Capítulo 2

Na noite em que a startup do meu marido, Leo, conseguiu o seu primeiro grande investimento, ele deu uma festa.

O bar estava cheio de gente, todos a rir, a beber champanhe caro.

Eu sentia-me deslocada no meu vestido simples, o único que achei que servia para a ocasião.

Tentei aproximar-me do Leo, mas ele estava rodeado pelos investidores, a sua mãe, Helena, ao seu lado, a sorrir como se ela própria tivesse fechado o negócio.

E ao outro lado dele, estava Sofia.

A sua amiga de infância, a mulher que a mãe dele sempre quis como nora.

Afastei-me para um canto mais sossegado, a observar.

Foi então que os ouvi. A música baixou por um momento, e as vozes deles chegaram até mim, claras e cruéis.

"Ainda bem que a Clara tinha aquelas poupanças, não é, meu filho? Foi um bom 'empréstimo inicial' " , disse Helena, com um tom de gozo.

Sofia riu, um som delicado. "Ela foi muito útil. Mas agora, com este investimento, precisas de uma parceira a sério, Leo. Alguém que entenda deste mundo."

O meu coração parou.

Esperei que o Leo a defendesse. Que me defendesse.

Mas ele apenas riu com elas. "Não se preocupem. Eu sei o que fazer. A Clara vai entender, ela é uma rapariga simples."

Uma rapariga simples.

Os três anos em que trabalhei em dois empregos para que ele pudesse programar sem preocupações, os fins de semana que passei a criar o plano de marketing, as noites em que adormeci sobre o teclado a rever o código dele, tudo isso resumia-se a "uma rapariga simples" e um "empréstimo".

O copo na minha mão tremeu.

Atravessei a sala, o barulho à minha volta desapareceu.

Parei em frente a eles.

"Leo, podemos falar?"

Os três olharam para mim, as suas expressões mudaram de alegria para incómodo.

Leo forçou um sorriso. "Clara, amor. Estava mesmo à tua procura. Vem, vamos beber um copo."

"Eu ouvi-vos" , disse eu, a minha voz mais firme do que eu esperava. "Ouvi tudo."

O sorriso do Leo desapareceu. Helena cruzou os braços, o seu olhar era gelo puro. Sofia olhou para o chão, a fingir-se envergonhada.

"Clara, não é o que estás a pensar" , começou o Leo.

"Então o que é?" , interrompi. "Sou uma 'rapariga simples' que vos deu um 'empréstimo' ? É isso que eu sou para vocês?"

O silêncio esticou-se. Os investidores próximos começaram a olhar.

Leo agarrou-me no braço, com força. "Não faças uma cena aqui. Falamos em casa."

"Não há nada para falar em casa" , puxei o meu braço de volta. "Eu quero o divórcio, Leo. E quero a minha metade da empresa."

A cara dele transformou-se. A máscara de marido charmoso caiu, revelando o homem que ele realmente era.

"Tu não tens direito a nada."

Capítulo 3

Cheguei ao nosso apartamento antes dele.

O lugar que eu tinha decorado com as minhas próprias mãos, com móveis baratos que encontrei em segunda mão, agora parecia oco e estranho.

Não chorei, apenas abri o roupeiro e comecei a meter as minhas roupas numa mala.

Cada peça de roupa era uma memória, um sacrifício. Aquele casaco, comprado em saldo para uma entrevista de emprego que recusei porque o Leo precisava de mim nesse dia. Aquele par de sapatos, que usei durante um ano inteiro porque todo o dinheiro extra ia para as contas da startup.

A porta abriu-se com um estrondo.

Leo entrou, a cara vermelha de raiva.

"Estás louca? Divórcio? Metade da empresa? Em que mundo vives?"

Continuei a dobrar uma camisola, sem olhar para ele. "No mundo onde eu sacrifiquei os últimos três anos da minha vida por este negócio, Leo."

Ele riu, um som amargo. "Sacrificaste? Eu é que trabalhei dia e noite!"

"E quem pagou as contas? Quem te trouxe comida quando te esquecias de comer? Quem fez toda a pesquisa de mercado que apresentaste aos investidores como se fosse tua?"

Ele ficou em silêncio por um momento, apanhado de surpresa.

Depois, a sua expressão suavizou-se, tornando-se manipuladora. Ele aproximou-se, tirou um cheque da carteira e estendeu-mo.

"Clara, não vamos brigar. Eu sei que estás magoada. Toma, isto é o dobro do dinheiro que meteste. Podes começar de novo, comprar um apartamento simpático."

Olhei para o cheque, para o número escrito com a sua caligrafia arrogante.

Senti uma náusea.

Ele achava que me podia comprar, que o meu suor e as minhas lágrimas tinham um preço.

Peguei no cheque, e na frente dele, rasguei-o em pedaços pequenos.

"Eu não quero o teu dinheiro. Eu quero justiça."

A cara dele endureceu de novo. "Justiça? Tu não tens nada, Clara. A empresa está no meu nome e no da minha mãe. Legalmente, tu és apenas uma credora, e eu acabei de te tentar pagar."

Ele deu um passo atrás, a sua voz baixou para um sussurro ameaçador.

"E a Sofia vai juntar-se à empresa na próxima semana, como Diretora de Operações. Ela tem a experiência que precisamos."

Então era esse o plano. Usar-me até ao fim e depois substituir-me pela versão melhorada, a que a mamã aprovava.

Fechei a mala. "Vamos ver o que um juiz diz sobre isso."

"Não sejas estúpida" , disse ele, a raiva a dar lugar ao pânico. "Vais perder. E vais ficar sem nada."

Passei por ele em direção à porta. "Eu já não tenho nada, Leo. Tu certificaste-te disso."

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