Ponto de Vista: Maya
A humilhação queimava mais quente que a estação de serviço de bebidas. Eu havia recuperado as chaves, entregue a um manobrista e retornado ao meu posto, com o rosto em chamas. Eu queria ir embora. Queria me transformar e destruir aquele lugar. Mas eu tinha feito uma promessa a mim mesma: só revelaria meu verdadeiro eu a um homem que amasse a Maya garota, não a Maya Princesa.
Parecia que esse homem não existia.
"A mesa sete precisa de um pedido especial", Marcos latiu para mim enquanto eu passava pelo bar. "Jade disse que o champanhe está choco. Ela quer o coquetel 'Névoa de Prata'. Extra quente."
Meu estômago revirou. O Névoa de Prata era uma bebida de efeito, aquecida quase até a fervura e servida com gelo seco.
"Marcos, eu tenho outras mesas", tentei argumentar.
"Faça, ou está demitida. E se for demitida, Caio te expulsa da casa da alcateia. Para onde você vai então, vira-lata? Para a rua?"
Cerrei os dentes e fui para o bar. O barman me entregou o copo fumegante em uma bandeja. Eu podia sentir o cheiro acre subindo dele.
Caminhei em direção à seção VIP. O corredor era mais escuro aqui, forrado com cortinas de veludo. Era um ponto cego para as câmeras de segurança.
Jade estava me esperando. Ela não estava em sua mesa. Estava encostada na parede no corredor estreito, bloqueando meu caminho.
"Você parece patética nesse uniforme", ela zombou. "Caio merece uma loba de verdade. Uma Luna que possa lhe dar filhotes fortes. Não um beco sem saída genético como você."
"Saia da frente, Jade", eu disse, minha voz firme. A bandeja estava quente em minhas mãos.
"Me obrigue."
Ela deu um passo à frente. Tentei contorná-la, mas ela foi rápida. Fingiu um tropeço, se jogando em minha direção.
"Ah, não!", ela gritou, sua voz falsa e alta.
Sua mão disparou, não para se segurar, mas para atingir o fundo da bandeja.
O copo virou.
O tempo pareceu desacelerar. O líquido fumegante e pegajoso espirrou pela borda. Não atingiu o chão. Atingiu minha mão esquerda.
"Ah!", eu ofeguei, derrubando a bandeja. Ela se estilhaçou com um barulho ensurdecedor.
Dor. Dor branca, absoluta e cegante.
Isso não era apenas líquido quente. Quando o vapor se dissipou, eu senti o cheiro — o cheiro metálico e sulfuroso de prata líquida concentrada. Era ilegal servir para lobos. Era veneno.
A prata não apenas queima um lobo; ela impede o processo de cura. Ela corrói a pele como ácido.
Agarrei meu pulso, caindo de joelhos. Fumaça subia da minha pele. Minha carne borbulhava e sibilava. Minha loba interior gritava em agonia, se debatendo contra meu crânio.
"Socorro!", Jade gritou, recuando e apontando um dedo com unhas feitas para mim. "Ela me atacou! Ela tentou jogar a bebida no meu rosto!"
Passos ecoaram pelo corredor. Marcos apareceu, seguido por dois seguranças.
"O que está acontecendo aqui?", Marcos rugiu.
"Ela é louca!", Jade soluçou, espremendo lágrimas de crocodilo. "Eu disse a ela que não queria que ela me servisse, e ela surtou! Ela tentou me queimar!"
Olhei para cima, o suor escorrendo pela minha testa. "Ela... ela bateu na bandeja. Tem prata nisso, Marcos. É prata!"
Marcos olhou para minha mão. A pele estava vermelha e em carne viva, a queimadura se aprofundando a cada segundo. Ele podia sentir o cheiro da carne queimando. Ele sabia. Qualquer lobo podia sentir a diferença entre uma escaldadura e uma queimadura de prata.
Mas Marcos olhou para Jade, que segurava o pingente do "Juramento de Sangue" em seu pescoço.
Ele se virou para mim, seus olhos frios.
"Limpe essa bagunça, Maya", Marcos cuspiu. "Sua Ômega desastrada e vingativa. Você tem sorte que a senhorita Jade é gentil demais para prestar queixa."
"Minha mão...", sussurrei, a dor me deixando tonta.
"Vá para a cozinha e coloque um pouco de gelo nisso. E fique fora de vista. Você é ruim para os negócios."
Eu o encarei. A injustiça se instalou no meu peito, pesada e fria, extinguindo o fogo da minha esperança.
Eu não discuti. Eu não chorei. Levantei-me, embalando minha mão mutilada, e passei por eles em direção à cozinha.
Meu adesivo supressor estava descascando um pouco com o suor. Meu cheiro — o cheiro de tempestades de inverno e ozônio — vazou apenas uma fração. Marcos franziu a testa, cheirando o ar confusamente, mas eu já tinha ido.
Eu tinha uma dívida a cobrar. E os juros seriam altos.
Ponto de Vista: Maya
A cozinha era uma sinfonia caótica de panelas batendo e cozinheiros gritando, mas a área de preparação nos fundos era silenciosa. Passei minha mão sob água fria, mas não adiantou. O resíduo de prata já estava na minha corrente sanguínea, impedindo que as células se regenerassem.
