Capítulo 2

Scarlett

Dias atuais...

Observo o lugar todo florido e decorado ao meu redor e me sinto em meio a uma das brincadeiras da minha infância e adolescência.

Arrumo o vestido longo rosé que minha prima exigiu que eu usasse nesse dia tão especial para ela e sigo rumo ao altar.

Acho que se fechar os olhos consigo voltar no tempo, quando brincávamos no chão da sala e ela estava com a Barbie e o Ken, fazendo o casamento deles.

Hoje, a Joy está realizando seu maior sonho, se casar com um homem rico e que ela ama, ou acha amar.

Eu acho amor uma palavra tão forte que não deveria ser falada de qualquer forma.

E, pasmem, ele lembra muito o Ken da Barbie. Claro que só na aparência, pois ele está mais para o cachorro da boneca, já que vive nas páginas de fofoca aprontando todas.

Ele é um verdadeiro riquinho mimado que gosta de entrar em confusão, gastar dinheiro em festas e estar sempre rodeado de mulheres. Sustentado pelo pai, um fazendeiro riquíssimo, que tanto trabalha para dar o melhor para os dois filhos gêmeos, Kevin e Ken que só querem ter uma vida fácil.

Minha prima, cega de amor, jura que não é o noivo, mas o seu irmão gêmeo, Kevin, que apronta e cai tudo na conta do santo do Ken Jones.

Sim, seu noivo se chama Ken e até parece o boneco com suas roupas engomadinhas.

Mas voltando ao que o Ken apronta, só a Joy mesmo para acreditar em uma mentira dessa, já que foi provado inúmeras que ele a trai de diversas formas e não é o anjo de candura ela jura ser.

Sinceramente, não sei como meu tio permitiu uma sandice dessa. A verdade é que ele certamente deve estar recebendo alguma vantagem nessa união. Pois, é o primeiro a defender o genro com unhas e dentes. Sem contar que meu tio é um interesseiro e nunca dá um passo em falso.

Minha prima é uma iludida, isso sim e vê corações em tudo. Olha que tentei avisar isso inúmeras vezes, mas sempre fui vista como a chata e a do contra, então decidi me calar e só observar.

Mas se ele fizer minha prima sofrer, juro que vou para cima dele.

Olho para minha mãe que me pede disfarçadamente para que sorria, afinal estão todos olhando para mim, já sou a madrinha dessa loucura toda.

Confesso que estou no altar só esperando que a cerimônia acabe logo e possa ir embora, afinal ainda tenho um grande contrato para analisar ainda hoje.

Eu me tornei a diretora executiva de uma das ramificações do grupo Seri. Sou a responsável pela Aromas de Seri e estamos crescendo no mercado a olhos vistos, o que só mostra a quão boa eu sou no que faço. Inclusive já ganhei alguns prêmios de destaque devido meus feitos no ramo empresarial.

Olho para o relógio de pulso e já percebo que já deveria estar em casa, mas minha prima atrasou quarenta e cinco minutos para chegar em seu carro conversível rosa.

Jesus, o que foi aquilo, acho até que terei pesadelo.

Juro que minha vontade era de ir embora quando teve esse atraso, mas fui impedida por minha mãe, me lembrando o quanto a Joy ficaria triste com minha atitude.

Nunca magoaria a minha amada prima, ainda mais no “dia mais feliz da vida dela”.

Olho para minha mãe que me recrimina com o olhar e forço um sorriso. Logo em seguida, olho para minha prima que sorri, deixando todos os seus dentes à mostra.

Joy não tem ideia da fria que está se metendo, ou tem e aceitou isso de bom grado.

Enfim, se houver arrependimento não foi por falta de aviso.

Lembro como se fosse hoje o dia em que ela conheceu o Ken. Estávamos em uma balada, a qual fui obrigada a ir para comemorar sua formatura, e quando ela viu o Ken em um canto, gritou que tinha achado o amor da sua vida.

Confesso que na hora ri, mas depois fiquei de queixo caído quando ele simplesmente embarcou na loucura da minha prima e passaram a ser o casal Ken e Barbie. Inclusive minha prima pintou o cabelo de loiro para imitar a boneca e até hoje ainda continua com o cabelo pintado.

