Capítulo 2

​O aperto dos dedos de Viktor Vance no queixo de Helena era firme, quase doloroso, mas era o calor da pele dele contra a sua que fazia o coração dela martelar descontroladamente contra as costelas. Ela podia sentir o hálito com cheiro de uísque dele roçando seus lábios. Viktor a olhava como um predador analisa uma presa encurralada: sem um pingo de piedade, apenas calculando o momento exato do bote.

​- Cinco segundos, Helena - a voz dele vibrou, baixa e rouca, ecoando no silêncio da sala da presidência. - O relógio está correndo. Você quer viver como minha esposa de fachada ou quer que eu ligue para a segurança para te chutar para fora deste prédio diretamente para os seus cobradores?

​As lágrimas que Helena tentava prender finalmente transbordaram, borrando ainda mais a sua visão. Ela olhou para o documento grosso sobre a mesa de mogno. As letras pretas do título pareciam zombar do seu desespero: Contrato de União Civil e Conveniência Mútua.

​Ela não tinha escolha. Se saísse por aquela porta, os homens que mandavam as mensagens cumpririam a promessa antes da meia-noite. Ela morreria em um beco escuro do subúrbio por cinquenta mil reais.

​- Eu... eu assino - Helena sussurrou, a voz falhando.

​Viktor soltou o queixo dela abruptamente. O canto de sua boca se elevou em um sorriso frio e vitorioso. Ele deu dois passos para trás, ajeitou as mangas da camisa social e pegou uma caneta tinteiro dourada, estendendo-a na direção dela.

​- Uma escolha inteligente, Srta. Barret. Ou melhor... futura Senhora Vance.

​Helena caminhou até a mesa com as pernas tão fracas que pareciam feitas de gelatina. Ela pegou a caneta. Suas mãos tremiam tanto que ela precisou segurar o pulso esquerdo com a mão direita para conseguir apoiar a ponta no papel. Seus olhos correram rapidamente pelas cláusulas antes de assinar:

​1. O matrimônio terá a duração estrita de 12 (doze) meses, sem direito à renovação automática.

2. A contratada residirá na propriedade principal do contratante, mantendo aposentos estritamente separados, salvo em ocasiões de exibição pública.

3. Fica proibido qualquer envolvimento emocional ou cobrança de cunho afetivo de ambas as partes.

4. O descumprimento do sigilo deste acordo resultará em rescisão imediata e execução das dívidas da contratada.

​Na última página, ao lado do nome impresso de Viktor, ela assinou: Helena Barret.

​Assim que a última linha foi traçada, Viktor puxou o documento da mão dela de uma vez. Ele nem sequer olhou para a assinatura; apenas guardou o papel de volta na gaveta da mesa, trancando-a com uma chave dourada.

​- Pronto. A sua alma agora me pertence por um ano - Viktor disse, pegando o celular corporativo. Ele digitou algo rápido e colocou o aparelho no ouvido. - Marcus? Sou eu. Tem uma conta de agiotagem flutuando no subúrbio em nome de Helena Barret. O valor é de cinquenta mil. Rastreie o número que está mandando as ameaças para o celular dela, pague o dobro do valor para garantir o silêncio definitivo deles e avise que, se encostarem um dedo nela, eu destruo a linhagem inteira deles. Faça isso agora.

​Ele desligou sem esperar resposta. Helena olhou para ele, em choque. Em menos de trinta segundos, o homem havia resolvido o problema que vinha tirando o seu sono e a fazendo passar fome há meses. O poder de Viktor Vance era assustador.

​- Obrigada... - ela murmurou, abraçando o próprio corpo, sentindo um misto de alívio puro e terror pelo que viria a seguir.

​- Não me agradeça. Como eu disse, isso é um negócio - Viktor guardou o celular no bolso e caminhou até ela novamente, parando a centímetros de distância. - O seu aluguel daquele cortiço imundo está cancelado. Você não volta mais para lá. Minhas malas de viagem já estão no carro. Nós vamos para o cartório agora mesmo para uma assinatura emergencial com o juiz de paz que eu comprei para esta noite. Amanhã de manhã, a imprensa inteira receberá a notícia de que o solteirão mais cobiçado da cidade se casou em segredo.

