Capítulo 2

— Ok. Vamos acabar logo com isso! — declaro sem paciência. Pelo jeito a foda de hoje não foi suficiente para melhorar o meu humor. Raramente é. Depois desta reunião Agatha resolve isso, ou resolvo com alguns socos na Alpha Power. Não é o mesmo que sexo, mas ajuda.

Agatha me acompanha até a porta do meu escritório e a abre.

Ela é minha fonte fixa de sangue e de sexo. Dentre todas as mulheres que já experimentei, ela é a única que vale a pena repetir, por isso a mantenho ao meu lado desde que foi transformada em uma loba. Uma bela morena de seios avantajados, cintura fina, penetrantes olhos castanhos e capaz de qualquer coisa por mim, na cama e fora dela.

Deixando Agatha para trás, entrei no escritório e encontrei apenas três membros, um representante de cada espécie.

— Desculpe o atraso, senhores. Estava em outra reunião — disse cinicamente e me sentei na poltrona atrás da minha mesa, olhando os três sentados no sofá e tomando absinto.

— Não esperamos comprometimento da sua parte. — Dougllas, o vampiro do conselho, retrucou. Sorrio de canto, só para provocar o vampirinho.

— É difícil se interessar por uma reunião da qual nem sei o assunto — digo calmamente. — Se não quisesse vocês sequer estariam na minha casa.

— Estamos aqui para informá-lo sobre uma profecia com a qual todos nós sonhamos e que apareceu em um pergaminho na sede do Conselho Principal — ele disse com seu costumeiro ar de superioridade.

— E? — tédio era o meu sobrenome nesse instante.

— A profecia é sobre você. Diz que quando você completar mil anos, despertará uma humana especial que o ajudará a governar nosso mundo.

What? Adeus tédio. Bem-vinda curiosidade! Isso sim chamou a minha atenção.

— Como assim? Deixei alguma humana grávida? — antes que ele pudesse responder, me dei conta que se fosse isso nasceria uma vampira ou uma loba, não uma humana especial. Só humanos geravam humanos. Pelo menos é o que sabíamos.

— Ela será a parceira que você evitou por tanto tempo — ele respondeu com um sorriso irritante.

A palavra parceira fez meu coração de lobo falhar. Pelo menos na minha imaginação, pois ele não batia. Minha mente insistiu em voltar há centenas de anos, mas afastei qualquer possibilidade de recordar delas. Não havia possibilidade de Louise ou Juliette retornar dos mortos para me atormentar, para cobrar justiça pelos meus atos desprezíveis. Quando humano, eu fui o pior lixo entre eles. Não que tenha melhorado muito depois de me transformar, mas ao menos posso dizer que jamais faria com mulher alguma o que fiz com Juliette ou Louise.

Sem deixar transparecer o quanto sua fala me afetou, encaro Dougllas.

— Por que estão aqui? Sabemos que são cretinos ambiciosos que não hesitariam em se apossar dessa humana para benefício do Conselho. — Decidi ir logo ao ponto.

— A profecia diz que se ela não o conhecer, seus poderes não serão despertados. Queremos uma aliança.

Então era isso. Eles precisavam de mim.

— Foda-se! Isso responde a sua proposta?

— Senhor Vilard, lembre-se das suas limitações diante dos membros do Conselho e agradeça pela existência dessa profecia, pois sua cabeça já foi cogitada várias vezes em nossas reuniões.

Coloco a mão sobre o meu coração morto, em puro deboche.

— Sinto-me lisonjeado!

Não queria ser iludido com uma profecia. Aqueles engomadinhos poderiam muito bem ter planos para me destruir usando uma profecia. Afinal, eles mesmos mencionaram que minha destruição é pauta em reuniões. O que acho um desperdício de tempo, uma vez que eu não gasto meu tempo pensando neles, apenas aproveito a vida medíocre que me foi destinada.

— Você foi avisado. Encontre a garota e desperte os poderes dela. — Dougllas se levantou, tentando me intimidar. Tive vontade de rir.

— Acalmem-se! Senhor Vilard, leia isso. — Katherynne, a loba do conselho, me entregou um pergaminho que parecia ser tão velho quanto eu.

