Ponto de Vista: Ember
O corredor do hospital era longo e estéril. Cada passo deixava uma pequena mancha de sangue no azulejo polido, vinda do meu joelho, mas ninguém parou para ajudar. Eu era a pária. O Alpha havia ordenado que eu saísse, e a alcateia obedecia ao Alpha.
Eu podia ouvi-los através das paredes finas do quarto VIP.
— Quero ir para a Ilha da Lua agora — Willow choramingou, a voz aguda e infantil. — Não me sinto segura aqui com ela rondando.
— Vamos hoje à noite — Ryker prometeu. — Vou mandar preparar o jato.
— A Ember pode ir? — Willow perguntou. Era uma armadilha. Eu conhecia o tom dela.
— Absolutamente não — a voz de Axel cortou o ar como um bisturi. — Ela é instável. O ciúme dela é tóxico. Ela não merece o solo sagrado da Ilha da Lua.
Encostei-me na parede, fechando os olhos. Ilha da Lua. O lugar onde papai ensinou Ryker a pescar. O lugar onde mamãe ensinou Axel a identificar ervas. O lugar que eles juraram ser nosso santuário.
Agora, pertencia a uma estranha.
A porta se abriu. Axel saiu. Ele parou quando me viu encostada na parede, segurando minha perna sangrando. Por um breve momento, seu olhar prendeu-se no sangue. Um lampejo de confusão cruzou seu rosto — o instinto de médico guerreando com seu preconceito.
Então ele olhou para o meu rosto, e a muralha se ergueu novamente.
— Já que você está aqui — disse Axel, verificando o relógio —, preciso que você tire suas coisas.
— O quê? — perguntei, minha voz rouca.
— A Willow precisa do quarto voltado para o sul na Casa da Alcateia. Idealmente, seria a Suíte Master, mas Ryker a mantém como um santuário para o papai. Seu quarto tem a melhor luz solar. Vai ajudar na recuperação dela.
Meu quarto. O quarto com a varanda onde eu cultivava minhas ervas medicinais. O quarto que mamãe pintou de amarelo porque dizia que eu era o "pequeno sol" dela.
— Axel — eu disse, encarando-o. — Aquele é o meu quarto.
— É um quarto na casa do Alpha — ele corrigiu friamente. — Você é uma hóspede lá. Um fardo, na verdade. Faça as malas. Esteja fora daquele quarto até amanhã.
Algo dentro de mim se partiu. Não foi um estalo alto. Foi silencioso, como um galho seco no inverno.
— Tudo bem — eu disse.
Axel piscou. Ele esperava uma briga. Esperava lágrimas. Ele não sabia o que fazer com minha calma repentina e vazia.
— Tudo bem? — ele repetiu.
— Vou me mudar — eu disse. — Aproveitem a ilha.
Desencostei da parede e manquei em direção ao elevador. Não olhei para trás. Se tivesse olhado, talvez tivesse visto a confusão no rosto dele. Mas eu não me importava mais.
Voltei para a Casa da Alcateia. Os criados me observavam com pena, mas não ajudaram. Eles não podiam.
Fui para o meu quarto. Não empacotei tudo. Peguei a foto dos meus pais. Peguei minha carta de aceitação. Peguei meu disco rígido com cinco anos de pesquisa sobre a cura do Envenenamento por Prata — o trabalho da minha vida.
Deixei as roupas que Ryker havia comprado para mim anos atrás. Deixei os livros de medicina que Axel me dera antes de começar a me odiar.
Fiz apenas uma mala.
Na manhã seguinte, eu estava parada no saguão. A casa estava silenciosa. Eles sairiam para o aeroporto em uma hora.
Axel desceu as escadas, segurando uma pilha de passaportes. Ele parou quando viu a mala.
— Finalmente encenando o drama da fugitiva? — ele zombou. — Para onde você vai? Chorar na casa de uma amiga até implorarmos para você voltar?
