Ponto de Vista de Alice:
A vida parecia completa. Eu estava grávida. De gêmeos.
As palavras da médica ecoavam na sala silenciosa.
— Uma surpresa rara e linda, Alice.
Meu coração inchou com uma alegria que eu não sabia ser possível.
Eu mal podia esperar para contar a Arthur. Meu marido.
Ele estava em uma viagem de negócios, como sempre. Sempre ocupado, sempre voando.
Decidi fazer uma surpresa. Um voo espontâneo para o outro lado do país.
Imaginei o rosto dele. O sorriso largo, a maneira como seus olhos se enrugavam nos cantos.
Entrei furtivamente em sua suíte de hotel, minha mala rodando suavemente atrás de mim. A porta estava entreaberta.
A voz dele chegou até mim da sala de estar. Baixa e casual. Voz de homem.
Congelei. Minha mão ainda na maçaneta.
— Ela é boazinha demais — disse Arthur.
Suas palavras foram como um peteleco casual, mas me atingiram com força bruta.
— Como um chiclete que perdeu o gosto.
Minha respiração falhou. O ar de repente parecia rarefeito.
— Falta nela... aquele fogo — ele riu, um som que torceu algo dentro de mim.
Bruno, seu melhor amigo, riu de volta.
— É, sua ex-mulher tem fogo de sobra.
Meu estômago revirou. A alegria de momentos atrás azedou.
A voz de Bruno era provocativa.
— Ela te cansou nesses últimos dias, não foi?
Arthur Prado deu um sorriso presunçoso. Eu podia ouvir em seu tom, ouvir a arrogância.
— Ela? — ele zombou. — Ela só me usa como um vibrador de luxo.
Uma onda de náusea me atingiu. Mais forte do que qualquer enjoo matinal.
Meu corpo se rebelou. Minha cabeça girou.
O quarto de hotel, antes um símbolo de surpresa e amor, tornou-se uma jaula. As palavras ecoavam, me prendendo.
Meu amor. Meu lindo e frágil amor. Era uma mentira.
Uma performance cuidadosamente construída. Ele era um ator, e eu era sua plateia involuntária.
Ele não merecia meu amor. Ele não merecia a nós.
Os gêmeos se agitaram dentro de mim, um lembrete gentil de um futuro agora manchado.
A traição foi um golpe físico. Ela me esmagou.
Meu mundo perfeito se estilhaçou. Poeira dançava na fresta de luz da porta aberta.
Isso não era apenas um obstáculo no caminho. Era o fim. O fim absoluto.
Pressionei a mão na boca, lutando contra o gosto amargo que subia na minha garganta. Eu não conseguia respirar.
Ponto de Vista de Alice:
— A senhora tem certeza absoluta, Sra. Prado? — A voz da médica era gentil, quase uma súplica. Seus olhos continham uma profunda preocupação.
— Gravidez de gêmeos é muito rara, sabe. Uma verdadeira bênção. — Ela fez uma pausa, deixando as palavras pairarem no ar.
Assenti, com a garganta apertada.
— Tenho certeza, doutora. — Minha voz era um sussurro plano e oco.
Ela suspirou, um som suave e triste.
— Como desejar. Vamos preparar tudo.
Voltei para a cobertura, o silêncio ecoando meu vazio interior. Cada canto, cada móvel caro, gritava a decepção dele.
Balões flutuavam perto do teto. Uma faixa luxuosa proclamava: "Feliz Aniversário, Meu Amor!"
Meu coração parecia uma ameixa seca. A ironia era uma piada cruel.
— Surpresa! — Arthur surgiu de trás do sofá, com um sorriso largo e deslumbrante no rosto. Ele correu em minha direção.
Ele me envolveu em um abraço apertado. Seus braços pareciam pesados, sufocantes.
Ele beijou minha testa, depois meus lábios. Parecia errado. Sujo.
— Você voltou cedo — consegui dizer, as palavras com gosto de cinzas na minha boca.
— Não poderia perder o aniversário da minha esposa, poderia? — Ele piscou, me levando até uma mesa cheia de presentes.
A mão dele roçou a minha. Foi quando eu vi. Um pequeno curativo cor de pele no dedo indicador.
Meu olhar se prendeu naquilo. Uma pequena centelha de suspeita, fria e afiada.
Ele puxou a mão de volta, um pouco rápido demais.
— Vidro quebrado — murmurou ele, com um aceno desdenhoso.
Mas o formato daquilo... Não era um corte. Era uma indentação perfeita, em forma de meia-lua. Uma marca de mordida.
De Eduarda. Sua ex-mulher. O "fogo".
Ele gesticulou para uma caixa de veludo na mesa.
— Abra, meu amor. — Sua voz era suave, confiante.
Levantei a tampa. Um colar repousava lá dentro. Diamantes, brilhando contra uma almofada de veludo escuro.
Ele o pegou, seus dedos roçando meu pescoço enquanto o fechava em mim. Um arrepio de repulsa percorreu minha espinha.
Ele ajeitou meu cabelo, os lábios roçando minha orelha.
— Lindo, assim como você. — Sua voz era um murmúrio suave.
Eu vi então, no reflexo do espelho do outro lado da sala. O colar. Parecia familiar.
Eduarda tinha usado um igualzinho. Um presente rejeitado, provavelmente. Uma sobra do "fogo" dele.
Suas palavras, destinadas a serem doces, pareciam veneno. Eu queria arrancá-lo do pescoço.