Capítulo 2

Kátia.

O nome surgiu pela primeira vez durante um jantar casual. Guilherme estava rolando o celular, com uma carranca no rosto.

"Essa nova leva de estagiários é inútil", ele resmungou. "Uma proposta de milhões de reais, e eles usaram a fonte errada."

Alice estendeu a mão sobre a mesa e colocou-a sobre a dele. "Não se estresse com isso. Você pode consertar de manhã."

"Vou levar uma equipe para Angra dos Reis neste fim de semana para resolver isso", disse ele, sem levantar o olhar. "As reservas estão todas feitas. Thompson, Hayes e Rodrigues."

Alice parou. Thompson e Hayes eram seus VPs seniores, ambos na casa dos cinquenta. Mas Rodrigues?

"Quem é Rodrigues?", ela perguntou, um pequeno nó de desconforto se apertando em seu estômago. Nos dois anos em que estiveram juntos, Guilherme nunca teve uma mulher em seu círculo profissional próximo. Ele dizia que era "mais limpo" assim.

Guilherme finalmente levantou o olhar, uma luz estranha em seus olhos. "Kátia Rodrigues. A nova estagiária. Ela é... perspicaz. Diferente."

O nó em seu estômago se apertou. "Você vai levá-la para Angra? Só com você e dois sócios seniores?"

Ele deu de ombros, desdenhoso. "É trabalho, Alice. Não seja dramática. Você sabe como este mundo funciona. Conexões são tudo para uma garota como ela." Ele então sorriu, aquele sorriso charmoso e desarmante que costumava derretê-la. "Além disso, é para você que eu volto para casa. Você será a futura Sra. Rizzo. Isso é tudo que importa."

Ela queria acreditar nele. Ela se agarrou a essa promessa, a esse futuro que ele pintava tão lindamente. Então ela engoliu sua dor e não disse nada. Disse a si mesma que era apenas um interesse passageiro. Um jogo de homem rico.

Mas não era.

A estagiária "perspicaz" tornou-se uma presença permanente. No início, eram pequenas coisas. Guilherme mencionava a ideia inteligente de Kátia em uma reunião, ou ria de uma piada que Kátia contou. Então, Kátia começou a aparecer em jantares, em eventos, sempre ao lado de Guilherme, seus olhos cheios de adoração por ele e um triunfo mal disfarçado quando olhava para Alice.

Os sussurros começaram. Alice se tornou "a antiga", a substituta. Kátia era a nova e excitante favorita.

Uma noite, Alice os encontrou na biblioteca. Kátia estava empoleirada no braço da cadeira de Guilherme, a mão apoiada em seu ombro. Eles riam intimamente. Alice se sentiu uma intrusa em sua própria casa.

"Guilherme", ela disse mais tarde naquela noite, sua voz tremendo. "Você prometeu. Você prometeu que era só eu."

"E é", disse ele, sem encontrar seus olhos.

"Então a demita", Alice implorou. "Mande-a embora. Transfira-a. Eu encontrarei outro emprego para ela, um melhor, eu juro. Apenas a afaste de nós."

O rosto de Guilherme endureceu. Seus olhos, antes cheios de paixão por ela, tornaram-se lascas de gelo frias e duras. "Não se atreva a me dizer o que fazer, Alice. E não se atreva a ameaçar a carreira da Kátia. Qualquer um que falar mal dela descobrirá como é não ter nada."

Ele se inclinou para mais perto, sua voz caindo para um sussurro aterrorizante. "E se você insistir nisso, vou me certificar de que Davi acabe em uma instituição pública tão imunda que você não deixaria um rato viver lá. Você me entendeu?"

A ameaça pairou no ar, sufocando-a. Ele estava amarrando o destino de Davi ao seu silêncio.

A partir daquele dia, a crueldade começou. Foi lenta no início, depois escalou com um ímpeto aterrorizante. Estava sempre ligada a Kátia. Se Kátia reclamava que Alice era fria com ela, a música calmante favorita de Davi era substituída por um ruído estridente por uma hora. Se Kátia queria uma nova bolsa de grife que Alice tinha, Guilherme fazia Alice entregá-la a ela, e então assistia enquanto Kátia "acidentalmente" derramava vinho nela.

