Capítulo 2

Eu o observava através do vidro reforçado da porta da varanda.

Ele estava rindo.

A cena era chocante. Dante de Rossi não ria. Ele dava sorrisos de canto. Ele zombava. Ele dava risadas secas e sem humor de descrença quando alguém implorava por misericórdia. Mas ele não ria.

No entanto, lá estava ele, do lado de fora, ao sol. Ele estava rindo com ela.

Olhei para o dossiê sobre a bancada de mármore. Os registros médicos eram detalhados. Isabel estava doente, sim. Mas não estava acamada. Estava bem o suficiente para viajar. Bem o suficiente para postar fotos de sua arte em latte no Instagram. E certamente bem o suficiente para roubar a minha vida.

Meu celular vibrou contra a bancada, me assustando.

Era Júlia Campos.

Júlia era a única pessoa na minha vida que não sabia o que era um “homem de honra”. Ela era uma médica que conheci durante um seminário que eu não deveria ter frequentado. Ela representava o mundo da luz – um mundo onde os médicos salvavam vidas em vez de remendar vítimas de tortura em porões úmidos.

“Oi, Nina”, ela disse. Sua voz era brilhante, animada. Parecia o som do sol.

“Oi, Júlia.”

“Olha, eu sei que você recusou a bolsa de pesquisa em Lalan há seis meses por causa das... obrigações familiares”, ela começou, pisando em ovos. “Mas o Professor Moore perguntou por você. A vaga ainda está aberta. É um contrato de três anos. Alta segurança. Campus fechado.”

Ela hesitou, esperando que eu a interrompesse.

“Eu sei que você vai se casar em um mês”, ela acrescentou rapidamente. “Sei que o momento é péssimo. Mas este é um trabalho revolucionário, Nina.”

Olhei para o calendário pendurado na geladeira. A data do casamento estava circulada em tinta vermelha. Deveria ser o dia em que eu me tornaria a Rainha de São Paulo.

Agora, parecia apenas um alvo.

“Não preciso de tempo para o casamento”, eu disse, minha voz firme.

Júlia fez uma pausa. “Ah? Está tudo bem?”

Apertei o telefone com mais força, meus nós dos dedos ficando brancos. “O casamento não vai acontecer.”

“Meu Deus, Nina. Eu sinto muito.”

“Não sinta”, eu disse. “Quando começa a orientação?”

“Dois dias depois do seu... bem, dois dias depois daquela data.”

“Eu consigo chegar a tempo”, eu disse.

“Você tem certeza?” Júlia perguntou, sua preocupação profissional transparecendo. “É um voo longo. Você ficará completamente isolada. Os acordos de confidencialidade são rigorosos. Nenhum contato com o mundo exterior nos primeiros seis meses.”

“Isso soa perfeito”, sussurrei.

“Eu quero a agenda completa, Júlia. Noites, fins de semana, feriados. Me enterre em trabalho.”

“Considere feito”, ela disse.

Desliguei assim que a porta da varanda se abriu.

Dante entrou novamente. Ele parecia irritado por ter que voltar para mim, como se voltar para casa para sua noiva fosse uma tarefa árdua.

“Ela é dramática”, ele disse, acenando com a mão como se estivesse dispensando uma mosca. “Ela quer que eu vá ao ultrassom na próxima semana.”

“Você deveria ir”, eu disse.

Ele parou no meio do caminho. Olhou para mim, procurando por sarcasmo, esperando pelo ciúme. Ele não encontrou nada. Eu estava cansada demais para sarcasmo.

“Você está sendo razoável”, ele disse, a desconfiança nublando seus olhos por um segundo fugaz antes que a arrogância tomasse conta. “Isso é bom. Eu esperava uma briga.”

“Eu não vou brigar, Dante.”

Ele assentiu, satisfeito. Ele tinha a expressão de um homem que acreditava ter vencido. Ele achava que tinha me quebrado até a submissão.

Ele passou por mim em direção ao chuveiro. Não beijou minha bochecha. Não perguntou como foi meu dia.

Assim que a água começou a correr, caminhei até o calendário.

Peguei a caneta vermelha.

Não risquei a data. Apenas a encarei.

Não era mais uma data de casamento.

Era uma data de extração.

Capítulo 3

Eu me tornei um fantasma na minha própria casa.

