Já faz cinco anos! Cinco anos que estou aqui nessa alcateia como uma escrava. Todos os dias sempre a mesma coisa: acordo antes de anoitecer, varro, limpo, cozinho, sirvo, faço roupas para o Alfa ou alguém que ele queira que eu faça. Todo o meu trabalho é para o agrado dele, meu Senhor, o Lúcius, chego à exaustão sem nem lembrar de comer nada (isso quando eles me dão ou quando pego escondida) e mesmo assim nunca é o suficiente, ele sempre quer mais! Exige mais! Às vezes exige quando me obriga a ir para o "nosso quarto" ou quando me pega no meio de algum lugar para me penetrar como bem entender e quando eu recuso ou me escondo, recebo castigos, se não for para ficar presa no porão, ele me bate ou manda um dos Bethas dele me bater e quem adora fazer isso é o Bruthus, o cão sem dono.
Se eu já tentei fugir? Claro que sim! Mas isso foi antes, antes de ter ela, a Kamilla. Quando descobri que estava grávida, aos 18 anos, assim que fui raptada e forçada a ser escrava, me enfureci. Não aceitava ter um filho fruto de um estupro, minha primeira relação sexual foi um estupro que me fez sangrar por dias e fiquei inconsciente durante horas.
Não!
Isso não!
Não aceito!
Um filho não!
Ele vai nascer igual ao pai! Vai ser tirano igual a ele!
Foi quando os pesadelos começaram. Pesadelos de uma criança igual a um demônio saindo de dentro de mim, me matando de dentro para fora.
Não!
Um filho não!
A insanidade começava a dizer oi para mim...
Vou morrer...!
Dia e noite, noite e dia era a mesma coisa, não conseguia dormir...
Ele vai me estraçalhar...!
E quando conseguia pegar no sono o pesadelo vinha...
Um filho não!
Orava para dormir, mas era em vão, orava para morrer logo e nada. Quem aparecia no lugar da Deusa? Lúcius. Queria meu corpo, me queria, se não tinha me batia e quando descobriu que eu estava grávida parou de forçar.
– É para o bebê nascer saudável e ser forte igual o pai. – Falava.
Até que um dia quando eu não mais resistia, por insanidade ou fingimento, ele deixou brechas do cativeiro e eu consegui escapar. Corri mata adentro, quando cheguei perto do riacho encontrei uma planta boa para regular a menstruação e causar aborto, peguei a água do rio em uma tigela deixada por alguma escrava que buscava água para alimentos e fiz um chá. Quando terminei de tomar a última gota, senti mãos envolver minha cintura por trás e enfiar o dedo na garganta, forçando o vômito, joguei tudo pra fora, quem era? O Alfa.
Por causa disso, ele me deixou trancafiada tempo o suficiente para que planta nenhuma conseguisse ter efeito. O tempo foi passando e a barriga crescendo, mas meus medos continuavam e eu estava determinada de que se essa criança nascesse loira com os olhos castanho-claros assim como ele, eu iria matá-la, daria um fim misericordioso. Então ela veio ao mundo: Kamilla era tão branca quanto ele, mas era só isso. Seus olhos eram avermelhados como o meu e o cabelo é um vermelho ruivo, quase loiro, mesmo assim é ruivo, um pouco diferente do meu que já é um vermelho tão escuro que parece ser preto. Seu rostinho é idêntico ao meu quando criança parece uma mini Karolina, então eu a amei, e prometi cuidar dela, defender a todo custo, e nunca mais ter crises de insanidade.
Lúcius percebendo o meu amor pela menina, para me ter sob controle, deixava ela a noite toda em uma casa separada com outros filhotes e somente alguns dias que ela poderia dormir comigo, assim eu não conseguiria ir embora. E para que eu não tivesse força o suficiente e o desafiasse, minha comida era escassa. Mas isso nem sempre foi assim...
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Há treze anos...
– Menina, peste, desce daí agora! – Meu tio materno gritou comigo, enquanto eu, com 10 anos de idade, estava pendurada em cima de uma árvore que tinha atrás do quintal da nossa casa, a única casa que tinha ali, entre aquela floresta que eu tanto amava.
– Não vou descer! Foi sem querer! Não queria ter quebrado a mesa. – Falo quase chorando com medo de apanhar daquele cabo de vassoura que meu tio estava na mão, ele mesmo que havia feito.
– Desce já daí ou eu vou subir, Karolina!
