Alice Mendes
Abro os olhos e pego o celular, que não para de tocar, de cima da mesa de cabeceira. Inicia-se mais uma semana, e essa promete ser bastante corrida. Sou secretária da presidência do Grupo Ferri, uma famosa rede de hotéis localizada no interior de São Paulo, mais especificamente em Atibaia, onde também está situada a sede principal, que funciona como resort. Amo o meu trabalho, e não foi nada fácil chegar até aqui.
Tenho dezenove anos, modéstia parte me acho muito bonita, cabelos loiros, olhos verdes, um rosto angelical, com apenas 1,60 de altura, sou estudiosa, dedicada e sempre lutei muito para conquistar o que tenho hoje. Cresci em um orfanato, pois fui abandonada pela minha mãe ainda bebê, ela me deixou na porta, a Madre me encontrou envolvida em uma manta, nunca soubemos o motivo do abandono, nenhuma carta, nada e nunca tive a sorte de ter uma família como tantas outras crianças. Então desde cedo decidi que seria a melhor em tudo, porque, já que teria de viver sozinha, precisava me garantir.
Quando completei a maioridade, Madre Rita me chamou à sua sala e disse que eu teria de deixar o orfanato - não poderiam me manter lá mais.
Ela me entregou um envelope que, ao abrir, revelou uma quantia considerável em dinheiro, o suficiente para me sustentar por algum tempo. Sempre fui atenciosa e prestativa, me dedicando a todas no orfanato, então, na despedida, todas choramos juntas.
- Alice, meu amor - disse a Madre, emocionada. - Fico feliz por termos conseguido encaminhá-la para uma boa vida. Talvez sem riqueza, mas com dignidade, e isso é o mais importante. Você sempre demonstrou ter boa índole, e por isso conversei com um dos nossos contribuintes. Ele lhe dará um trabalho. Será recepcionista em um hotel. Espero que não se incomode, nem perguntei a você sobre o isso. Mas como sei que é muito dedicada, não poderia deixar de te ajudar.
- Sério, Madre? - respondi com os olhos marejados. Era exatamente o que eu precisava naquele momento. - Eu nunca esquecerei o carinho de vocês, as palavras que me confortaram nos dias difíceis. Agradeço até à minha mãe por ter me deixado aqui. Não haveria lugar melhor para receber amor verdadeiro. Obrigada, de coração. - Digo emocionada com a atenção que a Madre teve comigo. Como sempre!
- As portas sempre estarão abertas para você, minha filha. Se precisar, pode nos procurar.
Abraçamo-nos todas juntas, e as lágrimas escorreram livremente. Foram os melhores anos da minha vida e os levarei comigo para sempre.
A Madre Rita me passou o endereço do hotel em que eu trabalharia, mas antes, me encaminhei para uma pensão indicada pelo orfanato, onde ficaria até conseguir alugar algo melhor.
Cheguei de frente ao prédio, uma fachada simples de tijolinhos, onde se via um letreiro antigo e sujo, com o nome: Ed. Belladonna. Entrei e fiz meu cadastro como todo inquilino. Dona Alzira me entregou uma chave e me encaminhou para meu quarto, que seria minha moradia à partir de hoje. Era um local bem humilde, mas muito limpo. Subi a escada de madeira antiga, que rangia conforme pisava, e segui conforme me foi indicado.
Parei de frente uma porta com o número 6, indicando que ali era meu lugar. Adentrei o cômodo e olhei em volta, tinha uma cama simples no canto, com uma mesinha de cabeceira ao lado, e um abajur. Um pequeno guarda-roupa enfeitava a parede em frente a cama, e uma porta que dava para um pequeno banheiro. Sorri, aquela seria minha nova moradia nos próximos dias.
Organizei minhas roupas no pequeno móvel e, sabendo que deveria me apresentar no trabalho na manhã seguinte, saí em busca de uma roupa formal. Caminhei por várias ruas até encontrar uma loja simples, onde consegui comprar um conjunto de calça e blazer pretos com uma blusa branca. Também achei um sapato elegante, embora simples. Não era luxuoso, mas me senti arrumada e confiante para começar.
Na manhã seguinte, acordei cedo. Tomei banho, arrumei meu cabelo em um coque, passei uma leve maquiagem, vesti meu novo traje e fui ao hotel. Lá, conheci o senhor Edgar, presidente do Grupo Ferri, ele era mais velho, na casa dos sessenta ou setenta anos talvez, cabelos grisalhos e de estatura baixa, vestia um terno impecável na cor preta, um homem educado e muito receptivo. Ele me explicou o funcionamento da empresa e, ao final, perguntou:
- Então, menina Alice, gostou do que lhe apresentei?
- Sim, senhor Edgar. Estou muito agradecida pela oportunidade. Mas, se me permite, gostaria de tirar uma dúvida.
