Capítulo 2

Claire só acordou ao meio-dia, a cabeça ainda pesada pelo fuso horário. Sentada de pernas cruzadas no carpete, encarava o vazio quando o telefone vibrou. "Elena Thompson" brilhava na tela. Ela hesitou um instante antes de atender.

A voz de Elena soava exageradamente alegre. "Claire, querida! Como é estar de volta ao lar?"

Claire recostou-se levemente. "Até agora, tudo tranquilo."

"Que bom ouvir isso!" Elena deu uma risada curta, mudando rapidamente o tom. "O Nelson já passou aí? Vocês se viram, não é?"

Claire baixou os olhos. "Vi."

"Maravilha! Vocês são um casal, afinal de contas. Três anos é muito tempo. Mais do que hora de se reaproximarem. O Nelson só tem estado terrivelmente ocupado, só isso."

"Eu voltei para oficializar o divórcio," Claire declarou, sem rodeios. "É a única razão pela qual estou aqui."

Silêncio. Então, a voz surpresa de Elena: "Claire. tem certeza?"

"Total. Não era esse o motivo da sua ligação?"

Elena titubeou, desconcertada pela frontalidade. Antes que se recuperasse, Claire falou de novo, o tom frio e final: "Se era só isso, vou desligar."

"Espera!" Elena interceptou rápido. "Já que está de volta, precisa comparecer ao jantar de aniversário da Serena hoje à noite."

Claire ergueu uma sobrancelha, em silêncio.

Elena prosseguiu: "Claire, você ainda é a Sra. Cooper, e a irmã mais velha da Serena. Todos os convidados desta noite são pessoas importantes. Se você faltar, que imagem isso passa da nossa família?"

Ela fez uma pausa, e a voz ganhou um fio afiado por trás da polidez forçada.

"Além do mais, é uma boa oportunidade para você ver como as coisas realmente funcionam no nosso círculo."

Claire soltou uma risadinha baixa-suficiente para deixar Elena desconfortável do outro lado.

"Tem razão," disse ela, lentamente. "Realmente, nunca nasci para ser o centro das atenções. Só uma filha adotiva que quase morreu lá fora. Não dá para comparar com a legítima herdeira dos Thompson, não é?"

Elena engasgou com as próprias palavras.

"Mas já que me convida com tanta 'sinceridade', estarei lá pontualmente."

Antes que Elena pudesse acrescentar qualquer coisa, Claire terminou a chamada.

A tela escureceu em sua mão. Ela olhou pela janela, segurando o telefone com despreocupação.

Algum tempo depois, algumas buzinadas curtas ecoaram do portão.

Claire conferiu o relógio de parede.

16:55 - cinco minutos antes do combinado por Nelson no dia anterior.

Ela não se moveu.

O telefone vibrou novamente. Claire atendeu com indolência.

"Desce", ordenou a voz de Nelson.

"Tô indo," ela respondeu, mas não se apressou.

Em vez disso, foi até o closet e parou diante do espelho de corpo inteiro.

Camiseta branca de algodão. Jeans desbotados. Tênis de lona gastos.

Cabelo preso, rosto limpo, leves olheiras por causa do sono ruim.

Perfeito. Exatamente a imagem que ela desejava projetar.

O telefone tocou de novo - era Nelson.

Sem pressa, Claire saiu do quarto, atravessou a sala e abriu a porta da frente.

Um Cooper preto aguardava na entrada.

Nelson estava apoiado na porta do motorista, celular na mão, os olhos fixos na tela.

Ao ouvir a porta abrir, ele ergueu o olhar.

Claire fingiu não notar o lampejo de irritação em seus olhos.

Até esboçou um leve sorriso de desculpas. "Perdão, me distraí procurando uma coisa."

Nelson não respondeu. Apenas abriu a porta do carro e voltou ao banco do motorista.

Claire caminhou até a porta traseira e estendeu a mão para a maçaneta. Quando estava prestes a entrar, a voz clara de Nelson veio da frente: "Sente na frente."

Ela congelou por uma fração de segundo, então respondeu com calma: "O espaço é maior atrás." Com isso, entrou e fechou a porta.

Nelson franziu a testa e a observou pelo retrovisor. Ela olhava pela janela, seu perfil sereno e distante. Suas roupas casuais pareciam completamente deslocadas.