Ela parece uma boneca de tão artificial que ficou, mas a minha opinião de nada valeu, já que ela amou, assim como o noivo.

No fim, quem sou eu para falar alguma coisa, né?

Por onde passo sou chamada de Frozen devido meu coração ser de gelo, como sou conhecida, por não deixar ninguém se aproximar romanticamente de mim.

Não sou de muita enrolação e namorado passa longe da minha vida, até porque apenas interesseiros aparecem e não tenho paciência para isso.

Bajuladores, então, quero distância.

Já tive alguns envolvimentos, mas nada muito sério e foi só para satisfazer meus desejos. Porém, no dia seguinte quando vinham as cobranças de carinho, eu já dava um basta e tirava a pessoa da minha vida imediatamente.

Será que é tão difícil entender que mulher também tem desejo e que nem sempre sonha em encontrar um príncipe encantado e se guardar para ele?

Assim que o juiz de paz diz, “eu os declaro marido e mulher”, vejo que minha prima sorri e seu “amado esposo”, a abraça e aperta a sua bunda antes de dar um beijo nela.

Que deselegante, af!

Apesar que apenas eu vi isso já que estou de frente para os dois que se beijam.

Faço uma careta enquanto balanço a cabeça em negativa, escutando os presentes baterem palmas.

Saio atrás dos recém-casados, forçando um sorriso para os convidados que estão todos em pé, olhando maravilhados para o mais novo casal, o senhor e a senhora Jones.

Porém, sei que agora começa a parte das frases prontas da família...

Essas frases me matam e se pudesse iria estrangular cada um que as falasse.

“ Você será a próxima?”

“Já tem quase trinta e ainda não namora?”

“Cadê seu namorado?”

“Sua prima te passou a perna!”

“Quando te veremos vestida de noiva?”

Olha odeio essas coisas, mas preciso aguentar pela minha prima que está radiante e não me deixará ir embora antes de cortar o bolo.

Jesus, me leva!

O que não fazemos por aqueles que amamos...

Sigo para o salão cheio de luzes e flores.

Devo confessar que quanto a isso ela teve bom gosto, até porque passou anos treinando e consumindo revistas especializadas em casamento.

Sento na mesa destinada a minha família e assim que o garçom passa, já pego uma taça.

“Só assim para aguentar isso...”

Meus pais se sentam ao meu lado e minha mãe já vai logo tirando a taça da minha mão.

— Que isso, mamãe! Agora nem beber para suportar isso eu posso?

— Minha filha, tenha modos estão todos olhando para nós — minha mãe me repreende.

— Mamãe! Eu preciso disso. — Pego a taça novamente.

Meu celular toca e vejo que é meu secretário, mas quando vou atender, meu pai me impede, tomando o aparelho da minha mão.

Sim, eu tenho um secretário, quer dizer um assistente pessoal que é maravilhoso e facilita e muito o meu dia, organizando tudo perfeitamente.

Gerald é excelente e não sei o que seria da minha vida sem ele.

— Hoje, não, Scarlett.

— Papai, os negócios não esperam... — Bufo e cruzo os braços.

— Esperam sim, afinal a vida é mais do que isso.

Suspiro frustrada ao ver meu pai atender a ligação e dispensar o meu secretário.

— Isso não é justo! Eu já vim, fiz minha parte, usei esse vestido com essa cor que odiei, afinal me deixa apagada e agora não posso nem atender o meu telefone?

— Filha, sorria que sua prima está vindo — mamãe diz disfarçadamente.

Minha mãe é uma dama.

Minha prima já chega abrindo os braços e gritando toda feliz com o Ken na sua cola, já grudado em uma taça de champagne e na cintura dela.

— Família! — Joy diz me puxando. — Scar, você está linda, essa cor combinou com você.

“Eu juro que não ouvi isso...”

Dou um sorriso amarelo e retribuo seu abraço.

— Você também está linda, parece até que estou na sala brincando com você de casamento.

— Você acha isso? Era tudo o que queria ouvir. Viu, Ken, conseguimos realizar o nosso sonho. Eu te amo tanto por embarcar nessa comigo. — Ela beija o noivo que dá risada.

Pelo menos ele é carinhoso com ela.

— Joy e Ken que vocês sejam muito felizes — mamãe diz.

