Eu mesma cuidei dos meus ferimentos. O corte na bochecha, os hematomas nos braços. Cada nova marca era um lembrete fresco da traição de Breno. A dor física era uma dor surda, nada comparada à agonia no meu peito. Meu coração parecia um pedaço de vidro quebrado, as bordas afiadas cravando em mim a cada respiração.
Uma empregada bateu suavemente na porta, sua voz trêmula. "Sra. Sampaio... O Sr. Sampaio instruiu que seus pertences sejam movidos do quarto principal."
A humilhação final. Eu estava sendo despejada.
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu com violência. Bianca estava lá, de braços cruzados, com Débora Ferraz se escondendo atrás dela, espiando com olhos grandes e inocentes.
"Ainda aqui, Alina?", Bianca debochou. "Não ouviu meu irmão? Pegue suas coisas e se mude para o porão."
"Este ainda é o meu quarto", eu disse, minha voz baixa e perigosa.
Bianca riu, um som áspero e feio. "Não mais. Breno quer a Débora aqui. Com ele."
Apertei o roupão ao meu redor, tentando cobrir os hematomas que já estavam arroxeando na minha pele. "Saiam."
Débora recuou, uma imagem perfeita de uma corça assustada. "Bianca, talvez devêssemos ir. Não quero causar problemas."
"Ela é quem está causando problemas", retrucou Bianca, parando na frente de Débora protetoramente. Ela se virou para os empregados que hesitavam no corredor. "O que estão esperando? Movam as coisas dela! Agora!"
"Não se atrevam a tocar nas minhas coisas", avisei, minha voz soando com uma autoridade que eu não usava há anos.
Os empregados congelaram. Eles se lembravam de quem eu era. A filha do antigo chefe do Sindicato Sterling. A mulher que esteve ao lado de Breno enquanto ele subia ao poder.
O rosto de Bianca corou de raiva. Ela odiava que eu ainda tivesse esse poder sobre a equipe. "Você acha que ainda pode dar ordens? Você armou para a Débora, e o Breno sabe. Ele está do lado dela agora."
Ela se aproximou, sua voz caindo para um sussurro vicioso. "Ele está dando a ela este quarto. Ele está dando a ela tudo o que era seu."
Ela gesticulou para os empregados novamente. "Esta é uma casa dos Sampaio. Vocês vão obedecer às minhas ordens."
Desta vez, os empregados se moveram. Começaram a embalar minhas roupas, meus livros, minha vida, em caixas. Eu os observei, um vazio frio se espalhando por mim. Não adiantava lutar contra isso. Era uma batalha que eu não podia vencer.
Meu foco estava na guerra maior: a fuga.
Fiquei de lado, meu rosto uma máscara de indiferença, enquanto eles despojavam o quarto da minha presença.
Ouvi Bianca zombar quando pegaram uma simples caixa de música de madeira. "Olha esse lixo. Joguem fora."
Um sorriso amargo tocou meus lábios. Eu tinha comprado aquela caixa de música para Bianca em seu décimo aniversário. Eu a criei, a amei como uma irmã. E esta era a minha recompensa.
O porão era frio e úmido. O ar cheirava a mofo e terra. Meus pertences foram jogados em uma pilha no chão de cimento.
Quando me ajoelhei para organizar a bagunça, uma dor aguda atravessou meu joelho. Uma lesão antiga, de anos atrás. Eu tinha levado um tiro por Breno durante um tiroteio, uma cicatriz que eu usava com orgulho. Agora, ela só doía com a lembrança de um amor que estava morto.
Meus dedos roçaram em algo afiado. Era nossa foto de casamento, o vidro estilhaçado, a moldura rachada. Breno deve tê-la jogado aqui.
Meu coração se contraiu. Lembrei-me daquele dia tão claramente. O sol brilhava, e Breno me olhava com tanto amor que me tirava o fôlego. "Para sempre, Alina", ele sussurrara. "Você e eu, para sempre."
"Ainda apegada ao passado?"
