Capítulo 2

Angela chegou no seu trabalho com o coração apertado. Ao menos ela poderia se dedicar ao que amava e criar textos enormes falando sobre as próximas fofocas do verão. Ela gostava de escrever sobre as últimas tendências, entrevistar celebridades e viajar pelo mundo. Angela tinha muitos sonhos e projetos, mas sabia que teria que abandonar tudo por causa do seu casamento com Don Carlo.

Mas naquele dia queria deixar tudo de lado e focar só no seu trabalho. Ela entrou na redação e foi recebida pelos seus colegas com abraços e felicitações. Todos tinham visto a notícia do seu noivado no jornal e estavam curiosos para ter mais detalhes. Angela tentou disfarçar o seu desânimo e sorriu educadamente.

— Parabéns, Angela! Você é a noiva do ano! Como é que você conseguiu fisgar Carlo Cortez? Ele é um dos homens mais ricos e poderosos do país! — Disse uma das editoras tagarelas da revista.

— Obrigada, Ana. Foi tudo muito rápido. Tinha ido cobrir uma festa e ele viu lá, então se interessou por mim. Saímos algumas vezes e fui pedida em casamento. — Angela disse, contando a história que combinou com toda a família. 

— Nossa, que romântico! E como ele é pessoalmente? Ele é tão bonito quanto nas fotos? Ele é gentil? Ele é bom de cama? — Perguntou Bia, uma das repórteres da revista.

— Ele é... ele é... — Angela gaguejou, sem saber o que dizer. Ela achava Don Carlo bonito, claro, mas ele não era gentil e eles não tinham dormido juntos para saber se ele era  bom de cama. Ela apenas o achava rude e violento. Tomara essas conclusões em um único jantar, pois fora a única vez que o vira. 

Angela não queria falar sobre ele, nem pensar nele.

— Ele é o que, Angela? Fala logo! — Insistiu Bia, impaciente.

—  Ele é... ele é o meu noivo e só isso. — Angela disse, cortando o assunto. — Vamos trabalhar. 

— Ah, Angela, não seja tão modesta. Você deve estar muito feliz. Você vai se casar com um homem incrível, que vai te dar tudo o que você quiser. Percebeu que vai ter uma vida de rainha. — Disse Carla, tirando uma foto da amiga. Claro que aquele casamento seria matéria de algo. 

— É, eu sei. Eu sou muito sortuda. — Angela disse, ironicamente.

— E quando é o casamento? Já tem data marcada? — Seguiu o interrogatório. 

— Daqui a um mês. Vai ser uma cerimônia simples, só para os familiares e amigos mais próximos. — Angela disse, mentindo. Na verdade, o casamento seria uma festa grandiosa, com centenas de convidados, que Don Carlo queria fazer para mostrar o seu poder e prestígio e isso todos ali já deveriam saber, mesmo assim a garota não queria deixar tudo maior. 

— Um mês? Mas é muito pouco tempo! Você já tem o vestido? O buquê? O bolo? — Perguntou alguém com a voz surpresa.

— Não, eu não tenho nada disso. Eu não me preocupo com essas coisas. Quem está cuidando de tudo é a madrinha do Carlo. Ela é quem decide tudo. — Angela disse, resignada, pois não tinha voz nem voto no seu próprio casamento. Ela era apenas um objeto nas mãos de Don Carlo e de sua família.

— Mas isso é estranho, não? Você não quer participar do seu casamento? Escolher as coisas? — Ana parecia empenhada em saber tudo daquele evento. 

— Não, eu não quero. Eu só quero que isso acabe logo. Já estou exausta só de imaginar o trabalho. — Angela disse, baixinho.

— Angela, você está bem? Você parece triste. Você não está feliz com o seu noivado? - Diná se aproximou, uma das amigas de Angela na revista.

— Eu estou bem, Diná. Eu estou feliz. Por que eu não estaria, não é mesmo? — A garota forçou um sorriso.

