O dia do meu casamento com Miguel deveria ter sido o mais feliz da minha vida.
Mas a única coisa que senti foi um frio que me gelava os ossos, um frio que nem o sol quente de Lisboa conseguia afastar.
Estávamos no altar, o padre falava, mas a minha mente estava longe.
Estava a pensar no dia anterior, quando apanhei Miguel no seu escritório.
Ele estava com a sua "melhor amiga", Sofia.
Ela estava sentada na sua secretária, a rir de algo que ele disse, com a mão a tocar-lhe o braço de uma forma demasiado familiar.
Eu fiquei à porta, a observá-los.
Eles não me viram.
O ar entre eles era íntimo, confortável. Era o tipo de intimidade que nós os dois já não tínhamos há muito tempo.
"Miguel," eu disse, a minha voz a sair mais firme do que eu esperava.
Ele saltou, afastando-se de Sofia rapidamente.
"Lia! O que estás a fazer aqui?"
"Vim trazer-te o almoço," disse eu, levantando o saco. "Mas parece que já estás ocupado."
Sofia levantou-se, o sorriso a desaparecer do seu rosto.
"Lia, não é o que parece. Estávamos só a falar do projeto."
Eu olhei para ela, depois para o meu noivo.
"O casamento é amanhã, Miguel. Pensei que podíamos passar algum tempo juntos."
Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto que fazia quando estava nervoso.
"Eu sei, meu amor. Desculpa. O trabalho tem sido uma loucura. Prometo que depois do casamento, compenso-te."
Ele veio até mim e tentou beijar-me, mas eu virei a cara.
O cheiro do perfume de Sofia estava nele.
Eu não disse mais nada. Apenas deixei o almoço na sua secretária e saí.
Agora, de pé no altar, as suas palavras ecoavam na minha cabeça.
"Aceita Miguel como seu legítimo esposo?" perguntou o padre.
Todos os olhos estavam em mim. A minha mãe sorria, com lágrimas nos olhos. O pai de Miguel parecia orgulhoso.
E Miguel olhava para mim, o seu rosto uma máscara de amor e expectativa.
Mas eu via a mentira por trás dos seus olhos.
Lembrei-me de todas as noites em que ele chegou tarde, de todas as chamadas "de trabalho" a meio do jantar, de todas as vezes que o nome de Sofia aparecia no seu telemóvel.
Lembrei-me de como ele minimizava as minhas preocupações, chamando-me de ciumenta e insegura.
A dor no meu peito era uma pressão constante.
Abri a boca para dizer "Sim". Era o que toda a gente esperava. Era o caminho mais fácil.
Mas as palavras não saíram.
Em vez disso, uma única palavra escapou dos meus lábios, clara e firme no silêncio da igreja.
"Não."
Um suspiro coletivo percorreu a igreja.
A expressão de Miguel desmoronou-se. Passou da confusão à raiva em segundos.
"Lia, o que estás a dizer? Pára de brincar."
A sua voz era um sussurro baixo e zangado, para que só eu ouvisse.
Eu olhei diretamente para ele, ignorando o padre chocado e os convidados a murmurar.
"Eu não estou a brincar, Miguel. Eu não posso casar contigo."
"Porquê?" ele sibilou, a sua mão a agarrar o meu braço com força. "Estás a fazer uma cena na frente de toda a gente!"
Eu puxei o meu braço para me libertar.
Virei-me para os convidados. A minha voz tremeu, mas eu forcei-a a ser forte.
"Peço desculpa a todos por terem vindo em vão."
Olhei para a minha mãe. O seu rosto estava pálido de choque.
"Mas eu não posso casar com um homem que me mente. Que me trai."
A palavra "trai" pairou no ar.
Miguel deu um passo atrás, como se eu o tivesse esbofeteado.
"Do que é que estás a falar? Ficaste louca?"
"Não, Miguel. Eu fiquei sã," respondi calmamente. "Estou farta das tuas mentiras com a Sofia."
O nome dela causou outra onda de murmúrios.
Vi Sofia na primeira fila, o seu rosto uma imagem de horror fingido.
A mãe de Miguel, a Sra. Almeida, levantou-se abruptamente.
"Lia! Como te atreves a fazer acusações tão nojentas no dia do teu casamento? O meu filho ama-te!"
"Ele ama-me?" eu ri, um som amargo. "Então porque é que ele passa mais tempo com a melhor amiga dele do que comigo? Porque é que ele cheira ao perfume dela? Porque é que eles estão sempre a trocar mensagens secretas?"
Virei-me para Miguel novamente.
"Diz-me, Miguel. Nega. Nega que ontem estavas com ela no teu escritório, a agir como um casal. Nega que tens escondido coisas de mim durante meses."
Ele abriu a boca, mas não saíram palavras. A culpa estava estampada no seu rosto.
Foi toda a confirmação de que eu precisava.
Tirei o anel de noivado do meu dedo. O diamante brilhou sob as luzes da igreja.
Coloquei-o na mão do padre.
"Por favor, devolva isto à família Almeida."
Depois, virei-me e comecei a descer o corredor, sozinha.
O meu vestido de noiva caro arrastava-se no chão. Cada passo era pesado, mas também libertador.
Ouvi a minha mãe a chamar o meu nome, a voz dela cheia de angústia.
Ouvi o pai de Miguel a gritar com ele.
Mas eu não parei.
Continuei a andar, para fora da igreja, para o sol, para longe da vida que quase tinha aceite.