu antes. Não há com o que se preocupar. Tento me convencer disso, vou imediatamente para a minha sala, pego a minha bolsa e saio da empresa logo em seguida.