Capítulo 2

Lívia Narrando

Bom, é claro que na TV mostra como são as casas aqui, mas eu não imaginava que algumas eram literalmente em cima de pedras, alguns becos são minúsculos mas por sorte a escola ficava numa rua razoavelmente grande, onde o portão da Escola se encontrava ao centro, as paredes dos muros eram pixadas com um grande desenho de gramas e crianças brincando, e talvez a parte mais linda desse morro seja esse mundo imaginário.

E como ainda estava cedo, os alunos não haviam chegado. Mas aproveitei para ir conhecendo o lugar. Quando pisei o pé dentro daquele ambiente fiquei muito encantada com todo aquele capricho, não estava diferente de uma escola num bairro bom do RJ, o dono daqui deve realmente amar educação.

- Você deve ser a professora nova não é? - Uma mulher de aparentemente cinquenta anos disse com um sorriso sincero.

- Bom dia, tudo bem? Sou! Meu nome é Lívia Azevedo - Estendo minha mão satisfeita.

- Seja bem vinda Lívia, espero que sua passagem aqui seja duradoura, meu nome é Ana e sou a diretora desse colégio a quase trinta anos. - ela confessa.

- Obrigada, será um prazer! Mas porque Maria de Lourdes? - Pergunto curiosa.

- Maria de Lourdes foi a primeira professora do morro, graças a ela alguns moradores aqui conseguiram se alfabetizar - Explicou. - Bom Lívia, não sei se te informaram mas você vai ficar com os pequenos de quatro a cinco anos, eles estão sem ninguém.

- Informaram sim, agradeço imensamente a sua confiança em mim.

- Vou mostrar sua sala, daqui a pouco todos chegam tudo bem? - Assinto e ela me acompanha até a sala, também já aproveitou e mostrou todos os cômodos da escola, apesar de ser linda não é tão grande como imaginei, a Ana me explicou que esse é um colégio do ensino fundamental um e que as séries próximas são feitos em outra escola fora do morro.

Quando ela apresentou a minha sala de aula fiquei abismada quando notei que a antiga professora não colava nada nas paredes pra melhor entendimento dos pequenos.

- Você pode se acomodar aqui Lívia, mas tarde volto com as crianças – Ela afirmou simpática mas logo saiu.

Eu tinha uma mesa grande, um quadro e vinte alunos e muita fé para dar o meu melhor. Fiquei muito ansiosa não vou negar, e quando ouvi que eles estavam vindo fiquei de pé e esperei que eles entrassem todos em fileiras.

Eram realmente crianças pequenas, a maioria eram meninas pra ser mais exata, mais só quando eles sentaram perceberam a minha presença ali.

- Crianças, essa é a tia Lívia, é ela que vai ficar com vocês apartir de hoje.

- Obrigada por tudo Ana - Agradeci e ela saiu da sala.

Quando fechei a porta senti aqueles olhinhos pequenos em cima de mim.

- Meu nome é Lívia mas podem me chamar de tia Liv tudo bem? eu estava muito ansiosa para conhecer vocês - Disse com uma voz calma.

Fiz algumas brincadeiras logo após para conhecer melhor cada um. E uma menininha de cabelos dourados cacheados me chamou bastante atenção, ela parecia não gostar muito de brincar.

- Raissa? Tudo bem com você tia? - Perguntei carinhosa mas ela ficou em silêncio.

- Você está dodoi? - Perguntei esperançosa.

- Me dexla in paz tia - Ela disse séria mas mesmo assim não consegui segurar o riso.

- Tudo bem princesa, estarei aqui se precisar.

E assim os dias foram passando, confesso que no começo não foi fácil, todos do morro pareciam me olhar estranho. Mas eu não dava importância pra isso.

Até que chegou o dia do meu primeiro "acidente" com os alunos, numa brincadeira durante o recreio dois pequenos acabaram se esbarrando sem querer e os dois cairam de joelhos ralados, conversei com a mãe do Pedro e expliquei o que aconteceu, ela entendeu e foi super gentil comigo, e agora estou aqui na sala esperando o tio da Raissa para falar com ele, a Ana me disse que ela perdeu a mãe a dois anos num acidente de carro, e que nunca soubemos quem era o pai da menina.

- Tia, tá dodói - Ela me chamou com os olhinhos cheio de lágrimas.

