Capítulo 2

Henry Miller

       Sem mãe, sem pai, apenas cuidando do meu avô que, pelo que dá para perceber, está com os dias contados. Falar isso machuca o meu coração. Me sinto abandonado completamente depois que fui deixado pelos meus pais ainda adolescente, eles não pensaram em mim quando decidiram partir para outra vida.

    Pego uma foto em que nós três estamos juntos, sorrindo abraçados.

    Lembro-me bem do dia em que tiramos essa foto, foi em um verão bem caloroso, depois foi apenas tragédia em cima de tragédia.

    Bufo.

    Lembrar disso me causa arrepios, minha mãe estava com câncer, ela descobriu o câncer depois de sentir muitas dores nos seios, meu pai colocou os melhores médicos para cuidar da situação dela, que já estava bastante agravada. Infelizmente, nada funcionou, minha mãe, que cuidava de mim com tanto carinho e atenção, veio a falecer, meu pai, revoltado com tudo o que aconteceu, amarrou uma corda na madeira que ficava no teto de casa e suicidou-se, o que ele dizia era que estava fazendo aquilo por amor.

    Passo a mão pelas mechas do meu cabelo.

    Aquilo não era amor, depois disso eu nunca mais acreditei nesse tal amor, um amor que foi capaz de abandonar seu próprio filho, jamais irei amar alguém, jamais me entregarei a algo tão tolo chamado “amor”.

    Uma voz ecoa pelos corredores da nossa grande mansão chamando meu nome.

— Henry, vem aqui agora, filho.

    Sim, é meu avô. Meu bem mais precioso nesse momento é ele, mesmo estando bem velhinho, ainda tenta cuidar de mim.

— Sim, vovô, por que está me chamando?

— Filho, já disse não para ficar trancado neste quarto o dia todo, você sai apenas à noite e volta bêbado para casa — disse o senhor Frederik, mostrando deveras preocupação.

    Quando não estou no apartamento, venho à mansão para ver como meu avô está. Geralmente venho aqui quando não estou trabalhando e passo o dia trancado no quarto. Andar por esses corredores me traz lembranças de que eu não quero lembrar.

— Já disse para não se preocupar comigo, eu sei bem o que faço da minha vida, senhor Frederik.

    Desci as escadas da mansão que levavam até a grande sala.

— Fica parado aí, menino, estou falando com você. Quando você irá trazer uma mulher decente para esta casa? Você precisa se casar logo.

    Meu avô e essas manias dele em achar que eu irei me casar, parece que ele não me conhece.

    Suspiro.

— Você sabe que não irei me casar nunca, eu não vou amar ninguém — disse com bastante ousadia.

— Lave essa boca, menino, você irá se casar sim. Trate de trazer uma mulher para esta casa logo.

    Esse velho é muito persistente, ele acha que uma mulher irá curar a dor que meus pais me causaram, nenhuma mulher é capaz de me curar. Eu posso destruir a vida de uma mulher se ela tentar me amar de verdade.

    Todos na cidade me conhecem como um sem-vergonha, eles dizem que faço as mulheres inocentes sofrerem por mim, talvez eu realmente seja um mequetrefe, contudo, a realidade é que as mulheres se entregam muito fácil para mim, elas se iludem mesmo eu dizendo que é apenas sexo.

    Preciso ir para aquela empresa que foi deixada para mim depois que meus pais se foram. Normalmente é o senhor Benjamin, o meu motorista, que me leva para o trabalho, mas hoje eu irei dirigir.

   Fui à garagem e peguei um dos modelos mais avançados dos meus carros. Esse carro é uma belezinha. Fui eu que planejei toda a parte do motor, o designer preto lhe caiu bem. O carro é muito rápido, cheguei na empresa cerca de poucos minutos, na verdade, eu não moro muito longe da empresa.

