Capítulo 2

Ponto de Vista: Helena Barreto

Na manhã seguinte, a mesa de jantar estava posta com um banquete digno de uma rainha, tudo para Talita. Havia sopa de ninho de andorinha para vitalidade, pepino-do-mar para o desenvolvimento fetal e uma dúzia de outros pratos caros e nutritivos. Dona Marília pairava sobre ela como um falcão, pessoalmente colocando sopa em sua tigela.

"Coma, querida", ela arrulhou.

"Você está comendo por dois agora. Pelo futuro da família Almeida Prado."

Então ela olhou para mim, seu olhar varrendo meu prato simples de torrada e café com desdém.

"Algumas pessoas simplesmente nascem com mais sorte. Elas sabem como aproveitar uma oportunidade."

Encontrei seu olhar, meu rosto uma máscara de indiferença, mas por dentro, uma fúria fria estava se formando. Olhei para Bernardo, esperando que ele dissesse algo, que me defendesse. Ele apenas continuou rolando o feed do celular, completamente alheio, ou talvez, completamente indiferente.

Talita limpou os lábios com um guardanapo, fazendo um show de humildade.

"Dona Marília, por favor, não diga isso. Me faz sentir péssima. Helena é minha melhor amiga. Se... se ela realmente não consegue aceitar isso, estou disposta a ir embora. Posso criar o bebê sozinha."

Foi uma performance magistral. Dona Marília imediatamente mordeu a isca.

"Besteira!", ela retrucou, tirando uma pasta grossa de sua bolsa e deslizando-a na frente de Talita.

"Esta é a escritura de uma casa em Angra. É sua. Uma pequena prova da nossa gratidão. Você não vai a lugar nenhum."

Os olhos de Talita se arregalaram, sua máscara de humildade substituída por ganância indisfarçada.

"Oh, Dona Marília... eu não poderia..."

"Claro que pode", disse ela, dando um tapinha na mão de Talita.

Eu não aguentava mais assistir. Empurrei minha cadeira para trás e me levantei, o som arrastando ruidosamente na sala subitamente silenciosa.

"Com licença", eu disse, minha voz tensa.

"Preciso ir para o hospital."

Sem outro olhar para a família feliz, eu saí.

De volta ao meu quarto — nosso quarto — comecei a fazer as malas. Não roupas, não joias. Embalei meus livros de medicina, meus artigos de pesquisa, meus diários cirúrgicos. O trabalho de toda a minha vida. Coloquei cuidadosamente os presentes caros que Bernardo me deu no lado dele da cama. O Diamante Estrela da Manhã. O relógio Patek Philippe feito sob medida. As chaves de um Aston Martin vintage. Eram troféus vazios de uma vida que não era mais minha.

Meus dedos roçaram uma pequena caixa de couro gasta. Dentro havia um medalhão de prata, em forma de coração. Não era caro. Ele me deu no nosso primeiro aniversário. Ele me disse que era encantado, que enquanto eu o usasse, seu coração estaria sempre comigo. Lembro-me de rir, chamando-o de um romântico incurável. Agora, a memória parecia uma piada cruel.

"O que você pensa que está fazendo?"

A voz de Bernardo, afiada e zangada, me assustou. Ele estava parado na porta, os olhos semicerrados.

"Estou indo embora", eu disse simplesmente.

"Por causa da Talita?", ele zombou, entrando no quarto.

"Não seja infantil, Helena. Já passamos por isso. É um arranjo prático."

"Não estou sendo infantil", eu disse, minha voz tremendo apesar dos meus esforços para controlá-la.

"Estou com raiva. Você não consegue entender isso? Você mentiu para mim. Você e minha melhor amiga me traíram da pior maneira possível."

"Ok, você está com raiva. Eu entendo", disse ele, seu tom apaziguador, como se falasse com uma criança difícil.

"Faça a viagem para a ilha. Vá às compras. Compre o que quiser. Quando você voltar, o bebê estará aqui, Talita terá ido embora, e tudo voltará ao normal."

Ele tentou me puxar para seus braços, mas eu me afastei.

"Não."

Ele agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte.

"Você não vai a lugar nenhum."

Na luta, minha mão bateu na mesa de cabeceira, abrindo uma gaveta. Os olhos de Bernardo se voltaram para a gaveta, seu rosto de repente pálido de pânico. Ele me soltou e começou a procurar freneticamente pelo conteúdo.

"Onde está? O que você fez com ele?", ele exigiu, sua voz tensa de medo.

Ele estava procurando pelo acordo de divórcio pré-assinado.

Ele pensou que eu já o havia protocolado. Ele pensou que havia perdido o controle.

Um sorriso lento e frio se espalhou pelo meu rosto.

"Eu o rasguei", menti, minha voz suave como gelo. Meus olhos encontraram os dele, cheios de um desprezo que não me preocupei em esconder.

"Por quê? Era importante?"

Nesse momento, a voz tímida de Talita veio do corredor.

