Capítulo 2

Naquela noite, a escuridão parecia mais densa, mais pesada.

Eu estava sentada no carro, a olhar para a porta da frente da casa da minha sogra, onde as luzes estavam todas acesas, criando uma cena calorosa e animada.

Era o aniversário de 60 anos dela, e o meu marido, Pedro, tinha-me prometido que iríamos juntos.

Mas ele não apareceu.

Em vez disso, ele estava com a sua ex-namorada, Sofia.

A razão que ele me deu foi que o filho de Sofia, Leo, tinha tido um ataque de asma súbito e precisava de ser levado para o hospital.

Sofia ligou-lhe a chorar, e ele correu para o lado dela sem hesitar.

Olhei para o bolo de aniversário no banco do passageiro. Eu tinha passado a tarde inteira a fazê-lo.

Agora, parecia uma piada.

Respirei fundo, saí do carro e caminhei até à porta.

Antes mesmo de eu conseguir tocar à campainha, a porta abriu-se.

A minha cunhada, Clara, olhou para mim com uma expressão de desprezo.

"Finalmente chegaste. Onde está o Pedro? Não me digas que ele te deixou vir sozinha?"

Forcei um sorriso.

"Ele teve uma emergência. O filho da Sofia não estava a sentir-se bem."

Clara bufou, o seu desdém era óbvio.

"Sofia, Sofia. Esse nome outra vez. Ele ainda não a esqueceu, pois não? E tu, és mesmo uma santa por aturares isto."

Ela pegou no bolo das minhas mãos.

"Bem, já que estás aqui, entra. A mãe tem estado à tua espera."

Entrei na sala de estar barulhenta, sentindo os olhares de todos em mim.

A minha sogra, Inês, veio ter comigo, o seu sorriso não chegava aos olhos.

"Ana, querida. Onde está o meu filho?"

Repeti a minha explicação, a minha voz soava fraca aos meus próprios ouvidos.

"O filho da Sofia teve um ataque de asma. O Pedro teve de a levar ao hospital."

Inês suspirou, um som dramático para o benefício de todos os presentes.

"Aquele rapazinho, tão frágil. A Sofia tem mesmo uma vida difícil, a criá-lo sozinha. O Pedro é um homem bom por a ajudar."

Ela pegou na minha mão, as suas unhas a cravarem-se na minha pele.

"Tu és a mulher dele, Ana. Tens de ser compreensiva."

Eu queria gritar que eu também precisava de compreensão.

Que hoje era o aniversário da mãe dele, um evento de família.

Que eu era a mulher dele, não um adorno conveniente.

Mas eu apenas assenti, o nó na minha garganta a apertar.

"Eu sei. Eu sou compreensiva."

A festa continuou à minha volta, mas eu sentia-me como uma espectadora.

Peguei no meu telemóvel e vi uma nova publicação da Sofia.

Uma foto dela e do Pedro no hospital.

A legenda dizia: "Obrigada, Pedro, por estares sempre aqui para nós. Não sei o que faria sem ti. ❤️"

O coração na legenda atingiu-me com força.

O meu marido estava a confortar outra mulher e o filho dela, enquanto a família dele celebrava sem ele.

Enquanto a mulher dele estava sozinha numa sala cheia de pessoas.

A minha mão tremia.

Eu sabia que tinha de fazer alguma coisa.

Isto não podia continuar.

Capítulo 3

Levantei-me e fui para a varanda, precisava de ar.

O ar frio da noite fez pouco para acalmar o fogo dentro de mim.

Liguei ao Pedro.

Foi diretamente para o correio de voz.

Claro que foi. Ele estava demasiado ocupado a ser o cavaleiro de armadura brilhante da Sofia.

Enviei-lhe uma mensagem de texto.

"Onde estás?"

A resposta foi quase imediata, mas não era dele.

Era uma foto.

Enviada do telemóvel do Pedro.

Era Sofia, deitada numa cama de hospital, a sorrir para a câmara. O Pedro estava sentado ao lado dela, a segurar-lhe a mão. Pareciam um casal.

Debaixo da foto, uma mensagem de texto simples.

"Ele está ocupado. Não o incomodes."

O meu sangue gelou.

Ela tinha o telemóvel dele. Ela estava a responder por ele.

A audácia dela era de cortar a respiração.

Liguei outra vez, e outra vez. Cada chamada ia para o correio de voz.

Voltei para dentro, a minha cara uma máscara de calma que eu não sentia.

A minha sogra estava a abrir os seus presentes, rindo e agradecendo a todos.

Quando chegou a minha vez, ela pegou na pequena caixa que eu lhe tinha trazido - um par de brincos de pérolas que ela tinha mencionado querer há meses.

Ela abriu-a, olhou para dentro e depois para mim.

"Oh. São... amorosos, Ana."

O seu tom era vago, desinteressado. Ela colocou a caixa de lado sem um segundo olhar.

Momentos depois, a Clara deu-lhe o seu presente. Era um lenço de seda vistoso.

Inês ofegou de prazer.

"Oh, Clara, é lindo! Sabes sempre exatamente do que eu gosto!"

Ela envolveu o lenço à volta do pescoço, radiante.

Senti-me invisível.

Mais tarde, enquanto eu estava na cozinha a ajudar a lavar a loiça, a Clara encostou-se ao balcão.

"Sabes, a Sofia ligou há pouco. Para o telemóvel da mãe."

Eu parei, com a mão a meio de esfregar um prato.

"O quê que ela queria?"

"Apenas a atualizar. O Leo está estável. O Pedro vai ficar com ela no hospital durante a noite, só para ter a certeza."

Clara olhou para mim, os seus olhos a avaliar a minha reação.

"Ela disse que o Pedro se sente terrivelmente mal por ter perdido a festa, mas que a Sofia precisava mesmo dele."

"Claro que precisava," murmurei, a minha voz cheia de um sarcasmo que não me esforcei por esconder.

Clara deu de ombros.

"Olha, Ana, eu posso não gostar da situação, mas tu és a única que a pode mudar. Ou aceitas o teu lugar, ou fazes alguma coisa."

As palavras dela, embora duras, eram verdadeiras.

Eu tinha estado a aceitar isto durante demasiado tempo.

A permitir que a Sofia fosse uma presença constante no meu casamento.

A permitir que o Pedro me pusesse em segundo lugar.

Naquela noite, enquanto conduzia para casa para um apartamento vazio, tomei uma decisão.

As coisas iam mudar.

Eu ia certificar-me disso.

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