Capítulo 2

Helena Duarte

Naquela noite ainda estava na casa da minha amiga, ainda sem acreditar que fui expulsa de casa, depois de conseguir uma promoção maravilhosa. Há males que vem para o bem, e talvez tenha sido um livramento de Deus.

- Eu sei o que você está pensando, Helena. E com certeza foi Deus dizendo " filha eu tô aqui". Vai menina, aproveita todas as oportunidades que seu chefe puder te dar, e viva sua vida, curta muito, e prospere. Só volte para o meu casamento. - Ela diz me entregando uma xícara de chá.

- Óbvio que irei vir para seu casamento. Você me ajudou quando mais precisei, e em todos os momentos da vida, você é mais minha irmã que minha própria irmã.

- Eu sinto muito por você ter nascido nessa família tão horrível.

- Agora já foi.

Lua sempre foi, uma amigona, uma irmã de alma, sempre me ajudou em muitos momentos, teve época em que minha mãe trancava os armários e a geladeira para que eu não comecesse nada, água eu tinha que beber da torneira, e Lua sempre me ajudou, nunca me negou um prato de comida.

É difícil falar isso, mas minha mãe é uma narcisista, em todos os detalhes, não é só um pouco, e sim ela inteira.

Eu cresci achando que o problema era comigo. Que eu era ingrata, dramática ou exagerada. Mas com o tempo e terapia - sim, graças à Lua, que praticamente me arrastou - eu entendi que o buraco era muito mais embaixo. Minha mãe sempre me controlou de forma cruel, fazia chantagem emocional, diminuía minhas conquistas, me colocava contra mim mesma.

- Lembra quando você passou naquele concurso e ela disse que só idiota escolhia essa carreira? - Lua resmungou, sentando-se ao meu lado.

- Lembro. Ela disse que eu só estava tentando aparecer... Como se eu não pudesse querer crescer.

Lua balançou a cabeça e bufou, indignada como sempre.

- Ela teve medo. Medo de você sair do controle dela. Narcisistas não suportam quando a vítima cria asas.

Sorri fraco. Era estranho ter que lidar com tudo isso depois de adulta. Quando se é criança, a gente só quer agradar. Quando cresce, percebe que agradar certos tipos de pessoas é o mesmo que apagar a própria luz pra não incomodar.

- Mas agora chega, né? - disse, tomando um gole do chá quente. - Eu consegui uma promoção, estou morando com uma amiga incrível, e tenho um futuro inteiro pela frente.

- Isso mesmo! - Lua levantou a xícara como se brindasse. - Ao novo começo de Helena Duarte.

Sorri mais sincera agora. Pela primeira vez em muito tempo, senti que estava exatamente onde precisava estar. Longe do caos, perto do afeto. E mais importante: comigo mesma.

- E você acha que seu chefe vai viajar mesmo? - Lua perguntou, com aquele olhar curioso de quem já estava montando mil teorias na cabeça.

- Vai. E adivinha quem vai com ele?

- Você? - Ela arregalou os olhos.

Assenti.

- Ele disse que confia no meu trabalho, e que precisa de mim nessa viagem pra representar a empresa.

- Menina, isso é tudo! Você vai viajar, vai mostrar serviço, vai fazer contatos... Quem sabe o que pode acontecer?

- Pois é... quem sabe? - respondi, deixando o pensamento flutuar.

Naquele instante, me dei conta de que, apesar da dor, do abandono e da humilhação, eu tinha recebido algo que não se compra: liberdade. E talvez, só talvez... essa viagem fosse o ponto de virada da minha história.

- Eu tenho medo - confessei, num sussurro.

Lua apertou minha mão.

- Ter medo é normal. Mas sabe o que não é? Ficar parada por causa disso. Você vai dar a volta por cima, Helena. Vai se erguer tão alto que nem vão conseguir te olhar nos olhos.

Sorri. Um sorriso pequeno, frágil... mas sincero.

- Obrigada, Lua. Por tudo. Se eu conseguir algum dia retribuir metade do que você fez por mim...

- Retribui sim, sendo feliz. - Ela me interrompeu com firmeza. - Isso já vai valer por tudo.

Naquela noite, dormi no quarto de hóspedes da Lua, abraçada a uma almofada e à esperança de um recomeço. Sabia que o mundo lá fora não seria fácil, mas, pela primeira vez em muito tempo, me sentia livre.

E liberdade, mesmo dolorida, era muito melhor do que viver acorrentada à sombra de uma mãe que nunca me amou.

~~~

Na manhã seguinte, acordei antes mesmo do despertador tocar. O céu ainda estava cinzento e silencioso, como se o mundo também estivesse se preparando para começar de novo.

Coloquei meus pés no chão com determinação. Lua já estava de pé, preparando um café reforçado como só ela sabia fazer.

- Bom dia, assistente do chefe! - disse ela com um sorriso largo, enquanto me entregava uma caneca de café quente.

- Bom dia - respondi, tentando disfarçar o nervosismo. - Parece que acordei num mundo novo.

- E acordou mesmo. Agora vai lá, mostra que você merece estar exatamente onde está.

Depois do café, coloquei minha roupa mais elegante - um blazer vinho que comprei assim que soube da promoção. Passei um batom discreto, mas que me dava segurança, peguei minha mala. Respirei fundo três vezes antes de sair pela porta.

Cheguei ao hotel e Davi já estava me esperando no saguão, dali já iríamos para nosso próximo destino.

- Obrigada, senhor Montez. É uma honra.

- Por favor, me chame de Davi. Vamos ter muito trabalho pela frente e, se depender de mim, você vai crescer ainda mais.

Aquela frase me atingiu como um raio. Pela primeira vez, alguém poderoso olhava para mim e dizia: Você tem potencial.

Segui Davi até o carro e fomos direto para o aeroporto, iriamos em seu jarinho particular, ali eu dava adeus a minha mãe, até mesmo a minha irmã, que eu sabia que não era má, apenas teve uma mãe ruim.

Ali, naquela poltrona do jatinho, com esse homem que acredita no meu potencial, eu fiz uma promessa silenciosa a mim mesma:

Nunca mais vou me encolher para caber nos limites que os outros tentaram impor sobre mim.

{...}

Capítulo 3

Helena Duarte

Acordei com uma leve sacudida no ombro.

- Helena... O avião já pousou. - a voz de Davi soava baixa, quase rouca. Ainda assim, firme como sempre.

Abri os olhos lentamente e dei de cara com o rosto dele a poucos centímetros do meu. Por um segundo, esqueci onde estava. Depois me lembrei: voo executivo, missão de trabalho, cidade nova. E claro... meu chefe.

- Desculpa - murmurei, sentando-me de forma apressada e tentando ajeitar o cabelo com os dedos. - Acho que dormi a viagem inteira.

Ele apenas assentiu com um gesto contido e voltou a se sentar direito, olhando pela janela da aeronave particular. Estava escuro lá fora. As luzes da pista refletiam nos olhos dele, dando-lhe um ar ainda mais distante. Intocável.

- Espero que tenha descansado bem. Temos reunião daqui a duas horas - disse ele, consultando o relógio de pulso com um leve franzir de sobrancelha.

- Reunião? Mas não era só amanhã? - perguntei, piscando, ainda sonolenta.

- Mudaram a agenda. O investidor chegou antes. E não temos tempo a perder, Helena.

Claro. Nada com Davi Montez é simples ou previsível. Respirei fundo, sentindo o peso da responsabilidade pousar novamente sobre meus ombros. Ainda assim, me levantei com postura, determinada a não vacilar.

Ao sairmos do avião, fomos recepcionados por um motorista com um carro preto impecável. Davi entrou primeiro, eu o segui. O trajeto até o hotel foi silencioso, cortado apenas pelo som da chuva fina batendo contra o vidro. Olhei de relance para ele: impecável, concentrado, com o celular na mão. Ele passava instruções para alguém, em voz baixa e firme, como quem comanda um exército.

Quando chegamos ao hotel, recebi meu cartão de quarto e a ordem direta:

- Vista-se como se fosse fechar o maior contrato da sua vida. Porque é isso que vamos fazer.

Subi para o quarto, sentindo o frio na barriga se misturar com a adrenalina. Abri a mala, encarei o vestido que se destacava entre os terninhos e optei por ele. Preto, elegante, de corte reto. Poderosa. Se eu tivesse que andar ao lado de Davi Montez, que fosse à altura.

Trinta minutos depois, estávamos no saguão. Ele me olhou de cima a baixo, como sempre fazia. Mas dessa vez, seus olhos demoraram um pouco mais no meu decote discreto. E por uma fração de segundo, ele pareceu hesitar antes de dizer:

- Pronta?

