Capítulo 2

Senti uma pontada no peito. Apesar de as coisas entre nós terem acabado mal, de forma alguma eu queria vê-la passando necessidades. Além disso, ela não parecia estar se alimentando muito bem e imaginar que ela poderia estar passando fome e outras necessidades foi o mesmo que tomar um soco na boca do estômago.

— Luíza? — Liguei para minha secretária.

— Sim, senhor Oliver?

— Quero que ligue na PUC e pague os próximos três meses da mensalidade do curso de Psicologia da aluna Sofia Montenegro. Pode fazer isso?

— Claro, senhor! Farei isso agora!

Depois, liguei para o banco e pedi que transferissem dez mil reais da minha conta pessoal para a de Sofia. Era o mínimo que eu podia fazer por ela e pelos bons momentos que nós dois tivemos.

CAPÍTULO 3 – SOFIA

O dia não podia ter amanhecido pior. Não bastando as dores de cabeça que quase não haviam me deixado pregar os olhos de noite, amanheci completamente enjoada e não consegui tomar nada no café da manhã. Estava começando a suspeitar que eu estava com alguma virose.

Infelizmente, eu não havia conseguido o emprego como camareira, o que só servia para deixar a minha situação ainda mais crítica. Hoje era dia de pagar a mensalidade da faculdade e eu não fazia ideia de como iria explicar a minha situação para o diretor, nem se ele iria entender.

Peguei o ônibus como de costume e, não bastando o aperto, a mistura de perfumes no interior do automóvel me deixou ainda mais enjoada.

Quando desci do ônibus, vi Vanessa chegar de carro com Brian. Eles se beijaram e depois ela desceu do carro, passando pelo portão da faculdade. Era óbvio que o que quer que existisse entre eles, estava sério.

Tentei disfarçar meu incômodo e entrei. Eu simplesmente não conseguia aceitar que minha melhor amiga estivesse namorando um cara como ele. Aquelas marcas no pescoço dela com certeza haviam sido resultado de uma agressão, mas, então, o que ainda a prendia àquele cara?

Logo na entrada senti uma breve tontura e tive que me apoiar em uma parede para não cair.

— Ei, preste atenção por onde anda! — Uma garota protestou passando por mim, depois de eu atrapalhar seu caminho.

— Desculpe — eu disse, sentindo o mundo girar ao meu redor.

— Tudo bem, Sofia?

Fiquei surpresa quando vi Vanessa parada diante de mim. Já havia mais ou menos um mês desde a última vez que havíamos nos falado.

— Sim, eu... eu só fiquei um pouco tonta — respondi, tendo a sensação de que o mundo havia se estabilizado outra vez.

— Tem certeza? Você está pálida...

— Sim, mas obrigada por se preocupar. — Lancei-lhe um sorriso, estava muito feliz por estar simplesmente falando com ela.

— Bem, eu tenho que ir para a aula agora... — ela disse sem jeito, me olhando uma última vez para garantir se eu estava bem e indo para a aula logo depois.

Voltar a falar com Vanessa havia sido um grande passo para retomar nossa amizade e eu passei as horas seguintes pensando sobre isso. Eu realmente queria muito que as coisas voltassem a ser como eram.

No final das aulas, fui até a sala do diretor. Esperava que ele compreendesse a minha situação financeira e me desse mais algum tempo para

pagar a minha mensalidade.

— Em que posso ajudá-la senhorita Montenegro? — Ele me encarou.

— Eu gostaria de pedir ao senhor que me desse um tempo a mais para pagar a parcela deste mês, eu... — tentava me explicar, quando ele me interrompeu.

— Mas, a sua parcela deste mês já foi paga — ele respondeu.

— Como? Mas eu ainda não... Deve ter alguma coisa errada — indaguei, completamente surpresa.

O diretor digitou alguma coisa em seu computador e depois voltou a me

olhar.

— Não, não há erro algum. Aqui diz que não só a parcela deste mês,

como outras duas também já foram pagas.

— O senhor sabe por quem? — perguntei.

— Aqui diz que o dinheiro foi depositado pelo senhor Oliver Beaumont

— ele disse, olhando para a tela do computador.

Senti meu corpo todo congelar. Oliver havia feito aquilo por mim?

Saí da sala do diretor completamente desnorteada. Ainda não conseguia acreditar que, mesmo depois de tudo, Oliver havia pago três parcelas da faculdade para mim e, ao mesmo tempo que isso me surpreendia, também me fazia sentir uma alegria enorme, porque significava que ele, de alguma forma, ainda se importava comigo.