"Bernardo? Você está bem? Ouvi gritos."

A cabeça de Bernardo se virou para a porta. O pânico em seu rosto foi substituído por irritação, mas ele imediatamente suavizou o tom.

"Estou bem, Talita. Volte para o seu quarto."

Ele se virou para mim, seus olhos suplicantes.

"Por favor, Helena. Não a perturbe. O estresse faz mal para o bebê."

Ele passou a mão pelo cabelo, então seus olhos pousaram no medalhão em minha mão. Ele o arrancou.

"O que você está fazendo?", gritei, tentando pegá-lo.

"Talita tem se sentido insegura", disse ele, sem me encarar.

"Isso vai animá-la."

Ele saiu do quarto, me deixando ali, atordoada. Ele estava pegando o único presente que já significou algo para mim, o símbolo de seu suposto amor, e dando a ela.

"Bernardo, espere!", eu o segui pelo corredor. Ele já estava entregando o medalhão para Talita.

"Aqui", disse ele gentilmente.

"Uma coisinha para te fazer sentir melhor."

Talita ofegou, seus olhos brilhando enquanto o pegava.

"Oh, Bernardo, é lindo."

Ela não o reconheceu. Claro que não. Era apenas mais uma joia para ela.

Bernardo não entendeu por que eu estava tão chateada. Ele achou que era apenas uma bugiganga. A memória, o significado, a promessa que ele havia feito... era tudo meu, somente meu. Ele havia esquecido.

Ele se virou para mim, seu dever cumprido.

"Organizei uma festa para amanhã à noite", disse ele, sua voz de volta ao seu tom normal e charmoso.

"Para celebrar a gravidez. Você estará lá, ao meu lado, sorrindo. Apresentaremos uma frente unida."

Ele se inclinou e beijou minha bochecha.

"Talita está se sentindo um pouco sobrecarregada. Vou ficar com ela um pouco."

Ele desapareceu no quarto dela, fechando a porta atrás de si.

Fiquei no corredor silencioso, o eco de suas palavras ressoando em meus ouvidos. Uma frente unida. Uma festa. Uma celebração do meu inferno pessoal.

Deitei em nossa cama fria e vazia naquela noite, repassando cada momento do nosso relacionamento em minha cabeça. Eu tinha sido tão cega. Tão estúpida. Ele nunca me amou. Ele apenas amou a ideia de mim, o desafio de me conquistar.

Eu não iria à sua festa. Eu não ficaria ao seu lado e sorriria.

Eu me divorciaria dele. Eu pegaria meu pai, que estava esperando por um transplante de coração no mesmo hospital que os Almeida Prado possuíam, e nós desapareceríamos. Começaríamos uma nova vida, longe do veneno desta família.

No dia seguinte, no hospital, comecei a fazer os arranjos. Pedi uma licença e comecei a transferir o cuidado dos meus pacientes para meus colegas. Eu estava no meu consultório, organizando os prontuários médicos do meu pai, quando a porta se abriu sem bater.

Talita entrou, um sorriso presunçoso no rosto. Ela estava usando o medalhão. Meu medalhão.

"Ora, ora", disse ela, encostando-se na minha mesa.

"A grande Dra. Barreto, trazida de volta à terra. Quem diria?"

Eu a ignorei, focando nos papéis à minha frente. Ela estava tentando obter uma reação, e eu não lhe daria essa satisfação.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Helena Barreto

Talita entrou no meu consultório como se fosse a dona do lugar, um sorriso triunfante brincando em seus lábios.

"Que queda, não é, Helena?", ela ronronou, passando a mão sobre sua barriga ainda lisa, onde o filho do meu marido estava crescendo.

Permaneci em silêncio, meus olhos fixos no prontuário do meu pai. Alcancei sob minha mesa e pressionei o pequeno e discreto botão que ativava a função de gravação da câmera de segurança. No mundo dos Almeida Prado, nunca se é cuidadoso demais.

Talita notou o movimento sutil.

"Ainda tão cautelosa", ela zombou.

"Gravando nossa conversinha? Não se preocupe, não estou aqui para te ameaçar. Estou aqui para... me gabar."

Ela riu, um som feio e triunfante.

"Logo, serei a Sra. Bernardo Almeida Prado. E você não será nada. Mas ainda seremos melhores amigas, certo? Irmãs, até?"

A palavra 'irmãs' foi como um tapa. Olhei para ela, realmente olhei para ela, e vi uma estranha. Lembrei-me do dia em que a conheci, uma garota assustada e sem dinheiro que acabara de chegar a São Paulo com nada além de uma mala surrada e uma história de um passado trágico. Sua família era um caos de vício e abuso, uma história que ela contou com lágrimas tão convincentes que a acolhi sem pensar duas vezes. Dei a ela um lugar para morar, a apresentei aos meus amigos, até consegui um emprego para ela no departamento administrativo do hospital. Eu a apresentei a Bernardo.