- Sempre.

Ele assentiu, e saímos.

Davi Montez era um homem de metas, resultados e controle. Eu, uma mulher de garra, sonhos e uma intuição aguçada.

E naquela cidade desconhecida, com contratos milionários em jogo e o destino da empresa em nossas mãos...

Eu ainda não sabia, mas aquela viagem mudaria tudo.

Principalmente entre nós.

---

Davi Montez

Fui o voo inteiro tentando puxar assunto com Helena.

Não que eu fosse do tipo que puxasse assunto com qualquer pessoa. Muito menos com funcionárias. Mas ela não era qualquer uma. Helena tinha algo que me tirava do eixo - e isso me irritava mais do que eu gostaria de admitir.

Ela se sentou ao meu lado com um sorriso cansado, mas gentil. Nos primeiros minutos, organizou os papéis, revisou apresentações e digitou furiosamente no notebook como se o mundo estivesse prestes a acabar. Então, suspirou e encostou a cabeça na lateral da poltrona, virada para a janela.

Esperei. Pensei em fazer um comentário leve, talvez sobre o projeto novo ou o tempo no destino. Algo banal, só para abrir espaço para mais. Mas quando finalmente tomei coragem, me virei... e a vi dormindo.

Serenamente.

A respiração calma, os traços suaves, a expressão livre do peso que normalmente carregava nos olhos. A mulher forte e determinada que encarava reuniões com ferocidade agora parecia... vulnerável. Intocável de outra forma.

Fiquei observando por alguns segundos a mais do que deveria. Era errado. Eu sabia. Mas não consegui evitar.

Ela merecia esse descanso. Depois de tudo que ouvi - boatos sussurrados nos corredores sobre a família dela, sobre o que enfrentou, sobre como foi parar na casa da melhor amiga - fiquei ainda mais impressionado com a força que disfarçava tão bem com aquele sorriso profissional e a postura impecável.

Suspirei e me afastei um pouco, abrindo meu notebook, tentando fingir que não estava afetado. Mas estava. Porque, sem nem perceber, Helena estava começando a se tornar uma distração perigosa.

E eu não podia me dar o luxo de me distrair.

---

A reunião estava intensa. Helena ao meu lado fazia anotações rápidas, traduzindo em dados claros o que alguns ali insistiam em florear. Era inteligente, objetiva e, acima de tudo, implacável com os números. Eu mal precisava intervir.

- Como podemos garantir que os lucros do último trimestre se mantenham estáveis? - perguntou um dos investidores, franzindo o cenho.

Eu me preparei para responder, mas o celular vibrou no meu bolso. Ignorei.

- Temos um plano de expansão que começa na próxima semana, e um novo sistema de controle de custos que...

Vrrr... Vrrr... Vrrr...

Outra vibração. E mais uma. E outra.

Incomum.

Discretamente, puxei o celular e o deixei no colo, debaixo da mesa. A tela estava cheia de notificações. Era Valentina.

Valentina 💋:

Davi, por favor, atende.

Eu te amo.

Você não pode fazer isso comigo.

Eu tô desesperada, não me ignora.

Davi, a gente tem uma história!

Me responde.

Você tá com outra?

Fala comigo, por favor, não me deixa.

Apertei a mandíbula. Helena me lançou um olhar rápido, curiosa. Eu apenas balancei a cabeça, como quem diz está tudo bem, mas por dentro, um incômodo crescia.

As mensagens não paravam. O telefone vibrava como se estivesse prestes a implodir. Era vergonhoso. Invasivo.

Valentina 💋:

Eu sei que errei, mas a gente pode consertar!

Você é o amor da minha vida, Davi.

Você não sente mais nada por mim?

Responde!

Bloqueei a tela com força.

Respirei fundo, voltando a focar nos dados no projetor. Mas agora, a atenção me escapava. Minha mente já não estava na reunião - e sim naquela voz do passado que eu jurava ter deixado para trás.

Helena, atenta, retomou a fala com segurança e clareza, preenchendo o espaço que eu deixava vago. Seu profissionalismo era como um lembrete de tudo que eu estava tentando construir. E de tudo que eu precisava manter longe para não destruir o que vinha pela frente.

Valentina era passado.

Helena...

Ela era um problema totalmente diferente.

Mas, ainda assim, um que eu queria ter.

{...}

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