- Claro, minha filha, diga qual é.
- Existe a chance de crescer dentro da empresa? Eu não quero ser apenas uma recepcionista. Sei que posso estar parecendo apressada, mas cresci em um orfanato e não tenho ninguém. Preciso garantir meu futuro.
Ele sorriu com ternura.
- Já pensando lá na frente? Isso é ótimo. Admiro pessoas que não se acomodam. Temos um programa interno de cursos para os funcionários. Você pode se inscrever na área que desejar. Ao final, fará uma prova, e se for aprovada, terá acesso à vaga.
- Ótimo, darei o meu melhor! - Sorrio confiante.
- Pode começar amanhã mesmo. A Madre falou muito bem de você. Basta fazer bem o seu trabalho. Seja bem-vinda!
- O senhor não irá se arrepender.
- Assim que eu gosto - disse ele, encerrando a conversa.
Um ano e meio depois
Às vezes ainda não acredito que conquistei tanto em tão pouco tempo. Logo após o primeiro mês como recepcionista, inscrevi-me no curso, tirei nota máxima e passei na prova, me tornando a secretária da gerência, meu foco era a presidência, sabia que iria surgir a vaga e foquei em meus estudos. E oito meses depois de muito aprendizado, fiz mais uma prova, tirando a maior nota de todos os tempos.
Hoje sou secretária do senhor Edgar. Conquistei a vaga que mais queria, a da presidência!
Mas esse não é meu limite. Estou me organizando para ingressar na faculdade de Administração. Quero ser chefe em um dos hotéis da rede Ferri - e sei que chegarei lá.
- Alice, querida, pode vir aqui, por favor? - ouvi a voz de Edgar chamando de sua sala.
Entrei com um sorriso.
- Em que posso ajudar, senhor?
Sempre fui grata por sua atenção. Além de presidente, Edgar foi um verdadeiro mentor.
- Meu filho chega na próxima semana. Preciso que você o ajude a se adaptar. Como sabe, logo me aposento. Faz anos que ele vive nos Estados Unidos e está distante da empresa. Não há pessoa melhor que você para acompanhá-lo. A partir de segunda, quero que ele participe das reuniões. Passe a ele todos os relatórios de fornecedores.
Assenti, anotando tudo no meu tablet.
- Claro, senhor. Ah, e não se esqueça do almoço com o novo fornecedor de carnes nesta semana.
- Sim, prepare o contrato e marque também uma reunião com os acionistas. Precisamos definir o vice-presidente que dará suporte ao Oliver quando chegar.
O nome ecoou na minha mente: Oliver.
- Certo, cuidarei de tudo.
Saí da sala com a cabeça girando. As recepcionistas já haviam comentado que o filho do senhor Edgar era lindo, praticamente irresistível. Porém, era noivo. Suspirei, tentando afastar pensamentos tolos. Como seria nossa relação de patrão e funcionária? Esperava que fosse tão boa quanto a que tinha com seu pai.
Mas nada poderia me preparar para o que estava por vir...
Alice Mendes
Estou sentada na mesa quando Catarina chega me cutucando e como sempre cheia de energia.
- Amiga, você está de dieta por acaso? Quer ficar ainda mais gostosa para o novo patrão? - diz com aquela cara safada de sempre e me dá uma piscadinha, rindo. Essa minha amiga não tem jeito. Mas eu a amo. Cata era linda, cabelos castanhos e longos, olhos também castanhos, pele branca e lisa, um pouco mais alta que eu. Tinha o corpo perfeito, com muitas curvas e tudo em seu devido lugar.
- Não diga bobagem, só me distraí com o contrato do novo fornecedor. Não pode ter nenhum erro - respondo, revirando os olhos. Ela adora me provocar.
- Claro, senhorita certinha - Cata comenta, soltando uma gargalhada.
Reviro os olhos mais uma vez. Catarina é uma figura. Conheci-a na empresa, quando ainda trabalhava como recepcionista, função que ela mantém até hoje. Logo fui promovida à presidência, trabalho que amo de verdade. Como morava longe do hotel, precisava sair muito cedo de casa. Um dia, Cata perguntou se podia dividir o apartamento comigo. Aceitei sem pensar duas vezes, e desde então nossa convivência deu super certo. Somos parecidas em muitas coisas, menos quando o assunto é relacionamento.
Ela é namoradeira, não perde uma oportunidade, já perdi as contas de quantos namoros ou ficadas teve. Eu, em compensação, ainda sou virgem, mal beijei na boca. É claro que ela adora me irritar com isso, mas sempre fui firme em minha decisão: quero esperar. Quero ter certeza de estar pronta e com a pessoa certa. Cata me apelidou de "senhorita certinha" - a que nunca faz nada errado - e talvez ela tenha razão. Aprendi assim com as freiras do orfanato, e isso moldou quem eu sou hoje.
