Quando finalmente completei dezoito anos, soube que o momento de enfrentar o mundo havia chegado. Crescer em um orfanato, sem respostas sobre quem sou ou de onde vim, moldou minha visão de futuro com incertezas. Meus pais? Não faço ideia de quem sejam. Fui deixada ainda bebê, com apenas alguns meses de vida, e desde então ninguém apareceu, ninguém procurou por mim. Essa ausência de identidade me frustrava cada dia mais enquanto os anos se arrastavam dentro daquelas paredes frias e solitárias do orfanato.
Com a maioridade batendo à porta, era hora de seguir em frente. Foi então que uma das irmãs, percebendo minha angústia, recorreu à ajuda de Berta Still, uma mulher generosa que decidiu me acolher em sua casa. Berta não apenas me ofereceu um lar temporário, como também me arranjou um emprego. Sempre sonhei em cursar Medicina, e tão logo
comecei a trabalhar, ingressei na faculdade com muito esforço e gratidão no coração.
O problema é que trabalho para o senhor Stark. Damian Stark. Um homem sério, de semblante duro, e que exala uma aura de autoridade que me faz estremecer só de pensar em encará-lo. Sei que preciso vencer essa timidez, afinal, não faço ideia de quanto tempo ele vai tolerar meus deslizes e minha inexperiência e os meus desastres.
Assumir o cargo de secretária na empresa dele nunca foi algo que imaginei para meu primeiro emprego. Achei que começaria com algo mais simples, algo que combinasse com alguém que mal conhece o mundo real. Mas ao receber a proposta, vi ali uma oportunidade única, um desafio à altura dos meus sonhos. E, quem sabe, uma porta que me levasse mais perto do futuro que desejo.
Contudo, meu primeiro encontro com Damian Stark foi tudo, menos acolhedor. Ao entrar em sua sala, com um sorriso educado e esperançoso, fui imediatamente engolida por aquele olhar impetuoso que parecia atravessar minha alma. Havia algo de feroz e selvagem em seu olhar, algo que me obrigou a engolir o sorriso na mesma hora.
- Bom dia, senhor Stark! Eu sou sua nova secretária e vim para atualizá-lo sobre a sua agenda, anunciei, tentando manter firmeza na voz, mas falhei miseravelmente.
Ele não respondeu. Apenas me observou em silêncio, sentado em sua imponente cadeira de couro, e com um gesto seco, apontou a cadeira à minha frente. Sentei-me com as mãos trêmulas e, em um deslize desastroso, deixei cair a agenda eletrônica no chão. Pedi desculpas rapidamente, tentando não demonstrar meu desespero, mas percebi sua impaciência crescendo. Meu jeito retraído e o hábito de manter os olhos baixos pareciam irritá-lo.
Ainda assim, ele nada disse. Apenas me instigou, com o olhar, a continuar. Tomei fôlego e comecei a ditar sua agenda: reuniões com fornecedores, entrevista para a revista Forb Car, visita aos galpões de exposição e um jantar com Madeleine Stark, sua mãe.
Ao encerrar, ergui os olhos e encarei o CEO por um breve instante. Ele me observava com atenção, como se estivesse tentando decifrar cada camada da minha alma.
- Eu já terminei - disse, com um leve tremor, esperando que me dispensasse para voltar à segurança da minha mesa. Mas não foi o que aconteceu. O telefone tocou e, por um segundo, acreditei que poderia sair da sala. Em vez disso, ele levantou a mão e me ordenou, sem palavras, que permanecesse. Enquanto falava ao telefone, afastado de mim, aproveitei para observá-lo com mais atenção.
Seu rosto era quadrado, de traços fortes e inexpressivos. As sobrancelhas grossas se uniam com frequência, formando uma expressão de constante desagrado. Seus lábios finos, de um rosado pálido, se comprimiam a cada resposta ríspida. Era impossível decifrar o que se passava por trás daquela fachada. E então, por um breve instante, juro que vi algo estranho, um leve brilho amarelado em seus olhos.
Não, isso foi coisa da minha cabeça. Deve ter sido a luz. Tentei me convencer.
- Senhorita Cross, preciso que me traga as pastas com os documentos de engenharia e desenvolvimento. Preciso revisar os desenhos técnicos e avaliar dimensões, tolerâncias e desempenho dos croquis para as novas frotas - disse ele, sem rodeios.
Ele não pedia. Ordenava.
Aliviada pela chance de sair de sua presença, levantei-me prontamente e corri para cumprir a tarefa. Havia algo nele que me deixava inquieta, quase como se... meu instinto quisesse me alertar sobre um perigo invisível.
Após entregar tudo que ele solicitou, voltei à minha mesa e mergulhei no trabalho: responder e-mails, organizar os compromissos do dia seguinte, e tentar em vão afastar da mente a imagem daquele olhar que parecia esconder algo mais profundo... e sombrio.