— Ah, tia, sou tão grata a você que foi minha mãe por esses anos todos. — Abraça minha mãe já emocionada.

Isso sim, me emociona, afinal minha mãe foi o alicerce da minha prima, já que o pai a abandonou quando se casou de novo.

A nova madrasta dela e quando digo nova é na idade, não era capaz de cuidar de si, quem diria de uma criança de dez anos.

Se não fosse minha mãe assumir a criação de Joy não sei o que seria dela hoje.

O Ken se aproxima e me puxa para um abraço.

— Obrigado por tudo, priminha. Sabe que você bem poderia se tornar minha cunhada, o Kevin tem uma quedinha por você.

Deus me livre!

Dou um sorriso amarelo e me seguro para não dar uma bela resposta a ele.

— Scar, quero ver você pegando o buquê — minha prima diz toda animada.

O quê?

Ainda terei que passar por isso?

Ah, não!

— Ela estará lá, minha querida — minha mãe diz sorrindo enquanto me dá um olhar que sei muito bem o que quer dizer.

"Eu terei que ir, mesmo que não queira."

— Vamos, amor, precisamos cumprimentar seus pais. Depois nos falamos mais. Beijos, meus amores — minha prima diz e sai puxando o marido pela gravata que a segue todo sorridente.

— Mamãe, não vou duelar com ninguém atrás de um buquê. Eu tô fugindo de casamento — digo tomando a bebida da taça de uma vez só e pego outra com o garçom que passa.

Minha mãe toma a taça da minha mão.

— Vamos, com calma, mocinha, todos estão olhando para você.

— Ah, mamãe! Muitos aqui só têm a vida boa, graças ao papai e a mim, que dá o sangue no grupo.

— Filha, chega de falar de trabalho. Vamos celebrar a felicidade da Joy.

Concordo com ele e me sento, afinal não tem como discutir com meus pais. No final, eles sempre tem razão.

A festa prossegue e então vejo meu tio e sua esposa se aproximando. Devo dizer quer ela está usando uma roupa espalhafatosa e colada no corpo que já deve ter passado por pelo menos umas cinco cirurgias estéticas, chamando atenção por onde passa.

— Oi, família! — Lays diz ao se aproximar segurando o braço do tio Stephen que sorri orgulhoso.

Meu pai e minha mãe se levantam para cumprimentá-los enquanto me finjo de morta tomando meu champagne.

Quantas mesmo já foram?

Ah, sei lá!

— Nossa, Scar, como você está linda! Agora só falta um noivo — ela diz e já me imagino segurando em seu pescoço enquanto ela esperneia.

Vadia!

Dou um sorriso amarelo e a cumprimento.

— Oi, titia, não preciso de noivo algum para custear os meus gastos. Graças a Deus, sou autossuficiente.

Ela me olha, abre a boca algumas vezes, mas nada diz enquanto meu tio me olha com desdém.

— Minha sobrinha, está ficando amarga. Será que é porque está ficando para titia? — diz com deboche e a esposa sorri vitoriosa.

Ela não é capaz nem de se defender sozinha, isso é o cúmulo.

— Tio...

— Scarlett, se casará na hora certa, né, filha? — minha mãe diz, me interrompendo.

— Sim, mamãe.

Sei que essa hora nunca vai chegar, mas não preciso dizer isso para ouvir mais questionamentos.

O casal se afasta rindo enquanto minha mãe me repreende com o olhar.

— Se vocês me derem licença, vou ao banheiro — digo me levantando.

Procuro por meu celular, mas meu pai o guardou no terno dele.

Aff!

Sigo para o banheiro e tento respirar longe de tantos olhares julgadores.

O que eu fiz para merecer isso?

Saio do banheiro e escuto meu nome ser chamado. Olho na direção do som e vejo minha prima me chamando para a hora do buquê.

Penso em desistir, mas minha mãe se aproxima e diz:

— Nem pensar nisso, mocinha. Vá lá e faça o gosto da sua prima.

Sigo para a pista com muita má vontade e me posiciono a mais distante possível. As mulheres na frente se movimentam querendo chamar a atenção da minha prima que faz seu charme para jogar o objeto de desejo delas.

Ela vira, conta até três e joga. O buquê sobe e cai em minhas mãos.