Tornou-se um jogo doentio e perverso. Guilherme usava os desejos de Kátia para atormentar Alice, e Kátia, deleitando-se em seu poder, tornava-se cada vez mais exigente em suas queixas.

O incidente com a sala sensorial foi apenas a última e mais brutal virada.

Depois que Guilherme saiu, Alice correu para o monitor, suas mãos tremendo. Davi ainda estava encolhido, mas sua respiração estava se acalmando.

Ela tinha que tirá-lo de lá. Tinha que tirar os dois de lá.

No dia seguinte, enquanto Guilherme estava em uma reunião, ela levou Davi ao hospital para um check-up. O rosto do médico estava sombrio.

"O estresse está agravando a condição dele, Sra. Medeiros", disse o médico gentilmente. "O coração dele está mostrando sinais de esforço. A sobrecarga sensorial que você descreveu... é extremamente perigosa para ele. Ele precisa de um ambiente estável e calmo. Existem clínicas especializadas no exterior, na Suíça, que mostraram resultados incríveis com casos como o dele."

Suíça. Parecia tão longe quanto a lua. Como ela poderia escapar do alcance de Guilherme? Ele tinha olhos e ouvidos em todos os lugares. Ele uma vez a rastreou em uma cafeteria a quarteirões da cobertura só porque ela havia esquecido o celular. Seu controle era absoluto.

Derrotada, ela caminhou pelo corredor do hospital. E então ela os viu.

Guilherme estava do lado de fora de um quarto particular e, aninhada em seus braços, chorando dramaticamente, estava Kátia.

Capítulo 3

"Não é sua culpa, minha pobrezinha", Guilherme arrulhou, acariciando o cabelo de Kátia. Sua voz estava carregada de uma ternura que Alice não ouvia há meses. "Ela só está com ciúmes. Ela sabe que não pode competir com você."

Kátia olhou para ele, seus olhos grandes e inocentes nadando em lágrimas falsas. "Mas é com ela que você vai se casar, Guilherme. Eu nem deveria estar aqui. Eu sou só... eu sou só sua assistente."

"Não diga isso", disse Guilherme, sua voz firme. Ele ergueu o queixo dela. "A posição de Sra. Rizzo não está garantida. Ainda não."

As palavras foram um golpe físico. Alice sentiu o ar sair de seus pulmões e cambaleou para trás contra a parede, a mão voando para o peito para tentar parar a dor.

A cabeça de Guilherme se virou bruscamente. Ele a viu. Sua expressão mudou instantaneamente de preocupação para uma suspeita fria e dura.

"Alice? O que você está fazendo aqui? Está me seguindo?" Ele deu um passo à frente, posicionando-se defensivamente na frente de Kátia, como se Alice fosse algum tipo de ameaça.

O gesto protetor doeu mais do que suas palavras.

"Eu estava... Davi tinha uma consulta médica", ela gaguejou, apontando para o final do corredor. Sua voz estava rouca de lágrimas não derramadas. "Guilherme, o que você fez com ele ontem... o médico disse que poderia tê-lo matado. Ele é só um menino!"

Um lampejo de algo - culpa, talvez - cruzou o rosto de Guilherme, mas desapareceu em um instante. A presença de Kátia apagou qualquer vestígio de sua consciência.

"Ele está bem. Eu nem toquei nele", disse Guilherme, desdenhoso.

"Ele tem dezessete anos!", gritou Alice, sua voz quebrando. "Como você pode ser tão cruel?"

"Oh, Alice, sinto muito", Kátia interveio por trás de Guilherme, sua voz escorrendo falsa simpatia. "A culpa é toda minha. Eu não deveria ter dito a Guilherme que você me chateou. Eu vou embora."

Guilherme a puxou de volta, envolvendo um braço em volta dela possessivamente. "Não seja boba. Não é sua culpa que ela seja uma vadia ciumenta." Ele olhou para Kátia, então se inclinou e a beijou, um beijo longo e lento bem na frente de Alice.