   Mesmo assim, tenho um apartamento bem aqui no centro de Nova York, não posso levar todas as mulheres na mansão, lá eu levo apenas a Mia, meu avô já está acostumado com ela.

— Eu estava esperando pelo senhor chefinho — disse Mia.

   Mia é uma grande gostosa, o corpo dela me atrai muito, por isso sempre estou em sua companhia, dificilmente fico com outra mulher que não seja ela, para isso acontecer precisa me cativar muito.

— Bom dia, Mia, gosto quando você me espera bem na porta.

Disfarçadamente, dei um tapa em uma das suas nádegas.

— Isso dói, querido, tente ser mais discreto.

    Ela passou a língua nos lábios depois de sentir a minha mão pesada  lhe apalpando.

Entramos na minha sala.

— Querido, eu tenho um convite para te fazer — disse Mia toda sorridente.

— Qual seria ele?

— Eu fiquei sabendo que vai ter uma festa à fantasia naquele bar que a gente sempre vai, você poderia ir de Batman e eu de mulher gato. O que acha?

    As saídas para dançar com a Mia são sempre as melhores, ela dança de um jeito de tirar o fôlego, o corpo dela chama a atenção de qualquer um que passa.

— Claro, gostosa, como irei perder uma mulher sexy como você dançando para mim.

    Puxei-a  para mim e a sentei no meu colo.

— É assim que eu gosto do meu chefinho, vou pedir para que tragam as roupas que comprei para a gente usar.

    Mia tinha um cartão black que eu emprestei para ela comprar tudo o que ela tem vontade. Eu não a amo, nem sou apaixonado pela Mia, mas o corpo dela ganhou de presente minha enorme ereção que lateja quando ela dança. Por isso, deixo ela com esse cartão, quero ver ela andando com as roupas mais sexy de todas.

    Empurrei para que ela se levantasse.

— A festa é só de noite, vamos para a reunião, temos muito trabalho a fazer hoje.

    Eu sou um cara safado mesmo, tenho que admitir, mas eu não sou um vagabundo, eu sempre coloco a minha empresa como prioridade. Quero fazer dessa empresa que foi herdada para mim em nome dos meus pais a maior empresa de carros de toda a América.

    Depois da reunião, eu e Mia fomos até minha casa na mansão para se arrumar para essa festa à fantasia. Mia estava com um vestido bem justo, era possível ver o tamanho da sua bunda.

— Trouxe essa mulherzinha sem pudor para nossa casa de novo? — Disse o senhor Frederik com uma expressão raivosa.

    Meu avô não gosta muito quando trago Mia aqui, ele sempre a trata com desprezo e rancor, na visão dele ela não é uma boa mulher para mim.

— Não foi assim que você me ensinou a tratar uma mulher, senhor Frederik.

    Respondi a ele debochando da sua atitude, não gosto quando ele a trata assim, oras, ela é meu brinquedinho pessoal.

— Eu gosto muito do seu neto, senhor Frederik, não tenho culpa dele sempre me escolher como mulher — disse Mia, se fazendo de sonsa.

— Já disse que você não é mulher para ele.

— Não vamos ficar aqui discutindo isso, eu e Mia vamos sair essa noite, amanhã é final de semana, não me espera acordado, velho.

    Olhei para ele, soltei um leve sorriso debochado e subi para me trocar junto com a Mia.

    Mia tirou a roupa, deixando seus seios enormes mirando bem na minha direção. Estou doido para ver ela dançando para mim hoje. A roupa que ela colocou era toda em couro, estava apertando todo seu corpo, deixando-os ainda mais desenhados, ela colocou uma máscara de gatinho, eu estava usando uma fantasia do Batman.

— Estou pronta, gostou?

— Eu amei essa sua roupa apertadinha.

    Estávamos prontos, peguei o meu carro que uso apenas para ir às boates, coloquei-a  bem do meu lado, chegamos à boate. A boate estava cheia, muitas pessoas fantasiadas, algumas mulheres tentavam falar comigo, porém eu não dava bola.

— Vou dançar para você agora, querido.

    Peguei uma cadeira e coloquei bem de frente para Mia, ele subiu até o palco e começou a dançar pole dance para mim. Mia sempre dança para mim, ganhando toda a minha atenção com sua sensualidade.

    Abri minhas pernas na cadeira, mordi meus lábios, ele estava avantajado, ereto, vendo-a rebolar.

    Uma cena me chamou atenção, uma simples menina usando uma máscara com orelhas de coelhinho.

    Que mulher é aquela que está tirando toda a atenção da Mia e me fazendo apenas admirá-la? Mia começou a dançar ainda com mais sensualidade, porém ela não me prendia, meus olhos estavam sobre a mulher dançando igual uma doida com orelhas de coelhinho. Tive que ir em sua direção.

    Enquanto eu andava devagar, empurrando as pessoas que estavam na minha frente para poder enxergá-las ainda melhor, pude perceber sua simplicidade e inocência. Vestido justo, apertado, mostrando toda a sua silhueta, sua inocência ao dançar como uma louca, não percebendo que todos os homens ao seu redor estavam olhando para ela com desejo.

    Cheguei mais perto dela, provoquei a chamando de coelhinha, ela me olhou com um sorrisinho de bêbada e perguntou.

— Cadê o Robin, Batman?

    Parece que essa coelhinha tem bom humor. Pelo jeito que ela fala e dança, é nítido que ela não é daqui. Esse lugar não é para ela. O perigo que essa boate pode trazer para a inocência dessa coelhinha não está escrito. Ela caiu nos meus braços e começou a chorar, desabafando.

    Respiro fundo. Minha mão quer deslizar e agarrar sua cintura.

    Não, com essa mulher eu não posso brincar, é o que eu sinto nesse momento. Escutando-a desabafando, minha vontade era de pegar ela no colo, levar para minha cama e brincar com seu corpo a noite inteira, mas alguma coisa dentro de mim diz que ela não é meu brinquedinho.

— Qual seu nome? — Perguntei com muita curiosidade.

— Liz Hernandez.

    Quando eu ia responder para ela, meu nome, fui pego de surpresa pela Mia, tive que me despedir da linda mulher de cabelos longos bagunçados com a silhueta mais linda que já vi.

— Não gostei do jeito que estava olhando aquela mulher — disse Mia com raiva.

    Eu sempre fiquei com outras mulheres, Mia sempre fica com ciúmes, mas logo passa.

    Abro a porta do carro e mando ela entrar.

— Vou te levar em casa.

— Nós não íamos passar a noite juntos? — Perguntou Mia.

— Eu decidi que quero ficar sozinho hoje.

— Sozinho? Entendi, olhou para aquela mulherzinha sem pudor com desejo, quer fazê-la de brinquedinho também?

— Não, aquela mulher não parece ser o tipo que aceitaria ser um brinquedinho meu.

   Deixei Mia em casa, ela estava com muita raiva, bateu à porta do carro e entrou.

    Voltei para casa imaginando aquela coelhinha nua na minha cama, amanhã eu vou pedir para Mia trazer todas as informações dessa Liz.

    No dia seguinte, quando eu acordei, coloquei meu terno, pedi para Benjamin me levar para a empresa.

— Está contente hoje, senhor Henry.

— Acordei de bom humor.

    Na verdade, meu bom humor se chama Liz, preciso saber o que tem por debaixo dessa máscara de coelhinha.

    Desço do carro, ando até a enorme porta principal do meu prédio.

    Quando eu entro, me deparo com uma linda mulher de cabelos longos, preto, anotando em uma ficha. Ela me olha com uma ingenuidade e vergonha. Suas bochechas ficaram rosadas, ela veio para uma entrevista.

— Manda Mia levar essa moça até a minha sala.

