Escolher novamente uma companhia feminina não era nada fácil, a última ficou apenas por um mês. Desde antes do meu fim, eu jamais gostei de me envolver com prostitutas, mas minha realidade nesses últimos três anos era não permitir nenhum vínculo afetivo com qualquer mulher desse mundo.
Sou bem generoso a todas que me prestam serviços, mas exijo na mesma medida. A última submissa, foi escolhida em um Blog que oferecia serviços sexuais, ela foi um erro. Lá entre muitos anúncios vi um que encaminhava para uma sala de Camgirls mais um dos nomes enfeitados para o serviço devasso que essas jovens oferecem.
Eu quero uma mulher jovem e que esteja disposta a me dar prazer durante um ano, depois disso, será descartada assim como as demais foram. Uma foto chamou minha atenção, uma jovem morena e que usava uma máscara rendada.
— Acha que cobrindo o rosto pode mascarar a vergonha de ser uma prostituta?
Sorri falando comigo mesmo, claro que entrei no bate-papo com ela. Queria dinheiro e ofereci uma boa quantia para ter o que eu queria, vê-la totalmente exposta para mim, mas não só sexualmente… eu quero ver o que ela guarda na alma.
— Faça o pix, vou fazer o que me pediu Leon! — A frase que eu esperava, mais uma vadia sedenta por dólares.
Ela revelou seu rosto, era bonita… bela demais. Pensei em convidá-la para vir e oferecer o contrato, mas não posso.
Um dia passou, fiquei pensando naquela mulher e na lágrima que ela deixou cair ao se revelar para mim. Ela seria uma boa diversão, diferente das outras talvez, telefonei para Alberto que está no Brasil cuidando dos meus negócios e esperando que eu escolha mais uma mulher.
— Eu já escolhi a minha nova diversão, quero que a encontre e traga o mais rápido possível.
— Desta vez é alguém mais fácil de encontrar? Como a garota de programa do Blog? — Alberto não queria ter tanto trabalho, mas infelizmente terá que encontrá-la para mim.
— Ela é uma stripper da internet e usa o pseudônimo de gata da noite, vou passar o link de acesso ao tal site e faça seu trabalho!
— Está bem, teremos que contratar um hacker, mas isso eu consigo aqui facilmente. Fique tranquilo, Leon, farei o que eu puder para encontrar essa moça.
Esperei por dois dias, meu advogado sabe que a paciência não é uma de minhas virtudes e finalmente me deu notícias.
— Eu encontrei a moça, ela se chama Lana Gonçalves Fernandes.
— Lana. — Sorri ajeitando minha máscara.
— Ela está em uma situação financeira difícil, acho que não terei problemas para convencê-la.
Nem o deixei terminar de falar.
— Ofereça o contrato e se ela recusar, ofereça mais dinheiro.
— Sim Leon.
Dentro do meu quarto, meu mundo sombrio e preserva minha alma longe da maldade das pessoas. Eu nunca mais saí de casa, desde que o acidente aconteceu, minha solidão é a melhor companhia que posso ter, ainda que Ofélia seja a única pessoa desse mundo que aceito ter ao meu lado.
— Leon, já posso entrar?
Ela sabe que jamais pode entrar no quarto sem bater, posso estar sem as malhas compressivas, que a tanto tempo ainda preciso usar nas queimaduras e sem minha inseparável máscara.
— O que você quer Ofélia?
— Saber se você vai descer para tomar café da manhã, o dia está tão bonito. Por que não come à beira da piscina...
— Traga para cá, não quero sair!
— Está bem filho, vou trazer uma bandeja.
[...]
Ofélia observa que Leon tem vivido como a sombra do homem que foi um dia. Ela trabalhou para a família Versalles e o viu crescer. Quando Leon fez quinze anos, ganhou seu primeiro carro de luxo e, apesar de ter tudo o que o dinheiro pode comprar, era humilde e sempre dava presentes e ajudava os amigos menos favorecidos financeiramente.
Muitas pessoas, como Ofélia, se perguntam por que a tragédia chegou ao caminho de Leon. Ele se casou aos vinte e sete anos com Viviane, a quem amava profundamente, e os dois eram inseparáveis. Logo, ela engravidou dos gêmeos, Lucas e Leandro, e os dois garotos eram a luz dos olhos de Leon. Ele estava mais feliz do que nunca, mas Deus tinha outros planos para a vida dele...
Ofélia vê Leon desperdiçar sua juventude, escondido como um fantasma entre as paredes da casa e assistindo os dias passarem um após o outro. Sua alma se tornou escura desde o acidente. Ele nunca mais quis sair de casa ou rever os amigos e as pessoas que o amavam. Leon sente vergonha das cicatrizes que deformam seu braço direito e parte do rosto.