— Não sei. Você não parece nada contente com o casamento. — Angela percebeu a preocupação na voz da amiga e logo suspirou assumindo uma postura. 

— Não, Ema. Eu estou feliz. Muito feliz. — Ela tentou se empenhar na mentira dessa vez e Diná manteve seu olho firme na amiga por um tempo. 

— Sabe que pode falar comigo, certo? Sou sua amiga e pode confiar em mim. Você está com algum problema? 

— Não, amiga. Eu estou bem. Eu estou feliz. — Angela disse, insistindo na mentira.

As garotas se entreolharam como se não se sentissem convencidas com a resposta, mas se ela não queria falar, ninguém poderia forçá-la. Então todas se dissiparam para cumprir suas tarefas e Diná apenas observou sua amiga concentrada nos seus afazeres também. 

Angela passou o dia digitando e isso parecia relaxar todos os seus pensamentos conturbados. 

Quando a garota saiu do prédio onde trabalhava o grande carro com Insulfilm preto lhe esperava e logo a janela se abriu revelando o homem grande de cabelos escuros e olhos castanhos sedutores.

— Já se demitiu? — perguntou ele com sua voz aveludada. — Sabe que não precisa trabalhar e nem pode também. 

— Carlo — ela resmungou ao vê-lo ali. — Gosto de trabalhar aqui.

— Não importa o que você gosta ou não, Angela. Você é minha noiva e vai fazer o que eu mandar. — Ele disse, autoritário.

— Não pode me obrigar a isso, Carlo. Você não tem o direito de controlar a minha vida assim, vai mesmo me tirar a única alegria que tenho? Saiba que vou odiá-lo o dobro. — Ela disse, desafiadora.

— Você não sabe o que está dizendo, Angela, e não sabe o que é bom para você. Também não sabe o que eu posso fazer com você se me tirar do sério. — Ele disse, ameaçador.

— Eu não...

— Vou ter que explodir essa porra para você me obedecer? — Carlo estava com a voz irritada e Angela engoliu em seco. Ela ponderou sobre a situação e sabia que Carlo era capaz de cumprir a sua ameaça. Não dava pra arriscar a sua vida e a dos seus colegas. Ela também sabia que não tinha como fugir dele naquele momento, e que teria que esperar por uma melhor oportunidade para tentar qualquer coisa.

— Está bem. Está bem. Eu me demito amanhã. — Ela disse, com a voz trêmula.

— Muito bem, minha linda. Muito bem. Fez a escolha certa. Agora entre no carro de trás, meus homens vão levá-la para casa. — Ele disse e logo a porta do Lamborghini parado próximo dali foi aberta. 

Angela entrou no carro, sem dizer mais nada e deixou que a levassem dali sentindo uma pontada de tristeza ao se despedir de sua paixão.

Capítulo 3

Angela não atendeu ao telefone no dia seguinte, pois sabia que as amigas do trabalho e sua chefe iriam ligar sem parar para perguntar do seu paradeiro. Ela se trancou em casa naquele dia para pensar no que iria dizer e em como se despedir de toda sua vida e foi dormir após passar horas e horas refletindo. Ao despertar pela manhã do segundo dia, Angela ligou para sua chefe e anunciou sua demissão, no instante em que conseguiu encontrar coragem para isso.

— Angela? É você? — A voz da mulher do outro lado estava nervosa e isso fez a garota suspirar. Fernanda sempre parecia estressada com tudo, mas aquilo iria acabar com seu dia.

— Sim, sou eu, Fê. — Angela respondeu, com a voz baixa.

— Querida, que bom que você ligou. Eu estava preocupada. Você sumiu ontem e não deu notícias. O que aconteceu? — Fernanda perguntou, curiosa.

— Fê, eu tenho uma coisa para te dizer. Uma coisa difícil. — Angela estava nervosa e Fernanda sentiu isso.