Dante raramente estava lá. Ele alegava estar lidando com “disputas de território” na Zona Sul, uma desculpa vaga o suficiente para satisfazer os soldados, mas não a mim. Eu sabia exatamente onde ele estava.

Quebrei a primeira regra da sanidade: eu procurei.

Criei uma conta falsa no Instagram com os dedos trêmulos. Procurei por Isabel de Luca. O perfil dela era público. Claro que era. Ela queria ser vista. Ela queria ser conhecida.

Havia uma foto da noite anterior.

Era uma mesa de jantar posta para uma família. A matriarca De Luca estava lá, parecendo régia e aprovadora. E ao lado dela, cortando um pedaço de bife, estava Dante.

Ele parecia relaxado. Seu paletó estava fora, jogado displicentemente sobre a cadeira. Ele sorria para algo que Isabel estava dizendo. Sua mão repousava nas costas da cadeira dela.

Não era apenas um gesto casual. Era um gesto possessivo. Um gesto protetor.

Ele parecia pertencer àquele lugar.

Rolei para baixo. Outra foto. A mão de Dante repousando sobre a barriga quase imperceptível dela. A legenda dizia: Protegendo o futuro.

Senti a bile subir pela minha garganta, azeda e quente.

Ele nunca tinha me tocado daquele jeito. Comigo, seu toque era pesado. Era uma reivindicação de propriedade, um lembrete de dever e contratos. Com ela, parecia... suave.

Ele era capaz de demonstrar calor. Só não comigo.

Pousei o celular antes que pudesse atirá-lo longe. Fui ao bar na sala de estar e me servi de um copo de vodca. Eu nem gostava de vodca. Tinha gosto de produto de limpeza antisséptico. Mas eu precisava queimar aquela imagem da minha cabeça.

Bebi de um só gole. Depois outro.

Meu celular apitou. Era o grupo de conversa com minhas amigas civis. Aquelas que pensavam que Dante era um “consultor de logística” com uma agenda de viagens lotada.

Prova do vestido de madrinha na próxima semana! Tão animada!

Digitei rapidamente, minha visão embaçada.

Casamento cancelado. Não perguntem. Por favor, respeitem minha privacidade.

Bloqueei as notificações antes que a explosão de perguntas pudesse me atingir. Eu não conseguia lidar com a felicidade delas. Não conseguia lidar com a normalidade delas.

A porta da frente se abriu.

Eram 2 da manhã.

Dante entrou. Ele parou abruptamente quando me viu sentada no sofá, no escuro.

Ele cheirou o ar. Seu nariz se enrugou em desgosto imediato.

“Você andou bebendo”, ele disse. Não era uma observação. Era uma acusação.

“Bebi dois copos”, eu disse, minha voz soando oca para meus próprios ouvidos.

“Você cheira a destilaria”, ele retrucou. Ele deu um passo para trás, como se meu cheiro fosse contagioso. Como se eu estivesse suja.

“Isabel não pode ficar perto de cheiros fortes”, ele disse, seu tom clínico. “Isso desencadeia a náusea dela.”

Eu ri. Foi um som seco e quebradiço que arranhou minha garganta.

“Isabel não está aqui, Dante.”

“Vou vê-la de manhã”, ele disse, passando por mim. “Não posso cheirar a vodca barata. É desrespeitoso com a mãe do meu herdeiro.”

Desrespeitoso.

Ele estava preocupado em ofender o nariz dela enquanto estilhaçava minha vida.

“Vá tomar um banho”, ele ordenou. “Você está se envergonhando.”

Levantei-me. O quarto girou um pouco, mas me firmei no braço do sofá.

“Não sou eu quem deveria estar envergonhada”, eu disse.

Ele estreitou os olhos, sua paciência se esgotando. “Precisamos ter uma conversa séria, Nina. Precisamos discutir a logística do batizado.”

O batizado. O bebê nem tinha nascido ainda.

“Não há nada a discutir”, eu disse.

Passei por ele. Fui para o banheiro de hóspedes e tranquei a porta. Liguei o chuveiro na temperatura mais quente possível.

Esfreguei minha pele até ficar vermelha. Eu queria lavar a vodca. Eu queria lavar os últimos vinte anos.

Eu queria lavar ele de mim.

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