"Você realmente pretende ir ao jantar vestida assim?" Ele finalmente falou, a voz contida e carregada de frustração.

Claire olhou para si mesma como se só então percebesse. "O que há de errado? É um evento familiar - não precisa ser tão formal, precisa?"

"Claire, não serão apenas familiares. Você ainda é minha esposa, lembra-se?"

"E daí?" ela retrucou, casual. Essa atitude desprendida e fria só aumentou a irritação de Nelson. Ele pegou uma caixa de presente do banco do passageiro e a empurrou em seus braços. "Troque de roupa," ordenou. "Não me faça repetir."

A caixa era pesada, embrulhada com perfeição impecável.

A tampa ostentava um logo elegante em dourado - Sprince. Sinônimo de alta-costura, um nome cobiçado por todas as socialites.

Claire ergueu os olhos. "Isso não era para a Serena? Parece um pouco exagerado para mim."

A expressão de Nelson escureceu. "Não é da Serena. É um modelo novo da última coleção. Ninguém o usou ainda."

"Claire, até que o divórcio seja oficial, você ainda representa os Cooper. Não quero que apareça de qualquer jeito e nos envergonhe."

Ele a avaliou de cima a baixo, o olhar duro. "Você tem vinte minutos. Vá se vestir."

Claire estudou seu perfil tenso enquanto a mesma sensação de resignação cansada a invadia novamente. Nada havia mudado em três anos. Ele nunca perguntou o que ela queria. Nunca se importou com seus gostos.

Ela havia tentado tanto conquistar sua aprovação no passado, e agora tudo aquilo parecia uma piada cruel.

O que ela pensava nunca importara para ele - nunca.

Ficou em silêncio por alguns momentos, então empurrou a porta lentamente.

"Tá bom," disse, simplesmente.

Segurando a caixa, saiu sem olhar para trás e retornou à villa.

Nelson permaneceu no carro, puxando a gola da camisa, visivelmente agitado.

A mudança de atitude de Claire o desnorteava, e ele não gostava nada daquela sensação.

Capítulo 3

A porta da frente abriu-se lentamente, e Claire surgiu.

O vestido descia de um branco-azulado pálido e translúcido nos ombros até um azul-profundo de lago na barra. Era belo - elegante, até - mas visivelmente mal ajustado. A cintura estava larga demais, e o corpice ameaçava escorregar a menos que ela o segurasse com firmeza. Foi o que fez, uma mão junto ao corpo, com passos curtos e deliberados.

O olhar de Nelson deteve-se nela.

Não era o visual que ele imaginara. Mas, de algum modo, mesmo com o caimento imperfeito, o vestido parecia certo nela - afiado, frio, distante. Tão diferente da garota quieta e insegura que ele conhecia.

"Entre," disse ele, desviando os olhos. "Desta vez, no banco da frente."

Claire franziu levemente a testa. "Não é o lugar da Serena?"

A mão de Nelson apertou o volante. "A Serena não se importará. Só entre - já estamos atrasados."

Ela o encarou, o tom equilibrado. "Talvez ela não se importe. Mas eu sim."

Fez uma pausa. "Na verdade, estive pensando. talvez eu nem devesse ir. Tenho quase certeza de que ela não me quer lá. E numa reunião daquelas, uma pessoa a menos não fará falta."

Então, com serenidade, virou-se como se fosse retornar.

"Claire!" O tom de Nelson tornou-se mais agudo - a frustração, agora evidente. Ele inclinou-se e buzinou. O som estridente fez com que ela congelasse no meio do caminho.

"Tudo bem," ele murmurou, contido. "Sente atrás, se preferir."

Claire soltou um suspiro cansado, manteve as costas voltadas para ele por um instante e então virou-se com calma. Abriu a porta traseira sem dizer mais nada e entrou, um tanto desajeitada por causa do vestido solto. Ajeitou cuidadosamente a saia antes de fechar a porta.

Nelson partiu em silêncio.

Algum tempo depois, Claire quebrou o silêncio. "Nelson, como andam as coisas. com a Serena?"

O carro freou bruscamente.

Claire soltou um pequeno grito quando seu corpo foi lançado para frente, a testa atingindo o encosto do banco dianteiro.