    Ela chegou na minha sala, sentou-se toda tímida, entregou o currículo. Quando eu olhei o nome que estava no currículo, não me segurei. Um leve sorriso saltou na minha boca, Liz Hernandez. Não pode ser a mesma pessoa! Quando começou a falar sobre a empresa em que trabalhou, era a mesma história da coelhinha, a sua voz me fez lembrar dela, todas as peças se encaixavam perfeitamente.

    É ela, é a minha coelhinha!

Capítulo 3

Liz Hernandez 

       Meu primeiro dia de trabalho na empresa “Cars Future”, essa noite, eu pensei bastante em proposta de marketing para levar para o senhor Henry.

    Coloquei uma roupa que faz total meu estilo, calça jeans, blusa preta e jaqueta. Não estou vestida como as outras meninas da empresa, elas se vestem com lindos vestidos refinados e a Mia com um vestido bem apertado.

    Eu não tenho carro, então preciso ir andando. Comecei a dar passos largos para ir mais rápido.

    Fiquei ofegante.

    Cheguei sem ar, com o coração batendo mais forte que um pandeiro, mas cheguei no horário.

— Senhorita Liz, vejo que chegou no horário. Me siga, te mostrarei sua sala — disse Mia.

    A sala não era muito grande, mas o suficiente para eu elaborar toda a minha estratégia de marketing, tinha computadores, notebook, tudo à minha disposição.

— Uma reunião se inicia daqui a 10 minutos, não se atrasa. Da próxima vez, coloque uma roupa a caráter da empresa — disse Mia.

— Mas é meu estilo — retruquei.

— Seu estilo é repugnante.

    Ela saiu da sala fazendo uma expressão de nojo para mim, eu vou falar sobre isso com Henry, ele não disse nada sobre eu ter que mudar meu visual quando me contratou. Não vou me deixar levar por essas palavras referidas à minha pessoa, preciso ir para a reunião.

    Cheguei na sala de reunião e tinham duas cadeiras disponíveis, uma do lado do senhor Henry e outra na ponta da mesa. Eu estava indo para a ponta da mesa quando Henry me chamou.

— Liz, sente aqui, não fique tão longe de mim, eu não mordo.

— Mas Henry, esse lugar é meu — disse Mia.

— Mas hoje quero a senhorita Liz sentada bem ao meu lado, afinal ela precisa ver mais de perto as fotos do nosso novo lançamento.

    Eu não posso ficar mais perto desse homem, eu não sei se estremeço com a beleza dele ou se fico com medo da expressão raivosa que Mia está fazendo para mim agora.

— Sim, senhor Henry, eu irei me sentar aí.

    Levantei da cadeira que estava na ponta da mesa e sentei ao lado do senhor Henry, olhando-o com a cabeça levantada já que ele estava em pé. Ele se aproximou, colocando uma de suas mãos sobre a mesa.

— Não precisa me chamar de senhor, senhorita Liz.

    Suspirei com aquela presença forte perto de mim, meu corpo ficou todo arrepiado.

— E você não precisa me chamar de senhorita — respondi.

    Ele sorriu, se virou para todos e começou a falar.

— Durante esse mês, todos poderão ver os nossos esforços perante a nova linha de lançamento do Cars Future. Agora, o que a gente precisa para poder vender esses carros no mercado hoje é uma boa estratégia de marketing. Pensando nisso, contratamos a Liz, sei que ela começou hoje, entretanto, queria saber se você Liz pensou em alguma coisa para esse lançamento? — disse Henry.

— É claro que ela não pensou, ela entrou hoje, não pode simplesmente ter pensado em alguma coisa durante a noite — disse Mia, debochando.

    Abri o meu notebook, virei para o senhor Henry.

— Bom, essa noite eu pensei em algumas coisas que podemos fazer para esse lançamento, primeiro eu preciso saber como será esse lançamento? — disse Liz com entusiasmo.