Nos primeiros dias, me se sentia como uma peça fora do lugar.
A rotina na Stark Tech era intensa, marcada por prazos apertados, reuniões frequentes e funcionários que se moviam com precisão quase militar pelos corredores envidraçados. Todos pareciam saber exatamente o que estavam fazendo menos eu.
Chegava antes das sete, mesmo que o expediente começasse às oito. Precisava de tempo para respirar, organizar a mesa, revisar a agenda do dia e preparar os relatórios que Damian exigia pontualmente. Os olhos dele não perdoavam atrasos. E, ainda que não gritasse ou fizesse escândalos, o silêncio carregado de reprovação era o suficiente para fazer me encolher por dentro.
Seu escritório era minimalista, moderno, e impecavelmente limpo. Suspeitava que até a poeira tivesse medo de aparecer ali.
As manhãs eram tomadas por atualizações de cronogramas, conferência de contratos e e-mails longos demais que ela tinha que traduzir e sintetizar para o CEO. À tarde, organizava documentos, acompanhava Damian em reuniões ou repassava pautas com os setores jurídico e comercial. Aprendeu a lidar com os temperamentos difíceis de alguns diretores e o desprezo de algumas secretárias veteranas que me tratava como se fosse um erro de RH.
Mas o que mais consumia sua energia era a constante tensão ao redor de Damian. Ele parecia onipresente, mesmo quando estava trancado em sua sala. O som de seus passos no corredor bastava para fazer o meu coração acelerar.
Tentei aprender rápido. Passava noites estudando termos técnicos, engenharia básica, estratégias empresariais. Era a forma de sobreviver, e provar que não estava ali apenas por sorte.
Apesar disso, cometer erros era inevitável. E Damian não era condescendente.
- Senhorita Cross, o relatório da Forb Car deveria ter sido entregue ontem às 18h, não hoje pela manhã - disse ele certo dia, com a voz grave e baixa, enquanto folheava os papéis que ela havia deixado sobre a mesa.
Diana baixou a cabeça.
- Eu... tive problemas com o anexo, senhor. Achei que havia enviado, mas...
- "Achou" não é um verbo que serve em uma empresa como esta. Aqui, lidamos com certezas, não suposições.
Ela engoliu em seco, sem ousar responder. Por dentro, a raiva e a vergonha brigavam para ver quem a derrubaria primeiro.
Por outro lado, havia momentos, raros e confusos, em que Damian parecia observá-la com algo diferente nos olhos. Curiosidade, talvez? Ou era apenas sua imaginação tentando amenizar a pressão?
Certa tarde, enquanto organizava arquivos na sala de reuniões, ouviu a porta se abrir discretamente.
- Você sempre fica depois do horário?
Ela se virou, surpresa. Era ele. Sem terno, com as mangas da camisa dobradas e o olhar menos frio do que o habitual.
- Sim, senhor. Ainda tenho algumas pendências - respondeu, tentando manter o tom neutro.
Ele a observou por um tempo que pareceu longo demais. Em seguida, apenas assentiu e saiu sem dizer mais nada. Fiquei parada por alguns segundos, sem entender aquele breve momento de... humanidade?
Aos poucos, começou a notar outros detalhes. Damian evitava toques. Não gostava de ser chamado pelo primeiro nome. Nunca sorria. E embora comandasse tudo com mão de ferro, seu olhar denunciava um cansaço antigo, quase crônico.
E hoje, definitivamente, não era o meu dia.
Tudo começou naquela maldita hora em que resolvi levar o café para o meu chefe. Ele já estava visivelmente irritado, dava para sentir isso no ar antes mesmo de abrir a porta , mas eu precisava cumprir com minhas funções, então engoli o medo e fui.
Assim que entrei na sala, percebi que não seria simples. O ambiente estava carregado, como se cada centímetro do espaço soubesse que algo estava prestes a dar errado. Eu mal consegui sustentar o olhar, só queria deixar o café na mesa e sair dali o mais rápido possível.
Mas o destino, cruel como sempre, resolveu brincar comigo.
Tropecei.
Não sei como, nem onde meu pé se enroscou, mas tudo aconteceu rápido demais. A bandeja escapou das minhas mãos, o copo voou e o café quente... caiu direto sobre ele.
Na camisa impecável. Na mesa de vidro. No orgulho dele.
O rosnado que ele soltou... foi quase animal. Um som grave, gutural, que pareceu vibrar dentro de mim. Me fez tremer por dentro, como se cada osso do meu corpo quisesse desaparecer.
Tentei me justificar, claro. Balbuciei algo sobre o chão escorregadio, sobre o cansaço, sobre qualquer coisa que pudesse explicar o desastre, mas nada justificava. Nada.