Olhei para Katherynne e senti certa pena, ao contrário dos vampiros e dos híbridos, os lobos, transformados ou nascidos, param de envelhecer em qualquer idade depois de vinte e um anos que despertam para a lua. Era injusto com alguns, pois os cabelos grisalhos dela já foram ruivos naturais e sua pele, com várias rugas expostas, já foi branca e macia como pêssego, eu sei, já provei dela algumas vezes anos atrás, quando era humana.

Abri e li as poucas palavras em voz alta.

“Aquele que destruiu vidas, massacrou corações e fez com que sangue e lágrimas fosse derramado na terra, deveria amaldiçoado a nunca sentir o que todos vivem para conhecer, o amor. Infelizmente os deuses não acataram ao meu pedido de destruí-lo ou manter a maldição até o fim dos seus dias. Ao contrário, eles o consideram forte o suficiente para comandar todos na Terra. Christopher Vilard, você será o destinado a mulher que nascerá para representar os deuses na Terra. Irá amá-la acima de qualquer coisa e sua força será usada para protegê-la e ajudá-la a cumprir o seu destino. Aceite ou não, seu destino começa ao completar mil anos.

Comecei com um tom de ironia e terminei com uma interrogação na expressão.

— O que significa isso? — Que droga essa pessoa confusa escreveu?

— O que está escrito. — Petterson, o humano e mais insolente que Dougllas, respondeu.

— Não me provoque! Estou muito interessado em cometer assassinato hoje. E não vai ser uma perda muito grande para o conselho, pois sempre tem outro para ocupar o lugar de seres frágeis como você. — Minha voz era um rosnado baixo.

Novamente Katherynne quis apaziguar e disse:

— Christopher, isso significa que, em poucas semanas, você vai fazer mil anos e nessa data a profecia se cumprirá. A mulher que você vai amar vai aparecer.

Senti como se o meu coração estivesse batendo acelerado e, sem perceber, coloquei a mão no peito. Não havia nada.

E agora?

Não sei se me alegro ou se surto pela possibilidade de ter meu coração vivo e batendo por alguém.

— Chega de assunto sem sentido!

Simplesmente sai do escritório e da casa, sem olhar para trás. Agatha que cuidasse de expulsar aqueles imbecis da minha casa. Eu preciso de uma luta urgente.

Caralho! As coisas vão sair dos eixos.

Capítulo 3

"O monstro em mim despertou

e não desejo que volte a dormir."

Centenas de anos antes...

Há anos surgiram os boatos de que seres das sombras viviam entre nós; vampiros e lobos. Estou perto dos quarenta anos e nunca vi um. Acho a minha vida medíocre, mas não estou completamente infeliz, pois, depois de anos, finalmente encontrei uma companheira disposta a morar em um casebre com um simples criador de cabras que nem minhas eram.

Juliette Williams era o nome dela. Não era a mais bela da vila e eu nem mesmo a amava, mas sentia necessidade de garantir que o nome Vilard continuasse. Talvez seja uma necessidade tola, pois Vilard nem era o nome verdadeiro da minha família, esse nome foi o que meus avôs usaram ao fugir do Reino Goryeo com outras duas famílias para Diamonique, vila onde ainda vivo. A intenção era não perder nossas raízes e unirmos sempre entre os nossos, mas aos poucos alguns morreram e outros fugiram. No fim, só sobrou eu de coreano puro. Eu raramente me misturava com outras pessoas, apenas quando estritamente necessário, sempre foi assim, meus pais me ensinaram que as outras pessoas eram sujas e desnecessárias.

Juliette aceitou o casamento por estar grávida de um canalha que não quis saber dela ou da criança. Para mim tanto faz o filho de outro, só me importa que ela vai ficar disponível para gerar os meus filhos em alguns meses. Mesmo não sendo coreana, era ela que me restava, ou nada. Sei que meus pais estariam revirando no túmulo, mas se revirariam ainda mais se eu não gerasse um herdeiro. É só para isso que as pessoas existem, certo? Nascer, crescer e procriar. É uma ideia que meu eu garoto desprezava, mas aprendi a aceitar.