​- Mas... e as minhas coisas? - Helena gaguejou, pensando nas poucas roupas que tinha e no urso de pelúcia velho que guardava desde o orfanato.

​Viktor soltou uma risada desdenhosa.

​- Aqueles trapos velhos e cheios de mofo? Esqueça tudo, Helena. Você agora é a esposa de Viktor Vance. Amanhã uma estilista irá à mansão refazer o seu guarda-roupa do zero. Eu não vou permitir que você ande ao meu lado parecendo uma mendiga. Você vai vestir as melhores marcas, usar as joias mais caras e sorrir para as câmeras como se fosse a mulher mais feliz do mundo.

​Ele segurou o braço dela com firmeza, não dando espaço para discussões, e a conduziu para fora da sala.

​O trajeto até o cartório particular e, depois, até a mansão Vance foi um borrão na mente de Helena. O casamento durou menos de dez minutos. Duas assinaturas, uma foto formal que Viktor exigiu para o arquivo da assessoria e pronto. Ela agora carregava uma aliança de diamantes pesada no dedo anelar esquerdo - uma joia que parecia uma algema de luxo.

​Quando o carro preto blindado finalmente cruzou os portões de ferro fundido da mansão Vance, Helena colou o rosto no vidro. A propriedade era gigantesca, cercada por jardins impecáveis e colunas de mármore iluminadas pela lua. Era o oposto completo da sua casa úmida de periferia.

​O motorista abriu a porta para ela. Helena saiu, sentindo o vento frio da noite bater em seu rosto. Viktor desceu logo em seguida, sem olhar para ela, caminhando imponente em direção à entrada principal.

​Uma governanta idosa, de postura rígida e uniforme impecável, já os esperava na porta de entrada.

​- Boa noite, Senhor Vance. Tudo foi preparado como o senhor exigiu - a mulher disse, curvando levemente a cabeça.

​- Esta é Helena, Martha. Minha esposa - Viktor disse, a voz desprovida de qualquer calor ou orgulho ao pronunciar a palavra esposa. - Leve-a para o quarto de hóspedes da ala leste. Garanta que ela tome um banho e coma algo. Não quero que ela desmaie de desnutrição na frente dos repórteres amanhã.

​- Sim, senhor. Por aqui, senhora - Martha gesticulou para a imensa escadaria de mármore.

​Helena deu um passo, mas parou ao ouvir a voz de Viktor ecoar pelo hall de entrada.

​- Ah, e Barret? - Viktor a chamou, usando o sobrenome de solteira dela de propósito, enquanto afrouxava a gravata. - Não se acostume com o luxo. Daqui a trezentos e sessenta e cinco dias, você volta exatamente para o lugar de onde eu te tirei.

​Helena engoliu em seco, sentindo o estômago revirar de humilhação, mas manteve a cabeça erguida. Ela subiu as escadas em silêncio.

​O quarto de hóspedes era maior do que todo o cortiço onde ela morava. Havia uma cama king-size com lençóis de seda e uma mesa posta com uma sopa fumegante e pães frescos. Helena comeu devagar, as lágrimas caindo silenciosas sobre o prato. Pela primeira vez em meses, sua barriga estava cheia e ela não corria risco de vida. Mas o preço a pagar seria alto.

​Depois de um banho quente, ela vestiu um roupão de cetim que Martha havia deixado e deitou-se na cama imensa. O silêncio da mansão era quase sufocante.

​Por volta das duas da manhã, Helena acordou assustada com um barulho vindo do corredor. Seu coração disparou. Ela se levantou silenciosamente, abriu uma fresta da porta e olhou para fora.

​No final do corredor mal iluminado, Viktor Vance estava escorado na parede, segurando uma garrafa de uísque pela metade. A camisa branca estava com os primeiros botões abertos, e o cabelo castanho escuro estava bagunçado. Ele não parecia o CEO implacável de poucas horas atrás; parecia um homem atormentado.

​De repente, Viktor virou o rosto na direção do quarto dela. Seus olhos escuros e injetados de álcool encontraram a fresta da porta onde Helena estava escondida. Ele começou a caminhar na direção dela, com passos lentos e predatórios.

