A cobertura que eu dividia com Caio parecia estranha. Desde que Helena se mudou há um mês, após um "pequeno incêndio na cozinha" em seu próprio apartamento, o espaço vinha sendo lentamente colonizado por suas coisas. Suas almofadas floridas destoavam da minha decoração minimalista. Seu perfume barato e doce impregnava o ar, apagando meu cheiro favorito de sândalo.
Caio havia satisfeito todos os seus caprichos. Ele me disse que ela era da família, que estava de luto, que tínhamos que ser pacientes. Eu tentei. Mas esta noite, essa paciência se estilhaçou.
A ferida da cerimônia ainda estava fresca, um buraco aberto e em carne viva no meu peito. Eu queria quebrar alguma coisa, gritar, mas apenas afundei no sofá, exausta.
Rolei o feed do meu celular sem pensar, tentando me distrair. Um novo post de Helena apareceu. Era uma foto do pulso dela, adornado com um relógio novo, cravejado de diamantes. A legenda dizia: "Um presentinho de comemoração para mim! #abençoada #novoscomeços"
Eu reconheci o relógio. Era uma peça de edição limitada que eu havia mostrado a Caio semanas atrás. Ele tinha dito que era lindo, mas ridiculamente caro.
Atrás do pulso dela, a mão de um homem repousava sobre a mesa. O punho de seu terno escuro, o brilho de seu próprio relógio familiar — era Caio.
Um gosto amargo encheu minha boca. Lembrei-me do meu próprio aniversário no mês passado. Ele se esqueceu até o último minuto e mandou seu assistente entregar um buquê genérico de flores.
Vi o pequeno ícone de coração sob o post de Helena. Caio Hanson havia curtido.
Meu polegar pairou sobre a tela. Então eu a desliguei, uma única lágrima quente rolando pelo meu rosto.
Passava da meia-noite quando os ouvi na porta. Eles estavam rindo, tropeçando no hall de entrada. Ambos estavam bêbados.
"Clara, pegue um copo d'água para a Helena", Caio gritou, sua voz arrastada enquanto a ajudava a se sentar no sofá.
Eu não me movi. Apenas fiquei sentada no escuro, observando-os.
"Ela não está se mexendo", Helena arrastou as palavras, apontando um dedo preguiçoso para mim. "Ela está quebrada?"
Levantei-me e caminhei em direção ao meu quarto, sem vontade de me envolver.
"Não ligue para ela", ouvi Helena sussurrar alto. "Vem aqui, Caio."
Parei na porta do meu quarto, de costas para eles.
"Caio..." A voz dela era um murmúrio suave e enjoativo. "Você é tão bom para mim."
Então ouvi o som de um beijo. Um som úmido e desleixado que revirou meu estômago.
Congelei, ouvindo.
"Sabe", Helena riu, "você é muito melhor do que seu irmão jamais foi."
Esperei que Caio a afastasse, que dissesse que ela estava bêbada, que estava passando dos limites.
Mas ele não o fez.
Em vez disso, ouvi o farfalhar de roupas, seu gemido baixo.
Minha mão voou para a boca para abafar um grito. Virei-me lentamente, meus olhos se arregalando em descrença com a cena no sofá. Ele a estava beijando de volta, suas mãos emaranhadas no cabelo dela.
Meu cotovelo derrubou um vaso da mesa lateral. Ele se estilhaçou no chão de mármore.
O som os separou com um choque. Caio olhou para cima, seus olhos arregalados e em pânico quando me viu.
"Clara... não é o que parece. Nós estávamos apenas..."
"Não", sussurrei, minha voz trêmula. "Não me toque."
Ele começou a caminhar em minha direção, mas minhas palavras o detiveram.
De repente, Helena fez um som de ânsia. "Caio, acho que vou vomitar."
A atenção dele se voltou para ela instantaneamente. Ele correu para o lado dela, todo preocupação e cuidado.
"Está tudo bem, eu te ajudo. Vamos para o banheiro."
Ele a guiou para longe, seu braço protetoramente em volta dela, me deixando sozinha nos destroços da minha vida. Eu o observei ir, lembrando de todas as vezes que ele me segurou com a mesma gentileza.
Era tudo uma mentira. Nosso amor, nosso futuro, tudo.
Enxuguei as lágrimas do meu rosto com as costas da mão. Meus movimentos eram calmos, deliberados. Uma estranha sensação de clareza tomou conta de mim.
Este era o fim.
Entrei no meu escritório, não no meu quarto. Peguei o telefone e disquei para meu agente.
"Clara? É tarde. Está tudo bem?"
"Estou pedindo demissão", eu disse, minha voz vazia. "Cancele meus próximos projetos. Todos eles."
"O quê? Clara, do que você está falando? Você está no auge da sua carreira!"
"Eu cansei", repeti. "Vou sair do país. Preciso de uma mudança."
Eu estava cansada desta cidade, desta vida, do homem que me prometeu o mundo e depois o deu a outra pessoa.
A notícia sobre o Prêmio Pináculo explodiu online. Helena Garrett, a arquiteta desconhecida, tornou-se uma sensação da noite para o dia. A narrativa era perfeita: uma viúva enlutada, apoiada por seu gentil cunhado, um titã da indústria, faz um retorno triunfal.