Ele não gritou, não precisou. A ordem para que eu saísse da sala foi seca, direta. Como uma sentença. E eu obedeci, com o coração aos pulos e um nó na garganta que parecia feito de cacos de vidro.
Passei o resto do dia me arrastando pela empresa, me sentindo uma intrusa. Cada vez que alguém me olhava, eu tinha certeza de que sabiam. Que comentavam. Que riam por dentro.
E quando finalmente chegou o fim do expediente, nem esperei o relógio marcar a última batida. Desliguei meu computador, peguei minha bolsa e fui embora.
Fugir parecia a única opção.
Assim que saí do prédio, peguei o celular e vi várias chamadas perdidas da Berta. Meu coração deu um salto. Ela não costumava ligar tanto assim. Será que algo aconteceu?
Mas eu só queria chegar em casa. Precisava de um banho. De silêncio. De um pouco de dignidade.
Não demorou muito até que eu colocasse a chave na porta e entrasse. E lá estava ela. Berta. Pronta, arrumada, com um vestido justo e um salto que eu jamais conseguiria usar sem tropeçar.
- Dih! - ela exclamou animada. - Estava tentando falar com você! Vá se arrumar, tenho entradas pra uma nova casa de shows que acabou de abrir. Está todo mundo indo!
- Nem pensar. - murmurei, deixando a bolsa cair no sofá. - Preciso descansar. Hoje o dia foi um desastre.
- Por isso mesmo! - ela insistiu, empolgada. - Vamos! Prometo que voltamos logo. Você não vai me negar isso, vai? Por favorzinho??
O olhar dela, aquele brilho no rosto... e talvez um pouco da culpa me corroendo ainda por dentro, me fizeram ceder.
- É... quem sabe seja bom mesmo. Preciso esquecer esse dia.
Ela comemorou como se tivesse ganhado na loteria, e eu fui direto para o banheiro. Precisava de um banho, de água quente, de tentar lavar um pouco da vergonha que ainda grudava na pele.
Enquanto a água escorria, a única coisa que vinha à minha mente era a expressão dele. O rugido, o olhar de fúria, o jeito como me expulsou da sala.
Merda, Diana. Você precisa ser mais atenta. Mais forte. Menos você.
Suspirei fundo, tentando empurrar o pensamento para longe.
Minutos depois, estávamos entrando na casa de shows. As luzes, a música, o ambiente todo pareciam girar em torno de uma energia pulsante. Gente bonita, animada, euforia no ar.
Mas algo dentro de mim apertou. Um desconforto. Um aviso. Como se meu corpo soubesse de algo que minha mente ainda não entendia.
- Berta... - tentei dizer. - Acho que não vou ficar...
Antes que pudesse recuar de verdade, os seguranças já haviam aberto caminho, e fui praticamente empurrada para dentro com ela.
Ficaria alguns minutos. Só até ela se distrair. Depois daria uma desculpa e iria embora.
Pelo menos, esse era o plano.
O que eu não esperava... era que ele estivesse aqui.
Damian. No mesmo lugar que eu. E que, por algum motivo que eu ainda não conseguia entender, seu olhar me encontrasse no meio da multidão. Como se me reconhecesse pelo caos que eu carregava. Como se me enxergasse antes mesmo de querer me ver.
E naquele instante, soube que o desastre do café não seria o maior problema da minha noite.
- Diana?
O som da minha voz me chamando faz meu estômago embrulhar.
Congelo. Meu corpo inteiro fica gelado como se tivesse sido mergulhado em água fria. Reconheceria aquela voz em qualquer lugar grave, firme, com um timbre que carrega autoridade e ameaça em igual medida.
Viro devagar. E ali está ele.
Damian Stark.
Meu chefe. O homem que mais me intimida no mundo.
Sinto o rosto perder a cor. O coração dispara tanto que quase me sinto zonza. Não deveria estar aqui. Eu sei disso. Não neste lugar. Não desse jeito. Tudo em mim denuncia o erro. A roupa, o olhar culpado, a respiração curta.
- Eu... eu não sabia que o senhor vinha... eu só vim acompanhar uma amiga... não é o que parece...
As palavras saem fracas. Não consigo sustentá-lo com o olhar. Me odeio por isso. Odeio parecer sempre essa versão frágil de mim quando ele está por perto. Mas não consigo controlar.
E o pior... não é só medo. É vergonha.
Vergonha de estar ali, vulnerável, fora do lugar. De ser vista por ele como alguém menor. Como se eu fosse uma criança brincando num mundo de adultos.
Ele não responde. Apenas me encara. Aquele olhar dele me fura, me desnuda, me desmonta. E então, a ordem vem:
- Venha comigo.