Nelson recuperou o controle e olhou pelo retrovisor.

Ela já se recompunha, uma das mãos sobre a testa.

"Desculpe," ele disse primeiro, retomando a direção com mais suavidade. "Está bem?"

"Estou," Claire afastou a mão - a testa estava levemente avermelhada. Não olhou para ele novamente, apenas ajeitou o cinto sobre o ombro. Depois, voltou os olhos para a paisagem que desfilava pela janela.

Seguiram adiante, o silêncio reinstalando-se.

Então Claire perguntou, suavemente: "A condição dela. está controlada agora? Quer dizer - ver-me não vai desencadear nada, vai?"

"Ela está bem," Nelson respondeu após uma pausa, a voz um tanto cortante. "Não precisa se preocupar."

"Que bom," Claire murmurou.

Claro que não estava preocupada com Serena. Só precisava ter certeza.

Esta noite. poderia ser o fim de tudo.

Cerca de meia hora depois, o carro parou diante de uma mansão iluminada.

A residência dos Thompson - o lugar onde Claire vivera por vinte anos - agora parecia tão estranha quanto a casa de um estranho.

Ela soltou o cinto e saiu do carro sem hesitar.

Nelson já estava à frente, caminhando em direção ao gramado onde uma multidão se reunia. Alto, sereno, com o olhar fixo no destino - atraía os olhares sem esforço. Claire ergueu cuidadosamente as pontas do vestido azul-claro e largo e seguiu-o. Respirou fundo e tentou manter um ritmo constante. Mas, quando estava prestes a alcançá-lo, Nelson parou e voltou-se.

De frente para ela, à vista de todos, anunciou em voz clara: "Claire, vem aqui."

No mesmo instante, as conversas e risadas no gramado diminuíram sensivelmente. Cabeças viraram-se. Olhares curiosos seguiram-na. Então começaram os sussurros - baixos, cortantes, impregnados de veneno.

"Então é essa a que os Thompsons criaram por engano."

"Não disseram que a mandaram para o exterior? Por que voltou agora?"

"Nossa, olha só esse vestido. claramente não serve nela. Quem será que deu isso?"

"Roubou a vida de outra por vinte anos - depois tentou roubar o noivo também. E ainda tem coragem de aparecer?"

"O Nelson parece que foi obrigado a trazê-la. Que vexame."

Cada palavra, carregada de desprezo e satisfação maldosa, penetrava diretamente nos ouvidos de Claire.

Ela apertou a barra do vestido com um pouco mais de força, mas manteve a expressão serena.

De cabeça erguida, caminhou em direção a Nelson.

Quando estava quase ao seu lado, a música do piano de cauda branco, no centro do gramado, cessou.

Serena levantou-se do banco, vestindo um elegante vestido branco longo.

Sua maquiagem estava impecável, o cabelo longo e sedoso, e um colar de diamantes cintilava perfeitamente sob a luz.

Foi só então que ela pareceu notar Claire. Seu rosto iluminou-se com a dose exata de surpresa.

Então, caminhou graciosamente em sua direção.

"Claire?" A voz de Serena era suave, calorosa. "É você? Quando voltou? Nem nos avisou. A mamãe e o papai ficaram tão preocupados!"

Ela estendeu a mão para tomar a de Claire em um gesto amistoso.

Mas Claire deu um passo atrás, suavemente, recusando o contato, embora um sorriso gentil pairasse em seus lábios. "Voltei ontem à noite. Já falei com a tia Elena hoje de manhã - talvez ela tenha esquecido de mencionar."

Serena agiu como se não percebesse a sutil distância e continuou sorrindo, ainda mais animada, como uma criança feliz. "Que bom que você voltou! Estes anos sem você foram tão solitários. Senti tanto a sua falta!"

Antes que Claire pudesse responder, Serena envolveu-a em um abraço apertado.

Claire congelou.

A doçura enjoativa do perfume de Serena envolveu-a como uma fumaça espessa.

Para quem observava, o abraço parecia caloroso e afetuoso.

Mas seus braços estavam firmes - demasiado firmes. Claire mal conseguia respirar.

Então, bem junto ao seu ouvido, Serena sussurrou, a voz fria e carregada de sarcasmo, apenas para ela ouvir:

"Esse vestido. não parece te servir muito bem, não é?"

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