Rose
Os dias passaram depressa naquela primeira semana, quando menos esperei, já era sexta feira e eu finalmente tinha conseguido esvaziar a última caixa com meus pertences. Ao terminar a organização eu observei o contraste entre o lado de Alicia do quarto e o meu. Todos os pertences da minha colega eram organizados por cores, inclusive suas roupas, as paredes brancas estavam completamente limpas sem nenhum pôster sequer, sua cama parecia feita para um comercial, cheia de almofadas e com uma grande colcha florida em tons de rosa. A sua escrivaninha seguia o mesmo padrão de organização, em um canto posicionado em um ângulo exato de 45 graus, estava um porta retrato com uma foto completa da família Waldorf, ao centro, o livro que ela usou para estudar na noite anterior estava fechado com um pequeno bloco de notas personalizado com seu nome em cima. Ao lado do livro, uma caneta, uma lapiseira e um marca texto estavam alinhados por ordem de tamanho.
— Ela deve passar mais tempo organizando essa mesa de estudo do que estudando — eu pensei em voz alta, não ousando tocar em nada.
Eu dei de ombros, voltando a observar o meu pequeno caos do outro lado, quero dizer, eu sempre pensei que fosse organizada até me comparar com Alie. Todos os meus objetos estavam guardados no armário, minha cama estava com os lençóis esticados e eu tinha separado uma boa parte da parede para pendurar os desenhos que fizesse ao longo da minha graduação. Em minha escrivaninha, eu espalhei todas as minhas tintas e lápis e pincéis mais utilizados, deixando-os expostos com orgulho.
Checando o horário, percebi que estava na hora que tinha marcado de me encontrar com Liam, Theo e Sky na área comum da moradia. Deixando meu quarto para trás, percorri os corredores movimentados, me esquivando de um grupo ou outro de alunos até alcançar as escadarias.
Eu tinha me adaptado bem ao meu novo grupo de amigos, cada um deles era inteligente, engraçado e ótimos no que faziam. Eles eram o tipo de pessoa que seriam aceitos facilmente em qualquer grupo, e ainda assim, escolhiam viver a vida fora de um bando. Quem não estava nem um pouco acostumada com essa ideia, era Allie.
Mesmo que não fossemos próximas durante o colégio, eu sabia que ela era o tipo que sempre se juntava aos melhores grupos. Ela era destaque na equipe de debate, chefe das líderes de torcida, ainda arrumava tempo para o coral e grupo de estudos. Allie era o sinônimo da palavra perfeição, e o jeito leve e espontâneo de nosso grupo era um grande desafio para ela.
Eu os avistei assim que cheguei a sala de estar, eles estavam acomodados no canto de sempre onde um grande sofá e uma poltrona se tornaram o ponto de encontro favorito do grupo. Liam estava deitado no sofá, apoiando a cabeça nas pernas de Sky enquanto Theo se estirou na poltrona, apoiando os pés em uma mesa de centro.
— Nem precisa se preocupar — eu avisei o rapaz assim que me aproximei e ele fez menção de se levantar.
Eu tirei as sandálias que usava e me sentei no tapete, entre o sofá e a mesa, apoiando as costas na mesa e colocando os pés na barriga de Liam que pareceu não se incomodar com aquilo.
— Rose, me diz uma coisa, você sabe quem é aquele cara com a minha prima? — Liam indicou com a cabeça um lugar onde Allie conversava com Christian.
Os dois vinham se encontrando cada vez mais nos últimos dias, e eu começava a desconfiar que o coração de minha amiga estava comprometido.
— Aquele cara? Christian alguma coisa — eu apoiei a cabeça na mesa, observando o teto branco logo acima — ele vem seguindo ela pelo campus desde que chegamos aqui.
Aquela frase fez com que Liam erguesse a cabeça, olhando para a prima com uma sobrancelha erguida.
— Ela parece estar gostando da perseguição — Theo deu de ombros.
— Ele não está perseguindo ela, provavelmente está apaixonado — Sky ralhou conosco.
— Eu aposto que ele quer transar — Theo tombou a cabeça para trás, apoiando no encosto da poltrona.
— Theo! — Sky arregalou os olhos.
— Ele tem razão, minha experiência diz que um cara não vai te oferecer para carregar caixas pesadas para você a não ser que queira transar — eu avisei.
— Meu Deus, vocês são horríveis — Ela deu um tapa na cabeça de Liam, que até então estava de olhos fechados em seu colo.
— Hey, eu não disse nada!
— Mas eu sei que você vai concordar com eles.
Liam voltou a se erguer, observando os dois, que ainda conversavam de maneira animada por alguns segundos antes de se deitar.
— Não vou, eles estão errados.
— Ahh qual é, o cara é aluno de química e sempre dá um jeito de cruzar com ela pelo campus, você não acha estranho? — Eu cutuquei sua barriga com o pé, fazendo ele voltar a abrir os olhos.
— Rose, às vezes as pessoas se aproximam uma das outras sem segundas intenções. Eu não acredito que tenho que falar isso para você, pensei que com outra garota se juntando ao grupo, eu não me sentiria mais perdida no meio desses dois — Sky reclamou me fazendo rir.
Ela é tão ingênua!
— Eu não disse que não tem segundas intenções ali, está na cara que ela quer transar com ele — Liam comentou ainda de olhos fechados.
Todos olhamos juntos para onde Allie e Christian estavam conversando, ela sempre encontrava uma maneira de tocá-lo, apesar do rapaz manter as mãos no bolso da jaqueta jeans surrada que vestia.
— Ela está flertando com ele, grande coisa. Talvez esteja mesmo interessada — Sky defendeu.
— A questão é que ela não vai apresentar aquele cara para os meus tios, e ela não consegue namorar sem apresentar o pretendente perfeito para os pais, então obviamente ela está só em busca de uma oportunidade de experimentar algo diferente dos atletas e líderes de grupo de estudo que ela está acostumada a sair, antes de levar o quarterback do time ou um veterano destaque em medicina para casa na ação de graças — ele explicou, ainda de olhos fechados.
— Ela realmente tem um tipo — eu concordei com o rapaz.
— Do que vocês estão falando? — A voz de Allie atraiu nossa atenção.
Nós poderíamos disfarçar e ficar sem graça por ela ter nos pegado no flagra, mas o maior defeito que nosso novo grupo vinha mostrando até agora, era uma sinceridade quase brutal.
— Você — Nós respondemos juntos.
— O que? O que estavam falando sobre mim? — ela arregalou os olhos, batendo nas pernas de Liam para que ele desse espaço para ela no sofá, mas o rapaz apenas encolheu as pernas para que ela se sentasse, voltando a esticá-las sobre a prima em seguida.
— Estamos discutindo se você vai ou não transar com aquele cara — Theo explicou com naturalidade.
Alie nos encarou boquiaberta, parecendo ter sido pega de surpresa.
— Theo e eu achamos que ele quer transar com você e Liam pensa que você quer transar com ele — eu comentei despreocupada.
— E eu acho que vocês estão se conhecendo melhor, apesar da Rose e do Liam afirmarem que ele não é seu tipo — Sky complementou.
Allie continuou com a mesma expressão horrorizada, alternando o olhar entre nós.
— Como você pode saber o meu tipo? Nós viramos amigas há algumas semanas — Alie franziu o cenho.
— Nós fizemos o High School juntas, pode até ser que não fossemos próximas, mas era fácil enxergar o padrão nos seus namorados — eu me endireitei, dando de ombros.
— Mas aqui não é mais o High School, estamos na faculdade. Como você se sentiria se eu me baseasse na fama que você tinha? — ela se defendeu.
Eu franzi o cenho diante de sua reação. Por que ela está se ofendendo com algo tão simples? Nenhum dos nossos amigos pareciam compreender aquela questão.
— Você quer começar a me chamar pelo apelido que você e suas amigas colocaram em mim? Vá em frente, eu não me importo — eu zombei, me deitando no tapete, sorrindo diante do olhar chocado estampado em meu rosto.
— Que apelido? — Liam finalmente se sentou, parecendo ansioso por detalhes daquela história.
— No último ano eu fiquei com um garoto que uma das amigas dela estava interessada, e de repente eu me tornei a vadia da sala seis — eu expliquei — eu sempre as ouvia cantarolando uma música sempre que eu passava.
— Ah meu Deus, isso é horrível — Sky fez uma careta.
— Eu sinto muito, não sabia que você ouvia — Allie parecia mortificada.
— Isso é passado, eu não me importo, nunca me importei, na verdade — Eu me sentei, me espreguiçando em seguida.
Em um movimento gracioso eu me coloquei em pé voltando a me espreguiçar, me despedindo dos meus amigos ao ver uma mensagem do meu pai.
— Você já vai? — Allie arregalou os olhos — Me desculpa, de verdade, eu não quis…
— Wow, Se acalma princesinha, eu vou conseguir uma pizza de pepperoni e ligar para o meu pai — eu ergui o celular, achando graça de sua reação — parece que a relação dele com a minha mãe está em crise desde que eu saí de casa.
— Mas só faz uma semana — Sky franziu o cenho.
— Ele pode ser bem dramático — eu segurei o riso, me afastando.
Eu caminhei em direção ao refeitório principal, ligando para meu pai, já me preparando para todo o drama que ele derramaria em mim assim que atendesse o telefone.
— Rose, eu estou prestes a pedir o divórcio, sua mãe está me enlouquecendo — sua voz soou carregada de pesar, me fazendo revirar os olhos em meio a um sorriso enquanto caminhava.
— Pai, em primeiro lugar, para você se divorciar, você teria que ser casado com ela, e para ser casado com ela, vocês teriam que ter transado mais que uma vez na vida — eu avisei.
Muitas vezes o jeito leve e brincalhão dos meus pais me faz esquecer que estava lidando com dois adultos de quase quarenta anos.
— Eu vou pedi-la em casamento então — ele comentou pensativo.
— Pai, você não pode pedir alguém em casamento apenas para poder se divorciar depois.
A tarefa de me manter séria diante daquele diálogo estava cada vez mais complicada, eu apressei meus passos em direção ao refeitório principal, que era o mais próximo a nossa moradia, enquanto o sol começava a se por, banhando as torres de estilo gótico dos prédios do campus com sua luz dourada, transformando o cenário em algo digno de uma obra de arte.
— Ela está acabando com a minha vida, eu tenho o direito de retribuir — a voz de Jack me trouxe de volta à realidade.
— Como exatamente sua adorável vizinha está acabando com a sua vida dessa vez?
— Eu fiz planos, Rose! Por anos eu sonhei com o dia em que não seríamos mais responsáveis por nenhum outro ser humano que não fossemos nós mesmos, ansioso por ter minha liberdade e minha juventude de volta — ele discursou, me fazendo rir.
— Ah meu Deus, me desculpe por estragar a sua vida!
Eu exclamei ao avistar a entrada do refeitório principal a alguns metros a minha frente, espero que não esteja tão cheio.
— Garotinha, eu amo você, e é por causa desse amor que te aconselho a não ter filhos antes de se formar — ele avisou.
— Sem bebês para mim, pai. Mas você ainda não me falou porque minha mãe estragou sua vida.
— Eu marquei um encontro duplo, uma mulher que eu conheci na biblioteca há quinze dias, ela só aceitou ir se eu arrumasse uma companhia para a amiga dela que saiu de um relacionamento há pouco tempo, e… — ele prosseguiu.
— Pai, faz apenas algumas semanas que a Angela foi embora, não acha que é muito cedo? — eu o interrompi.
Minha mãe tinha passado os últimos meses em um relacionamento com a gerente de um supermercado da região, mas no fim, Ângela não estava pronta para lidar com toda a relação envolvendo meu pai.
— Ela escolheu sair da nossa vida, então sua mãe deve seguir em frente — Ele avisou.
— Pai, você não fazia parte do relacionamento das duas — eu o lembrei, entrando no refeitório.
Grande parte das brigas de Ângela com minha mãe era porque ela não aceitava que os dois não se viam de forma romântica, apesar de terem uma filha juntos. Os ciúmes dela chegaram ao ponto de impor o afastamento dos dois, exigindo que minha mãe o tratasse apenas como parte de seu passado, algo que ela prontamente recusou.
— Rose, qualquer pessoa que for namorar comigo ou com a sua mãe terá que aceitar que somos parte da vida um do outro. Evie é a minha família e eu faço qualquer coisa pela felicidade dela — aquela frase me fez sorrir, porque minha família podia ser um pouco diferente do tradicional, e meus pais sequer viviam na mesma casa, mas ainda assim, eram muito unidos como uma família deve ser.
— Você está fazendo isso pela felicidade dela então? — Eu perguntei esperando na fila para conseguir a pizza que seria o meu jantar.
— Não, estou fazendo pela minha felicidade, mas não significa que ela não possa se divertir, a amiga da Cristal é muito bonita — Ele não teve problema nenhum em admitir.
Eu consegui o último pedaço de pizza de pepperoni disponível e uma coca cola para viagem antes de sair do refeitório, decidida a comer no quarto.
— Eu não vou me envolver nisso — eu neguei.
— Eu pago aquela tatuagem que você queria fazer — ele retrucou.
Levou apenas um segundo para que eu considerasse aquela proposta, fazia semanas que eu estava pedindo dinheiro aos dois para poder fazer uma tatuagem e eles não estavam dispostos a pagar, claro, eu sempre podia usar o cartão de crédito que eles me deram, mas então eu corria o risco de acabar sem limite para comprar coisas mais importantes para minha sobrevivência ali, como gasolina, comida e meus materiais de estudo.