— Ah, Oliver... — sussurrei, deixando que algumas lágrimas rolassem pelo meu rosto enquanto caminhava até o ônibus. — Você é um homem de ouro.

— Ele era e eu soube disso quando me apaixonei por ele.

Como já fazia parte da minha rotina, mais uma vez passei o dia fora procurando emprego. Fora um pastel que havia comprado depois da faculdade, não havia comigo mais nada o dia todo.

O sol estava escaldante e, mesmo exausta, eu não queria desistir de tentar. Tinha esperanças de que, em algum momento, algum emprego bom surgisse.

— Sinto muito, Sofia, mas não estamos precisando de mais vendedoras aqui — a gerente de uma loja de sapatos me dizia.

— Não precisa necessariamente ser emprego de vendedora, o que vocês tiverem aqui para mim está bom — eu disse um pouco cansada. Meu coração batia rápido e eu só estava conseguindo me manter em pé porque estava apoiada na bancada.

— Eu sinto muito, mas realmente não temos nada para oferecer... Comecei a suar frio e não consegui manter o foco na conversa.

— Você está bem? Parece pálida...

— Não estou me sentindo bem... — Senti minhas forças se esvaírem aos poucos e, antes de ir ao chão, a mulher conseguiu me segurar.

— Me ajudem aqui, ela desmaiou! — ela gritou e eu vi quando algumas pessoas se aproximaram para me ajudar. Depois disso, apaguei.

Quando acordei, um flashback veio à minha cabeça. Eu já havia visto aquelas paredes brancas, sentido aquele cheiro de remédio e visto aquelas gotas pingarem lentamente no soro. No mesmo instante eu soube que estava no hospital. Ao lado, vi Vanessa andando de um lado para o outro no quarto. Ela parecia preocupada.

— Vanessa? — murmurei e ela me encarou.

— Finalmente você acordou, Sofia! — Ela se aproximou. — Você já desmaiou por não se alimentar direito uma vez e agora você faz isso de novo?

Era óbvio que ela estava irritada e, por alguns instantes, senti que minha amiga estava de volta.

— Como você me encontrou?

— A vendedora da loja onde você estava pegou seu celular e encontrou meu número na lista de melhores amigos. Depois me disse que iriam te trazer para cá.

— Ainda bem que não atualizei essa lista — brinquei e Vanessa riu.

— Me desculpe Sofia, pela forma como te tratei outro dia. — Ela se referia à discussão que havíamos tido havia algumas semanas sobre Brian.

— Tudo bem, esquece isso. — Toquei sua mão. — O importante é que você está aqui.

— Poxa Sofia, você me prometeu da última vez que nunca mais iria deixar de se alimentar direito. Olha só para você, está magra, abatida...

— As últimas semanas não têm sido nada fáceis — eu disse, tentando justificar a minha situação.

— Eu fiquei sabendo que você e o Oliver terminaram — Vanessa disse, cautelosa. — Mas por mais difícil que seja, você ainda está viva, Sofia! Não pode desistir assim.

— Seria melhor se não estivesse — respondi ríspida, deixando que algumas lágrimas rolassem por meu rosto. Eu não estava mais suportando ter que sustentar tantas mentiras. A saudade que sentia de Oliver era imensa.

— Ei, nunca mais diga isso! — Vanessa me repreendeu, me encarando com firmeza. — Onde está aquela Sofia forte que eu conheço?

— Provavelmente, embaixo de todos esses ossos. — Apontei para mim e nós duas sorrimos.

— É assim que quero te ver daqui para a frente: sorrindo. — Vanessa apertou minha mão.

Logo depois, um médico entrou no quarto.

— Sofia Montenegro?

— Sim?

— Como se sente?

Ele era um senhor de idade e se aproximou do meu leito com uma prancheta em mãos.

— Muito melhor, obrigada.

— Quando você chegou mais cedo, nós fizemos alguns exames para descobrir o que havia acontecido com você e eu estou aqui com os resultados.

— Admito que ultimamente eu não venho me alimentando muito bem, doutor, mas prometo que vou mudar isso.

— Como gestante, você deveria saber que não se alimentar bem pode

ser tão perigoso para você quanto para o bebê.

Virei o rosto e encarei Vanessa, que me olhava com os olhos arregalados.

— Doutor, acho que o senhor se enganou, eu não estou grávida.

— Sim, você está grávida — ele disse com firmeza. — E, pela minha experiência, eu diria que de mais ou menos um mês.