Eu tive pena dela. Tentei salvá-la. E ela usou essa pena, essa história de vitimismo, para manipular todos ao seu redor, incluindo Bernardo. Ela jogou com a culpa dele, seu desejo de ser um salvador, e teceu uma teia de mentiras tão intrincada que ele agora estava completamente enredado.

"Eu sei que você me odeia", disse ela, sua voz baixando para um sussurro conspiratório.

"Mas você tem que entender. Eu estava desesperada. Tinha que fugir da minha família."

Ela se inclinou mais perto.

"Bernardo é meu bilhete de saída. Este bebê é minha apólice de seguro."

Ela colocou uma receita de vitaminas pré-natais na minha mesa.

"O médico disse que preciso começar a tomar. Pensei que você poderia aviar para mim. Pelos velhos tempos."

Ela se virou e saiu do meu consultório, deixando a receita para trás como um cartão de visita.

No momento em que a porta se fechou, a força me abandonou. Desabei na cadeira, o peso da dupla traição me esmagando. Eu havia perdido meu marido e minha melhor amiga em um único e devastador golpe.

De repente, o alerta de emergência na minha mesa soou violentamente. Um código azul. No quarto do meu pai.

Saltei da cadeira e corri, meu coração martelando em meus ouvidos. Entrei em seu quarto e encontrei uma cena de caos. Meu pai estava ofegante, seu rosto com uma terrível tonalidade azul. E Talita estava ao lado de sua cama, a mão no painel de controle de seu ventilador, um olhar de pura malícia em seu rosto. Ela estava mexendo no suporte de vida dele.

"Talita!", gritei, um som cru e animal de puro terror.

Enfermeiras e médicos entraram correndo, me empurrando para o lado enquanto trabalhavam freneticamente para salvá-lo. Vi a linha reta no monitor cardíaco, ouvi o bipe contínuo e ensurdecedor que sinalizava o fim. Minhas pernas cederam e eu desabei no chão.

Ele se foi. Depois de dois anos lutando, esperando, torcendo por um novo coração que finalmente estava programado para chegar na próxima semana, ele se foi. Simples assim.

Uma raiva incandescente, mais pura e intensa do que qualquer coisa que eu já senti, surgiu em mim. Levantei-me cambaleando e me lancei sobre Talita, minha mão acertando sua bochecha em um tapa que ecoou pela sala.

Ela gritou, cambaleando para trás. Naquele exato momento, Bernardo apareceu na porta, um buquê de rosas na mão.

Ele viu Talita segurando a bochecha, me viu com a mão levantada, e não viu mais nada. As rosas caíram no chão, suas pétalas se espalhando como gotas de sangue nos azulejos brancos e estéreis. Ele se lançou sobre mim, agarrando meu rosto, seus dedos cravando em minha pele. Um dos espinhos de uma haste caída arranhou minha bochecha, desenhando uma fina linha de sangue.

"O que diabos você pensa que está fazendo?", ele rosnou, seu rosto a centímetros do meu.

"Ela está grávida do meu filho! Você enlouqueceu?"

"Ela o matou", solucei, as palavras engasgadas e quase ininteligíveis.

"Bernardo, ela matou meu pai."

"Peça desculpas a ela", ele ordenou, sua voz fria e dura.

"Agora."

Ele voltou seu olhar para Talita, que agora chorava dramaticamente.

"E você", disse ele a ela, sua voz suavizando.

"Se você não consegue fazer Helena feliz, se continuar causando problemas, eu vou fazer você se livrar desse bebê."

A ameaça pairou no ar, um lembrete arrepiante de que, para ele, Talita e o bebê eram apenas ativos a serem gerenciados.

Arranquei-me de seu aperto e me virei para sair. Eu não podia ficar naquele quarto, com aquelas pessoas, por mais um segundo.

Talita, sempre a atriz, correu para frente.

"Helena, sinto muito", ela chorou, saindo correndo do quarto.

Bernardo agarrou meu braço novamente, me puxando de volta.

"Não se atreva a me dar as costas", ele sussurrou, sua voz uma ameaça baixa. Ele se inclinou e beijou o canto do meu pescoço, um gesto possessivo, de marcação.

"Tenho uma reunião. Volto para ver seu pai mais tarde."

Ele beijou minha testa, um gesto final e vazio de afeto.

"Seja boazinha."

Ele saiu. Fiquei ali, minha garganta tão apertada que não conseguia falar, tão seca que não conseguia nem engolir.

Uma enfermeira se aproximou de mim, seu rosto cheio de pena.

"Dra. Barreto... sinto muito. Seu pai... ele se foi."

Ela hesitou, depois baixou a voz.

"Há algo que você deveria saber. O coração que foi compatível com ele... o Sr. Almeida Prado cancelou a doação há duas semanas. Ele o redirecionou para o irmão da Talita."

O mundo inclinou e ficou preto. Desmaiei, o último som em meus ouvidos o eco de sua traição final.

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