- Agente já limpou tudo meu amor, vai ficar bom logo logo - Expliquei pra ela que entendeu.

Tomei um susto quando a porta foi aberta com muita força, claramente era o tio da Raissa e como podemos ver ele não tem um pingo de educação, mas era extremamente gato, aí meu Deus Lívia, quando foi que tu virou uma Cláudia da vida.

- O que aconteceu tio, quem fez isso com você Raissa? O tio não vai deixar isso passar em branco princesa - Ele repetia e eu não me contive.

- Foi só um acidente, a outra criança não teve culpa - Falei séria, e só aí ele percebeu a minha presença ali.

- Tu é professora dela? onde tu tava que deixou minha sobrinha se machucar assim?

- Foi um acidente no recreio, todos os alunos passam por isso um dia - Tento explicar mas os olhos dele eram de fúria pra mim.

- Todos e o caralho mina, te pago bem pra porra e tu deixa isso acontecer com a minha sobrinha, sabe com quem tá falando?

- Com essa arrogância, já imagino quem seja - Retruco séria

- Devia abaixar tua bola patricinha, me disseram que ia mandar uma professora boa pra cá, e não uma boca aberta que não consegue cuidar de dez crianças - Eu ri.

- Senhor, acho melhor você falar com a senhora Ana, você não entenderia minha língua não é mesmo? - Debochei, se tem uma coisa que eu não sou é puxa saco.

- Quem vai falar com ela sou eu sacô, não te quero mais na porra do meu morro - Ele diz sério e eu apenas ouço.

- Tio, eu goto da tia Liv, não foi cupla dela,eu e pedo tava correndo rapidlo - Raissa diz segurando na mão dele, e foi como se toda aquela raiva sumisse do nada.

- Caramba Raissa, o tio já falou que não é pra correr pow - Ele a repreendeu, e me olhou em seguida.

- É melhor não deixar isso acontecer de novo tá ligada - ele disse, mas não me contive e acabei revirando os olhos pra ele.

- Tu não te medo de morrer mesmo não né mina? qual foi? tu já viu alguém revirar os olhos pro chefe - disse travando o maxilar.

- Na minha sala de aula, quem manda sou eu - Falei com um sorriso no rosto.

- Nossa conversa ainda não acabou beleza? Preciso levar a cria pra casa - Ele disse saindo dali com a Raissa, mas apesar de ser um ogro arrogante ele era muito mais gato que o tal de JP do outro dia.

Capítulo 3

Lívia Narrando

O dia hoje demorou muito pra terminar, a diretora veio falar comigo sobre o episódio de mais cedo, ela explicou que o tio da Raissa tinha um temperamento difícil mas que ele era uma boa pessoa, ele é conhecido como Rd, e olha que legal, também é o dono do morro e o pior bandido de todos, bom não foi assim que ela disse mas foi assim que eu entendi.

Assim que cheguei no ponto do táxi um dos homens estava sentado bem próximo.

- Ai mina, tua moto acabou furando, só tô avisando pra tu não achar que foi algum de nós aqui - Ele explicou com certa sinceridade na voz.

- Tudo bem, imprevistos acontecem. Afirmei - Sabe onde eu consigo uma oficina?

- Só subir mais duas quadras, tem um borracheiro lá - Ele explicou, então quando tentei subir ele falou - Vai andar na moto furada maluca? tá querendo dormir no morro mesmo?

- O que eu posso fazer? - Disse confusa

- Eu levo pra tu, tu pode subir com o Biel - Ele disse olhando pra um rapaz loiro, de olhos azuis e bom, parece que tatuagem é a farda deles, mas uma coisa que não entendo é porque tem tanto homem bonito aqui.

- Obrigada - Disse sem graça.

O rapaz gentil levou a minha moto empurrando até a borracharia, enquanto o loiro fez sinal que eu subisse na moto dele.

- Não precisa de capacete?

- Precisa aprender muito de favela mina, mas é aí tá gostando daqui? - O loiro perguntou.

- Dos alunos sim - Olhei em volta - Mas não posso reclamar, minha mãe tinha me avisado. - Ele sorriu.

- Se for esperta, vai se dar bem! Aliás meu nome é Gabriel - Ele avisou ligando a moto, ele tinha uma bela Xr 300 preta e parecia ter mais ou menos a minha idade.

