Capítulo 2

Quando voltei para o apartamento, a porta da frente estava entreaberta. Um nó de pavor se apertou no meu estômago. Empurrei-a lentamente.

O som de risadas suaves vinha da sala de estar.

Lá, no sofá que eu mesma escolhi, estava sentada Lorena Mattos. Heitor estava sentado na mesinha de centro na frente dela, dando um morango na boca dela. Ela riu e se inclinou para beijá-lo.

Era um momento íntimo, perfeitamente encenado. E eu tinha acabado de entrar no meio dele.

Heitor me viu primeiro. Seu sorriso vacilou por um segundo, seus olhos endurecendo.

"Helena."

Lorena olhou, seus olhos grandes e inocentes se arregalando. Ela imediatamente se encolheu contra as almofadas, fazendo-se parecer pequena e assustada.

"Helena, pode nos dar um minuto?", disse Heitor, mantendo a voz baixa, como se eu fosse uma intrusa. "A Lorena não está se sentindo bem. Eu vou para o quarto de hóspedes mais tarde."

Soltei uma risada curta e aguda.

"O quarto de hóspedes? Heitor, este é o meu apartamento. Meu nome está no contrato de aluguel. Se alguém deve sair, é ela."

Ele se levantou, sua expressão se tornando suplicante.

"Por favor, só por hoje à noite. Você sabe como ela é. Nós crescemos juntos, eu sempre cuidei dela. Ela precisa de mim agora."

Ele estava tentando apelar para a parte de mim que sempre deu desculpas para ele, para o "laço especial" deles.

"Eu arranjo um hotel para ela amanhã, eu prometo", disse ele, a voz um murmúrio baixo. "Nós vamos resolver isso."

Não disse mais uma palavra. Apenas me virei e caminhei para o quarto de hóspedes, fechando a porta atrás de mim.

Eu não conseguia abafar os sons. Alguns minutos depois, ouvi as risadas deles novamente, mais altas desta vez, misturadas com o som da TV. Eles estavam se acomodando para a noite. Na minha casa.

Encolhi-me na cama, sem me dar ao trabalho de trocar de roupa. As lágrimas que segurei o dia todo finalmente vieram, encharcando o travesseiro no escuro.

Muito mais tarde, ouvi a porta do quarto ranger ao se abrir. Uma sombra caiu sobre a cama.

"Helena? Você está acordada?" Era Heitor, sua voz um sussurro culpado.

Ele se sentou na beirada da cama, seu peso fazendo o colchão afundar. Ele estendeu a mão e tocou meu cabelo.

"Me desculpe por hoje", disse ele, a voz embargada. "É muita coisa para lidar. O bebê... nós teremos outro, Helena. Quando for a hora certa, eu juro."

Fiquei perfeitamente imóvel, meu corpo rígido. Ele não sabia. Ele pensava que eu tinha ido em frente. Ele estava se desculpando pelo inconveniente, não pela coisa monstruosa que me pediu. A ironia era uma pílula amarga na minha garganta.

De repente, um grito agudo veio da sala de estar.

"Tito! Tito, onde você está?"

Heitor saltou da cama como se tivesse levado um choque.

"Lô?"

"Eu tive um pesadelo!", ela choramingou. "Volta!"

Sem pensar duas vezes, sem me lançar outro olhar, ele saiu correndo do quarto.

"Estou indo, Lô! Estou aqui!"

Pelo resto da noite, o som de sua voz baixa e calmante ecoou pelo corredor enquanto ele a confortava, me deixando sozinha no escuro.

Na manhã seguinte, arrastei meu corpo exausto para fora da cama. O cheiro de café e bacon enchia o ar. Por um segundo delirante, parecia uma manhã qualquer.

Então entrei na cozinha.

Heitor estava no fogão, virando panquecas. Lorena estava empoleirada em um banquinho, vestindo uma de suas caras camisas de seda, com as pernas nuas balançando. Ela ria enquanto ele, de brincadeira, passava um pouco de chantilly em seu nariz.

Pareciam um casal feliz em um comercial de café. Eu era o fantasma assombrando o set.

Lorena me viu e seu sorriso brilhante desapareceu. Ela instantaneamente adotou seu olhar de corça assustada, agarrando o braço de Heitor.

"Ah. Helena. Você acordou."

"Tito", ela sussurrou, alto o suficiente para eu ouvir. "Eu quero suco de laranja. Espremido na hora."

"Claro, Lô. O que você quiser", disse Heitor, virando-se para a geladeira sem um único olhar na minha direção.

No momento em que ele se ocupou com o espremedor, todo o comportamento de Lorena mudou. O medo se dissipou, substituído por um sorriso presunçoso e triunfante. Ela olhou diretamente para mim.

"Ele ficou tão desapontado quando pensou que você estava grávida", disse ela, sua voz um veneno adocicado. "Ele me disse que nunca quis ter filhos com você. Disse que a ideia o arrepiava."

Eu congelei, minha mão no balcão. Minha cabeça se virou para olhá-la. Meus dedos tremeram.

"Você acha que pode vencer?", ela continuou, sua voz pingando desprezo. "Eu sou Lorena Mattos. Meu tio é um dos produtores mais poderosos de São Paulo. Quem é você? Uma arquiteta qualquer que ele pegou por pena."

Meu sangue gelou. Eu sabia que o tio dela era influente. Não tinha percebido o quanto. Era por isso que Heitor estava tão desesperado para protegê-la. Não era apenas amor; era ambição. Ela era o passaporte dele para um mundo que ele cobiçava.

De repente, Lorena soltou um grito agudo e escorregou do banquinho, caindo no chão.

"Ahh! Meu tornozelo!", ela gritou, agarrando-o. "Helena, por que você me empurrou?"

Heitor se virou, o rosto uma máscara de fúria. Ele me viu parada perto dela, a viu no chão, e não hesitou. Ele avançou e me empurrou, com força.

"Qual é o seu problema?", ele rugiu.

Eu cambaleei para trás, meu quadril batendo na quina da ilha da cozinha. Uma dor aguda e lancinante atravessou meu lado. Eu arquejei, agarrando o local.

Ele nem percebeu. Já estava no chão, embalando Lorena em seus braços.

"Você está bem, Lô? Ela te machucou?"

Ele olhou para mim, seus olhos cheios de um ódio frio e aterrorizante.

"Ela é frágil, sua idiota! Eu te disse isso!"

"Eu... eu não toquei nela", gaguejei, a dor fazendo minha voz tremer.

"Suma da minha frente", ele rosnou, a voz baixa e perigosa. "Nunca mais toque nela. Estou te avisando, Helena."

Ele pegou Lorena no colo e a carregou para fora da cozinha, me deixando ali, tremendo de dor e choque.

Minha mão foi instintivamente para a minha barriga, uma oração silenciosa para que o bebê estivesse bem.

Esta era a minha casa. E eu tinha acabado de ser declarada a inimiga.

Capítulo 3

Heitor não voltou por dois dias. Passei o tempo atordoada, movendo-me pelo apartamento silencioso como um zumbi. Tirei nossas fotos, coloquei as roupas dele em caixas. Até tirei minha aliança. Ela deslizou do meu dedo sem resistência. Eu tinha perdido tanto peso que nem tinha notado.

Joguei-a na lata de lixo. Fez um baque surdo e final.

Então, uma mensagem de texto dele iluminou meu celular.

*Pode me fazer um favor? Tem uma caixinha de veludo azul na minha gaveta de cima. Um entregador vai passar para pegar em uma hora. Deixe pronta para ele.*

Fui até a gaveta dele. Dentro havia uma pequena e elegante caixa de uma joalheria famosa. Eu a abri. Aninhado no veludo preto estava um colar de diamantes, do tipo ostentoso que eu nunca usaria. Lembrei-me dele me mostrando online meses atrás.

"Não é lindo?", ele tinha dito. "Vou comprar para a pessoa mais importante da minha vida."

Eu pensei que ele se referia a mim.

Olhando para o colar, uma risada amarga escapou dos meus lábios. Fechei a caixa.

Quando o entregador chegou, um jovem de uniforme impecável, entreguei-lhe o pacote sem uma palavra.

"Senhora, o destino é o Hotel Fasano", disse ele, confirmando os detalhes.

"Eu sei", eu disse, pegando minha bolsa do gancho perto da porta. Tirei o acordo de divórcio dobrado. "Eu vou com você."

A viagem de carro foi silenciosa. O Fasano estava sediando uma enorme coletiva de imprensa para o novo filme de Lorena. Quando paramos, pude ouvir o rugido da multidão e o clique frenético das câmeras.