– Claro que ele não vai subir, velho do jeito que está pode quebrar as costas. – Murmurei, mas esqueci de que ele também era um lobisomem e tinha a audição apurada. O velho rosnou e começou a subir, no desespero, segurei um galho com as duas mãos e pulei, ganhando equilíbrio, consegui sair correndo e o velho atrás de mim com aquele cabo de vassoura na mão.
– Volta aqui menina ou eu vou quebrar esse cabo nas tuas costelas!
Entrei na floresta e fui parar dentro de um tronco de árvore que, para minha sorte, eu cabia lá dentro e ele não.
– Hoje você não escapa, Karolina, você não escapa! – Então ele saiu e foi para dentro da casa, eu fiquei lá dentro algum tempo até a fera se acalmar e quando voltei pra casa, toda assanhada, descalço, suja e fedendo, meu tio já foi logo dizendo, no seu tom de voz normal, calmo:
– Vem, vai tomar um banho antes de comer.
Naãao! Cadê a vassoura? Pega ela! É melhor que banho... aaaah!
– Desculpe-me, Dindo (como eu o chamava) – Falei de cabeça baixa enquanto ele colocava a comida no meu prato.
– Tudo bem, veja, eu já consertei, eu sei que você precisa se acostumar com a sua força de lobo que está aumentando cada vez mais, amanhã vamos treinar para você se acostumar, agora coma porque um lobisomem precisa de bastante alimento para poder gastar sua energia. – Ele me entrega o prato e quando percebe que ainda estou de cabeça baixa por me sentir culpada pela mesa, faz cócegas na minha axila. Eram assim todos os dias, risos, gargalhadas, estudos, treinos, brincadeiras e todo o cuidado que uma criança precisa. Meu tio corria com uma vassoura, mas nunca me bateu de verdade, a não ser nos treinamentos, claro!
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Atualmente...
– Lúcius, por favor, só quero ter notícias dela, só isso... – O adulo a responder onde está a menina.
– Comporte-se bem, Karolina, e amanhã eu deixo você ver ela. – Ele responde depois de depositar a mão no meu rosto.
– O que mais você quer que eu faça, Lúcius? Eu já aprendi a lição, já fui castigada. – Respondo olhando naqueles olhos dourados, sem sentimento algum. Ele suspira e me dá um selinho.
– Não foi o suficiente e você sabe disso, você não muda, continua do mesmo jeito. – Tenho vontade de revirar os olhos com isso, mas permaneço neutra e tento adular novamente, pela minha filha, por ela.
– Você sabe o porquê agi daquela forma, você viu o ferimento no pescoço da Kamilla? Eu apenas agi por impulso, mas vou me controlar, prometo. – Digo isso com uma voz bem serena e passando meu braço pela sua cintura, espero que dê certo.
– Aaah Karolina... – Ele fala também com a voz serena e me beija, depois de alguns segundos me solta. – Tudo bem, pode ir vê-la. – Então se levanta da cama e começa a se vestir. – Mas quero você antes de amanhecer aqui, vai dormir comigo hoje.
Meu coração pula de alegria! Vou ver minha filha!
Saio da casa e vou direto ao campo que ficam alguns filhotes brincando, todas as mães acompanham eles de perto enquanto um grupo de pais sai para caçar. Quando um casal tem filhotes, eles se tornam menos dependente da alcateia, as fêmeas tomam de conta dos serviços domésticos da casa enquanto cuida do filho e o pai caça e toma de conta dos serviços mais pesados, também se responsabiliza pela proteção da família. As escravas servem apenas para ajudar caso for necessário, e isso só pode depois que o macho avalia a escrava, então ela é obrigada a tomar banhos com plantas e sabão que os pais usam para que o seu cheiro fique semelhante ao casal, só então ela tem permissão de entrar na casa deles e se aproximar da cria sem que corra o risco de ser morta pelo macho, pois ele é quem protege, é o protetor.
Como sou escrava, mesmo tendo o sangue da alcateia, essas regras não se aplicam a mim, às vezes quando vejo um macho trazendo uma caça para sua família e mostrando toda sua dominância para protegê-la me dava uma pontada de inveja por saber que minha filha e eu nunca teremos isso, ou tristeza por saber que Kamilla nunca terá um pai que a ame e a proteja, eu ao menos tive isso, não era meu pai de sangue, mas era meu tio, meu Dindo.