Eu olhei para cima. Débora estava na porta, um sorriso presunçoso no rosto. Ela usava um dos meus roupões de seda.
"Olhe para você", disse ela, sua voz pingando falsa pena. "A grande Sra. Sampaio, morando em um porão. Enquanto eu estou na sua cama, com seu marido."
Eu a ignorei, pegando um suéter da pilha.
Seu sorriso desapareceu. Ela avançou e pisou com força na minha mão. A dor subiu pelo meu braço.
"Você é surda?", ela sibilou. "Estou falando com você."
Uma onda de pura fúria passou por mim. Agarrei seu tornozelo e torci. Ela gritou e caiu de joelhos, o rosto se contorcendo de dor.
"Aaaah!", ela gritou, um som projetado para trazer a casa inteira correndo.
Ouvi passos pesados descendo as escadas.
Breno invadiu o porão. Ele viu Débora no chão, agarrando o joelho, e seu rosto escureceu. Ele correu para o lado dela, envolvendo-a em seus braços.
"O que aconteceu?", ele exigiu, sua voz perigosamente baixa.
"Eu... eu só vim ver se ela estava bem", soluçou Débora, apontando um dedo trêmulo para mim. "Ela simplesmente me atacou. Sem motivo nenhum."
O olhar de Breno caiu sobre mim. "Por que você está no porão? Eu disse para eles te colocarem no quarto de hóspedes." Sua voz continha uma nota de irritação, como se minha localização fosse um inconveniente. Ele até olhou para minha perna. "A umidade faz mal para o seu joelho."
A falsa preocupação era nauseante.
Bianca entrou correndo atrás dele. "Breno! Ela atacou a Débora! Eu vi!"
O rosto de Breno ficou mais frio, seus olhos endurecendo enquanto olhava para mim. "Você não aprendeu a lição, não é?"
A lembrança das fotos humilhantes que ele tirou de mim passou pela minha mente. Eu mal conseguia respirar.
"Não fui eu", tentei explicar. "Ela..."
"Ela o quê?", Breno me cortou, sua voz pingando sarcasmo. "Ela se atacou? A Débora é gentil. Ela não machucaria uma mosca."
"Breno, por favor, a culpa é minha", sussurrou Débora, desempenhando seu papel perfeitamente. "Eu não deveria ter descido aqui. Eu vou embora. Não quero ser um fardo."
"Você não é um fardo", disse Breno, sua voz suavizando ao olhar para ela. Ele acariciou seu cabelo. "Esta é sua casa agora. Você não vai a lugar nenhum."
Ele se virou para mim, os olhos cheios de gelo. "Você se lembra das regras da família, Alina?"
Um arrepio percorreu minha espinha. As regras do Sindicato Sterling eram brutais, projetadas para manter a ordem através do medo. Eram para inimigos e traidores. Nunca para a família.
A regra principal para disputas internas era simples: quem causasse o dano tinha que se ajoelhar e pressionar a mão sobre a mesma coisa que causou a lesão, como sinal de penitência.
Débora, vendo a expressão no meu rosto, começou sua atuação novamente. "Breno, não. Por favor. Foi só um acidente. Não a castigue. Afinal, o pai dela costumava comandar tudo. Você... você ainda é visto como o sucessor dele."
Ela estava deliberadamente cutucando sua maior insegurança. Seu status como o homem que se casou com o poder.
A mandíbula de Breno se contraiu. Um sorriso frio tocou seus lábios. "Ela quebrou as regras. Ela precisa ser lembrada delas." Ele olhou para mim. "Ajoelhe-se."
Minha mente girou. "Ela não é membro desta família", eu disse, minha voz tremendo de incredulidade. "As regras não se aplicam a ela."
"Ela é minha mulher", Breno declarou, sua voz soando com autoridade absoluta. "Isso torna o assunto meu."
Ele se virou para Débora, sua expressão suavizando em ternura. Ele beijou sua testa. "Eu vou te proteger", ele sussurrou para que todos ouvissem.
Meu coração parecia estar sendo esmagado. O homem que jurara me proteger estava agora usando as regras do nosso mundo para proteger outra mulher, às minhas custas.
Fiquei paralisada, incapaz de me mover.
A paciência de Breno se esgotou. "Segurem-na", ele ordenou a seus homens.
Dois deles agarraram meus braços, forçando-me a ficar de joelhos. Eles empurraram minha mão para baixo, em direção ao vidro quebrado da foto de casamento no chão.
As bordas afiadas cortaram minha palma. A dor, quente e imediata, subiu pelo meu braço. O sangue brotou, pingando nos rostos sorridentes da fotografia.
Breno nem sequer olhou para mim. Ele estava muito ocupado consolando Débora, sussurrando palavras calmantes para ela. Então ele a pegou nos braços e a carregou para fora do porão.
Ele me deixou lá, ajoelhada em uma poça do meu próprio sangue.
Minha mente voltou à primeira vez que o vi. Ele era um lobo solitário, feroz e indomável. Fui atraída por sua força, seu poder bruto. Ele me prometera um mundo onde eu estaria sempre segura.
Agora, ele estava protegendo outra pessoa. E eu era aquela de quem ele a estava protegendo.
Caí de lado no cimento frio, o sangue da minha mão manchando a foto quebrada, cobrindo o rosto dele, nossos rostos, até que se tornassem irreconhecíveis.
Com a mão boa, juntei as poucas coisas que ainda significavam algo para mim – as cartas que ele me escreveu quando éramos jovens, o isqueiro que ele me deu, as coisas que ele agora considerava lixo. Empilhei-as.
E ateei fogo.
As chamas lamberam o papel, consumindo as palavras de amor, transformando as promessas em cinzas. Eu assisti, meu rosto entorpecido, enquanto o fogo queimava meu passado.
Mais tarde, Bianca desceu. Ela franziu o nariz com o cheiro de fumaça.
"Ainda brincando com fogo?", ela debochou. Ela jogou um kit de primeiros socorros aos meus pés. "Toma. Não sangre por todo o chão."
"Por que, Bianca?", perguntei, minha voz oca. "Por que você me odeia tanto?"
Ela riu, um som amargo e quebrado. "Você me pergunta por quê? Por sua causa, o Marcos está morto."
Marcos. O namorado dela. Eu tinha esquecido seu nome. Ele era um informante da Polícia Federal. Eu mesma descobri sobre ele, uma ameaça para Breno, uma ameaça para nossa família.
Eu tentei lidar com isso discretamente, afastá-lo dela sem expô-lo. Mas ele foi imprudente. Ele fez um movimento, e a equipe de segurança de Breno o eliminou. Foi uma operação limpa e rápida. Breno nunca soube que eu estava envolvida. Eu fiz isso para protegê-lo. Para proteger nossa família.
Eu fiz isso para proteger Bianca da verdade sobre quem ela havia se apaixonado.
"Ele era um informante, Bianca", tentei explicar.
"Mentirosa!", ela gritou, o rosto se contorcendo de dor e raiva. "Você estava com ciúmes! Você armou para ele! Ele era inocente! Ele me amava!"
Ela estava soluçando agora, consumida por uma dor que eu tentei poupá-la. "Eu vou fazer você pagar, Alina. Eu juro."
Olhei para ela, para a garota que eu criei, agora distorcida por uma mentira. Um sorriso amargo tocou meus lábios. "Você vai se arrepender disso, Bianca. Um dia, você saberá a verdade, e vai se arrepender."
"Nunca!", ela cuspiu. "A Débora é minha amiga. Ela está me ajudando a me vingar de você."
Ela se virou e saiu furiosa, me deixando sozinha no escuro, com as cinzas das minhas memórias e a dor profunda e latejante da traição.
Eu ri, um som cru e cheio de lágrimas. Eu criei uma víbora. Uma tola que foi manipulada por uma garota que era, ela mesma, apenas um peão.
Eu estava errada sobre Breno. Eu estava errada sobre Bianca. Minha vida inteira foi construída sobre uma base de mentiras.
E eu me arrependi. Eu me arrependi de tudo.