Ela estala os dedos diante de mim e percebo que estava perdida em devaneios, como sempre. Desligo o computador, pego a bolsa e saímos juntas para o almoço.
- Vamos logo, as meninas estão nos esperando lá embaixo - Catarina me apressa, mandona como sempre, mas de coração enorme.
- Vocês já poderiam ter ido, eu iria depois.
- Imagina se eu te deixaria para trás. Você é minha bestie do coração - fala, dramática, colocando a mão sobre o peito.
- Mas eu estava ocupada, amiga.
- Sempre está, né? Nenhuma novidade. - Revira os olhos, e rimos juntas.
No restaurante, nos sentamos à mesa de sempre e logo chegam as primeiras provocações.
- Alice, conta pra gente, quando o bonitão chega? - pergunta Mariana, do Recursos Humanos, curiosa.
- Sosseguem. Ele será o novo presidente, então apaguem esse fogo. Chega na próxima segunda-feira, é só o que sei - respondo sem dar muita atenção. Esse tipo de comentário me irrita, ainda mais porque ouvi que ele é comprometido.
- Ele está noivo, será que ela vem com ele? - Mariana insiste. - Fiquei sabendo que foram embora juntos para estudar, noivaram e planejam se casar quando voltarem.
Suspiro. Esse almoço será só sobre meu futuro chefe?!
- O que o senhor Edgar me pediu foi para acompanhá-lo em todos os compromissos, inclusive almoços e jantares. Ele ficará encarregado dos contratos por enquanto - explico, bebendo um gole do meu suco de laranja.
- Então você vai acompanhá-lo em tudo. Se precisar de uma assistente, pode me chamar! - Catarina diz, piscando o olho. Todas caem na risada.
- Nunca chamaria você, Cata. Não daria sossego pro chefe.
- Credo, amiga! Fala mal de mim na frente de todo mundo. - Ela faz cara de choro, arrancando mais gargalhadas.
Almoçamos rapidamente, já que eu precisava voltar para revisar o contrato e, depois, acompanhar a reunião do conselho.
De volta à empresa, termino o contrato e o envio ao senhor Edgar. Em seguida, preparo a sala para a reunião. A pauta principal é a escolha do vice-presidente. Após muito debate, decidem pelo senhor Alberto Almeida, funcionário experiente, com anos na empresa e profundo conhecimento da área administrativa. Ele será peça essencial no apoio ao novo presidente.
O expediente finalmente termina. Exausta, corro para casa. Entro em meu quarto, tiro os sapatos, jogo a roupa no cesto que fica ao lado da porta e vou direto para o banho. A água quente relaxa meus músculos e leva o peso do dia. Revigorada, visto um pijama confortável e sigo para a cozinha, onde encontro Cata.
- Chegou tarde, amiga - ela comenta, enquanto mexe as panelas.
- A reunião se estendeu mais do que o normal. Depois de muito debate, decidiram que o vice-presidente será o senhor Alberto Almeida - explico, sentando-me na banqueta da pequena ilha na cozinha.
- Ele parece ser um bom candidato e lindo- ela comenta, abrindo uma garrafa de vinho. Realmente, o senhor Alberto é um homem muito bonito e charmoso, com seus 1,85 de altura, cabelos castanhos claros, quase loiros e olhos azuis, o típico galã de novela.
Segunda-feira é o dia do vinho aqui em casa, uma tradição nossa, que adquirimos.
- Sim, ele conhece bem a empresa e pode viajar para os outros hotéis.
- Até porque o senhor Oliver está fora há mais de dez anos e não voltou nem para visitar os pais - lembra, servindo duas taças.
- Exatamente. Por isso o senhor Edgar queria alguém de confiança para apoiá-lo em tudo. - Tomo um gole do vinho e, mudando de assunto, lanço a ideia: - Você devia se candidatar à vaga de secretária. A prova é tranquila, e eu posso te ajudar a estudar.
- Será que consigo? - Ela me olha com um pouco de dúvida.
- Claro que sim. Conhece o hotel melhor do que muita gente que está lá há anos.
Ela sorri animada, já sonhando em ser a nova assistente.
- Então amanhã mesmo vou ao RH entregar minha inscrição. Imagine só, nós duas trabalhando juntas ao lado dos bonitões da empresa. - Suspira, rindo.
- Para com isso, menina! Vamos jantar.
Nosso prato favorito já está pronto: macarrão com molho vermelho de carne e vinho. Sentamos à mesa, brindamos e damos início ao ritual da nossa segunda-feira. Muitas risadas, uma comida deliciosa e apenas uma taça para mim - mais que isso, acordo com dor de cabeça. Sou muito fraca para bebidas!
E assim termina mais um dia. Amanhã será ainda mais corrido.
Como tem sido ultimamente. Estamos à espera do nosso novo presidente.