O que torna tudo uma grande piada que me fez várias vezes dar gargalhadas, literalmente, em imaginar o Lúcius fazendo essas coisas de pai e marido. Mesmo se fosse, ele não precisa caçar já que tem soldados e escravos para isso.
– MAMAÃAE! – Escuto aquele gritinho e em seguida uma menina correndo até mim. A filhote pula em cima de mim, agarra as perninhas nas minhas costas e as mãos no meu pescoço parecendo um carrapatinho ruivo, logo ela me enche de beijos molhados por todo o rosto.
– Minha filhotinha. – Dou um abraço apertado com um sorriso no rosto e depois a analiso para saber se está tudo bem... Nunca se sabe.
– Ela está bem. – Ouço a voz serena de Maria Elena caminhando até mim, sorrindo, para me deixar tranquila. – Eu cuidei dela esses dias, está bem alimentada e banha diariamente. – Maria Elena é uma escrava humana que foi capturada por uma matilha de soldados há dois anos. Não conheço seu passado, mas desde que a conheci, ela cuida da Kamilla enquanto eu fico ausente, já que a menina só tem a mim para cuidá-la. A escrava humana também é quem divide o quarto comigo e minha filha. Ela é branca, cabelo liso, castanho escuro, olhos da cor do cabelo, dá para ver a beleza no rosto dela e é minha "amiga", ou a pessoa que eu menos desconfio daqui, já que meus instintos não permitem que confio em ninguém.
– Como foram esses dias? – Pergunto um pouco apreensiva, mas tento manter a calma. A mulher entende o que quero realmente perguntar e já vai respondendo como pode.
– Tudo bem, não aconteceu nada de mais, apenas a Kamilla brincando. – Consigo relaxar, os pais da pirralha que eu meti medo não fizeram nada com minha filha enquanto eu estava longe.
– Minha linda, seu vestidinho está sujo, vamos trocá-lo? – Olho para a Maria Elena e ela já entende.
– Vamos! Mostra para a mamãe a roupinha nova que eu fiz para você. – Minha filha muda logo a expressão de confusa no rosto para alegria de querer mostrar a roupinha nova. Assim chegamos ao nosso quarto que parece mais uma pequena prisão, era cinza, duas camas de solteiro, duas pias para cada, duas pequenas cômodas de madeira e nada dividindo entre as camas para que tenhamos privacidade, porém preferia dormir aqui do que naquela casa bonita e afastada das demais, com Lúcius. Finalmente, no quarto poderíamos conversar melhor sem ter aquelas cadelas escutado nossa conversa.
– Os pais daquela filhote disseram algo? – Pergunto com a voz baixa e sentada na cama enquanto a Kamilla ia pegar a roupinha para me mostrar.
– Na verdade não, mas fiquei sabendo que a mãe da pirralha mandou sua escrava ir ao escritório da Luna entregar algum alimento, tenho certeza de que o objetivo principal não era esse. – Me estremeci quando ouvi esse nome, a Luna, ela sabe, está sabendo de tudo que tenho feito até agora, provavelmente até sobre minha audácia com o Betha. Problemas...
– A Luna não vai deixar isso passar, ela vai tentar alguma coisa... – Olho pra minha filha com um medo querendo me dominar, respiro fundo para não deixar com que as emoções atrapalhem minha razão, e foco o olhar em Kamilla que está jogando todas as nossas roupas para o ar, derrubando tudo no chão para achar a bendita roupinha nova, falta de disciplina!
– Kamilla! – Digo séria com um rosnado em voz baixa. Ela para de bagunçar o quarto e já pede desculpa e finge arrumar tudo de novo, só que na verdade tá apenas piorando. Desisto...
– ACHEI! – Ai meus ouvidos... Kamilla precisa se controlar com seus gritinhos que meu ouvido de loba é mais sensível que de humano ou de uma filhote. – Olha mamãe, não é lindo?
– É lindo sim, filhotinha. – Realmente é muito fofinho o novo vestidinho de pele que a humana fez, colorido para uma criança, cheio de vida, e a pintura é impecável, a mulher sabe pintar muito bem. Mas, espera...
– Esses não são os trapos do antigo vestido que você fez? – Olhei para Maria Elena confusa. Ela começou a sorrir baixinho enquanto minha filha mostrava uma carinha de culpa.
– O que você fez, Kamilla? – Perguntei ainda confusa, mas conheço a filha que tenho, eu era igual quando criança.
– E-eu rasguei sem queler na fo-folesta... – Disse em voz baixa com a cara de cachorro com o rabo entre as pernas.
