Capítulo 2

O meu irmão, Leo, morreu no dia do meu casamento.

Ele estava a caminho da cerimónia, trazendo o meu véu esquecido, quando o carro dele foi abalroado por um camião.

Recebi a notícia no hospital, ainda com o meu vestido de noiva branco. O meu noivo, Miguel, estava ao meu lado, a segurar a minha mão com força.

A polícia disse que foi um acidente. O condutor do camião adormeceu ao volante.

Mas eu sabia que não era verdade.

Foi a família dele. A família do Miguel.

Eles nunca me aprovaram. Uma órfã, sem nome nem fortuna, a casar com o herdeiro deles.

Eles avisaram-me. A mãe dele, a Sofia, disse-me na cara que faria qualquer coisa para impedir o casamento.

"Pessoas como tu não pertencem à nossa família," ela disse, com os olhos frios. "Se não te afastares, vais arrepender-te."

Eu não a levei a sério. Pensei que era apenas a raiva de uma mãe superprotetora.

Agora, o meu irmão estava morto. O meu único familiar.

Olhei para o Miguel, o rosto dele pálido de choque e dor. Ele amava o Leo como a um irmão.

Ele não sabia. Ele não podia saber que a própria mãe dele era um monstro.

"Eva," ele sussurrou, a voz embargada. "Eu sinto muito. Eu..."

Eu afastei a minha mão da dele.

"Quero o divórcio, Miguel."

As palavras saíram da minha boca, frias e pesadas.

Ele olhou para mim, confuso. "O quê? Eva, o que estás a dizer? O teu irmão acabou de..."

"Eu sei o que aconteceu," interrompi. "E sei quem é o responsável."

O rosto dele contraiu-se em descrença. "Isso foi um acidente. A polícia disse..."

"A tua mãe avisou-me," disse eu, a minha voz a tremer ligeiramente. "Ela disse que faria qualquer coisa."

O silêncio no corredor do hospital era pesado. Miguel olhava para mim como se eu tivesse enlouquecido.

"A minha mãe? Eva, estás a ouvir-te? Ela está de coração partido. Ela está em casa, a chorar. Como podes acusá-la de uma coisa tão horrível?"

"Porque é a verdade."

Ele abanou a cabeça, a frustração a tomar conta da sua dor. "Estás em choque. Não estás a pensar com clareza. Não vamos falar sobre isto agora."

"Não há mais nada para falar," afirmei. "Acabou, Miguel."

Virei-lhe as costas e afastei-me, o som dos meus saltos a ecoar no chão polido. Cada passo parecia uma eternidade.

O meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Atendi.

"Senhora Eva?" A voz era áspera, distorcida. "A sua dívida ainda não foi paga. O seu irmão era a garantia. Agora que ele se foi..."

O meu sangue gelou. Dívida? O Leo nunca me falou de nenhuma dívida.

"Que dívida? Quem está a falar?"

"Isso não importa. O que importa é que agora a dívida é sua. E nós vamos cobrar."

A chamada terminou.

Fiquei parada, o telemóvel na minha mão. A morte do Leo não foi por causa da família do Miguel.

Foi por minha causa.

Capítulo 3

Dois dias depois, no funeral, a família do Miguel apareceu.

Todos vestidos de preto, com expressões sombrias. A mãe dele, Sofia, aproximou-se de mim, os seus olhos vermelhos de tanto chorar.

"Eva, querida," ela disse, a voz suave. "Eu sinto tanto pelo Leo. Ele era um rapaz tão bom."

Ela tentou abraçar-me, mas eu recuei.

O meu corpo estava rígido. A acusação que eu lhe fizera no hospital pairava entre nós.

Miguel estava ao lado dela, o seu rosto uma máscara de dor e desapontamento. Ele não me tinha ligado desde aquele dia.

"A minha mãe só veio apresentar os seus respeitos," disse ele, a voz fria.

"Eu sei," respondi, sem emoção.

Eu estava errada sobre ela. A culpa não era dela. Mas a dor e a raiva precisavam de um alvo, e ela tinha sido o mais fácil.

Agora, a verdade era muito pior. Uma dívida desconhecida. Uma ameaça anónima.

O Leo morreu por algo que eu nem sabia que existia.

Depois do enterro, voltei para o apartamento que partilhava com o Leo. Estava vazio e silencioso.

Comecei a procurar. Revirei o quarto dele, gaveta por gaveta, à procura de qualquer pista.

Debaixo da cama dele, numa caixa de sapatos velha, encontrei.

Um maço de papéis. Um contrato de empréstimo.

O nome no contrato era o meu. Eva Lima. A assinatura era uma falsificação grosseira do meu nome.

O montante fez-me perder o fôlego. Cinquenta mil euros.

O credor era uma empresa chamada "Soluções Rápidas Lda.". Nunca tinha ouvido falar deles.

O meu irmão tinha falsificado a minha assinatura para pedir um empréstimo em meu nome.

Porquê, Leo? Para quê precisavas de tanto dinheiro?

O meu telemóvel vibrou. Outra mensagem de um número desconhecido.

"O tempo está a esgotar-se, Eva. Encontramo-nos amanhã. Cais de Alcântara. Meio-dia. Vem sozinha."

O medo apertou-me o estômago.

Eu não tinha cinquenta mil euros. Não tinha nada.

Pensei em ir à polícia, mas o que diria? Que o meu irmão morto tinha contraído uma dívida ilegal em meu nome? Eles provavelmente rir-se-iam de mim.

Pensei em ligar ao Miguel.

Mas o que poderia ele fazer? Eu tinha-o acusado de algo terrível. Tinha pedido o divórcio no pior dia da vida dele.

Eu estava sozinha nisto.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED