O ar no carro era um peso físico, denso e escaldante. A garganta de Alina parecia uma lixa e seus pulmões ardiam a cada respiração superficial. O calor era uma lembrança constante dos últimos momentos de Léo, uma tortura planejada pelo homem que havia prometido amá-la e protegê-la.
O rosto de Bernardo era uma máscara de fria satisfação enquanto ele digitava os números no celular dela. "1-8-0-5", ele murmurou. "Boa menina."
Ele jogou o celular dela no painel, a tela agora inútil para ela. Sua conexão com o mundo, com a ajuda, havia desaparecido. Sua visão turvou, pontos escuros dançando diante de seus olhos. Ela se lembrou do dia do casamento, a mão de Bernardo na dela, sua voz sincera enquanto ele jurava cuidar dela, estar ao seu lado em qualquer situação. Aquele homem se fora, substituído por este monstro frio e calculista.
"Pare", ela grasnou, tentando agarrar a maçaneta da porta, suas unhas raspando inutilmente no plástico. "Me deixe sair."
"Ele era só uma criança, Bê", ela chorou, as palavras rasgando sua garganta ferida. "Ele era nosso filho. Nosso menininho."
"Não se atreva a chamá-la assim", Bernardo retrucou, seus olhos brilhando com um fogo protetor que ela não via há anos. Um fogo que não era para ela, nem para o filho morto deles, mas para uma estagiária de vinte anos. "Não chame a Karina de monstro."
Ele se virou para o celular em sua mão, seus dedos se movendo rapidamente. "Você estava sempre tão ocupada com o trabalho, Alina. Sempre em um avião, em uma reunião. Quando foi a última vez que você passou um dia inteiro com ele? A Karina era ótima com ele. Ele a amava."
A acusação foi um golpe físico, tirando o último resquício de ar de seus pulmões. Era uma mentira, uma mentira cruel e distorcida. Ela havia estruturado sua vida inteira, toda a sua carreira como COO da empresa que eles construíram juntos, em torno de Léo. Ela pegava voos noturnos para estar em casa no café da manhã, trabalhava até tarde da noite depois que ele dormia e sacrificou promoções para evitar se mudar. Sua vida era um ato de equilíbrio constante e exaustivo, que ele nunca havia reconhecido.
"Ele era só uma criança", disse Bernardo novamente, a voz mais suave agora, mas com uma falta de preocupação arrepiante. "É uma tragédia. Mas a Karina é jovem. Ela tem a vida inteira, uma carreira inteira pela frente. Não podemos deixar um erro arruinar isso."
Alina o encarou, uma clareza horrível cortando sua dor e a névoa induzida pelo calor. Suas palavras não eram uma defesa de Karina; eram uma admissão. Ele não estava apenas protegendo uma estagiária. Ele estava protegendo sua amante.
A percepção a atingiu com a força de um impacto físico. As noites tardias que ele alegava serem reuniões do conselho. Os "retiros de trabalho" de fim de semana. O cheiro de um perfume diferente em seus ternos. Tudo se encaixou, um mosaico de traição que estava sendo construído há anos.
"Você está dormindo com ela", ela sussurrou.
Um lampejo de algo — irritação, talvez vergonha — cruzou seu rosto antes de ser substituído por uma fria indiferença. "Isso não vem ao caso agora."
A última gota de sua força se esgotou. Ela esmurrou a janela com os punhos, um ritmo desesperado e sem esperança. "Me deixe sair! Me deixe ver meu pai!"
Suas mãos estavam em carne viva, os nós dos dedos sangrando, mas ela não sentia a dor. Tudo o que sentia era uma raiva ardente e avassaladora.
"Eu vou te matar, Bernardo", ela sibilou, as palavras com gosto de veneno. "Juro por Deus, vou ver você e aquela vadiazinha queimarem por isso."
Por um momento, ele olhou para ela, para as marcas de sangue que ela deixava na janela, e um toque de inquietação cruzou suas feições. Mas desapareceu tão rápido quanto veio.
Ele clicou em um botão em seu celular, e o som de um homem gritando encheu o carro. Era o pai dela.
"Pare! Por favor!", ela implorou, o corpo amolecendo.
Com um toque final e decisivo em seu próprio celular, Bernardo ergueu os olhos. "Está feito", disse ele. "O arquivo na nuvem foi apagado. O cartão original da câmera já foi destruído."
Uma onda de oxigênio fresco a atingiu quando ele finalmente abaixou os vidros. Ela ofegou, os pulmões doendo.
"Viu?", disse ele, a voz tingida de uma calma condescendente. "Todo esse drama, por nada. Você deveria ter cooperado desde o início."
Ele os afastou da casa de repouso, deixando o destino de seu pai em suspenso.
"Eu quero ver meu pai", disse ela, a voz uma casca oca.
"Os médicos estão com ele agora", disse Bernardo com desdém. "Ele teve um pequeno susto, só isso. Você pode vê-lo amanhã. Agora, precisamos nos concentrar nos preparativos para o Léo."
Ele estava organizando o funeral de seu filho. O filho a quem ele acabara de negar justiça. A hipocrisia era de tirar o fôlego.
"E Alina", disse ele, o tom um aviso claro. "Esta conversa nunca aconteceu. Para todos os efeitos, a morte de Léo foi um trágico acidente. Uma trava de carro com defeito, talvez. Não sabemos. Não há provas. Não há ninguém para culpar. Você entende?"
Ela não respondeu. Apenas olhou pela janela, o coração uma pedra fria e pesada no peito. Ela não havia perdido apenas seu filho. Havia perdido seu marido, sua vida e sua fé em tudo o que já acreditara.