Entrei no salão de festas. O barulho cessou instantaneamente. Todas as cabeças se viraram. Todas as câmeras giraram para mim. Eu usava um vestido simples e sem maquiagem. Meu cabelo estava preso em um coque bagunçado.

Sussurros irromperam ao meu redor.

"É ela? A perseguidora?"

"O que ela está fazendo aqui? Olha como ela está vestida. Sem classe nenhuma."

Ignorei todos eles. Meus olhos estavam fixos no palco na frente da sala, onde Heitor e Lorena estavam de pé, de mãos dadas.

Heitor me viu, e seu rosto se contraiu em um nó de raiva.

"Helena? Que diabos você está fazendo aqui?", ele sibilou enquanto eu me aproximava.

Não respondi. Apenas estendi a caixa de veludo azul.

"Você esqueceu isso", eu disse, minha voz surpreendentemente firme.

Lorena arrancou a caixa da minha mão e a abriu com um suspiro de deleite.

"Ah, Tito! É lindo!"

Ela se virou para ele, fazendo beicinho.

"Coloca em mim. Agora mesmo."

Heitor hesitou por uma fração de segundo, seus olhos dardejando entre mim e ela. Então, seu rosto endureceu, e ele pegou o colar. Seus dedos roçaram a pele dela enquanto ele fechava o fecho.

Lorena se inclinou e o beijou na boca, com os olhos fixos em mim o tempo todo. Era uma declaração de vitória.

Eu fiquei ali, em silêncio.

Então, ela fez de novo. Soltou um pequeno suspiro e cambaleou, fingindo perder o equilíbrio.

"Oh!"

"Helena, eu te avisei!", Heitor rugiu, avançando para amparar Lorena. Ele me fuzilou com o olhar, o rosto contorcido de raiva. "Você está tentando machucá-la?"

Não disse nada. Apenas estendi o acordo de divórcio que eu segurava na mão.

Ele mal olhou para ele. Lorena de repente agarrou o estômago.

"Tito, não estou me sentindo bem. Minha barriga dói."

"O quê?" Sua atenção voltou-se para ela, todos os pensamentos sobre mim e os papéis se foram. "Ok, meu amor, ok. Vamos te levar para o hospital."

"Os papéis, Heitor", eu disse, estendendo-os novamente. "Assine."

"Assina logo para ela ir embora!", Lorena gemeu, pressionando-se contra ele.

Sem nem ler, ele pegou uma caneta de uma mesa próxima, rabiscou seu nome na linha e empurrou o documento de volta para mim.

Então ele pegou Lorena nos braços e começou a abrir caminho pela multidão de repórteres.

"Deixem a gente passar! É uma emergência!"

Apertei os papéis assinados contra o peito e me virei para sair. Enquanto eu me afastava, alguém deliberadamente esticou o pé.

Eu caí, com força.

Minha cabeça bateu no chão de mármore com um estalo pavoroso. O mundo explodiu em um flash de dor branca e quente.

Ouvi suspiros da multidão. Através de uma névoa de dor, vi Heitor parar e olhar para trás. Ele deu um meio passo em minha direção, o rosto uma confusão.

"Tito, vamos!", Lorena choramingou, puxando seu braço. "Ela só está fingindo para chamar a atenção."

Ele olhou de mim, deitada no chão com sangue começando a se acumular ao redor da minha cabeça, para ela. Ele hesitou por mais um segundo.

Então ele se virou e saiu, desaparecendo nas luzes piscantes dos paparazzi.

Fiquei ali, o chão polido frio contra minha bochecha. Minha visão estava embaçando. As pessoas estavam olhando, sussurrando, apontando. Ninguém se moveu para ajudar.

Com um gemido, me levantei. Minha cabeça estava girando. Percebi que minha aliança tinha sumido. Deve ter voado quando caí. A aliança que estava tão frouxa no meu dedo. Um símbolo de um casamento que estava vazio há muito, muito tempo.

Nem procurei por ela.

Ignorando os olhares e as câmeras, cambaleei para ficar de pé, minhas pernas tremendo. Andei, um pé na frente do outro, para fora do salão de festas e para a rua.

Chamei um táxi. Os olhos do motorista se arregalaram quando ele viu o sangue no meu rosto.

"Hospital?", ele perguntou, a voz cheia de alarme.

Limpei uma mancha de sangue da minha bochecha com as costas da mão.

"Sim", eu disse, um sorriso sombrio tocando meus lábios. "Mas eu não vou morrer."

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