Sete das vinte mesas do salão estavam ocupadas por eles. A mais distante das mesas, recostada na parede, era onde estava o homem misterioso.
Cinco mesas eram ocupadas por seguranças — homens de terno, de diferentes etnias e portes físicos, distribuídos estrategicamente pelo salão.
E a sétima mesa, uma das mais próximas ao homem, era onde estava Lorenzo, o homem que comumente surgia para colher o dinheiro de Sophia.
Era um homem adulto e vastamente respeitado nas redondezas. Todos conheciam seu envolvimento com negócios escusos, mas ninguém ousava falar.
Com um sorriso sem graça, o melhor que ela conseguia para tentar — em vão — esconder seu temor, a moça seguiu na direção da primeira mesa.
Devorada pelos olhares, ela se aproximou e um deles apenas apontou para Lorenzo, sem nada falar.
A moça olhou ao seu cobrador, que arqueou as sobrancelhas, mas não pôde evitar o olhar à mesa mais atrás, onde o homem continuava quieto.
Não falava com ninguém, nem precisava para ser notado. Sua presença era um aviso silencioso, um magnetismo que fazia o ambiente se curvar para ele.
O olhar de um azul frio e cortante parecia atravessar quem ousava fitá-lo. Sob a penumbra, escurecia, tornando-o ainda mais indecifrável.
Todavia, quando a luz tocava os olhos, brilhavam como lâminas afiadas — muito assustador, mas belo.
O cabelo negro alinhado e a pele pálida apenas reforçavam seu ar de uma elegância muito contida.
Ele se vestia com precisão: terno impecável, cortes sob medida, um perfume discreto amadeirado, que se misturava ao aroma da madeira e do tabaco.
A moça se viu hesitante em muitos dos passos que deu, mas seguiu até Lorenzo, que fitou seus olhos.
— Boa noite, senhor. Como posso servi-lo? — Tecer aquela fala foi um verdadeiro parto para ela.
— Vinho… e aos meus homens também — pediu.
Sorrateiro, sua mão empurrou um papel em sua direção — era tudo que ela não queria. Pegou o papel e colocou ao bolso, cumprimentando e se virando.
— Não servirá o cliente atrás de mim? — Ele a interrompeu e as batidas de seu coração aceleraram.
— C-claro! — Ela suspirou, tragando coragem.
Tornou a se virar, enquanto o som da guitarra e de sua respiração compuseram a sinfonia de sua agonia. O homem não a olhou enquanto chegava.
— B-boa noite, senhor. C-como posso… servi-lo?
Os movimentos do homem eram lentos, calculados; como um predador observando sua presa, eram carregados de uma confiança felina. Ele a fitou, e o olhar evidenciou que ele não pedia, tomava.
— Quero sua carta de vinhos e seu cardápio. Por ora, eu aceito água. — Tinha a voz forte, e exibia a maturidade de quem já viu e fez mais do que deveria.
Foi um vexame ter que tirar a comanda para anotar com as mãos tão trêmulas, mas a moça ainda fez um esforço descomunal para não se desesperar.
Ao menos, para não ser tomada por desespero…
— Devia sorrir mais para ele… — Foi um sussurro de Lorenzo quando ela passou, que mais soou como uma ameaça do que meramente um conselho.
Sophia se afastou para buscar tudo, pensando que quanto mais rápido terminasse de servi-los, mais rápido poderia chorar escondida no banheiro.
Indo à vinícola, onde estavam os barris, a moça acendeu a luz e recostou na parede para ver o montante que estaria escrito no pequeno papel.
Os números saltaram diante de seus olhos. Cinquenta mil euros. O ar ficou preso nos pulmões. Seu corpo ficou frio, e um tremor subiu suas mãos.
Sophia piscou várias vezes, tentando apagá-lo.
Mas, o valor persistia no papel…
Há três meses, juntou um bom montante e abateu a dívida para meros quarenta mil, mas os juros eram impraticáveis — era um círculo vicioso…
Teria gritado, se não estivesse no trabalho.