Capítulo 3

Grávida?! Confesso que aquela notícia me pegou de surpresa. Nos instantes que se seguiram eu não consegui esboçar qualquer reação. Isso explicava muita coisa, como o meu cansaço sem fim, as dores de cabeça, as tonturas e os enjoos. Como não percebi isso antes? Além de todos os sintomas, minha menstruação estava atrasada havia alguns dias, mas como meu ciclo era irregular, isso não havia me assustado em um primeiro instante. Além disso, meus seios estavam sensíveis e, apesar de estar mais magra, meus quadris estavam mais largos. Mas eu juro que em hipótese alguma cogitei que estivesse grávida. Oliver e eu nunca havíamos feito sexo sem camisinha antes, ele sempre foi muito responsável e cuidadoso comigo... exceto no dia em que fizemos amor no chuveiro, antes de Denise aparecer e estragar tudo.

— Pela sua reação, acredito que você ainda não sabia da sua gravidez

— o médico disse, me arrancando de meus devaneios.

— Não, eu não sabia — respondi ainda em choque.

— Apesar do incidente, os exames indicam que está tudo bem com você e com a criança e vai permanecer assim, desde que você volte a se alimentar direito.

— Eu vou.

— Vou deixar vocês duas a sós, dê os parabéns ao pai por mim — o médico disse com um sorriso.

Mesmo depois de ele sair do quarto, aquelas palavras ainda continuaram a vagar pela minha mente: "Dê os parabéns ao pai." Senti um nó se formar na minha garganta e comecei a chorar, Vanessa também me abraçou, emocionada.

Eu estava grávida do Oliver. Grávida do homem que eu mais amava na

vida. E eu nem sequer podia compartilhar isso com ele.

CAPÍTULO 4 – SOFIA

— Você vai contar para ele que está grávida, não vai? — Vanessa perguntou vindo atrás de mim, depois que chegamos à minha casa.

Fui para o sofá e me sentei, levando as mãos à cabeça. Como pude ser tão descuidada?

— Eu não sei. — Eu estava sem chão, não sabia mais o que fazer.

— Sofia, você precisa contar para o Oliver que está esperando um filho dele! — Vanessa me repreendia.

— Não acho que ele vá ficar muito contente com essa notícia. — Baixei a cabeça, pensando no quanto ele devia estar triste e decepcionado comigo.

Vanessa se sentou ao meu lado no sofá, segurando minha mão.

— Foi tão ruim assim o que aconteceu?

— Foi péssimo!

— Brian me contou que você e o Oliver terminaram, porque você estava com o Ryan...

— E você acreditou? — interrompi-a, olhando-a de relance.

— Não, por isso mesmo estou aqui: para ouvir o seu lado da história.

— Se eu te contar, você jura que não vai falar para mais ninguém? — Encarei-a. Eu sabia que podia confiar nela, mas, por outro lado, não confiava no Brian.

— Eu juro, Sofia.

Respirei fundo e contei a Vanessa sobre a conversa que havia tido com Denise no restaurante, da ameaça que ela fez de tirar Estevan e Elena de Oliver caso eu não me afastasse, do beijo que me vi obrigada a dar em Ryan e as coisas horríveis que Oliver me disse logo depois.

Contar aquilo a Vanessa foi libertador, era como se eu estivesse compartilhando o meu peso com outra pessoa e eu já me sentia mais aliviada.

— E por que você não contou ao Oliver que essa maluca te ameaçou?

— Eu não podia, Vanessa! Isso só serviria para irritar ainda mais a Denise e os dois com certeza iriam acabar indo parar na justiça para brigar pela guarda dos filhos.

— Mas, a Denise não teria nenhuma chance contra o Oliver, foi ela quem os abandonou!

— Mas o juiz não sabe disso e não existe nenhuma evidência que prove que Denise o traiu e depois saiu de casa. Ela iria manipular todos fácil, fácil e ainda poderia prejudicar o Oliver. — Fiz uma pausa, tendo noção do quanto tudo aquilo era surreal. — O que mais me doí é que o Oliver pensa que eu o traí e que nunca o amei de verdade. Você tinha que ter visto como ele falou comigo da última vez que nos vimos. — Uma lágrima rolou pelo meu rosto.

— Você não tem que se sentir assim, Sofi! Você não fez nada de errado, sua consciência está limpa!

— Eu sei, mas eu me sinto tão mal por saber que de certa forma o decepcionei... Você tem lido as notícias? Dá para ver que ele voltou a ser aquele mesmo cara sério e triste de antes e tudo por minha culpa.