— Vou me mudar para os dormitórios da universidade — menti. Minha voz estava firme. — Vocês queriam o quarto. É de vocês.
Willow apareceu no topo da escada, usando o vestido de seda que eu havia comprado. Ela girou.
— Ah, Axel, olha! Serve perfeitamente agora que meu tornozelo está melhor! — Ela sorriu radiante. Olhou para mim, os olhos zombeteiros. — Já vai, Ember?
— Sim — eu disse.
Ryker entrou vindo da cozinha, segurando uma caneca de café. Ele olhou para minha mala, depois para o meu rosto. Seu lobo, a fera negra gigante dentro dele, parecia sentir que algo estava errado. Ele franziu a testa, esfregando o peito.
— Você vai sair durante o feriado em família? — Ryker perguntou.
— Vocês não me convidaram — lembrei a ele.
— Pare de ser mimada — resmungou Ryker. — Voltaremos em duas semanas. Certifique-se de que a casa esteja limpa quando retornarmos.
— Eu não estarei aqui — eu disse suavemente.
— Ótimo — Axel retrucou. — Talvez a distância conserte sua atitude. Se você não estiver aqui quando voltarmos, nem se dê ao trabalho de voltar.
— Tudo bem — eu disse novamente.
Virei-me para a porta.
— E Ember? — Axel chamou.
Parei, minha mão na maçaneta de latão.
— Não espere que paguemos pelo seu dormitório. Você está por conta própria.
— Eu sei — sussurrei.
Abri a porta. O céu lá fora estava cinza-escuro. Uma tempestade estava chegando.
— Suma — Axel cuspiu a palavra como uma maldição. — Saia.
Pisei além da soleira. A porta pesada bateu atrás de mim, cortando o calor da casa.
Fiquei parada na varanda. Eu estava sem teto. Estava falida. Estava ferida.
Mas, pela primeira vez em dez anos, eu estava livre.
Ponto de Vista: Ember
A chuva não começou como uma garoa; começou como um dilúvio. O céu se abriu e despejou um oceano na minha cabeça.
Arrastei minha mala pela longa entrada de automóveis. As rodinhas prendiam no cascalho. Meu joelho ruim gritava, o frio úmido penetrando até o osso.
Olhei para trás, para a casa. Axel estava na varanda do segundo andar — minha varanda. Ele estava me observando.
A chuva encharcou minha camisa branca instantaneamente, colando-a na minha pele. Tremi violentamente. A água escorria pela minha perna, misturando-se com o sangue fresco que vazava pelo curativo.
Me ajude, pensei, projetando o pensamento em direção à casa. Por favor, só uma carona até a estação.
Senti a parede mental bater com força. Axel havia bloqueado o link novamente. Ele apenas observava, de braços cruzados, seguro e seco sob o toldo.
Minha visão embaçou. A perda de sangue e o choque estavam cobrando seu preço. Tropecei. A alça da mala escorregou da minha mão. Caí no cascalho molhado, as pedras afiadas cravando nas minhas palmas.
Eu não conseguia levantar. Minha força havia acabado.
Através do rugido da chuva, ouvi a porta da frente abrir.
— Axel! — A voz de Willow. — Ela caiu! Devo levar um guarda-chuva para ela?
Levantei a cabeça. Willow estava lá, segurando um grande guarda-chuva preto. Ela parecia uma santa.
— Não — a voz de Axel viajou pelo vento, amplificada por sua autoridade Beta. — Deixe-a. Ela está fazendo isso para chamar atenção. Se você for lá fora, vai pegar um resfriado. Entre, Willow.
Ele agarrou o braço de Willow e a puxou de volta para dentro. A porta da varanda deslizou, fechando-se. As cortinas foram fechadas.
Eu estava sozinha na tempestade.
Deitei minha bochecha contra as pedras frias. Então é isso, pensei. Eu morro na entrada da casa que meu pai construiu.
Faróis cortaram a escuridão.
Um carro preto elegante, um SUV blindado, subiu a entrada rugindo. Não era um carro da alcateia. Não tinha o brasão da Alcateia Lua de Prata.
Ele freou bruscamente a centímetros da minha cabeça.
A porta se abriu. Um homem saiu.
Ele não correu; moveu-se com uma graça predatória que fez a chuva parecer desacelerar. Ele era alto, de ombros largos, vestindo um sobretudo escuro.
Ele se ajoelhou ao meu lado. Sua mão tocou meu ombro.
ZAP.
Um raio não atingiu o chão — atingiu a mim.
No momento em que a pele dele tocou a minha, o frio desapareceu. Um calor, feroz e consumidor, explodiu do ponto de contato. Correu pelas minhas veias, acordando nervos que eu pensava estarem mortos.
Meus receptores de olfato, geralmente embotados, foram subitamente inundados.
Florestas de pinheiros após uma nevasca. Chocolate amargo. Ozônio.
Era a coisa mais inebriante que eu já havia cheirado.
Minha loba adormecida, Sera, que não emitia um som desde o incêndio, de repente levantou a cabeça nas profundezas da minha mente. Ela não choramingou. Ela não se escondeu.
Ela rugiu.
MEU!
Engasguei, meus olhos se abrindo. Olhei para cima, para olhos da cor de nuvens de tempestade — cinza, girando com manchas prateadas.
O homem congelou. Suas pupilas dilataram até que seus olhos ficaram quase pretos. Seu peito arfou.
— Companheira — ele rosnou. A palavra vibrou em seu peito, profunda o suficiente para chacoalhar meus ossos.
Aquele era o Alpha das Sombras. Derek. O lobo mais temido do continente. O líder da potência tecnológica, a Alcateia das Sombras.
Ele me pegou no colo como se eu não pesasse nada.
— Coloque-a no chão!
A porta da varanda se abriu novamente. Axel estava de volta. Ele se debruçou sobre o parapeito, o rosto pálido. Ele também havia sentido — a mudança no ar. A chegada de um Alpha rival.
— Ela é membro da Alcateia Lua de Prata! — Axel gritou, a voz falhando. — Você não tem o direito!
Derek olhou para cima. A chuva pingava de seu cabelo escuro, mas seus olhos queimavam com uma fúria letal.
— Ela está sangrando — a voz de Derek era baixa, mas carregava mais poder do que a de Ryker jamais teve. Não era apenas um comando; era uma promessa de violência. — E você está assistindo.
— Ela está sendo punida! — Axel gritou, embora tenha dado um passo para trás. — Deixe-a!
Derek olhou para mim.
— Você quer ficar, pequena loba?
Olhei para Axel. Olhei para as cortinas fechadas onde Ryker e Willow provavelmente estavam rindo.
— Me leve embora — sussurrei. — Por favor.
Derek assentiu. Ele virou as costas para Axel, descartando-o como uma ameaça. Abriu a porta traseira de seu carro e me colocou gentilmente no banco de couro.
— Você não pode levá-la! — Axel gritou, o pânico finalmente entrando em sua voz. — Ryker vai declarar guerra!
Derek parou. Ele se apoiou na porta do carro, olhando para a varanda.
— Diga a Ryker — disse Derek, sua voz fria como uma sepultura — que se ele a quiser de volta, pode vir às Terras das Sombras e tentar pegá-la. Mas diga a ele para trazer um caixão para si mesmo.
Ele bateu a porta.
Entrou no banco do motorista. O carro estava quente. Cheirava a ele — segurança e poder.
— Descanse — disse Derek, olhando para mim pelo espelho retrovisor. Seus olhos estavam mais suaves agora, cheios de uma dor que eu não entendia. — Eu cuido de você. Ninguém vai te machucar de novo.
Enquanto o carro acelerava, olhei para trás uma última vez. Axel ainda estava parado na chuva, agarrando o parapeito, parecendo cada vez menor até que a escuridão o engoliu por completo.