A voz é seca. Sem espaço para negociação. Meu corpo reage antes da minha mente. Hesito.
- Eu... não posso... minha amiga...
- Agora, Diana.
Engulo em seco. Não consigo dizer "não" a ele. Nunca consegui. Me sinto como uma sombra quando o sigo por entre a multidão. Meus olhos não focam em ninguém. Quero desaparecer.
Ele me leva até um dos camarotes no andar superior, longe de tudo e todos. Assim que entramos, ele fecha a porta atrás de nós. O som do trinco me faz pular por dentro.
Me viro devagar. Ele está me encarando de novo. A tensão entre nós é densa, quase visível.
- Você tem ideia do que está fazendo? - pergunta, a voz ainda carregada, embora mais baixa.
Respiro fundo. Preciso responder. Preciso ser firme.
- Eu não vim aqui para isso... e nem sabia que o senhor estaria... eu juro. Não estou mentindo.
Me surpreendo com a força da minha própria voz. Ele se aproxima. Um passo. Eu recuo. Outro passo. E meu corpo encontra a parede.
Mas, dessa vez, não desvio o olhar.
Por dentro, estou tremendo. Por fora, luto pra manter a firmeza. Ele me encara com aquela intensidade que mistura raiva, julgamento e... algo mais. Algo que me assusta tanto quanto me atrai.
- Fale a verdade. Você veio aqui por quê? Está envolvida com alguém? Está me espionando? Tentando... subir na empresa?
As acusações me atingem em cheio. Fico atônita.
- O quê? O senhor acha que eu...?
- Eu não sei o que pensar, Diana! - ele explode. - Você aparece na minha vida feito um erro de sistema, tropeça, derruba café, me tira do eixo... e agora aparece aqui, nesse lugar, como se nada demais estivesse acontecendo!
O calor sobe ao meu rosto. A indignação me toma.
- Eu só vim acompanhar uma amiga! - rebato, a voz mais alta do que eu mesma esperava. - Eu nem queria vir, mas ela insistiu, disse que seria rápido! Eu nem sabia que esse lugar era assim, e muito menos que o senhor viria aqui!
Ele me encara, como se tentando decifrar a verdade.
- Está dizendo que foi uma coincidência?
- Estou dizendo que o senhor está me julgando sem saber de nada!
O silêncio que segue é sufocante. Meu peito sobe e desce com força. Estou no limite. Mas não abaixo a cabeça. Não pra ele. Damian parece tão perdido quanto eu. Como se estivesse lutando com algo dentro de si. Algo que não pode nomear. E então pergunto o que está entalado em mim desde o primeiro segundo:
- Por que está tão incomodado com a minha presença aqui? É porque sou sua funcionária? Porque sou desajeitada demais pra estar num lugar como esse? Ou porque te incomoda o fato de eu não fazer parte do seu mundo perfeito?
Ele se aproxima. Mais um passo. Mas dessa vez, eu fico. Não fujo.
- Você não faz parte do meu mundo - ele diz com frieza. - Mas, de alguma forma... ele tem girado em torno de você nos últimos dias. E isso é um problema.
Sinto um nó na garganta. Mas não desvio. Não dessa vez.
- Então me demita.
O ar se parte entre nós. Ele empalidece. Trava o maxilar. Mas... não responde. E eu vejo nos olhos dele o que ele não quer dizer.
- Não posso - ele murmura. - E isso me irrita mais do que você imagina.
Meu coração parece dar um salto. Mas não é felicidade. É confusão. Medo. Tudo misturado num caos que me enlouquece.
- Então o problema não sou eu. O problema é o senhor, senhor Damian. Que não sabe o que sente, nem o que fazer com isso.
Ele avança de novo. Dessa vez tão perto que posso sentir o calor do seu corpo. Meu coração martela. A respiração prende. Mas não me mexo.
- Eu sou o homem que manda nesse império - ele diz, baixo, tenso, os olhos passeando entre meus lábios e meus olhos. - O que dita regras, muda rotas e faz impérios se curvarem. Mas com você... nada faz sentido. E se isso for um jogo, Diana, você está brincando com fogo.
Engulo seco.
- Não é um jogo - sussurro. - Mas se fosse... talvez eu já estivesse queimando.
Por um instante, tudo para. O mundo deixa de existir. Só nós dois, presos nesse campo de força invisível.
Mas ele se afasta.
O ar volta. Mas deixa um vazio no lugar.
- Vá para casa. Agora. E amanhã... não chegue atrasada.
Ele vira de costas, como se encerrar aquela conversa fosse sua única forma de não ceder.
Como se esperasse que ele dissesse algo mais. Mas ele não diz.
Saio, com o coração na garganta, sabendo que, depois daquela noite, nada mais será o mesmo.
Capítulo liberado!!!!
Espero que vcs gostem!!!