    A expressão da Mia mudou quando eu abri o meu notebook e mostrei que sim, eu pensei em alguma coisa.

— Viu, Mia, eu não contratei uma mulher incompetentemente — disse Henry rindo.

    Mia não gostou nada de ouvir o que Henry tinha dito, ela demonstrou isso quando franziu o cenho em sinal de desaprovação.

— Já que você perguntou à Liz o que a gente vai fazer para esse lançamento, eu estava pensando em fazer um evento mostrando todos os novos carros — falou Henry.

— Então, eu tinha pensado em duas ideias, neste caso podemos usar as duas, uma delas é fazer vídeos dos carros, eu irei editar e fazer um comercial. Tenho alguns vídeos aqui que criei no notebook, eu posso mostrar? — Perguntei.

— Vai em frente.

    Henry me deu carta-branca, peguei um fio, conectei no notebook e na televisão e coloquei um dos comerciais que criei durante a noite usando imagens de outros carros. O vídeo não estava perfeito, mas era um bom rascunho.

— Para apenas uma noite, o vídeo ficou bom, claro que ele precisa de ajustes, porém não está ruim — disse Henry.

— Esse é só um rascunho, eu irei criar um muito melhor, agora tenho mais tempo. Eu gostaria de olhar os carros, precisamos de uma equipe para fazer as filmagens também.

— Fica tranquila, eu pessoalmente te mostrarei todos os carros da nossa nova coleção.

— Não precisa fazer isso, Henry, eu posso mostrar para ela os carros — disse Mia.

— Não se incomode, eu a levarei, você poderia por gentileza arranjar uma equipe de filmagem para ficar à disposição da Liz — disse Henry.

— Ok, eu farei isso.

    Eu sinto que indiretamente eu estou comprando uma briga com a Mia, o pior é que eu não quero arranjar problemas com ninguém.

— Me siga, Liz.

    Henry me chamou e seguiu andando, eu estava bem atrás dele, chegamos a uma entrada subterrânea, eu não fazia ideia de que existia isso aqui. Pegamos um elevador que tinha depois de descer alguns degraus.

    Os números do elevador iam até 3, ele apertou no primeiro.

— Vamos ir bem fundo, pelo visto — disse Liz com o coração gelado.

— Não fique com medo, pode ficar tranquila que não irá ficar com falta de ar.

    Henry tentou me confortar, funcionou, me senti mais calma assim que chegamos no local e eu vi os carros maravilhosos que tinham aqui.

— Eu te apresento a minha coleção — disse Henry com orgulho.

    Enquanto ele falava dos carros, eu ficava com a boca aberta, o carro brilhava como as estrelas, eu podia ver minha imagem refletindo perfeitamente no capô do carro.

— Fecha a boca senão entra mosca Liz.

    Minhas mãos estavam tão ansiosas, eu precisava tocar no carro preto com uma enorme listra vermelha do lado, o que deixava o carro ainda mais moderno.

— Não toque aí!

    A voz dele falou em um tom forte assim que viu meus dedinhos tentando encostar no carro.

— Desculpa, eles são tão lindos que eu tive vontade de tocar.

— Eles não são mais lindos do que quem os criou.

    Um sorriso debochado saltou da sua boca.

    Fiquei vermelha com o que ele falou, mas ele está certo, sua beleza é radiante, ele tira toda a minha atenção com esse rosto quadrado e essa barba que combina perfeitamente com ele.

    Eu fiquei parada olhando para ele, movendo sua boca enquanto falava palavras que eu não faço ideia do que são.

— Você está entendendo tudo direitinho, senhorita Liz?

    Ele cruzou os braços enquanto me olhava atentamente, esperando por uma resposta.

— Oi? O que você falou?

— Não estava prestando atenção, Liz, o que é tão importante que está tirando toda sua atenção?

    VOCÊ! Era isso que eu queria falar na hora que ele perguntou, mas eu consegui falar somente dentro da minha cabeça oca.