Olho horrorizada para aquilo e só não deixo cair porque minha mãe se aproxima novamente e diz no meu ouvido:

— Nem pense nisso. Sorria e agradeça.

Minha prima me chama e vou até ela com um sorriso amarelo, segurando o buquê que parece pesar uma tonelada.

— Ah, que alegria, Scar! Você será a próxima! Até escrevi seu nome na barra do meu vestido.

Olho para ela horrorizada.

Como assim meu nome na barra do vestido?

Quem autorizou isso?

Recebo os cumprimentos de todos ao meu redor e assim que consigo me desvencilhar, vou até à mesa e pego minha bolsa. Peço o celular para o meu pai que me entrega a contragosto e me despeço deles.

Por hoje chega, já fiz minha parte além do que deveria.

Sigo para a saída do salão e quando percebo que ninguém olha, jogo o buquê no lixo.

Vai que isso me azar, né?

Melhor não abusar da sorte.

Capítulo 3

JOSÉ

Observo a mulher muito bem-vestida largar o buquê no lixo e sair sem olhar para trás. Nem sequer pude ver seu rosto, já que estou saindo da cozinha somente agora.

Consegui um trabalho extra hoje de ajudante da cozinha com o meu amigo que trabalha de garçom em festas de pessoas ricas.

Carlos tem carta branca no buffet já que é amante da dona do buffet, a senhora Catherine.

Uma mulher muito bonita, por volta de seus cinquenta anos, loira e de olhos claros.

Sei que ela e Carlos estão envolvidos há algum tempo e o marido dela não pode nem desconfiar disso.

Sigo até o lixo e pego o lindo arranjo de flores delicadas e coloridas. Observo mais atentamente e decido guardar.

Essas flores não merecem ficar no lixo.

Por que alguém jogaria algo assim, já que se esforçou para pegar?

Até porque sei que a hora do buquê é quando as mulheres lutam por esse objeto tão precioso para elas, menos para essa mulher, pelo jeito.

Levo as flores até onde estão as minhas coisas e depois de guardar com cuidado, volto para a cozinha onde já tem uma pilha de copos e taças sujas para serem levados.

Isso nunca acaba.

— José, precisamos de mais taças, poderia agilizar aí? — Carlos, o responsável pela cozinha diz, me tirando dos meus pensamentos.

— É para já, chefia. — Começo a lavaras taças e colocar na secadora.

Logo temos taças limpas e esterilizadas para serem levadas ao salão e voltarem sujas.

É um ciclo sem fim...

Após longas horas em pé e de muita louça ser lavada, somos chamados no salão.

Seco as mãos no pano e acompanho meus companheiros de trabalho.

Ja no salão, observo o local muito bem decorado, já que não tive como fazer isso antes, enquanto aguardamos a dona do buffet dizer o motivo de termos sido chamados, algo anormal.

— Bom, não é algo costumeiro, mas a noiva fez questão disso — Catherine, a dona do buffet diz e dá um passo para trás.

Uma jovem radiante surge em um vestido branco e muito elegante.

Olha que não entendo muito de moda, mas acredito que o vestido que ela está usando custou mais do que pelo menos três casas minhas.

A moça de olhos puxados e cabelo loiro, sorri enquanto nos observa. Logo ela inclina o tronco para a frente e fico sem entender o que está acontecendo.

— Obrigada, a todos por tornar meu sonho em realidade — diz enquanto continua inclinada.

Ao vê-la daquele modo, decido perguntar a Carlos que está próximo.

— Por que ela está inclinada?

— Ela vem de uma família coreana e é assim que eles agradecem em seu país de origem — ele sussurra ao meu lado.

— Ah, legal isso — me limito a dizer.

— Bom, sobrou muita coisa e gostaria que vocês comessem, levasse para casa, afinal não se pode desperdiçar — a noiva diz e vejo a dona do buffet fazer careta.

Acredito que ela não concorda com isso, mas nesse caso o cliente tem sempre razão e vou amar levar uns docinhos para minha mãe e Mary.

A moça se vai ao ser chamada por um jovem que acredito ser seu marido e ficamos com Catherine que nos observa com o semblante sério.