– E o que você foi fazer na floresta? – Isso tá me cheirando mal, e a Maria Elena continua lá sorrindo.
– E-eu fui pegar erva pla caganela – Continua com a cabeça baixa, parece um cachorrinho que aprontou alguma coisa, encaro-a.
– Pra que você queria erva para caganeira? – Fico mais séria.
– Pla fazer chá, ué... – Debochada! Menina debochada! Está aprendendo com quem?
– Não minta pra mim, Kamilla! – Uso um tom mais sério.
– Mamãe, eu coloquei as ervas na comida da Rosinha porque ela me bateu, aí ela ficou com caganela. – Não aguentei. Começamos a rir e elas foram me contar os detalhes da pirralha se cagando nas calças na frente dos outros filhotes, essa minha filha é incontrolável.
– Preciso te contar uma coisa. – Maria Elena fala depois da crise de riso de nós três e pega no meu braço para que eu incline meu corpo enquanto ela chega no meu ouvido para sussurrar algo.
– O Alfa já me falou que será daqui há três dias... – Olho para ela com os olhos arregalados, enquanto ela olha pra mim com um leve sorriso no rosto.
– Daqui a três dias... - a voz não sai do meu ouvido.
Daqui a três dias que eu finalmente ficarei livre!
– Está acontecendo alguma coisa aos arredores da floresta, mas não sei o que é, Karolina. – Maria Elena me encara enquanto continuamos a conversar no quarto. – O Alfa mandou aumentar a segurança ao redor da alcateia, os lobos pais quando saem para caçar não podem mais ficar sozinhos e nem se afastarem muito. E o que mais me deixou intrigada é o aumento de armas que os escravos devem fazer. – Analiso a informação que ela me diz. Perdi muita coisa nesses três dias de cativeiro.
– Pode ser a alcateia inimiga invadindo o território, há mais alguma coisa de estranho que você percebeu? – Pergunto com medo da resposta. Se for a outra matilha de lobos invadindo o território é mais que certeza de outra guerra. Mais uma guerra, mais mortes, lutas sem sentido, apenas pela busca de poder e mais territórios. Desnecessário... Triste...
– Sim! – Ela fala arregalando os olhos. Coisa boa não é.
– Algumas escravas que se afastaram demais e foram para além do riacho, sumiram. Não encontraram nada, além alguns trapos das roupas delas rasgados na mata, nem os utensílios que elas carregavam foram encontrados. – Maria Elena fala com uma tristeza nos olhos e eu entendo essa tristeza, pois também sou escrava, e como nós duas, essas outras escravas foram forçadas a servir os lobos, serem usadas como eles bem queriam, a maioria ainda teriam esperança de voltar para suas famílias, e sumirem assim, do jeito que foi dito é certeza que estão mortas ou pior.
A escravidão é algo comum no meu povo, também em outras espécies, principalmente a dos humanos, que tem escravos por causa da cor de pele, enquanto a nossa, os escravos são quem não faz parte da alcateia, quem não tem o sangue dela, alguém que foi capturado ou vendido. Normalmente os escravos dos lobisomens são humanos por serem mais fracos fisicamente e mais fáceis de controlar, principalmente as escravas que já nasceram assim, as negras, enquanto as brancas se sentem injustiçadas por serem brancas. Nunca consegui entender qual a diferença entre pele branca e pele negra, pele é pele, são carnes do mesmo jeito, dá pra fazer um churrasco com uma branca e uma negra e comer a noite inteira.
Huummm... Comida... Carne humana não é minha favorita, mas comeria duas escravinhas, uma branca e outra negra apenas para saber a diferença delas e encher a barriga! Huuum... Delíciaaa... Fiquei com a boca cheia d'água só de pensar...
– Karol?! – Levo um susto quando saio do meu churrasco imaginário e vejo a Elena agarrada na Kamila, em pé, no canto da cama, só então percebo a besteira que fiz. Durante esses três dias trancada só recebi duas refeições que eram pão com água, estou com tanta fome que não percebi no momento que meus olhos começaram a brilhar em um vermelho e quase perdi o controle podendo atacar qualquer humano na minha frente apenas para matar minha fome.
Baixei minha cabeça e fechei os olhos, não para me controlar e sim por vergonha do que houve, não quero deixar Kamilla e Elena com medo de mim.
– Perdoem-me... – Falo num suspiro, mostrando minha vergonha e tristeza.