No casamento não houve festa. Assinamos os papeis e Juliette foi para a nossa casa levando apenas suas roupas.

A primeira noite foi exatamente como imaginei. Claro que eu não esperava que ela fosse chorar comigo dentro dela. A desgraçada devia ser apaixonada pelo homem que a abandonou. A raiva me pegou de tal forma que continuei com mais força até liberar toda minha ira através de um intenso orgasmo.

Satisfeito rolei para o lado e, em poucos instantes dormi, embalado pelos sons de seus soluços.

Os meses passaram e o nascimento do filho bastardo estava acontecendo.

Quando ouvi o choro da criança, algo em minha alma despertou. Talvez um demônio, não sei. No fundo, eu desejava que a criança nascesse morta ou algo assim. Eu precisava dela, mas não precisava do bastardo.

A parteira veio até a mim com um embrulho nos braços.

— É menina. Quer segurar? — estendeu o embrulho que se mexia levemente.

Sentindo asco, me afastei e fui cuidar de “comemorar” em uma taberna com muito vinho. Finalmente o ventre de Juliette estava livres para os meus herdeiros.

O tempo passava e nada de Juliette engravidar. A menina crescia cada vez mais parecida com o pai e, para completar, Juliette a chamou de Louise, provavelmente para se lembrar de Louis, o bastardo que a abandonou grávida.

Eu via Louise crescendo e a raiva aumentava em meu peito. Toda vez que a menstruação de Juliette chegava eu a culpava e me descontrolava a ponto de surrá-la. Era uma surra mensal que ela receberia até conceber o meu herdeiro. Afinal, qual era o problema dessa meretriz?

Não tenho problema algum em bater em minha mulher. Costumava ter, quando era uma criança, quase matei meu pai com uma paulada quando o peguei batendo na minha mãe. Ai aprendi da pior forma que o errado era eu. Nunca esquecerei suas palavras. “Filho, seu pai estava fazendo o seu papel de marido ao me castigar. Eu errei.” E ela fez o seu papel de mãe ao me surrar até a inconsciência. Não precisei de uma segunda lição para aprender. Observei as atitudes do meu pai, e me espelhei nele. Observei também as atitudes da minha mãe, e não esperei menos da minha mulher.

Agora é minha vez de fazer bem o papel de marido. Juliette não reclama, o que me faz ter certeza que é o certo. Ela não estava fazendo seu papel de esposa, então merecia o castigo.

Mesmo com as surras, Juliette não engravidava. E foi em uma conversa com ela que decidi como lidaria com isso.

— Marido, podemos conversar por um instante? — ela se aproximou enquanto eu descansava de um dia cansativo cuidando dos animais.

— Fale! — disse sem me levantar da cama.

— A Louise vai entrar na idade de se casar em poucos meses. — Ela fez uma pausa. — Gostaria de levá-la a cidade para conhecer os meus pais e encontrarmos um bom homem para se casar com ela.

— Encontrar um bom homem indo na casa dos seus pais? — ri. — Não foi lá onde você engravidou de um canalha e teve que casar comigo?

— Não me arrependo de me casar com você. — Podia ver nos olhos dela o quanto sentia rancor. Ela estava de pé, perto da cama. Uma grande mentirosa.

— Claro que se arrepende. Pelo menos isso me deixa feliz, pois quando olho para você só me lembro o tempo em que perdi com alguém incapaz de me dar o que quero.

— Não tenho culpa de não conseguir ficar grávida. Já tentei de tudo. — Me encara elevando o tom.

— É melhor ter cuidado com a forma que fala com seu marido.

— Me desculpe. Não vai mais acontecer.

— É melhor que não. Ou corto sua língua.

Ela começou a se desculpar e a falar o quanto era necessário que a filha fizesse um bom casamento. Mal escutava suas palavras. Enquanto ela falava uma ideia nascia e tomava forma na minha mente. Parece que Juliette vai me dar o quero, mesmo que não seja da forma como planejamos. É isso! A solução é Louise.

— Não se preocupe com isso ou com a sua filha bastarda. Ela não vai se casar com ninguém. Servirá para me dar o que você foi incapaz.

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