— Nada, desculpa. Pode continuar falando, irei prestar atenção.

    Ele começou a explicar sobre as origens daqueles carros, o de listra vermelha que eu tanto amei foi desenhado pelo pai dele.

— Eu tenho vários projetos que foram criados pelo meu pai antes dele falecer.

— Eu sinto muito.

— Não sinta.

    Ele retrucou num tom sério os meus pêsames, sabe lá Deus o que esse homem passou para ser tão frio, falando do pai que morreu. Ele está fazendo os projetos do pai, então talvez ele sinta nem que seja lá, no fundo, uma tristeza.

— Já disse para não ficar pensando na morte da bezerra Liz, olhe apenas para mim.

    Fui pega por ele mais uma vez perdida nos meus pensamentos.

— Eu posso contar com você, Liz?

— Pode.

    Ele veio andando na minha direção, olhou dentro dos meus olhos e disse.

— Eu realmente posso contar com você, Liz.

    Sua mão pesada pegou uma mecha do meu cabelo e colocou atrás da minha orelha.

— Po-po-de, é claro que pode — respondi gaguejando.

    Voltamos para o elevador e chegamos no térreo de novo. Mia estava esperando bem na porta da entrada subterrânea, o seu nervosismo era perceptível.

— Vocês demoram muito — ela disse com uma raiva que bem nítida de ser notada.

    Esses dois não conseguem esconder que têm alguma coisa dentro da empresa, ela fica em cima dele o tempo todo. Claro que ele vai querer ficar com ela. Mia tem um corpo lindo, qualquer homem deve ser louco por ela.

— Mostrei tudo para Liz, não quero você me perturbando hoje, Mia.

    Parece que Henry já está cansado da importunação dela o tempo inteiro.

— Vamos sair hoje — disse Mia, se jogando nos braços dele.

    Ele revirou os olhos e a empurrou.

— Eu vou dar licença para vocês dois poderem conversar.

— Obrigada por ser tão atenciosa, Liz.

    Sai daquele ninho maluco, não quero ficar entre esses dois.

    O trabalho terminou, finalmente. Irei para casa descansar, quando eu saí pela enorme porta do prédio Cars Future, bem na minha frente estava Arthur me esperando. Arthur é um homem muito bonito, forte, alto, cabelo loiro e olhos verdes.

    Ele sempre esteve comigo, às vezes meu coração fala para eu dar uma chance para ele.

— Esse é seu namorado, Liz? Parece que você tem bom gosto — falou Mia, saindo de dentro da empresa grudada nos braços do Henry.

— Ele é meu amigo — respondi.

    Henry não disse nada, apenas olhou para o Arthur com um olhar nada agradável. Henry e Mia entraram no carro juntos, antes dela entrar, ele me deu tchau, balançando sua mão. Eu a respondi da mesma maneira, mas aquele sorriso me parecia um pouco debochado.

— O que você está fazendo aqui, Arthur?

— Como hoje foi o seu primeiro dia de trabalho, eu gostaria de te levar para comer alguma coisa, para poder comemorar.

— Eu estou muito cansada, mas a gente pode comer lá em casa, o que acha?

— Vamos então.

    Entramos no carro, Arthur colocou uma música e até chegarmos na minha casa ficamos calados, observando os enormes prédios que preenchem toda a cidade.

— Sua casa não é longe, mas também não é tão perto, como você vai trabalhar todos os dias?

— Eu vou andando, não tenho carro.

— Você vai andando! Você é realmente louca — Arthur diz sorrindo sem acreditar no que escuta.

— Andar é bom, eu não ficarei sedentária.

    Chegamos no prédio em que eu moro, meu prédio não tem nada a ver com todos aqueles prédios que acabamos de observar enquanto estávamos vindo para cá, infelizmente não tenho dinheiro no momento para pagar um apartamento melhor que esse, eu recebo bem na empresa Cars Future, só que o tempo que passei na outra empresa ganhando uma merreca de salário me fez juntar uma enorme dívida.

    Entramos na minha casa, eu e Arthur preferimos pedir algo no Ifood, eu não estou com energia para cozinhar agora.

— Olha os pombinhos aí, sentados.

    Alicia saiu de dentro do banheiro usando seu vestido justo, provavelmente está indo para a boate.

— Pedimos uma pizza, você vai ficar para jantar?

— Não, vou para a boate agora, como foi no seu primeiro dia de trabalho?

— Depois eu te conto.

    Tenho umas coisas para dizer para ela sobre o Henry, não posso falar com o Arthur aqui, parece que ela entendeu o recado porque piscou para mim.

— Falando em trabalho, aquele lá que estava com aquele olhar raivoso é o seu chefe? — Perguntou Arthur com curiosidade.

— É sim, ele é o famoso CEO da empresa.

— Os boatos sobre ele não são tão bons, mas não vamos falar sobre isso agora.

    Alicia saiu para a boate, ficamos apenas eu e Arthur naquela sala sozinhos, um tempo depois a pizza chegou. Abri a porta, dei o dinheiro e mais uma gorjeta para o homem e entrei, coloquei a pizza na mesa de centro da sala e sentei ao lado de Arthur.

    Um silêncio estava tomando conta de tudo, eu sentia que Arthur estava querendo falar alguma coisa para mim, alguns minutos depois ele resolveu falar o que queria dizer.

— Eu queria saber se você está pensando bem naquele assunto.

    Aquele assunto? Lembrei! Sobre a gente namorar, eu ainda não tenho uma resposta exata sobre isso, mas como vou dizer isso para ele?

    Ele estava parado bem na minha frente me olhando com uma pressão enorme, eu peguei uma enorme fatia de pizza com recheio de pepperone e enfiei toda na boca. Ele espera euterminar de mastigar, semicerrando os olhos.

    Por fim, terminei de mastigar, não tenho outra saída, preciso responder à sua pergunta.

— Olha… eu não tenho uma resposta para a sua pergunta agora, eu reconheço todo o seu carinho por mim, mas eu estou com a vida turbulenta nesse momento.

    Eu espero que ele me entenda.

— Ok, eu acho que já estou ficando persistente demais com esse assunto, mas eu quero que você saiba que eu não vou desistir de ser seu namorado.

— Eu juro que quando tudo estiver melhor, eu te darei uma resposta decisiva — respondi.

    Ficamos conversando por mais algum tempo, falamos do passado de quando estudamos na mesma universidade, falamos sobre os professores que amávamos e  a gente odiou.

    Arthur tem um bom papo, sinto que nossa amizade pode ir longe e talvez, quem saiba, não vire um relacionamento.

    Acordei com uma disposição enorme de ir para a empresa, minha ansiedade para fazer todo esse marketing com aqueles carros maravilhosos me deixa louca.

— Não vai tomar café? Eu fiz panquecas.

    Alicia estava na mesa com um pedaço enorme de panqueca na boca.

— Fala de boca fechada Alicia.

— E como foi ontem?

— Sinceramente, ele mais uma vez pediu para namorar comigo.

— Por que não dá uma chance para ele logo? — perguntou Alicia.

— Eu ainda não sei o que sinto, e outra, a beleza do CEO da Cars Future me cativou.

     Alicia olhou para mim, rindo.

— Não é possível, se apaixonou pelo bilionário? Você acha que ele te daria uma chance?

    Peguei um pedaço de panqueca e enfiei na boca.

— É claro que não, e ele provavelmente tem um caso com a secretária peituda.

— Mas não desista, se ele não assumir a secretaria, talvez você tenha chance.

— Eu não quero ficar no caminho deles.

    Peguei minha bolsa barata que comprei no brechó, coloquei minha jaqueta preta e fui para a empresa.

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