Uma lágrima escorreu em seu rosto, mas Sophia a enxugou rapidamente e respirou fundo. “Foco!”, ela se exigiu, correndo o olhar por todos os barris.
Classicamente servido em belos jarros de porcelana, produzidos localmente, os vinhos, além do flamenco, eram as maiores atrações do restaurante.
Passos pesados, na madeira do corredor, já deixaram a moça ansiosa. Ela rapidamente correu para um cantinho entre barris para se esconder.
Não era incomum que os mafiosos, quase que donos de todos os restaurantes e bares da redondeza, usassem as dependências para os seus negócios.
— A dívida de um morto me interessa pouco, Lorenzo. — A voz do homem misterioso soou, mas eles não entraram no local. — E aquele problema?
— Evidentemente, eles querem briga, Alessio! — Lorenzo respondeu. — Sei que não faz seu estilo, mas ainda não conseguimos negociar direito… e nada.
— Por enquanto, eu vou fingir que isso não é sua velha incompetência. — Num tom de voz mais baixo, serviu até mesmo para que Sophia sentisse medo.
O forte arfar de Lorenzo foi audível.
— Faça assim: marque de novo e me avise do que der; se a notícia for ruim, tomarei providências e cuidarei disso, eu mesmo! — Estava impaciente.
— S-sim, senhor! — Lorenzo assentiu.
Recostaria na porta da vinícola, mas o fato de estar apenas recostada o fez precisar se apoiar para não cair — reflexo de seu estado tão assustadiço.
A barulheira assustou Sophia, que tapou a boca e o nariz para seu ofegar não acabar lhe revelando.
Alessio ainda olhou ao interior do lugar. Seus passos lentos adentraram à vinícola, fazendo Sophia segurar a respiração — o silêncio era sufocante.
A moça podia ouvir o próprio coração no peito.
Não tardou para os passos se deterem e a sombra de Alessio bloquear parte da luz. Ele hesitou por um instante. Teria ouvido alguma coisa?
O tempo se arrastou… até ele se afastar.
— Senhor? — Lorenzo chamou sua atenção.
— Bom… tenho uma reunião de negócios cinza e não quero ser atrapalhado. Mova os homens a outro lugar, que seja ao meu lado — mandou, autoritário.
— S-sim, senhor! — Lorenzo assentiu.
— Ah, ainda deve dar tempo de tomarem seu vinho. — Com tom de voz mais calmo e casual, os passos de Alessio se afastando ecoaram por ali.
Lorenzo ainda correu o olhar pela vinícola e respirou fundo, gostava do cheiro daquele lugar, mas depois saiu, apagando a luz e fechando a porta.
Sophia finalmente relaxou, soltando todo o ar dos pulmões. Respirou fundo por poucos minutos, mas saiu de seu cantinho para ir na direção da luz.
Serviu as jarras de vinho e voltou ao salão para servir as mesas dos homens. O corpo já estava mais controlado e isso ajudou com tamanho peso.
O homem misterioso, que agora sabia chamar Alessio, já estava de volta ao seu lugar. Sentado do mesmo jeito, com a mesma quietude incômoda.
— A carta e o cardápio, senhor! — A moça tirou do bolso do avental para colocar ao seu lado, cuidando de servir a água logo em seguida.
— Agradeço! — Seu sorriso foi muito sutil, e aparentemente forçado para exibir mínima simpatia.
Após lhes servir, a moça retornou ao balcão.
Tinha uma ou duas mesas ainda não atendidas por ninguém, mas ela optou por se dedicar àqueles que exigiam total atenção comumente.
— Boa notícia! — Um sussurro de Álvaro ao seu lado quase lhe fez desfalecer. — Calma, amiga! — riu.
— Desculpa! — Ela meneou a cabeça.
— Quinhentos euros… — Manteve o sussurro.
— É suficiente por hoje. — Suspirou, cabisbaixa.
— Giuseppe estava falando de um evento naquele hotel dos gringos, onde eles estão aceitando candidaturas para artistas… são dez mil euros…
A moça o olhou rápido. Era inacreditável. Por semanas, respiraria sem ser esmagada pela dívida.