Acordei com meu celular vibrando com notificações. Cada manchete era sobre Helena. Cada artigo trazia uma citação elogiosa de Caio sobre seu "potencial inexplorado".
Ignorei tudo e comecei a fazer as malas. Movi-me com um propósito único, tirando minhas roupas do armário, dobrando-as em malas. Isso era real. Eu estava indo embora.
Caio entrou, seu cabelo ainda úmido do banho. Ele viu as malas abertas e franziu a testa.
"O que você está fazendo?"
"Limpando meu armário", eu disse sem olhar para ele.
Ele pareceu relaxar, um lampejo de alívio cruzando seu rosto. "Ótimo. Escute, Helena fará sua primeira aparição pública no lançamento da Torre Mirante hoje. Preciso que você vá com ela."
A Torre Mirante era meu projeto. Eu a projetei do zero.
"Você quer que eu o quê?"
"Ela está nervosa", disse ele, seu tom mudando de alívio para comando. "Como arquiteta sênior, você deveria apoiar uma novata."
Eu ri, um som agudo e sem humor. "Apoiá-la? Você quer que eu fique lá sorrindo enquanto ela leva o crédito pelo meu trabalho?"
Seu rosto endureceu. "Não seja mesquinha, Clara. Ela é minha cunhada. É seu dever ajudar."
"Assim como era seu dever beijar sua cunhada no nosso sofá ontem à noite?"
O rosto dele escureceu. "Estávamos bêbados. Foi um erro."
"Dar a ela o meu prêmio foi um erro também?"
"Você precisa aprender a ser mais como a Helena", ele retrucou. "Ela é doce e compreensiva. Ela não dificulta as coisas."
Nesse momento, Helena apareceu na porta, parecendo angelical em um vestido branco. "Clara, você está pronta? Caio disse que você viria comigo hoje!"
Ela olhou para mim, seus olhos brilhando com triunfo. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
"Eu não perderia por nada neste mundo", eu disse, minha voz pingando sarcasmo.
A visita ao local foi um pesadelo. Helena se agarrou ao meu braço, fingindo que éramos as melhores amigas para as câmeras.
"Clara tem sido uma grande mentora para mim", ela se derramou para um repórter. "Aprendi muito com ela."
Eu apenas sorri, um esticar tenso e doloroso dos meus lábios.
O evento principal era uma caminhada por uma ponte de aço temporária conectando duas seções da torre, a centenas de metros no ar. Estávamos todos presos a arneses de segurança.
"Eu vou primeiro!", Helena disse animadamente, pisando na ponte à minha frente.
Ela foi um desastre. Balançava e tropeçava, seu medo fingido fazendo a ponte tremer. Várias vezes, seu braço se agitando quase me desequilibrou.
"Helena, cuidado", avisei, minha voz tensa.
Ela olhou para trás, um sorriso de escárnio no rosto. "Não se preocupe, estou bem!"
Então, ela "tropeçou". Seu corpo deu um solavanco e, ao cair, sua mão disparou e agarrou minha linha de segurança. O puxão súbito e violento quebrou o clipe do meu cinto de segurança.
O tempo desacelerou. Senti-me caindo, o vento passando zunindo pelos meus ouvidos. Atingi a rede de segurança abaixo com um baque nauseante. O impacto enviou uma onda de dor por todo o meu corpo.
Através de uma névoa de dor, vi Caio correr para a ponte.
Ele passou correndo por mim.
Ele correu para Helena, que agora estava "inconsciente" na ponte. Ele a pegou nos braços, seu rosto uma máscara de fúria.
"Que diabos aconteceu?", ele rugiu para o gerente do local. "É assim que vocês garantem a segurança?"
A equipe correu para frente, desculpando-se profusamente.
Helena se mexeu nos braços dele, gemendo. "Estou com tanto medo, Caio."
Eu estava deitada na rede, incapaz de me mover, cada respiração uma agonia. Ninguém estava olhando para mim. Ele nem sequer olhou na minha direção.
Finalmente, um paramédico me alcançou. "Senhora, consegue me ouvir? Estamos chamando uma ambulância. Não se mova."
O olhar de Caio piscou para mim por um breve segundo, sua expressão fria e irritada, como se meu ferimento fosse um inconveniente.
Minha assistente, Lilian, correu para o meu lado, lágrimas escorrendo pelo rosto. "Clara! Você está bem?" Ela se virou para Helena. "Você fez isso de propósito!"
Helena enterrou o rosto no peito de Caio. "Eu não... Ela me empurrou..."
Caio lançou um olhar para Lilian que poderia congelar fogo.
"Cuidado com o que você fala", ele rosnou. "Clara deveria ter sido mais cuidadosa. Agora olhe o problema que ela causou."
A dor atravessou minhas costelas, mas não era nada comparada à dor no meu coração. Ele estava me culpando.
Olhei para o esqueleto de aço da torre contra o céu, minha torre, e uma única lágrima escapou e traçou um caminho pela sujeira na minha bochecha.