— Eu preciso de trezentos dólares.
— Trezentos? Você enlouqueceu?
— Quando eu ligar pra ela, ela vai me perguntar porque eu estou fazendo isso, vocês me ensinaram a nunca mentir, então eu vou contar e ela vai pedir metade do dinheiro para aceitar ir, então eu acho que é um valor justo — eu devolvi com tranquilidade.
— Se você conseguir, eu transfiro o dinheiro ainda hoje — ele avisou antes de desligar.
Rose
Eu digitei uma mensagem rápida para minha mãe, avisando que ela deveria ir ao encontro duplo com meu pai, guardando o celular em seguida, desviando de um aglomerado de alunos que pareciam entusiasmados com alguma coisa quando um corpo se chocou contra o meu. Em um segundo eu senti o impacto da grama com a lateral do meu corpo, fazendo uma dor aguda surgir.
Eu me sentei, olhando a lateral do meu braço esfolada e o meu jantar todo no chão. Hoje com certeza não é meu dia!
— Cuidado aí, gatinha. Você quase fez eu perder uma recepção — O rapaz que me atropelou gracejou, se afastando sem sequer me ajudar a me levantar.
— Gatinha? Qual é o seu problema, seu imbecil — eu me levantei, gritando em resposta.
O babaca que já tinha se afastado alguns passos parou, se virando para mim com um sorriso no rosto antes de me medir descaradamente, voltando a se aproximar.
— Docinho, eu realmente não tenho tempo para te dar atenção agora, mas eu posso te passar meu número, então nós marcamos alguma coisa em outro momento — ele passou o braço por meu ombro, fazendo com que eu lançasse um olhar questionador para ele.
Aquela interação estava chamando atenção das pessoas que antes estavam assistindo a partida improvisada de football, e estava claro que ele estava tentando impressionar o grupo de veteranos com quem ele estava jogando. Mas para azar do rapaz, eu não dava a mínima.
— Docinho, você está treinando para entrar no time? — eu fingi um tom deslumbrado, fazendo seu sorriso se alargar antes que minha expressão ficasse séria — nesse caso, é melhor você parar de me tocar antes que eu arranque a sua mão.
Sua expressão se tornou um pouco sem graça, tirando o braço que estava ao meu redor.
— Melhor assim — Eu murmurei, prestes a começar a me afastar.
— Me passa seu número — ele chamou.
— Nem em um milhão de anos — eu neguei.
Ele não parecia disposto a desistir, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, uma voz masculina soou atrás de mim.
— Hey O'Donnel , agora você vai começar a nocautear as garotas para tentar se aproximar? Está tão desesperado assim?
Eu me virei, encontrando o amigo de Allie parado ali com postura quase arrogante, com uma das mãos no bolso de sua jaqueta jeans enquanto a outra mão segurava um aparelho celular.
— Cai fora, Davis — o rapaz murmurou, finalmente se afastando.
— Você deixou cair — Ele estendeu o celular pra mim — Christian Davis.
Eu peguei o aparelho de sua mão, me sentindo aliviada ao ver que não tinha sofrido nenhum dano na queda.
— Obrigada, Rosemarie Miller-Campbell, ou só Rose Campbell — eu suspirei me abaixando recolhendo o que restou do meu jantar, o jogando no lixo em seguida.
— Eu tenho uma fatia extra de pizza se você quiser — ele ofereceu, indicando uma árvore há alguns metros onde um saco de papel e um copo tinha sido abandonados, provavelmente quando o idiota me acertou.
Por um segundo eu considerei aquele convite, ele com certeza estava me usando para se aproximar da minha amiga, mas eu iria ganhar uma pizza grátis, então por que não?
— Claro — eu dei de ombros.
— Jax O'Donnel , ele tem o cérebro do tamanho de uma ervilha, nós estudamos juntos no High School — Ele apontou o babaca que tinha me atropelado antes — Sinto muito te informar, mas ele provavelmente não vai te deixar em paz.
— Que notícia encorajadora — eu murmurei, me sentando embaixo da árvore ao seu lado, abrindo uma mensagem da minha mãe.
"O que você vai ganhar com isso?"
"Ele me prometeu trezentos dólares se você aceitar"
Eu guardei o celular após enviar a mensagem, decidindo prestar atenção em Christian.
— Então, você é a amiga da Allie — ele comentou me oferecendo o copo.
— E você é o cara que está querendo transar com ela — eu devolvi pegando o copo de sua mão.