— O que é? Fala logo, menina. Você está me deixando ansiosa. — Pediu com impaciente.

— Fernanda, eu... eu vou me demitir. Eu vou sair da revista. — comunicou a garota, finalmente.

— O quê? Como assim você vai se demitir? Você vai me deixar? Por quê?

Embora a notícia estivesse espalhada pela cidade e pela empresa, as pessoas, assim como Angela, acreditavam que Carlo a deixaria trabalhar. Então seria como se a vida da garota continuasse normalmente, apenas com um homem em sua casa, mas o trabalho de Cortez era muito mais complicado do que se poderia imaginar e Angela fora dos olhos dele poderia ser um grande problema, por isso ela tinha que se privar de muita coisa. Aquele trabalho principalmente.

— Porque vou me casar, Fê. Eu vou me casar com Carlo Cortez, se lembra? — ela disse, deixando a tristeza transparecer.

— Eu sei que está noiva do magnata, empresário e filantropo mais gato do país, mas isso não te impede de trabalhar — Fernanda disse, impressionada.

— Foi o que eu pensei também. — Angela disse, desanimada.

— Eu pensei que ia cobrir o seu próprio casamento. Você tem que entrevistar o seu noivo. Poderia contar tudo para os nossos leitores. Eles iriam adorar saber que a nossa jornalista mais talentosa vai se casar com um dos homens mais ricos e poderosos do país. — Fernanda disse, empolgada. Parecia querer passar isso à amiga pelo telefone.

— Não, Fê. Na verdade não posso nem contar algo sobre nós, pois ninguém pode saber a verdade de Carlo Cortez. — Angela disse, baixinho enrolando seu dedo no cordão de sua blusa de moletom.

— A verdade sobre Carlo Cortez? Que verdade, Angela? — A curiosidade e a desconfiança se mesclaram na voz de Fernanda e isso fez Angela soltar um pigarro.

— Nada, Fê. Nada. Esquece o que eu disse, tá? É só que... é só que eu quero me dedicar ao meu casamento e quero ter uma vida mais tranquila. — Ela fez bem em inventar uma desculpa, ainda que seu consciente implorasse pra pedir socorro.

— Angela, eu não estou entendendo. Você sempre foi uma jornalista apaixonada pelo seu trabalho. Sempre quis ser famosa e reconhecida. Vivia competindo pelas viagens pelo mundo para cobrir tudo e conhecer pessoas interessantes. Agora quer largar tudo isso por um casamento? — A perplexidade era nítida na voz de sua chefe.

— As pessoas mudam. Eu mudei.

— Ou enlouqueceu — Fernanda tentou ser descontraída naquele instante, mesmo que nada parecesse funcionar para aquilo. — Você ama esse doido?

Novamente o consciente de Angela quis gritar, mas ela sabia que era perigoso demais fazer aquilo.

— É, ele é completamente doido mesmo. Estou caidinha por ele — mentiu ela então quase vomitando com suas palavras.

— Certeza que você não está sendo manipulada por esse homem? — Fernanda agora assumia uma voz preocupada.

— Certeza, Fê.

— Angela, por favor, pense bem. Não jogue fora a sua carreira. É minha melhor escritora aqui. — Implorou a mulher.

— Bom, ao menos darei lugar para alguém com muito potencial.. Por favor, não insista.

As duas se calaram por um momento, sem saber o que mais falar até Fernanda suspirar do outro lado com sua derrota.

— Se prefere assim — iniciou. — Vá ao RH na próxima semana assinar seus papéis.

Angela afirmou com um murmurar e finalizou a ligação. Ela relaxou seus ombros tensos tentando acalmar seu corpo enquanto pensava no quanto já odiava seu noivo.