"Você precisa de pomada de acônito para extrair o metal."
A voz era profunda, retumbando como um terremoto subterrâneo.
Eu me virei. Arthur Gomes, o chef principal, estava parado perto do freezer. Ele era um homem enorme, com mais de um metro e noventa, com cicatrizes nos antebraços e olhos tão escuros quanto obsidiana. Ele era um Renegado — um lobo sem alcateia — contratado por Caio porque sua comida era a melhor da cidade.
Mas ele não se movia como um cozinheiro. Ele estava montando um prato com a precisão cirúrgica de um médico de campo ou um atirador de elite, colocando a guarnição com pinças que pareciam brinquedos em suas mãos enormes.
A maioria das pessoas tinha pavor dele. Ele irradiava uma pressão silenciosa e letal.
"Eu não tenho", eu disse, minha voz tremendo.
Arthur não falou. Ele enfiou a mão no bolso e me jogou uma pequena lata. Eu a peguei com minha mão boa.
"Aplique. Enfaixe", ele comandou. Não era um Comando de Alfa, mas carregava uma autoridade natural.
Antes que eu pudesse agradecer, as portas de vaivém se abriram com um estrondo.
Jade entrou marchando. Ela parecia deslocada em meio ao aço inoxidável e à gordura. Torceu o nariz.
"Cheira a cachorro molhado aqui", ela reclamou. Caminhou direto para o passe, onde Arthur estava montando um bife.
"Isso está ao ponto", disse ela, cutucando a carne. "Eu queria mal passado. E coloque um pouco de caviar. Do tipo caro."
Arthur não levantou o olhar. "Não."
Jade piscou. "Com licença?"
"O bife está perfeito. Caviar estraga o equilíbrio. Saia da minha cozinha."
O rosto de Jade ficou roxo. Ela pegou o celular. "Eu vou fazer você ser demitido. Vou ligar para o Caio agora mesmo!"
Ela apertou o botão de chamada de vídeo. Eu esperava que fosse para a caixa postal, dada a importante reunião de Caio. Mas segundos depois, a linha conectou. Caio não estava na cabeceira da mesa; estava no corredor, parecendo apressado e irritado, segurando uma pilha de arquivos.
"Jade, eu te disse, estou com os representantes da Rocha Vermelha", Caio sibilou, olhando por cima do ombro.
"Caio!", Jade lamentou, virando a câmera para o rosto dela. "Eles estão me intimidando! Primeiro sua garçonete tentou me queimar, e agora esse cozinheiro Renegado está se recusando a me alimentar!"
"Não tenho tempo para isso", Caio retrucou, esfregando as têmporas. "Apenas dê a ela o que ela quer para que eu possa voltar para dentro."
"Passe para a Maya", Caio ordenou.
Jade virou a câmera para mim. Eu estava segurando a lata de pomada, minha mão enrolada em uma toalha manchada de pus amarelo e sangue.
"Caio", eu disse, levantando minha mão. "Ela usou prata. Olhe para isso."
Caio viu. Eu vi seus olhos se arregalarem. Ele sabia o que prata significava. Por um segundo, eu vi culpa. Mas então Jade soluçou alto: "Estou com medo, Caio! Ela está me olhando como se quisesse me matar! E o Marcos disse que ela estava ameaçando os convidados!"
Caio olhou de volta para a porta fechada da sala de reuniões. Ele estava perdendo a paciência. Ele precisava que esse problema desaparecesse para que pudesse garantir seu financiamento.
Seu rosto endureceu.
"Maya", disse ele, sua voz baixando uma oitava. O ar na cozinha de repente ficou pesado. A gravidade pareceu dobrar.
"Peça desculpas para a Jade. De joelhos. Agora."
Era o Comando de Alfa.
Uma onda de compulsão me atingiu. Era uma força física, tentando dobrar meus joelhos. Meus músculos se contraíram. O imperativo biológico de obedecer ao Alfa estava tecido em nosso DNA.
Arthur parou de picar. Ele olhou para mim, sua faca pairando no ar.
Meus joelhos se dobraram. A dor era excruciante. Mas então, outra coisa surgiu.
Meu sangue. O sangue da linhagem da Pedra da Lua. O sangue dos Reis.
*Um Alfa não se curva a um tolo.*
Cerrei os dentes. Travei minhas pernas. Eu tremia violentamente, o suor escorrendo pelo meu rosto enquanto eu lutava contra o Comando. Parecia que meus ossos iam quebrar.
Mas eu não me ajoelhei.
Encarei a lente da câmera, meus olhos ardendo.
"Não", sussurrei.
Estendi a mão e toquei no botão 'Encerrar Chamada' no telefone de Jade. A tela ficou preta.
O silêncio na cozinha era ensurdecedor. Jade parecia aterrorizada. Ela esperava que eu desmoronasse. Em vez disso, eu estava mais alta do que antes.
Virei-me para Arthur. O adesivo supressor no meu pescoço estava coçando insuportavelmente. Estava feito. A farsa havia acabado.
"Chef", eu disse, minha voz estranhamente calma. "Tranque a porta."