Alice soltou uma risada amarga e quebrada. O som era feio, mas ela não conseguia parar. Todos em seu círculo a chamavam de a mulher mais sortuda de São Paulo, a Cinderela que havia capturado o príncipe. Eles não viam as grades de sua gaiola dourada. Eles não viam o monstro por trás do sorriso encantador. Isso não era um conto de fadas. Era um pesadelo.

"Com licença", disse ela, sua voz plana e morta. "Preciso passar."

Ela tentou contorná-los, mas a mão de Guilherme disparou, agarrando seu pulso. "Não tão rápido."

Seus olhos estavam frios. "Kátia sofreu um pequeno acidente de carro esta manhã. Foi só uma batidinha, mas ela está muito abalada. O médico quer dar a ela um soro nutritivo para ajudar com o choque, mas ela tem pavor de agulhas." Seu olhar se voltou para o centro de doação de sangue no final do corredor. "Ela precisa de sangue. Você vai doar."

Alice o encarou, sua mente se recusando a processar a exigência monstruosa. "O quê?"

"Kátia tem um tipo sanguíneo raro. Você também. É uma combinação perfeita."

Alice sentiu uma onda de tontura. Ela tinha anemia leve. Guilherme sabia disso. Ele costumava ser quem garantia que ela tomasse seus suplementos de ferro, quem a repreendia se ela parecesse pálida demais. Aquele cuidado, que ela um dia valorizou, agora parecia outra mentira.

"Nós... não temos o mesmo tipo sanguíneo", disse ela fracamente, uma mentira desesperada. "Eu sou O-positivo. Ela é..."

"Não seja difícil, Alice", Guilherme a interrompeu. "O gesto é o que importa. Vai mostrar a ela o quanto você está arrependida."

Ele se afastou e olhou para Kátia. "O que você acha, meu bem? Ela deveria fazer isso?"

Ele estava dando o poder a Kátia, transformando a humilhação dela em um espetáculo para a diversão de sua amante.

Antes que Alice pudesse protestar, dois dos seguranças de Guilherme apareceram, agarrando seus braços. Eles a arrastaram em direção ao centro de doação, seus pés tropeçando no chão polido.

Eles a prenderam na cadeira. A agulha entrou, uma picada afiada e fria. Ela observou seu próprio sangue, escuro e vermelho, serpentear pelo tubo de plástico. Sentiu-se tonta, o quarto girando levemente.

A enfermeira olhou para ela com preocupação. "Senhor, ela está muito pálida. Já tiramos uma bolsa inteira. Mais do que isso pode ser perigoso."

Guilherme, que estava perto da porta com Kátia em seus braços, nem sequer olhou. "Continue. Eu digo quando parar."

A enfermeira pareceu horrorizada, mas não ousou desafiá-lo. A máquina continuou zumbindo. A visão de Alice começou a embaçar nas bordas. O mundo desbotou para um cinza opaco. Ela podia ouvir Guilherme e Kátia sussurrando e rindo, suas vozes um murmúrio cruel e distante.

Ela acordou em uma pequena sala de recuperação vazia. Um cobertor estava jogado sobre ela. Sua cabeça latejava, e uma fraqueza profunda e dolorosa se instalou em seus ossos. Ela se levantou e viu.

Na lixeira ao lado de sua maca, jogada de lado como lixo, estava a bolsa de seu sangue.

Ela se lembrou então, uma memória nebulosa de antes de desmaiar. A voz de Kátia, alta e enojada.

"Eca, Guilherme, não quero o sangue dela em mim. Provavelmente está sujo. Jogue fora."

E a risada fácil de Guilherme. "O que você quiser, meu bem."

Eles haviam tirado seu sangue, a empurrado ao limite do colapso, apenas para jogá-lo fora. Não se tratava de ajudar Kátia. Tratava-se de quebrar Alice.

E enquanto ela olhava para a bolsa descartada de sua própria força vital, ela soube que ele havia conseguido. Algo dentro dela se quebrou completamente.

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