Após desligar o telefone, Angela começou a organizar as coisas do seu apartamento nas caixas que os homens de Carlo deixaram para ela empacotar suas coisas. Ela deveria se mudar para a mansão de Carlo, onde iria morar depois do casamento. Embora não quisesse deixar o seu apartamento, onde tinha vivido por tantos anos, tinha tantas lembranças e onde tinha sido feliz, ela não tinha escolha. A noiva tinha que obedecer ao Don, que estava decidindo tudo por ela.

Ao decorrer do dia, Angela guardou nas caixas as suas roupas, sapatos, os livros, quadros, enfeites, presentes que ganhou de seus amigos durante os anos na revista e todos os seus souvenirs. Ela olhava para cada objeto com carinho sentindo a enorme nostalgia que tudo ali trazia consigo e isso a fazia lembrar de quando e como os tinha comprado ou ganhado. Uma pontada de tristeza e saudade floresceu em seu peito e algumas lágrimas escapavam demonstrando sua angústia. Ela se questionava se algum dia ela voltaria a ver ou usar aquelas coisas, ou se algum dia voltaria a ser dona da sua própria vida.

Levou o dia inteiro para empacotar tudo e no final da tarde Angela estava cansada e faminta, mas não tinha vontade de comer ou fazer qualquer outra coisa. Ela só queria terminar logo e se livrar daquela tarefa de uma vez, como se fosse arrancar um curativo.

Quando terminou de fechar a última caixa e se sentou no sofá, a garota olhou para o apartamento vazio e silencioso. Ela se sentiu vazia e silenciosa também. Se sentiu morta por dentro. Angela pegou o celular e viu as várias chamadas perdidas e mensagens de texto. Todas dos seus amigos, dos seus colegas, dos seus parentes mais próximos querendo saber como ela estava, o que ela estava fazendo, onde ela estava indo. Alguns queriam parabenizá-la, elogiá-la, aconselhá-la. Eles queriam vê-la, abraçá-la, despedir-se dela, mas a garota optou por não atender nenhuma chamada, nem responder nenhuma mensagem. Ela não queria falar com ninguém, nem ouvir ninguém, nem ver ninguém. Ela não queria ser parabenizada, nem elogiada, nem aconselhada. Ela não queria ser vista, nem abraçada, nem se despedir. Só queria que tudo fosse um pesadelo e que acordasse logo de tudo aquilo.

Angela desligou o celular e o jogou no chão, se deitou no sofá e fechou os olhos para tentar dormir, mas não conseguiu. Ela só conseguiu pensar em Carlo e no que fazer com seu futuro marido para não viver em uma enorme prisão ao lado dele e isso a embalou por muito tempo, deixando-o encolhida naquele sofá pelo resto da noite.

No meio da madrugada, Angela ouviu um barulho e despertou. Tinha adormecido no sofá depois de um dia exaustivo e a escuridão já havia dominado todo seu conforto.

— Cumpriu as minhas ordens? — A voz de Cortez ecoou na sala escuro e ela distinguiu a silhueta dele sentada na poltrona à sua frente.

— Não devíamos estar sozinhos — ela o alertou e o homem riu. — Não é essa a regra do seu mundo estúpido?

— É, sim. Mas você já não é mais pura, certo?

— Isso me faz descartável? Porque eu ficaria muito feliz em provar que não sou mesmo.

Carlo se levantou e caminhou até ela na penumbra. Ao chegar perto, ele agarrou o queixo de Angela e se inclinou sobre ela.

— Eu posso fazer o que eu quiser com você, minha querida. Mas quero que você implore por mim na hora certa, por isso, por enquanto, eu só estou aqui para saber se você me obedeceu.

— Já sabe que sim — ela deu um tapa na mão dele e se soltou. — Ou acha que eu não sei que tem escutas por toda parte aqui?

— Muito bom, minha dama. Boa garota.

Carlo soltou o rosto da noiva e partiu do apartamento como se fosse um morador do local. Obviamente ele se portava assim, pois já tinha feito todos ali acreditarem em seu noivo com a garota do 28.

Angela deixou a respiração cansada escapar e se encolheu no sofá novamente.

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