— Sofia, o fato de você estar grávida muda tudo. Se você contar a ele que tudo não passou de uma jogada da Denise, tenho certeza que ele vai entender e vocês dois vão poder resolver isso juntos...

— Eu não posso arriscar.

— Poxa Sofia, eu realmente não te entendo!

— Assim como eu também não entendo por que você namora um cara que te agrediu! — eu disse, irritada. De certo modo, aquela conversa havia conseguido abalar meus sentimentos e eu decidi colocar tudo o que estava sentindo para fora.

— O Brian não me agrediu! — ela protestou.

— Vai dizer então que ele fez aquilo com você como uma demonstração

de carinho? — insisti.

— E se tiver sido? — ela disse séria, me pegando de surpresa. — Na boa Sofia, não dá para falar com você assim. — Ela se levantou do sofá, indo até a porta.

— Espere Vanessa, eu não quero brigar com você...

— Ah, é? —Ela se voltou para mim. — Eu sinto muito, mas eu estou com o Brian agora e enquanto você não aceitar isso a nossa amizade também vai permanecer abalada, Sofia. Se você se esforçasse um pouquinho mais para conhecê-lo, veria que ele é um cara legal. — Ela me olhou uma última vez e depois saiu, me deixando ali sozinha, sem saber o que fazer.

Fui para o meu quarto e me joguei na cama, começando a chorar. Em parte deveriam ser meus hormônios que estavam alterados, por outro lado, deveria ser a solidão.

— O que eu vou fazer? — murmurei, colocando a mão sobre minha barriga e achando incrível que pudesse haver um ser vivo ali dentro. — Pelo menos agora eu tenho você. — Sorri.

Como toda mulher, eu já havia cogitado a ideia de ser mãe. Quando estava com Oliver, ficava observando-o e pensando no quanto o amava e em como gostaria de formar uma família com ele. Ficar grávida, no entanto, em um momento crítico como esse, não estava nos meus planos.

De qualquer forma, aquele bebê representava o amor que existiu entre mim e Oliver e pensar nisso me deixava feliz. Eu cuidaria daquela criança com todo o meu amor, faria de tudo para que ela ficasse bem. Pensei no que o médico disse sobre minha alimentação e no quanto ela influenciava na boa formação do bebê.

Tomei um banho, me arrumei e decidi que iria até o supermercado fazer compras. Agora que estava grávida, eu não podia comer apenas macarrão e outras besteiras, eu tinha que me alimentar bem. Eu não tinha muito dinheiro em casa, mas ainda me restava um pouco no banco, o suficiente para que eu

conseguisse me manter por mais alguns dias.

Saí de casa e fui primeiro ao banco para poder sacar um pouco de dinheiro, quando me assustei por ver que dez mil reais haviam sido depositados na minha conta. Provavelmente deveria ter sido algum engano. Quando puxei o extrato para descobrir quem havia depositado o dinheiro, vi que não havia sido engano. Meu coração se encheu de alegria e meus olhos se encheram de lágrimas, no instante em que levei a mão ao meu ventre. O extrato em minhas mãos comprovava que o dinheiro havia sido depositado por Oliver Beaumont.

CAPÍTULO 5 – SOFIA

Eu estava dura, mas, apesar de estar precisando muito daquele dinheiro, não tive coragem de sacar um centavo sequer dos dez mil reais que Oliver havia depositado na minha conta. Ele já havia pago três meses da minha faculdade e agora aquilo — eu não podia aceitar.

O que mais me surpreendia é que Oliver desconhecia a verdade e, mesmo achando que eu o havia traído e que estava com outro, ele continuava se importando comigo, mas por quê?

Também me perguntava como ele havia descoberto sobre a minha situação financeira caótica. Será que alguém havia dito a ele ou foi puro instinto? Talvez, no fundo, ele só quisesse garantir que eu fosse ficar bem.

Saquei o pouco dinheiro que restava do meu acerto e, depois de sair do banco, fui para o supermercado que ficava mais próximo da minha casa. Peguei uma cestinha e comecei a andar pelos corredores. Procurei comprar alimentos saudáveis e nutritivos e, quando fui até a sessão de hortaliças, avistei um casal com duas crianças, uma já grandinha e um bebê. O menino maior fazia birra, implorando ao pai que lhe comprasse um cereal, enquanto o bebê estava agitado nos braços da mãe. Depois de alguns minutos de conversa, o pai conseguiu

convencer o filho de que aquilo não era o melhor para ele, enquanto a mãe também conseguiu acalmar o bebê. Depois eles seguiram juntos pelo corredor e foi como se nada tivesse acontecido.

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