– Há quanto tempo você não come? – A voz da Elena saiu um pouco apreensiva. Eu sentia o medo delas duas, medo de mim. Respirei fundo antes de abrir os olhos que já não estavam mais tão vermelhos, estavam quase ruivos da cor do cabelo da Kamila, meus olhos perdem a cor devido ao cansaço e má alimentação.
– Eu estou bem. – Dei um sorriso meio sem graça para aliviar a tensão. Elas se aproximaram com cautela, e Kamila já sem medo sentou do meu lado depositando as mãozinhas dela nas minhas.
– Mamãe, você está tlemendo. – Percebi a preocupação da minha filha. Era verdade que estava me tremendo, estava com fome, fraca e sentia dores pelo meu corpo, mas não demonstrava porque as duas precisam de mim para fugir.
– Karol, precisa se controlar nesses dias, vai ter várias provocações contra você dos outros para que o Alfa se zangue e te coloque de castigo novamente e você tem que se fortalecer, não pode haver nenhum outro castigo. Vou dividir minha comida contigo para que fique forte o suficiente daqui a três dias. – Quando ela falou isso, sorri para as duas. Eu só tinha que aguentar mais três dias... três dias.
Faltando 4 horas para amanhecer, me despedi delas e tive que voltar para a casinha afastada, não antes de entrar na cozinha com a mentira de que foram ordens do Alfa para que eu preparasse um lanchinho pra ele, tinha que ser um pouquinho de comida porque já levei a janta dele e os soldados iriam desconfiar. Enquanto preparava "um lanchinho para o Alfa" que ele nunca iria ver na vida, eu não parava de pensar na Maria Elena.
Há dois anos, quando ela foi trazida pra cá, não parecia com nenhuma dessas escravas brancas apesar da cor de pele ser igual, mas os olhos da Elena eram bem puxadinhos e pequenos, quando a questionei, ela disse que era porque o pai vinha de um lugar chamado... não lembro o nome... é... Coronéia? Coloreia? Caa... Cuu... Não, não... Começa com "Co" mesmo... Cornélia? Ahhhh desisto! Vinha de um lugar aí.
Ela não usava os trapos de escrava nem de uma pessoa da nobreza dos humanos, eram roupas simples, de uma camponesa e era realmente uma camponesa que vivia com os pais. Mas o que me intrigou (e até hoje tento entender) é o tratamento diferenciado da humana com os outros escravos. A mulher ficava entre os lobos sem ter medo de ser atacada porque eles não podiam, nenhum lobisomem dessa aldeia podia atacar, ameaçar ou tentar serviços sexuais, pois o Alfa não permitia. No começo pensei que fosse por interesse da humana e fiquei feliz, achava que com isso ele me deixaria em paz (não a conhecia então era melhor ela do que eu), mas ele nunca a tocou, nunca a beijou, nem tinha interesse dele nos olhos, tinha, na verdade, desprezo, mas ele falava com ela como qualquer outro lycan, com arrogância, dominância, ela não podia abusar da hospitalidade e proteção, porém era só isso.
No começo, fiquei até com inveja dela, pois sua integridade e virgindade estariam intactas, fora a comida e as faltas de castigo (nesse caso, eu era a que mais sofria e mais recebia castigos), além disso, eu ainda tinha que aguentar o Alfa exigindo meu corpo e a humilhação de toda alcateia como se eu que fosse a culpada disso. A que seduziu o Alfa... – Eles diziam.
Então, assim nos colocaram no mesmo quarto, as que não podiam ser tocadas, eu apenas de forma sexual, pois pertencia somente ao Lúcius, mas para me baterem... Aí é outra história.
E pensando nisso, enquanto estava terminado o lanche, eles vieram, três soldados, me seguraram e me arrastaram para o salão principal, dois me seguraram de cada lado e o terceiro batia no meu rosto e barriga. Quando estava quase para desmaiar, fui acordada por um balde de água gelada no rosto, foi quando eu a vi.
A Luna estava sentada no seu trono no salão principal, loira, cabelos cacheados soltos, olhos da cor dos cabelos e estavam brilhando, cheia de joias, vestido de pele perfeitamente trabalhado com bordados de ouro, exalava o poder, riqueza e beleza de uma verdadeira Luna, mulher do Alfa, mulher do Lúcius. Olhando para mim com um sorriso sarcástico, mas que era possível sentir seu ódio, ela fala:
– Como está, irmãzinha?