A perspectiva de juntar tantos euros, ainda que dançando por meses, trouxe um raro alívio para Sophia enfrentar aquele expediente tão tenso.
Sempre que notava os olhos azuis de Alessio sobre si, Sophia desviava o olhar e se concentrava no trabalho, se agarrando aos pensamentos positivos.
Em dado momento, Lorenzo se afastou da mesa de seu óbvio chefe e os vinte seguranças, devagar, deixaram um salão basicamente vazio para trás.
Os poucos clientes que permaneceram após a dança também partiram logo — homens demais de terno para parecer algo comum.
Alessio só fez seu pedido quando seu convidado chegou. Era um homem de meia-idade, conhecido por deter alguns dos negócios hoteleiros da comuna.
Era o tipo de refeição que homens de negócios escolhiam para preencher os silêncios incômodos.
— Por que tanto olha para lá? — Álvaro parou às costas da moça que, no balcão, muito olhava Alessio.
— Sei lá… devo ser masoquista — ironizou.
— Toma! — Estendeu a mão fechada para ela.
A moça estendeu e ele deixou as oito notas de cem euros em sua mão. Sophia chegou a soltar o ar dos pulmões, com alívio por finalmente receber.
— É o dinheiro da dança, do trabalho do dia e o adiantamento. — Álvaro deu uma piscadela. — Ele não foi nada fácil, mas não pode fugir, é um homem bom.
— Pode me cobrir? Vou jantar aqui…
— Por que não deixa o orgulho de lado e eu ajudo com as compras, ao menos dessa semana? — sugeriu.
Acanhada, a moça apenas fugiu o olhar dele.
Não era só por ser orgulhosa, mas sabia dos sonhos do amigo de largar tudo aquilo para estudar.
Ela se sentiria um tipo fajuto de vilã se acabasse aceitando essas ajudas financeiras, afinal, aquilo era como tentar esvaziar o oceano com um balde furado.
— Como está o aluguel? — Ele a perguntou.
— Vou tirar cem daqui e fecho o dinheiro — falou cabisbaixa. — Às vezes, parece que tudo seria melhor se eu simplesmente tivesse morrido com meu pai.
— Não, não fala isso! — Álvaro meneou a cabeça sem parar, virando para ela. — Nem pense nisso!
Algumas lágrimas já se aventuraram no rosto da moça e ele apenas a abraçou. Nem conseguia pensar em piadas quando seu humor piorava tanto.
— Vou pegar uma água com açúcar… — Ele a guiou até um dos bancos. — Você se senta aqui e me espera voltar… até lá, não se desespere muito!
Sophia apenas assentiu, de cabeça baixa.
Aceitou a água com açúcar do amigo, as mãos estava levemente trêmulas. Precisava de muitos mais minutos para respirar fundo e se acalmar…
— Sophia! — Mas, Giuseppe a impediu disso.
Levantando de imediato, por hábito, a moça olhou na direção e o homem de aparência madura, não tão desgastada quando sua idade real, falou:
— Uma de suas mesas está pedindo a conta.
— S-sim, senhor! — Ela assentiu rápido.
Foi como um furacão, ela correu ao banheiro e lavou o rosto — sem perder tempo com a maquiagem.
Três tapinhas no próprio rosto e ela já se apressou até a mesa onde Alessio já estava sozinho. O relógio marcava meia hora para o fim do expediente.
A moça lhe apresentou a nota e ele nem olhou; tirou três notas de cem para entregá-la. Ainda fitou seus olhos enquanto, espantada, ela olhava as notas.
— Fique com o troco! — sorriu e se levantou.
Sophia permaneceu imóvel.
Ainda olhou por sobre os ombros ao vê-lo passar e teve a impressão de que seu sorriso se alargava.
“Ele está flertando comigo?”, ela se perguntou, engolindo em seco e tentando imaginar o quanto aquilo seria uma confusão ainda maior em sua vida.
Fechou o caderninho da nota e suspirou. Eram quase duzentos euros de gorjeta — uma das maiores que ela já tinha recebido em toda a sua vida!