Ele me levou até a borracharia como prometeu, e lá senti mais olhares sobre mim do que no ponto de moto táxi. O loiro desçeu junto comigo.

- Consegue fazer a força junin? - O loiro perguntou

- De boa, preciso de uns quarenta minutos - acabei ficando bem perto do Biel, quando notei que Rd estava no meio daqueles homens me olhando de canto de olho.

- Qual foi diabo loiro? tu é neguin virou mordomo da prof paty agora? - O tal Rd disse com uma voz grossa.

- A mina precisava Rd, conhece nada na favela. - Eles deram de ombros, como se não tivessem nem aí.

- Quer dar uma volta pelo morro? ou prefere ficar aqui com eles? - O loiro perguntou direto e eu não esperei mais nada pra subir na moto de novo.

                         Rd Narrando

Rd agora tá no papo! Cresci no complexo da rocinha, e o comando passou do meu pai pra mim a quase dez anos, o coroa morreu logo depois de passar a coroa dele, confesso que no começo foi difícil mas como tudo na vida passa acabei me acostumando. A única coisa que não me acostumo e com a falta da minha irmã Raiane. Nós dois éramos gêmeos e perder ela foi como se eu perdesse parte do coração que eu achei que nem existia mais tá ligado. A minha coroa Lúcia sempre tá pelos cantos chorando, a nossa única alegria lá em casa é a Raissa, foi a coisa mais linda que Raiane fez na vida dela, Raissa e nossa felicidade, e eu jurei protegê-la com meu sangue se for preciso.

Rd vem de Randle, Randle Maicon Reis ou como é conhecido pelos cu azul, procurado da polícia por criar o nosso mundo, aqui não tem governo, e o que eu puder fazer pelo povo do morro farei, não roubo pobre, se roubei alguma vez na vida foi de quem tinha pra mofar e não me arrependo por isso.

Não sou casado e nunca vou ser, aliança me dá alergia, então assim vou seguindo a vida, comendo quem eu quero a hora que eu quero, apesar de ter algumas emocionada no morro que acha que tem alguma coisa séria comigo só porque eu já repeti a foda algumas vezes, tipo a Vitória, a mina é linda mas gosta de foder o meu juízo, odeio melação mas elas não entende não pow, quer ficar colada e isso me estressa.

Eu tava de boa na boca essa semana quando Jp me chamou no rádio avisando da entrada da professora da dona Ana, já mandei ele se virar com isso porque eu tava ocupado demais. JP e eu crescemos juntos aqui no morro, e ele é como se fosse um irmão pra mim, não é nenhuma novidade já que coloquei ele do meu lado aqui no comando. Jp é filho de dona Suzane, irmão mais velho de Gabriela e Gabriel que também trabalha pra mim como gerente de algumas vielas do morro.

Quando dona Ana ligou eu tava fumando um beck pra descontrair, mas quando ela falou no nome da Raissa meu sangue subiu em questão de segundos, praticamente voei pra aquela escola, e não vou negar que fiquei putasso com aquela professorinha, quase levei ela pras ideias por me descontrariar, mas depois de ouvir a voz doce da Raissa, a única coisa que me acalma nos últimos dois anos me fez perceber que ela era uma gostosa! pqp que mulher linda, mas o que tinha de linda tinha de marrenta. " Aqui na minha sala quem manda sou eu" foi o que ela disse, que audácia pow. Já chamou a atenção do pai.

- Fala pro teu irmão sair de cima Jp - Falei enquanto tomava uma cerveja na oficina do Junin e via o diabo loiro subindo com a morena.

- Qual foi? tá falando da prof paty?

- Tu viu outra aqui Zé mané

- Ficou de mal humor rápido hein - Debochou - Qual foi? todo mundo sabe que tu odeia patricinha.

- Já me viu recusar buceta onde fdp? Só avisa o teu irmão, não quero ele perto da mina nova.

- Fica de boa, claro que o chefe que vai experimentar primeiro e o Biel só tá levando a mina pra passear enquanto junin trabalha.

- Não importa, melhor avisar agora do que depois tá ligado.

- A tua preferida já tá ali te procurando - Ele disse e eu olhei vendo a Vitória subindo o morro com um micro vestido que caberia na minha mão.

- Sai de mim chulé.

Antes que ela pudesse se aproximar mais subo na moto e vou direto pra casa.

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