— Bom, escutaram a noiva, comam o que quiserem e depois arrumem tudo. Agradeço o serviço de hoje, estão todos de parabéns. O pagamento dos temporários será entregue na saída — ela diz e sai sendo seguida por duas moças que usam o mesmo tipo de roupa que ela.

— Podemos mesmo comer? A dona Catherine não parecia muito feliz com isso — pergunto ao meu amigo que sorri.

— Aqui quem manda é quem paga e você ouviu a noiva, então vamos nos esbaldar — Carlos responde e sorrio.

Vou até à cozinha, pego um saquinho limpo que encontro e começo a colocar os diversos tipos de docinho que encontro. Alguns são tão diferentes que nem sei dizer do que são, mas são bonitos e parecem ser deliciosos.

Sei que terei que esconder para mamãe não exagerar já que finalmente conseguimos controlar a "tia Bete".

Após terminar de ajudar na limpeza e pegar meu saquinho de docinho e bolo, sigo para pegar as minhas coisas. Olho para o buquê tão delicado ao lado da minha mochila.

“Ainda bem que vim de mochila”, penso ao ver as sacolas cheias em minhas mãos.

Guardo tudo, pego o buquê e encontro Catherine na saída, distribuindo o pagamento aos temporários. Ela olha o buquê em minhas mãos, ergue a sobrancelha, mas não diz nada e não espero por isso. Seguro o envelope e sem conferir a quantia saio em direção ao ponto de ônibus.

Vai que ela queira descontar algo.

Assim que chego no ponto, o ônibus chega e sigo rumo a minha casa após o dia exaustivo de trabalho, afinal saí de casa às oito da manhã e agora já passa das onze da noite, em plena quarta-feira.

Pois é, os ricos se casam em dias improváveis, ou como já ouvi falar é chique se casar em dia da semana.

Uma hora e meia depois e dois ônibus chego em casa.

A rua está deserta devido o horário, mas sigo despreocupado pelas ruas, afinal a vizinhança aqui é bem tranquila.

Dez minutos depois estou abrindo a porta de casa que está silenciosa e na penumbra.

Guardo os doces e bolo que trouxe na geladeira, atrás de uns potes para não deixar à mostra e coloco o buquê em uma jarra com água em cima da mesa. Logo em seguida, vou para o banheiro, tomo um banho relaxante e o jeito agora é descansar um pouco.

Amanhã cedo tenho que levar os cachorros do senhor Evans para passear.

Não está sendo fácil ultimamente para se colocar comida na mesa, afinal o mercadinho que trabalhava fechou e estou atrás de um emprego fixo. Mas com minha pouca escolaridade não está nada fácil.

Então enquanto não arranjo nada, topo tudo que aparece.

Pego o envelope com dinheiro na mochila, conto as cédulas e com esse valor conseguirei pagar a conta de luz que está atrasada antes que cortem.

Fecho os olhos e a imagem daquela mulher jogando o buquê fora vem a minha mente.

O que será que aconteceu para ela fazer aquilo?

Entre suposições e nenhuma resposta concreta, acabo adormecendo.

***

— Filho, boa tarde, que flores são essas? — minha mãe pergunta olhando para as flores na jarra.

A doença da mamãe deu uma estacionada e graças a Deus, ela ainda tem uma boa locomoção ainda que com a ajuda da cadeia de rodas.

Minha mãe tem muita vontade de viver e fé e acho que isso que faz a diferença.

— Ah, mãe, uma moça jogou esse buquê no lixo e fiquei com dó. Então peguei e trouxe para casa.

— Você pegou o buquê da noiva? Eita, vai ser o próximo — Mary diz se aproximando e rindo.

— Tô fora, Mary. Não vou me casar tão cedo, isso sim.

— Deixa a Sheryl saber disso — Mary alfineta.

Sheryl insistiu tanto que meio que estamos namorando há três anos. Meio porque nunca formalizei nada, mas saímos juntos sempre e somos exclusivos, então somos namorados querendo ou não.

Mas digo que não sou apaixonado por ela, até gosto dela e da sua companhia. Acho que é cômodo estar com Sheryl, já que ela não me cobra nada e me aceita como sou.

— Estão falando de mim? — Sheryl diz entrando em casa. — Oi, meu amor, vi que chegou e vim te ver um pouquinho. — Dá um beijo em meus lábios.