Além de viver em uma clausura voluntária, nunca mais quis se aproximar de uma mulher, a não ser, que ele pague pelos seus serviços. Nos últimos três anos, algumas garotas são contratadas para vir e ter relações com ele por um tempo estipulado. A sensação de controle exerce um poder que tira dele parte da dor, não Ofélia não saberia dizer como isso acontece dentro do coração daquele jovem. Ela ora todos os dias para que a vida dele mude, quem sabe um dia alguém possa chegar e iluminar à vida de Leonardo, mais uma vez.
Leon
Lana Gonçalves, esse nome ficou na minha cabeça e comecei a pesquisar por conta própria. O que essa garota tem que me intriga? É apenas mais uma jovem que se vende pelo preço mais alto que oferecem.
Encontrei facilmente no Instagram, observando suas fotos e o seu sorriso, sei que ela é perfeita para ficar ao meu lado. Vai me dar um ano da sua vida...
— Mal posso esperar para que venha, Lana!
Na hora do jantar, saí do quarto. Só costumo fazer isso à noite e ocasionalmente peço um jantar diferente para Ofélia.
— Sua prima Carla telefonou de novo, disse que está tentando falar contigo pelo celular e você não atende.
— Ela não entende que o que acontece entre nós é apenas sexo casual! Acha que estou tão mergulhado na depressão que aceitaria ter como esposa uma mulher tão devassa quanto ela.
— Perdoe-me pelo que vou dizer, Leon, mas acho que mesmo que fosse com alguém como Carla, você deveria tentar.
— Ela só quer o meu dinheiro, todas as mulheres desse mundo só querem isso de mim. Prefiro lidar com várias delas do que colocar uma mulher como Carla aqui dentro desta casa. Se ela ligar de novo, diga que eu morri!
Ofélia me serviu, essa época do ano sempre me deixa ainda mais angustiado. Em um mês, será o Natal. Jantei e fui para o meu quarto, olhei pela janela e finalmente consegui dormir.
Estava caminhando à luz do dia, no meio do bosque que passa atrás da mansão, e por incrível que pareça, eu não estava usando roupas pretas. Lana estava lá, desta vez não havia uma lágrima em seus olhos... ela se aproximou e retirou minha máscara.
Não havia nenhuma queimadura em meu rosto, ela acariciou minha pele e beijou-me na bochecha. Sorrindo, ela correu para o meio das árvores, e eu corri atrás dela; as árvores escureciam e se tornavam secas a cada passo que eu dava. Fiquei com medo, não avancei e não consegui encontrá-la, por mais que eu quisesse muito sentir o toque suave dela na minha pele novamente.
Acordei transpirando em minha cama há tanto tempo, eu não sonhava com algo que não fosse o acidente ou meus filhos chamando por mim. Levantei-me e desci as escadas para tomar um copo d’água.
— Ela está perturbando o meu sono, isso não é um bom sinal!
Pensei em mandar uma mensagem urgente para Alberto, pedindo que não procurasse essa mulher, mas talvez não adiantasse mais.
Deixei alguns dias passarem, não recuei na minha decisão de ter Lana aqui. Mas não cobrei isso do doutor Alberto com tanto afinco como antes, era como se uma parte de mim clamasse para que ela viesse e outra tivesse medo de que isso acontecesse.
Carla não desistia, em um dos meus momentos de loucura, acabei na cama com essa mulher. Depois disso, a infeliz pensa que pode me manipular a ponto de me casar com ela. Só quer o meu dinheiro, e isso não é surpresa para ninguém; depois que me tornei um monstro, é evidente que ela só me quer por posição e riqueza.
Ofélia sente muita pena do que eu me tornei, acha que eu deveria dar uma chance para Carla, mas não. Jamais colocarei uma mulher nesta casa no lugar de Viviane, e nem terei filhos para substituir os meus gêmeos; eles faleceram por minha culpa e levaram junto a minha própria vida.
Sem resposta ainda, telefonei para Alberto no Brasil.
— Alguma notícia? Você sabe que não gosto de esperar!
— Me desculpe, senhor Leonardo... — Respondeu em tom hesitante.
— Leon, nunca mais me chame assim!
— Sim, senhor Leon, a moça ainda não me procurou para dar a resposta.
— Ofereça um adicional de trinta mil dólares ao término do contrato. — O dinheiro não me importa, quero essa mulher aqui.
— Eu irei novamente até a casa dela, o fato é que Lana parece não ser o tipo de mulher que o senhor pensava.
— Então crie uma situação para forçá-la a aceitar, faça o que for preciso. E me ligue para dizer que estão vindo para cá.
— Eu farei o possível, Leon.
Desliguei, desci as escadas, e Ofélia estava chegando e havia trazido algumas compras.
[...]
Só vê-lo fora do quarto já era uma grande alegria para Ofélia. Ela não sabia o que poderia estar mexendo com a cabeça dele, mas seja o que fosse, estava fazendo bem à sua alma. Ele não reclamava das janelas do seu quarto ficarem abertas para arejar e deixar entrar um pouco da luz do sol, e não se queixava mais dos outros empregados como antes.
Ou isso era ótimo, ou muito ruim. Tudo dependia do que ia acontecer nos próximos dias naquela casa.
Eu não queria aceitar essa proposta absurda, mas nos dias que seguiram minha mãe só piorava, e o fato dela ser diabética complicava mais sua situação conforme os dias passavam. Ana Cláudia me encorajava a dizer sim, mas eu tinha muito medo de ir para longe de tudo e com um desconhecido.
Minha mãe teve uma recaída, além de ir perdendo aos poucos a capacidade de enxergar, estava cada dia mais triste, e temia que estivesse entrando em depressão. Mais uma vez, aquele homem veio aqui em casa, sua insistência me deixava à beira de cometer a maior loucura da minha vida.
— Estou aqui mais uma vez e agora, esperando que me dê sua resposta. Leon insiste que entremos o mais breve possível em um avião.
— Sinto muito medo, senhor. Quantas garotas são levadas para fora e têm seus corpos vendidos para homens de fora, traficadas sexualmente ou têm seus órgãos vendidos!
— Isso não vai acontecer com você, minha palavra pode não valer, mas terá toda a segurança que precisa! Usará seu celular à vontade para comunicar-se com seus parentes aqui, pode avisar a eles e até pedir que pesquisem sobre mim e os casos que cuidei como advogado.
— Eu já fiz isso, seu nome existe e tem registro na OAB.
— Viu, se eu falhar com você, Lana, minha carreira profissional e o prestígio da minha família que tanto prezo estarão para sempre acabados!
— Mas esse tal Leon Versalles, ele parece ser uma pessoa que não existe. Por que não há nada sobre ele na internet?
— Leon é um homem que vive recluso, não gosta de se expor!
— Ele é jovem?
— Sim, tem 34 anos. — O advogado respondeu.
— Posso ver uma foto dele?
— Ser sincero com todas as jovens que levo comigo é parte do meu acordo com Leon. Ele sofreu um acidente há alguns anos e sua aparência foi comprometida, Lana.
— Eu não me importo com isso, meu medo é estar entrando em uma armadilha.
— Quanto a isso, terá que confiar em mim e no contrato que está com você.
— Minha mãe está a cada dia pior, doutor Alberto, não posso ir para fora do país e deixá-la desse jeito! Se eu concordasse e estipulasse mais algumas condições, seu cliente aceitaria?
— Estou aqui disposto a te ouvir e remover o seu desejo de recusar a oferta.
— O senhor disse que Leon está disposto a custear o tratamento, eu quero que ela seja tratada aqui em Palmas e não na Itália. Porque aqui, minha amiga Ana Cláudia irá cuidar dela para mim!
— Certo, passaremos uma quantia mensal para ela, procurarei a melhor clínica hoje mesmo e tiraremos o seu passaporte.
— Estou fazendo isso por ela, doutor, minha vida é por minha mãe. O medo vai estar comigo o tempo todo, mas tenho que confiar minha vida ao senhor!
— Eu juro, Lana, que te trarei de volta para casa, se assim for o seu desejo.
Saí com ele e encontramos uma clínica excelente e fomos levar meus documentos para tirar o passaporte. O ouvi falando ao telefone.
— Sim, Leon, ela irá!
Um passaporte demoraria seis dias úteis para ficar pronto, mas aquele homem era poderoso e conseguiu que o meu estivesse em nossas mãos, em apenas dois dias.
— Tome, este adiantamento e compre roupas de frio e o que for necessário para a viagem.
— É muito dinheiro, não é necessário que me dê tanto! Eu só me preocupo com a minha mãe.
— Terá cinco mil reais em sua conta ainda esta noite, para que se sinta mais tranquila ao viajar, sabendo que sua mãe não estará desamparada e muito menos financeiramente.
Ele foi embora, Ana Cláudia sempre foi a pessoa em quem mais confio neste mundo, além da minha mãe. Alberto garantiu a ela sete mil reais por mês, para cuidar da minha mãe e mais três mil para gastos extras.
— Eu vou, Ana, mas quero que cuide da minha mãe e me mantenha informada sobre tudo. Se eu não der notícias por mais de um dia, chame a polícia. Diogo tem uma cópia do meu contrato e saberá como fazer legalmente para me procurarem, em dois dias irei com Alberto.