Seguiu para cuidar da louça à mesa, já passou um pano na mesa e no chão, organizou as cadeiras, antecipando o fechamento do restaurante.
Lorenzo era o último cliente no salão. Ainda bebia da mesma jarra de vinho, sem a menor pressa.
Sophia seguiu em sua direção a passos lentos.
— Senhor! — invocou-lhe. — E-eu só disponho, agora, de quinhentos euros… para te entregar… isto é, se eu não quiser acabar morando na rua — suspirou.
— O meu antigo chefe era muito paciente, moça. — Ele fitou seus olhos. — O pai do meu antigo chefe, tinha um gosto particular pela sua família…
Ela abaixou a cabeça, já esperando bomba.
— Mas… ventos de mudança estão soprando para nós e, se eu fosse você, quitaria esta dívida logo! — O duro tom de voz estremeceu o íntimo da moça.
— E-eu não tenho como! — Meneou a cabeça.
— Existem muitas formas diferentes de pagar… sabia? — Ele a mediu de cima a baixo. — É bonita… — Levou a mão à sua cintura. — O jeito como dança mostra quão bem serpenteia esse corpo… — sibilou.
— E-eu não posso fazer isso. — Meneou a cabeça.
Queria se afastar, mas preferia não os combater — seu humor era muito volátil e um aparente convite ou conselho podia virar uma ordem num instante.
— Por que não?
— O pai se reviraria onde está! — Uma lágrima correu seu rosto quando a mão boba subiu aos seus seios. — Sei que ele não mais olharia por mim…
A pele queimava com o toque, como se fosse marcá-la para nunca mais sair. O cheiro do vinho no hálito misturava ao perfume, deixando-a nauseada.
— É perfeita! — falou por entre os dentes.
— Sophia, já está pronta? — Álvaro foi quem, à distância, acabou interrompendo a conversa deles.
Sutil, o homem tirou a mão, olhando na direção do rapaz com descontento. Álvaro fingia estar organizando os copos no balcão, mas notou o abuso.
— Q-quase! — A moça falou alto. — Toma!
Ela lhe estendeu quinhentos euros e ele tomou, contou rápido, apenas para voltar a observar a moça.
— Voltarei logo, Sophia… — Ele se levantou. — Já chegou fugida aqui… então, é bom nem pensar em fugir da gente… Somos muito melhores que os outros!
Suor frio escorreu ao ouvir aquele sussurro.
Assim que o homem saiu, ela se apoiou na mesa, as pernas tremiam tanto que não a sustentavam. Não tardou para Álvaro chegar correndo para ampará-la.
— E-eles vão-
— Não, eles não vão! — Álvaro a interrompeu.
— Vão! — A fala desesperada chacoalhou o coração do rapaz, que apenas a envolveu para ajudá-la a sentar. — Vão… eu sei que vão… e-eu vou…
Álvaro a deixou com suas lamúrias para pegar outro copo de água com açúcar. Voltou a passos apressados — isso está piorando rápido, lamentava.
A moça bebeu sua água aos poucos…
Evitava se olhar, mas o nojo era inescapável. Onde ele tocou, sua pele parecia suja — tomaria um banho longo para tentar se livrar da sensação.
— Te dou uma carona para irmos no tal hotel, colhemos informações das candidaturas… do evento… o que você me diz? É uma boa ideia! — Álvaro sugeriu.
— Esse dinheiro me ajudaria muito — assentiu.
— Em quanto está essa dívida? — Temeu arguir.
— Cinquenta mil.
— Uau, não cheguei a poupar isso tudo! — Ele arregalou os olhos. — Você já deve ter dado muito mais do que isso, não? — Ele franziu o cenho.
— Pfff… trinta mil, eu já devo ter pago só de juros, Al! — Ela o olhou com melancolia. — Eu vou… não… eu preciso conseguir! — Tornou a respirar fundo.
Logo, uma das épocas mais agitadas do ano iniciaria. Julho e agosto eram meses que, juntos, podiam rivalizar com o resto do ano em feriados.
Não somente pela quantidade de dias em que havia festividades, mas principalmente por ser um momento de maior fluxo turístico na cidade.