E naquele momento, no silêncio estéril e climatizado do carro, um novo sentimento começou a florescer no deserto de sua dor. Era frio, afiado e duro como diamante.
Era ódio.
Alina estava em seu closet, o cheiro da colônia de Bernardo pairando no ar como um fantasma. Sua mão repousava sobre uma pequena caixa de veludo na cômoda dele. Dentro estava o primeiro par de abotoaduras que ela lhe dera, simples nós de prata. Ele era apenas um programador júnior esforçado naquela época, cheio de grandes sonhos e um charme autodepreciativo. Foi ela quem viu seu potencial. Seu pai, um respeitado professor de história, o orientou, o conectou, o tratou como o filho que nunca teve.
Ela se lembrou do pedido de casamento de Bernardo, em uma toalha sob as estrelas, depois que eles garantiram sua primeira rodada de financiamento. "Vou passar a vida inteira te fazendo feliz, Alina", ele prometera, os olhos brilhando com o que ela pensava ser amor. "Vou proteger você e nossa família de tudo."
Uma risada amarga e sem humor escapou de seus lábios. Que tola ela tinha sido.
A voz de Bernardo ecoou do corredor, tirando-a do passado. "Alina, você está pronta? As pessoas estão começando a chegar para o velório."
Ela vestiu o vestido preto que ele havia separado para ela, sentindo-se como uma boneca sendo posicionada para uma peça. Ele a conduziu escada abaixo, a mão na base de suas costas um toque possessivo e repulsivo.
O velório estava sendo realizado em sua casa, uma mansão moderna e ampla que ela havia projetado. Deveria ser um lugar de amor e risadas. Agora, era um túmulo.
A primeira coisa que a atingiu foi a música. Não era o sombrio quarteto clássico que ela havia solicitado. Em vez disso, uma música pop alta e pulsante, com um baixo irritante, ecoava pela sala de estar de plano aberto. Era uma daquelas canções vazias e sem cérebro que Léo ouvira no rádio e odiava.
Seus olhos percorreram a multidão de presentes, seus rostos um borrão de simpatia educada. E então ela a viu.
Karina Alves.
Ela estava perto do pequeno caixão branco de Léo, que estava cercado por uma montanha de lírios brancos. Ela usava um vestido preto justo e inadequadamente curto. E estava tirando uma selfie. Ela ergueu o celular, fez biquinho e tirou uma foto com o caixão de seu filho ao fundo.
Uma onda de fúria pura e inalterada percorreu Alina. Ela se soltou do aperto de Bernardo e marchou em direção à garota.
"Que porra você pensa que está fazendo?", a voz de Alina era um rosnado baixo.
Karina ergueu os olhos, sua expressão de inocência de olhos arregalados. "Ah! Sra. Vasconcelos. Eu só estava... prestando minhas homenagens." Ela postou a foto em seu story do Instagram com uma legenda leviana: "Dando tchau pro pequeno. #triste #luto."
A mão de Alina disparou e deu um tapa no celular da mão de Karina. Ele caiu com um baque no chão de mármore.
"Fora", Alina sibilou. "Fora da minha casa. Agora."
O lábio inferior de Karina começou a tremer. Lágrimas brotaram em seus olhos. Foi uma atuação magistral. "Sinto muito", ela choramingou. "Não quis desrespeitar. É só... o jeito da minha geração de lidar com o luto. E o Léo... ele amava essa música."
"Isso é mentira!", Alina gritou, o som rasgando a música da festa. "Ele odiava essa música! Você não sabe nada sobre o meu filho!"
Bernardo apareceu instantaneamente, puxando-a para trás, seu aperto como ferro em seu braço. Ele se colocou entre ela e Karina, protegendo a mulher mais jovem.
"Alina, pare! Você está fazendo um escândalo!", ele sussurrou duramente em seu ouvido.
"Ela está profanando o velório do nosso filho!", Alina chorou, lutando contra ele. "Mande-a embora!"
"Ela está de luto à sua maneira", disse Bernardo, a voz alta o suficiente para os convidados próximos ouvirem. Ele estava jogando para a plateia. "Karina era muito próxima de Léo. Talvez mais próxima do que você, com suas viagens de negócios e reuniões de diretoria."
As palavras foram um golpe calculado, projetado para ferir e isolá-la. Os murmúrios começaram ao redor deles. As pessoas se moveram desconfortavelmente, seus olhares de compaixão se transformando em julgamento.
"Não acredito que você a está defendendo", disse Alina, a voz caindo para um sussurro chocado. "Olhe para ela. Olhe o que ela está fazendo."
Karina, vendo sua oportunidade, começou a soluçar dramaticamente. "Sinto muito, Sr. Moraes. Eu não deveria ter vindo. É que... eu me sinto tão culpada. Talvez se eu tivesse sido uma babá melhor... mas a Sra. Vasconcelos sempre disse que eu era muito mole com ele. Ela disse que ele precisava ser mais independente."
Era outra mentira, uma distorção venenosa de uma conversa que nunca tiveram.
"Sua vadia mentirosa", Alina cuspiu, avançando novamente.
Desta vez, Bernardo a empurrou para trás, com força. "Já chega!"
A multidão ofegou. Ele havia colocado as mãos nela na frente de todos.
Karina escolheu aquele exato momento para jogar sua carta na manga. "Eu... eu tenho um vídeo", disse ela, a voz trêmula enquanto pegava o celular do chão. "Eu não queria mostrar a ninguém, mas... todos vocês precisam ver o quanto ele sentia falta da mãe."
Ela ergueu o celular, inclinando a tela para que todos pudessem ver.