Ele franziu o cenho, me lançando uma expressão questionadora.
— Ela te falou isso?
— Não — eu tomei um gole do conteúdo, fazendo uma careta ao devolver para ele.
Christian pegou o saco, abrindo antes de tirar duas embalagens de pizza de dentro, me estendendo uma em seguida.
— Você deveria chamá-la para sair de uma vez, ela está esperando, e…— eu abri a embalagem, fazendo uma careta em seguida — Pizza de brócolis, sério? Você está aqui tomando chá verde e comendo pizza de Brócolis?
— Qual o problema? — ele mordeu um pedaço da própria pizza, parecendo gostar daquilo.
Aquilo só podia ser uma piada! Esse definitivamente não é o meu dia.
— Deixa eu adivinhar, você é uma daquelas pessoas com paladar infantil que acham que brócolis é ruim — ele ironizou.
— Eu não tenho paladar infantil por não gostar de um vegetal — eu murmurei.
— Sim, você tem. E isso é um pouco irônico para alguém que sonha em se tornar médica — ele me provocou.
O meu celular vibrou em meu bolso, mas eu ignorei, me virando para ele, erguendo ambas as sobrancelhas.
— Eu não vou me tornar médica, estudo artes visuais.
A informação parece tê-lo surpreendido de alguma maneira, Christian terminou de comer, colocando a embalagem vazia dentro do saco mais uma vez.
— Você veio para a universidade para brincar de colorir? Sério?
Eu senti uma onda de raiva começar a tomar conta de mim ao constatar que no fim, ele é apenas mais um babaca. E pensar que eu até estava achando ele um cara legal.
— E você no mínimo escolheu química depois de assistir muito Breaking Bad, não é? — Eu devolvi irritada.
Ele estreitou os olhos, me encarando com uma expressão desconfiada.
— Você não é nada parecida com sua amiga, sabia? — ele se esticou, pegando a pizza da minha mão, começando a comê-la antes de se levantar.
— Hey, você tinha me dado isso — eu ergui a voz ao vê-lo começar a caminhar em direção a entrada da moradia.
— E você agiu como uma criança mimada, então eu peguei de volta — ele devolveu parecendo não se intimidar por minha irritação.
Algumas pessoas que estavam ali pararam para observar nosso pequeno embate, e se ele pensa que vai ficar assim, está muito enganado!
Eu me levantei, pegando o saco de papel e o copo de chá verde que ele deixou para trás, caminhando depressa, o alcançando quando ele estava quase na porta da moradia.
Sem pensar duas vezes eu arremessei o copo em direção à sua cabeça, sorrindo ao ver seu corpo reagir quando o líquido gelado atingiu sua nuca. Christian se encolheu, se virando em minha direção com uma expressão irritada, enquanto todos paravam para ver o que estava acontecendo.
— Você esqueceu a droga do seu chá, seu babaca!
— Qual é o seu problema, sua maluca? — ele rosnou.
— O meu problema é o tanto de idiotas que estão cruzando o meu caminho hoje — eu devolvi antes de passar por ele, entrando no prédio ouvindo algumas risadas abafadas.
Eu caminhei até meu quarto, me jogando em minha cama em seguida. Ótimo, aqui estou eu, com fome e irritada. Como tudo pode piorar?
Eu me lembrei da mensagem de minha mãe, a abrindo, sentindo meu mau humor melhorar um pouco.
" Eu quero cem dólares. Aproveite o fim de semana e não beba demais"
Um pequeno sorriso surgiu em meu rosto ao ler sua mensagem, pelo menos os dois se divertiriam juntos. Decidida a dormir um pouco, eu fechei os olhos, mas meu momento de paz não durou muito, Allie entrou no quarto alguns minutos depois, parecendo prestes a levantar voo de tanta animação.
— Rose, você não vai adivinhar, eu estava conversando com o Liam sobre meu interesse em me juntar a Sigma Sigma Kapa, uma das irmandades mais exclusivas aqui do campus e ele conhece a presidente — ela esperou alguma reação positiva antes de prosseguir.
— Ele parece conhecer todo mundo — Eu bocejei.
— Ele prometeu me apresentar para ela em uma festa que vai acontecer hoje, então se arruma que a gente precisa ir — Ela estava extasiada.
Aquilo poderia ser interessante, eu ainda não tinha ido em nenhuma festa e não dispensaria a chance de me divertir, mesmo que não tivesse interesse nenhum em me juntar a nenhuma irmandade.
— Certo, mas eu quero comer alguma coisa antes — Eu me levantei, percebendo que talvez minha noite tivesse salvação.