Capítulo 3

​Helena prendeu a respiração, o corpo congelando contra a madeira da porta. A silhueta de Viktor avançava pelo corredor imenso com uma lentidão torturante. O carpete espesso abafava seus passos, tornando sua aproximação ainda mais predatória. A cada metro que ele avançava, o coração de Helena batia mais rápido, o pânico ricocheteando em seu peito vazio.

​Ela tentou fechar a porta sem fazer barulho, mas antes que a fresta desaparecesse, a mão grande e firme de Viktor espalmou contra a madeira, empurrando-a para trás com uma facilidade assustadora.

​Helena deu dois passos rápidos recuando para o centro do quarto. Viktor entrou, fechando a porta atrás de si com um baque seco. Ele cambaleou levemente, escorando as costas na parede enquanto mantinha os olhos escuros e injetados de álcool fixos nela. O cheiro forte de uísque importado inundou o ambiente elegantemente decorado.

​- O que você pensa que está fazendo, Barret? - a voz dele saiu mais rouca que o normal, arrastada, mas ainda carregando aquela autoridade que a fazia tremer. - Espionando os meus passos de madrugada? Já está tentando descobrir os meus pontos fracos para usar contra mim?

​Helena engoliu em seco, apertando o tecido macio do roupão de cetim contra o pescoço. Ela se sentia terrivelmente vulnerável diante dele, descalça e com o cabelo ainda úmido do banho.

​- Eu só ouvi um barulho no corredor, Senhor Vance. Pensei que... pensei que fosse outra pessoa - ela respondeu, tentando manter a voz o mais neutra possível.

​- Outra pessoa? - Viktor soltou uma risada sombria, dando um passo à frente. Suas mangas continuavam dobradas, e os primeiros botões da camisa abertos revelavam o início do peitoral marcado. - Esta casa é minha. Ninguém entra aqui sem a minha autorização. E, a partir de hoje, você também é minha. Esqueceu do papel que assinou algumas horas atrás?

​- Eu não esqueci - ela rebateu, o orgulho ferido dando-lhe uma onda súbita de coragem. - Mas o contrato também dizia que teríamos quartos estritamente separados. O senhor está quebrando a segunda cláusula.

​Viktor parou a menos de um metro dela. Ele era muito mais alto, forçando Helena a olhar para cima para encará-lo. O olhar dele desceu lentamente pelo contorno do pescoço dela, detendo-se na clavícula que aparecia pela abertura do roupão. Havia uma intensidade ali, um brilho de posse misturado com um ressentimento profundo que Helena não conseguia decifrar. Ele parecia travar uma batalha interna, furioso por se sentir atraído pela garota que considerava insignificante.

​- Eu sou o dono da Vance Corp, Helena. Eu escrevo as regras e eu as quebro quando bem entender - ele sibilou, inclinando o rosto na direção dela. - Você achou que ganhar um guarda-roupa novo e uma aliança de diamantes seria de graça? Achou que passaria doze meses apenas comendo da minha comida e dormindo na minha cama de luxo sem pagar o preço?

​O estômago de Helena revirou. A humilhação crua voltou a queimar suas bochechas.

​- Eu assinei para salvar a minha vida, não porque queria o seu dinheiro - ela disse, sustentando o olhar dele, embora seus olhos estivessem cheios de lágrimas prontas para cair. - Se o senhor veio aqui para exigir que eu cumpra o meu dever de... de esposa, então faça de uma vez. Mas não abuse do seu poder para me torturar psicologicamente. Eu já aguento isso o dia todo no escritório.

​Viktor travou o maxilar de forma tão violenta que os músculos de seu rosto ficaram rígidos. Ele ergueu a mão direita, e por um segundo Helena pensou que ele fosse tocá-la, mas ele apenas segurou uma mecha do cabelo castanho dela, enrolando-a entre os dedos com uma força desnecessária.

​- Você acha que eu quero o seu corpo, Barret? - ele mentiu, a voz destilando um veneno gélido que tentava mascarar o desejo evidente em seus olhos. - Olhe para você. Uma órfã desnutrida, vestindo minhas roupas, chorando pelos cantos. Eu posso ter a mulher que eu quiser com um estalar de dedos. Mulheres refinadas. Mulheres como a Paola Belmont.