— E já estou de saída, só vim tomar um copo de água. Preciso buscar os cachorros dos Evans no pet shop, eles foram tomar banho — digo pegando um docinho que está em cima da mesa.

Dou uma mordida e logo cuspo.

Eca, que horrível!

— Isso é doce? — pergunto olhando para o doce em minha mão que visualmente é lindo.

— Isso é doce fino — Sheryl diz pegando da minha mão e mordendo. — O recheio dele é de Tâmara.

— E você conhece isso desde quando? — pergunto admirado.

— Já comi um lá na loja uma vez quando uma cliente levou.

Sheryl trabalha em uma loja de roupa de grife no shopping e conhece algumas madames que dão boas gorjetas e alguns mimos para as vendedoras.

— Ninguém conhece o bom e inigualável brigadeiro? — pergunto indignado.

— Meu bem, brigadeiro aqui não é tão conhecido assim. Você só conhece porque ensinei a Mary a fazer — minha mãe diz.

Minha mãe é brasileira, ela veio de forma ilegal para o Canadá, mas ao se casar ganhou o direito a viver aqui como uma cidadã.

Meu nome inclusive é José porque ela é devota de São José, o pai de Jesus, o santo da família e do trabalho.

Será que é por isso que trabalho tanto?

Minha mãe antes de ficar debilitada era cozinheira em um restaurante brasileiro aqui perto. Com ela, aprendi a gostar de algumas iguarias desse país que tanto ouço falar, mas não conheço, principalmente o maravilhoso brigadeiro que sou viciado.

— Mas vocês ainda não responderam... O que estavam falando de mim? — Sheryl volta a perguntar.

— José pegou o buquê da noiva — Mary diz rindo.

— Que estava no lixo, deixando bem claro. — Rapidamente completo.

— Ah, vai ser o próximo a se casar! — Sheryl diz animada.

— Bom vou nessa, para mim, já deu esse assunto. De lá vou direto para o supletivo. Tchau para quem fica — digo já saindo antes que esse assunto de casamento se prolongue.

Sigo para o pet shop, pego os cães e vou para a casa dos Evan que não fica longe.

Espero conseguir pegar o senhor Evans em casa, afinal hoje é dia de pagamento.

Corro contra o tempo, sabendo que logo ele sairá de casa.

Dez minutos depois chego colocando os bofes para fora por ter corrido com os dois Golden Retrevier no meu encalço.

Toco a campainha e nada...

Toco de novo e a senhora Evans aparece bocejando.

— Já chegaram? Que rápido. — Ela olha desconfiada para dentro de casa enquanto observo a sua atitude.

Só falta levar um calote bem agora, ainda mais que estou contando com essa quantia.

— Sim, aqui estão os dois, limpos e cheirosos. O senhor Evans deixou o meu pagamento? — Sou direto.

— Peraí que vou ver, pois, ele saiu que nem vi — diz pegando os cachorros.

— Ficarei a espera já que ele nem saiu ainda — digo apontando para o carro na garagem.

Ela tosse para disfarçar já que ficou sem graça ao ser pega na mentira.

— Ah, é? Nem vi, só um momento.

Depois de longos quinze minutos que conto no relógio, ela volta com um envelope e me entrega.

— Está aqui.

Pego e conto na frente dela, até porque é melhor garantir.

— Obrigado, amanhã cedo voltarei para pegá-los.

Ela agradece e sigo para a escola, pois já estou atrasado.

Os Evan são gente boa, mas enrolam para pagar e tenho que ficar em cima senão eles acham que passeio com os cães porque gosto.

Já na escola, me sento na frente e o professor começa a passar umas equações que não sei se um dia usarei, mas que preciso saber.

Aff, por que tudo é tão difícil?

***

Me despeço dos meus colegas e meu telefone toca. Vejo que é Carlos e atendo.

— Cara, tudo bem? Apareceu uma vaga fixa para ser garçom no buffet, te interessa?

— Claro, Carlos, me interessa e muito.

— Perfeito, vou falar com a Catherine e depois voltamos a nos falar.

— Valeu, cara, te devo essa.

Bom, pelo menos parece que agora terei um emprego fixo e poderei ficar um pouco despreocupado em como pagar as contas de casa.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED