A mansão dos Cavendish em Connecticut não fora projetada para abrigar pessoas; fora projetada para impedi-las de sair. Enquanto o carro percorria a última milha da estrada privada, cercada por uma floresta densa que parecia se fechar como dedos de gigante, Isadora observou a construção surgir na penumbra. Era uma fortaleza de vidro e pedra negra, uma estrutura imponente que parecia ter sido esculpida diretamente da rocha, desafiando a própria gravidade.
Dorian permaneceu em silêncio ao seu lado durante toda a viagem. Ele não a olhou, não tentou confortá-la - nem mesmo com uma mentira piedosa. Ele estava mergulhado em seu tablet, lendo relatórios de mercado com a mesma indiferença com que se lê o menu de um café da manhã. Para ele, Isadora não era uma noiva; era um ativo. Um troféu de guerra que ele acabara de conquistar.
Quando a porta do veículo se abriu, o ar da noite cortou o rosto de Isadora como uma lâmina. Victor Volkov, o homem que ela vira brevemente no hotel, já estava lá, imóvel como uma estátua de granito. Ele não fez uma reverência, apenas assentiu para Dorian e seus olhos cinzentos fixaram-se em Isadora por um segundo - um olhar impenetrável que a fez sentir-se, pela primeira vez, como se estivesse sendo escaneada.
- Bem-vinda ao lar, Isadora - Dorian disse, saindo do carro e estendendo a mão para ela. Não era um convite; era uma ordem.
Ela aceitou a mão dele, sentindo o calor da pele contra o frio da sua. Enquanto subiam os degraus de mármore, o peso do que havia acontecido nas últimas horas parecia cada vez mais real. O escândalo no Pierre, o abandono de Julian, a queda de seu pai. Ela era uma morta-viva andando em um mundo de titãs.
Ao entrarem no hall principal, o luxo era tão opressor que causava náusea. O teto de vidro revelava o céu noturno, e uma escadaria em caracol ocupava o centro da sala. No topo dela, uma mulher esperava. Julianna Cavendish. Ela não parecia ter envelhecido um único dia em vinte anos; seu porte era rígido, seus olhos, idênticos aos de Dorian, carregavam uma crueldade que não precisava de palavras para ser sentida.
- Você trouxe lixo para dentro da minha casa, Dorian? - A voz de Julianna ecoou pelo salão, clara e afiada como cristal quebrado. Ela desceu os degraus lentamente, ignorando Isadora como se ela fosse um móvel mal posicionado.
Dorian não hesitou. Ele deu um passo à frente, colocando-se entre Isadora e sua mãe, uma proteção que, no fundo, Isadora sabia que era apenas a proteção de um dono sobre a sua propriedade.
- Ela é a minha escolha, mãe. E, a partir de hoje, ela é o que define o futuro dos nossos ativos. Sugiro que você se acostume com a presença dela antes que eu decida que a sua opinião não é mais necessária nesta casa.
Julianna soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Ela parou diante de Isadora, analisando-a com um desdém que queimava.
- Ela é fraca. O cheiro de derrota da família Vance ainda está impregnado nela. Você está brincando com fogo, Dorian. Se você acha que essa garota vai ajudá-lo a lidar com o Marcus, você é mais tolo do que eu pensava.
Marcus. O nome pairou no ar, trazendo consigo uma tensão palpável. Isadora não sabia quem era Marcus, mas a forma como Dorian endureceu a mandíbula foi uma resposta suficiente.
- Victor - Dorian chamou sem desviar os olhos da mãe. - Leve Isadora para o quarto. Garanta que ela tenha tudo o que precisa. E certifique-se de que ninguém entre sem a minha autorização direta.
Victor aproximou-se, mantendo uma distância profissional, mas eficiente.
- Siga-me, Srta. Vance.
Isadora olhou para Dorian uma última vez. Ele estava preso em uma troca de olhares frios com a mãe, uma guerra silenciosa que ela mal conseguia compreender. Ela se virou e seguiu o segurança. Enquanto subiam, ela sentiu, pela primeira vez, que a mansão não era apenas um prédio. Era um labirinto, e ela acabara de entrar no centro dele.
Enquanto isso, a quilômetros de distância, em um apartamento modesto nos arredores de Manhattan, Sebastian Vance observava o noticiário com uma garrafa de uísque pela metade na mão. Ele jogou o controle remoto contra a parede, vendo o rosto de sua irmã estampar as telas.
- Maldito Cavendish - ele sibilou, os olhos injetados de raiva.
Ele não se importava com a ruína do pai; Arthur Vance sempre fora um homem que merecia o que lhe acontecera. Mas Isadora... Isadora era a única coisa que ele ainda respeitava. E ela estava nas garras de um homem que não tinha piedade.
O celular sobre a mesa vibrou. Era uma mensagem de um número bloqueado: "Ela está na mansão de Connecticut. O jogo começou, Sebastian. Se você quer tirá-la de lá, vai precisar de mais do que coragem. Você vai precisar de um aliado que odeia o Dorian tanto quanto você."
Sebastian releu a mensagem, um sorriso torto e perigoso surgindo em seus lábios. Ele sabia exatamente quem havia enviado aquilo. Julian Thorne. O noivo desprezado.
- O inimigo do meu inimigo - ele murmurou, levantando-se.
Ele foi até o armário, afastando algumas camisas velhas para revelar um cofre escondido na parede. Digitou a senha e retirou um envelope pardo contendo documentos que poderiam destruir não apenas Dorian Cavendish, mas toda a dinastia de sua família.
Ele sabia que seria uma missão suicida. Sabia que se fosse pego por Victor , não sairia vivo. Mas ele tinha uma carta na manga, algo que ninguém, nem mesmo o onipotente Dorian, sabia que existia. Ele iria para Connecticut. Ele iria buscar a irmã.
De volta à mansão, Isadora estava sentada à beira da cama em um quarto que parecia mais uma suíte de um hotel cinco estrelas do que um quarto de dormir. O luxo não a confortava; o silêncio era ensurdecedor. Ela sentia-se vigiada por cada canto, por cada câmera escondida nos sensores de movimento.
A porta abriu suavemente e Clary Miller entrou. A melhor amiga de Isadora tinha sido autorizada a vir, provavelmente como uma concessão de Dorian para manter a calma de sua nova "aquisição".
- Isa! - Clary correu para ela, abraçando-a com força.
Isadora sentiu as lágrimas que ela vinha segurando desde a manhã finalmente transbordarem.
- Clary... eu perdi tudo. Eu sou uma prisioneira aqui.
Clary soltou-a e olhou ao redor, os olhos brilhando com uma mistura de medo e determinação.
- Eu vi o que aconteceu lá fora, Isa. Eu vi a cobertura da imprensa. Mas você não está sozinha. Sebastian me mandou uma mensagem antes de eu vir. Ele está tramando alguma coisa.
- Ele não pode! - Isadora exclamou, sentindo o medo pelo irmão. - Dorian vai destruí-lo se ele tentar qualquer coisa.
- Sebastian não é o mesmo garoto mimado de antes - Clary disse, baixando a voz. - Ele mudou. E eu... eu vou ajudar. Eu consegui entrar, não consegui? Dorian acha que somos apenas garotas assustadas. Ele subestima a gente.
Isadora olhou para a amiga. Clary sempre fora a mais ousada das duas.
- E Victor? - Isadora perguntou, lembrando-se do homem que a trouxe até ali.
- O guarda-costas? - Clary soltou uma risada nervosa. - Ele é assustador. Mas até as máquinas mais perfeitas têm falhas, Isa. Eu vou descobrir a dele.
Naquele momento, Isadora percebeu que a vida dela não seria apenas a submissão que Dorian esperava. Com Sebastian tramando nas sombras e Clary ao seu lado, ela percebeu que, talvez, a "queda da herdeira" fosse apenas o primeiro paço de uma guerra que ela estava começando a aprender a lutar.
A porta do quarto abriu-se novamente. Victor estava lá. O rosto dele era uma máscara impassível.
- Srta. Miller - ele disse, a voz profunda e sem emoção. - O tempo de visita terminou. Sr. Cavendish a espera lá embaixo.
Clary deu um último aperto de mão em Isadora, um sinal silencioso de que elas tinham um pacto. Enquanto ela saía do quarto, Isadora viu Victor observar o movimento da garota com uma intensidade que, por um milésimo de segundo, não pareceu fria. Pareceu... curiosidade.
Isadora estava sozinha novamente. Ela se levantou e caminhou até a janela, olhando para a vasta floresta lá fora. Ela era uma herdeira em um palácio de sombras, mas enquanto olhava para o horizonte escuro, ela percebeu que Dorian Cavendish cometera um erro fatal: ele a trouxera para dentro de seu castelo, sem perceber que, às vezes, o maior perigo para um rei não é o exército lá fora, mas a rainha que ele tranca no quarto.
A manhã na mansão Cavendish não trazia a promessa de um novo dia, apenas a continuação de uma existência vigiada. Isadora acordou não com o sol, mas com o som abafado de passos pesados no corredor. O quarto era uma suíte vasta, decorada em tons de cinza e azul-marinho, tão impessoal que parecia um cenário de exposição.
Ela sentou-se na borda da cama, sentindo o peso da seda do roupão que encontrara sobre a poltrona. Era caro, obviamente, mas parecia uma armadura de luxo. A porta abriu-se sem uma batida prévia. Não era Victor, nem uma camareira. Era Dorian.
Ele entrou com a precisão de um predador que marca seu território. Vestia um terno impecável, o colete ajustado ao corpo, a gravata perfeitamente nódulo. Ele trazia consigo o cheiro de café amargo e o ar gélido da madrugada.
- O café está servido na sala de estar privada - ele disse, a voz desprovida de qualquer calor humano. - Você tem trinta minutos para se vestir.
- E se eu não quiser? - Isadora desafiou, levantando-se. A coragem era um espasmo, mas ela precisava testar as correntes.
Dorian atravessou o quarto em três passos largos. Ele não a tocou, mas a sua presença era tão física quanto uma parede de concreto. Ele inclinou-se, o olhar fixo no dela com uma intensidade que fazia o ar parecer denso.
- Você não está em posição de querer nada, Isadora - ele respondeu, a voz perigosamente baixa. - Seus pais assinaram a transferência da dívida. Você é legalmente, contratualmente e praticamente minha responsabilidade. O "não" é uma palavra que você vai esquecer de usar dentro desta casa.
Ele virou-se para sair, mas parou na porta.
- Ah, e vista algo discreto. Hoje você vai acompanhar uma reunião importante. Quero que todos vejam que a herdeira que caiu está sendo bem cuidada... pelo homem certo.
Isadora sentiu o estômago revirar. Ele não a queria como esposa; ele a queria como troféu. Como uma forma de humilhar a elite que a descartara e, ao mesmo tempo, exibir o seu novo brinquedo.
Enquanto ela se vestia, seus pensamentos divagavam. Onde estava Clary? O que Sebastian estaria fazendo naquele exato momento? Ela precisava de um plano, de uma brecha. Ela não era apenas uma Vance; ela era uma mulher que tinha sido criada para liderar, para negociar, para entender a política por trás das cortinas de veludo. Ela não seria submissa para sempre.
A reunião de negócios ocorreu em um escritório que mais parecia o centro de comando de uma empresa de defesa. Mesa de mogno, telas de alta definição mostrando flutuações de ações em tempo real e homens em ternos caros que falavam em números e mortes corporativas.
Isadora sentava-se ao lado de Dorian, as mãos dobradas no colo. Ela era o objeto de análise. Ela via os olhares que os sócios de Dorian lançavam em sua direção - desejo misturado com desprezo. Eles a viam como a mulher que perdera tudo, a herdeira caída.
- O contrato está pronto - disse um dos investidores, um homem chamado Elias Thorne, primo distante de Julian. Ele olhou para Isadora com um sorriso lascivo. - É uma excelente oportunidade, Cavendish. Mas, me diga, o que você pretende fazer com a sua esposa quando a utilidade dela... expirar?
Dorian, que estava assinando papéis, parou a caneta. O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor. Ele não olhou para Elias; ele olhou para Isadora. Seus olhos eram dois buracos negros de possessividade.
- A utilidade de Isadora é algo que só eu tenho o direito de medir - Dorian respondeu, a voz gelada. - Se você estiver preocupado com o futuro dela, talvez deva se preocupar mais com o seu próprio. Seus fundos de investimento estão sob auditoria interna, Elias. Eu sugiro que você se concentre na sua própria falência.
O investidor empalideceu. Ele não sabia que Dorian tinha acesso a essas informações. Isadora sentiu um calafrio. Ela percebeu que Dorian não a estava "protegendo" do insulto; ele estava mostrando aos seus rivais que ele era o dono da verdade, do dinheiro e da vida de todos ali.
Após a reunião, enquanto caminhavam pelos corredores de vidro, Isadora finalmente falou:
- Você está usando a minha humilhação para chantageá-los.
- Estou usando a sua presença para estabelecer limites - ele respondeu, parando em frente a uma enorme parede de vidro que dava vista para o skyline de Connecticut. - Eles precisam entender que o que é meu, é intocável. Até mesmo as coisas que não me amam.
Isadora engoliu em seco. A honestidade dele era pior do que a crueldade.
Em um hangar isolado nos arredores, Sebastian encontrava-se com Julian . O ambiente era frio e cheirava a combustível de aviação.
- Você tem os documentos? - Julian perguntou, os olhos brilhando com uma mistura de ódio e ganância.
- Eu tenho tudo o que você precisa para derrubar a Cavendish Corp - Sebastian disse, entregando uma pasta. - Mas, em troca, eu quero a minha irmã fora daquela casa. E quero que o Dorian pague.
- Eu não quero a sua irmã - Julian disse, rindo sarcasticamente. - Eu quero o império que ele me roubou. Se para isso eu precisar usar a Isadora como isca, eu usarei.
Sebastian sentiu um aperto no peito. Ele sabia que Julian era um canalha, mas ele não tinha outra escolha. Ele precisava de recursos, e Julian tinha os contatos no submundo.
- Se você tocar um fio de cabelo dela, eu mesmo te mato - Sebastian avisou, a voz grave.
- Não se preocupe, Vance. Ela ainda é a joia da coroa. Mas se Dorian Cavendish cair, a joia volta para quem pagou o preço.
Eles apertaram as mãos. Um acordo entre dois homens que se detestavam, unidos pelo desejo comum de destruir o homem que os fizera sentir impotentes. Enquanto Julian saía, Sebastian olhou para o horizonte. Ele sentia que algo terrível estava prestes a acontecer. Ele precisava avisar Isadora. Mas como entrar em uma fortaleza de vidro onde nem o som conseguia atravessar as paredes?
De volta à mansão, Clary encontrava-se na cozinha, tentando manter uma fachada de calma enquanto observava Victor limpar uma arma de fogo na mesa de jantar. A tensão entre eles era elétrica, um jogo de gato e rato que começara na noite anterior.
- Você gosta de armas, Victor? - ela perguntou, tentando soar casual enquanto servia um chá que, na verdade, ela não queria.
Victor não desviou o olhar da peça que ele lubrificava.
- Gosto de coisas que funcionam exatamente como foram projetadas. Sem surpresas. Sem falhas.
- E você acha que pessoas são assim? - Clary aproximou-se, o perfume floral dela invadindo o espaço do homem de gelo. - Projetadas para serem perfeitas e nunca falharem?
Victor finalmente levantou o olhar. Seus olhos cinzentos eram profundos, quase analisando a alma de Clary.
- As pessoas são as criaturas mais falhas do mundo, Srta. Miller. É por isso que eu sou pago para garantir que as falhas delas não custem vidas.
Ele guardou a arma no coldre e levantou-se, aproximando-se de Clary até que a distância entre eles fosse quase proibitiva. Ela não recuou.
- Você parece achar que é uma exceção - ele murmurou, a voz um rosnado baixo perto do ouvido dela.
- Talvez eu seja - ela respondeu, desafiadora.
Ele a encarou por um longo momento. Era um duelo de vontades, um jogo onde a atração era disfarçada de suspeita. Clary não sabia, mas Victor já a tinha investigado. Ele sabia quem ela era, sabia que ela era amiga de Isadora, e sabia que ela estava ali para algo mais do que apenas visitar. Mas, por algum motivo que ele ainda não conseguia explicar, ele não a entregou para Dorian. Ainda não.
A mansão dos Cavendish era um barril de pólvora, e cada personagem - Sebastian, Julian, Clary, Victor - estava segurando um fósforo aceso. Isadora, no centro de tudo, começou a perceber que, para sobreviver, ela não teria apenas que aprender as regras de Dorian Cavendish; ela teria que aprender a quebrá-las sem ser percebida.