— Eu vou cuidar da sua mãe, sempre gostei dela como se fosse a minha. E parte desse dinheiro, eu vou guardar para você, Lana! — Ana Cláudia estava com pena de me ver nessa situação, logo eu, tão cheia de pudores, e iria me vender a um desconhecido.
— Vou dizer para minha mãe que consegui um emprego de babá, não deixe nunca que ela saiba o que estou indo fazer, na verdade.
Naquela noite, fui até o quarto da minha mãe e expliquei parte do que estava prestes a fazer.
— Não estou abandonando a senhora, estou indo para conseguir a sua cura! — Peguei na mão da minha mãe, ela chorava.
— Eu já sou velha, posso aceitar viver na escuridão e me acostumar com isso.
— De jeito nenhum, e vou trabalhar muito e Ana Cláudia vai cuidar da senhora para mim! Prometa que vai se cuidar...
— Eu prometo filha, obrigada por não desistir da sua velha mãe que te ama tanto. — Eu chorei e nos abraçamos bem forte.
Agora eu tenho a força que preciso para enfrentar esse tal Leon, seja ele quem for ou como for. Não consegui dormir pensando nos dias seguintes, levantei—me cedo e fui comprar algumas roupas para levar, e sequer uma mala decente eu tinha.
Até comprei algumas lingeries, no contrato dizia que ele não gostava de cores muito extravagantes e que preferia que eu sempre usasse preto. Eu não gosto de estar sempre tão formal, não sei se ele vai gostar muito, mas escolhi algumas cores para os agasalhos e roupas íntimas. Cheguei em casa e lavei as roupas, fiquei deitada na cama lendo um pouco mais sobre o contrato e ele exigia que eu não fosse virgem.
— Não consigo te decifrar, Leon, você é muito estranho!
Não posso te tocar durante as relações sexuais a menos que me peça, não dormiremos na mesma cama e nem iremos dividir o mesmo quarto, devo almoçar com os demais empregados, não posso ouvir música alta, não posso me negar ao ato sexual a menos que esteja no período menstrual, não posso te beijar, devo escolher um dos dois métodos contraceptivos a minha livre escolha: DIU (dispositivo intrauterino) ou implante contraceptivo, e ambos devem ser trocados e/ou recolocados a cada três meses.
Após ler tudo aquilo, consegui enfim dormir.
No dia seguinte, Alberto me ligou e entrei em um táxi para irmos até uma clínica. Lá eu faria alguns exames de rotina, só assim eu estaria oficialmente pronta para ir. Realizei uma bateria de exames, todos negativos para doenças sexualmente transmissíveis e até para saber se eu estava grávida.
— Agora, sim, está pronta para ir. Em dois dias e com seu passaporte, estaremos na primeira classe em direção à Itália.
— Sim, senhor!
Fiquei olhando as coisas que comprei, até a cor das minhas roupas ele queria intervir, nada poderia ser em tom muito vibrante. Sinto-me indo viver com um vampiro, escolhi como método contraceptivo o uso do implante subcutâneo.
Um dia antes de ir, fui ao ginecologista e coloquei o tal implante em um procedimento tranquilo e rápido. Depois, fui até o cemitério e levei flores para o meu pai. Ele era caminhoneiro e acabou morrendo em um acidente. A falta do amor dele sempre esteve na minha vida, não que minha mãe tenha deixado de me dar todo o carinho, mas é diferente ter uma figura masculina para educar e dar amor. Nas festas do dia dos pais, ou nas comemorações da escola, eu sempre era vítima de bullying.
— Onde o senhor estiver, papai, não sinta vergonha de mim ou do que estou prestes a fazer. Minha mãe precisa e eu faria o mesmo por você! Deus, me dê forças para suportar esses 365 dias ao lado desse desconhecido, que ele seja calmo e que goste da minha companhia!
Saí do cemitério, fui fazer as unhas e ao salão de beleza. Eu tinha que chegar bem arrumada, apesar do tempo que iria levar para isso. Alberto me ligou e disse que o passaporte estava pronto e iria me buscar já bem cedinho amanhã. Sempre que falávamos no assunto, me dava um frio na barriga. Seriam 13 horas de voo sem escalas.
— Vamos chegar à noite, ficaremos em um hotel. E no dia seguinte, partiremos para Bérgamo.
— Sim, senhor! — Tão longe de tudo e todos, doutor Alberto me deu um celular, dos melhores modelos, para que eu possa me comunicar com todos aqui o quanto eu quiser.
Não que isso me deixe aliviada, só vou ter certeza de que fiz bem ao assinar esse contrato quando eu estiver frente a frente com o tal Leon Versalles.