​Ele soltou o cabelo dela com um puxão brusco, fazendo-a dar um passo para trás.

​- Eu não vim aqui para tocar em você. Vim apenas lembrar quem manda. Amanhã, às oito da manhã, o fotógrafo da assessoria estará aqui. Quero você impecável. Se você vacilar ou demonstrar qualquer nojo quando eu segurar a sua mão na frente das câmeras, eu juro que desfaço o acordo com os agiotas e deixo eles terminarem o serviço.

​Helena sentiu um frio na espinha. Viktor Vance não tinha coração. Ele era uma máquina feita de gelo e arrogância.

​- Eu vou fazer o meu trabalho, Senhor Vance - ela disse, a voz fria como a dele. - Agora, por favor, saia do meu quarto.

​Viktor a encarou por mais alguns segundos em silêncio. A menção ao "trabalho" pareceu irritá-lo ainda mais. Ele deu as costas, caminhou até a porta e, antes de sair, olhou por cima do ombro.

​- Não me chame de Senhor Vance na frente dos outros amanhã. Para o mundo, nós estamos perdidamente apaixonados. Aprenda a atuar, Helena.

​A porta bateu com força, deixando-a sozinha na imensidão do quarto.

​Helena desabou na cama, puxando as cobertas até o queixo. O corpo ainda tremia pela descarga de adrenalina. Ela chorou baixinho até adormecer, desejando acordar daquele pesadelo, sabendo que a manhã seguinte traria uma tortura ainda maior: o mundo inteiro estaria olhando para ela.

​No início da manhã, o sol mal havia cruzado as janelas gigantescas quando Martha, a governanta, entrou no quarto acompanhada por três mulheres que carregavam araras cheias de vestidos de alta costura, caixas de sapatos e maletas de maquiagem.

​- Bom dia, Senhora Vance - Martha disse com sua habitual postura rígida. - O Senhor Vance ordenou que o seu milagre estético seja feito antes do café da manhã. Temos exatamente duas horas.

​Helena foi puxada da cama e colocada em uma cadeira diante do espelho. Pelas duas horas seguintes, ela foi esfoliada, maquiada, teve os cabelos escovados em ondas perfeitas e foi vestida com um elegante vestido de seda verde-esmeralda que abraçava suas curvas de forma discreta, mas impecável. Quando se olhou no espelho, mal conseguiu se reconhecer. A garota faminta do cortiço havia desaparecido; em seu lugar, havia uma mulher deslumbrante, digna da alta sociedade.

​- Perfeito. O Senhor Vance a espera na sala de jantar - Martha anunciou.

​Com o coração na boca, Helena desceu as escadarias de mármore, segurando a barra do vestido. Ao chegar à imensa sala de jantar, viu Viktor sentado à cabeceira, lendo um tablet corporativo enquanto tomava café. Ele vestia um terno azul-escuro impecável.

​Ao ouvir o som dos saltos dela contra o piso, Viktor levantou os olhos.

​A reação dele foi imediata. O tablet quase escorregou de seus dedos. Seus olhos escuros se arregalaram levemente, percorrendo o corpo de Helena com uma intensidade avassaladora. Ele engoliu em seco, a rigidez de sua postura vacilando por um milésimo de segundo diante da beleza esfuziante de sua nova esposa.

​Mas, tão rápido quanto o choque veio, a máscara de gelo retornou. Ele se levantou, ajeitou o paletó e caminhou até ela.

​- Aceitável - ele disse, embora sua voz estivesse ligeiramente mais rouca. Ele estendeu o braço esquerdo para ela. - Os fotógrafos já estão no jardim. Lembre-se do que conversamos ontem, Helena. Sorria como se me amasse.

​Helena respirou fundo, entrelaçou seu braço no dele e sentiu a firmeza dos músculos de Viktor através do tecido do terno.

​- Eu sei atuar, Viktor - ela sussurrou, usando o primeiro nome dele pela primeira vez, sentindo o corpo dele enrijecer instantaneamente com o toque.

​Eles caminharam em direção às portas de vidro que davam para o jardim, onde os flashes começaram a pipocar imediatamente. O jogo havia começado.

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